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<p><bold>A NORDESTINAÇÃO DA VIOLÊNCIA NO ESTADO DO RIO GRANDE DO
NORTE</bold></p>
<p><bold>Anna Elisa Alves Marques</bold></p>
<p>Doutoranda em Direito pela UFRGS, mestre em Estudos Urbanos e
Regionais pela UFRN e graduada em Direito pela mesma instituição.
Pesquisadora dos Grupos de Pesquisa Direito e Sociedade (GPDS/UFRGS) e
Violência, Trabalho e Ilegalismos (UFRN). Extensionista do Observatório
da Regularização Fundiária de Interesse Social (ORFIS). Pesquisa nas
áreas de criminologia, sociologia jurídica, geografia jurídica e
planejamento urbano.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio Grande do Norte
<bold>Cidade:</bold> Natal</p>
<p><bold>Email:</bold> annaelisaambr@hotmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0001-8419-2991</p>
<p><bold>Tainá Porto Cotrim</bold></p>
<p>Doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas da
Universidade Federal do ABC (UFABC). Mestre no Programa de Pós-Graduação
em Estudos Urbanos e Regionais da Universidade do Rio Grande do Norte
(UFRN). Bacharela em Gestão de Políticas Públicas pela Universidade de
Brasília (UnB). Dedica seus estudos em implementação de políticas
públicas, reprodução de desigualdades pelas políticas públicas e
políticas penais/educação em prisão.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> São Paulo
<bold>Cidade:</bold> São Bernardo do Campo</p>
<p><bold>Email:</bold> tainaportocotrim@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0003-4631-4171</p>
<p><bold>Cláudio Roberto de Jesus</bold></p>
<p>Cláudio Roberto de Jesus é sociólogo com doutorado em Geografia,
ambos concluídos na UFMG. Atualmente é professor do Instituto de
Políticas Públicas - UFRN. Coordena o grupo de pesquisa Violência,
Trabalho e Ilegalismos e o projeto de extensão Motyrum Penitenciário:
educação popular em direitos humanos no sistema prisional do RN.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio Grande do Norte
<bold>Cidade:</bold> Natal</p>
<p><bold>Email:</bold> claudiorobertojesus@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-0145-8457</p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold></p>
<p>Tainá Porto Cotrim: investigou a expansão de facções criminais no
Nordeste, destacando seu impacto nas comunidades vulneráveis. Anna Elisa
Alves Marques: analisou territórios específicos da violência no Rio
Grande do Norte, incluindo a midiatização desses eventos. Cláudio
Roberto de Jesus: explorou as dinâmicas da espetacularização da
violência, conectando mudanças no mercado de drogas à realidade
nordestina.</p>
<p><bold>Resumo</bold></p>
<p>O presente trabalho tem como objetivo investigar as consequências do
movimento de expansão das facções para o estado do Rio Grande do Norte,
partindo de estudos empíricos, além de dados de vitimização letal (Ipea;
FBSP, 2019). A expressão mais dramática, as mortes violentas, se
expressa severamente no território potiguar, contudo, as causalidades
extrapolam as fronteiras regionais e nacionais. Nesse sentido, a questão
central foi responder: <italic>Quais as características da Nordestinação
da Violência no estado do Rio Grande do Norte?</italic> Concluindo,
portanto, que o fenômeno da Nordestinação da Violência não tem caráter
apenas regional, mas relaciona-se com o contexto nacional e
latino-americano. A expansão territorial, política e econômica das
facções do eixo sudeste brasileiro alcançaram a Região Nordeste,
colocando o RN em destaque – contexto inserido no processo de
nacionalização do mundo do crime no Brasil. As peculiaridades
identificadas no estado do RN reforçaram convulsões geradas pelo
comércio ilegal de drogas e corroboraram os contextos e conflitos
internos, causando o aumento das taxas de vitimização letal no RN,
concentradas espacialmente em territórios de maior vulnerabilidade,
aumentando a estigmatização da população negra, pobre e periférica.</p>
<p><bold>Palavras-chave:</bold> Mercado de drogas latino-americano. Rio
Grande do Norte. Nacionalização das facções criminais. Nordestinação da
Violência.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic><bold>THE NORTHEASTERNIZATION OF VIOLENCE IN RIO GRANDE DO
NORTE/BRAZIL</bold></italic></p>
<p><italic>The present work aims to investigate the consequences of the
expansion movement of factions to the state of Rio Grande do
Norte/Brazil, based on empirical studies, as well as lethal
victimization data (Ipea; FBSP, 2019). The most dramatic expression,
violent deaths, is severely expressed in the Potiguar territory,
however, the causalities go beyond regional and national borders. In
this sense, the central question was to answer: What are the
characteristics of the Northeasternization of Violence in the state of
Rio Grande do Norte? Concluding, therefore, that the phenomenon of
Northeasternization of Violence is not only regional in nature but is
related to the national and Latin American context. The territorial,
political, and economic expansion of the factions from the Brazilian
southeast axis reached the Northeast Region, placing Rio Grande do Norte
in prominence – a context inserted in the process of nationalization of
the world of crime in Brazil. The peculiarities identified in the state
of Rio Grande do Norte reinforced convulsions generated by the illegal
drug trade and corroborated the contexts and internal conflicts, causing
an increase in lethal victimization rates in Rio Grande do Norte,
spatially concentrated in territories of greater vulnerability,
increasing the stigmatization of the black, poor, and peripheral
population.</italic></p>
<p><italic><bold>Keywords:</bold> Latin American drug market. Rio Grande
do Norte. Nationalization of criminal factions. Northeasternization of
Violence.</italic></p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 20/06/2022 – <bold>Data de
Aprovação:</bold> 04/07/2023</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2024.v18.n1.1756</p>
<disp-quote>
  <p>A nacionalização das Facções Criminais é uma movimentação
  silenciosa que atua no Brasil, desde os anos 1990, que significa a
  expansão das principais facções criminais que, anteriormente, se
  concentravam na Região Sudeste, para outras regiões do Brasil, com o
  objetivo de conquistar novos mercados varejistas de drogas e rotas
  para transporte. Movimentação que foi extremamente influenciada pelos
  rearranjos do tráfico de drogas na América Latina e modificou a
  dinâmica da violência urbana nos estados da Região Nordeste –
  transformados em entrepostos comerciais no mercado internacional de
  drogas, tendo em vista suas localizações geográficas. Essa expansão
  foi denominada Nordestinação da Violência (FPSP-NE, 2019).</p>
  <p>Imerso nessa conjuntura, o Rio Grande do Norte, que no início deste
  século foi inúmeras vezes considerado um dos estados menos violentos
  do país, foi apontado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública
  (2018) com números crescentes de letalidade, em virtude da sua alta
  taxa de vitimização. Vários episódios, que eclodiram, principalmente,
  entre os anos de 2015 e 2017, a respeito da segurança pública,
  impactaram o estado, principalmente a Região Metropolitana de Natal,
  fruto de um movimento em curso.</p>
  <p>Esta pesquisa busca investigar quais as características da
  Nordestinação da Violência no estado do Rio Grande do Norte, partindo
  da análise de trabalhos empíricos, além dos dados da vitimização
  letal. O estudo se desdobra em cinco partes: o relato das mudanças
  internacionais e nacionais que impactam o RN; a midiatização desse
  processo; as dinâmicas das Mortes Violentas e os impactos da sua
  distribuição no território do RN; e, por fim, são sumariadas as
  principais conclusões obtidas ao longo do trabalho e tecidas as
  considerações finais.</p>
  <p>Para tecer análise relacional entre o aumento da violência no Rio
  Grande do Norte e a expansão das facções, além de utilizarmos as
  contribuições da literatura sobre o tema (Nóbrega Jr., 2016; Feltran,
  2018; Manso; Dias, 2018; Melo; Rodrigues, 2017; Kahn, 2013; Jorge,
  2018; Misse, 1999), foi preciso investigar os dados (números absolutos
  e taxas) da violência no período analisado (2011-2019), colhidos pelo
  Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Observatório da Violência
  do Rio Grande do Norte. Sendo possível, assim, traçar paralelo entre
  os dados referentes à realidade do Brasil, da Região Nordeste e do
  estado do RN, e identificar as principais complexidades,
  confrontando-as com as contribuições teóricas devidamente situadas.
  Foi feita uma revisão bibliográfica narrativa, analisando a literatura
  nacional e regional sobre: Mercado de Drogas Latino-americano,
  Nacionalização das Facções Criminais e Violência no Nordeste/Rio
  Grande do Norte.</p>
  <p>Ao almejar responder quais as características da Nordestinação da
  Violência no estado do RN, este estudo traz para o cerne da discussão
  as conjunturas do mercado de drogas, do combate à criminalidade e das
  políticas adotadas pelos estados latino-americanos, principalmente
  pelo Brasil, caracterizadas por corrupção estatal, violação dos
  direitos humanos, repressão desqualificada, aumento da população
  carcerária e progressão do mercado de drogas, com aumento do poder do
  crime organizado, o que implica em ameaça ao monopólio do poder
  estatal e à democracia (FBSP, 2019).</p>
</disp-quote>
<p><bold>AS MUDANÇAS DO MERCADO DE DROGAS NA AMÉRICA LATINA E SEUS
IMPACTOS PARA O NORDESTE BRASILEIRO</bold></p>
<disp-quote>
  <p>A América Latina ocupa um lugar de destaque nas discussões sobre a
  política global de drogas, isto porque é o maior exportador de cocaína
  e maconha do mundo e crescente produtora de ópio e heroína, além de
  iniciante fabricante de drogas sintéticas (Ipea; FBSP, 2019). O forte
  papel da região se explica, dentre outros motivos, pela falida “guerra
  contra as drogas”. As diretrizes da Iniciativa Mérida (México), do
  Plano Colômbia e da Iniciativa de Segurança Regional da América
  Central, por exemplo, baseadas em políticas repressivas, foram
  ineficazes no objetivo de reduzir a produção, a venda e o consumo de
  drogas. Na realidade, implicou no aumento da violência urbana, da
  corrupção estatal, da violação dos direitos humanos, da repressão
  desqualificada, da população carcerária e da progressão do mercado de
  drogas, com aumento do poder do crime organizado, desencadeando ameaça
  ao monopólio do poder estatal e à democracia (Carvalho, 2014).</p>
  <p>Nesse cenário, a política de combate às drogas na Colômbia
  desencadeou uma queda de 70% no cultivo da cocaína no país, entre os
  anos de 2000 e 2013, embora, a partir de 2013, o crescimento tenha
  triplicado. Além dessa consequência, a política repressiva colombiana
  desencadeou o aumento da produção no Peru e na Bolívia, que em
  decorrência das suas posições geográficas necessitam de entrepostos
  comerciais para a exportação, principalmente para os países europeus e
  africanos. O Brasil também ocupou espaço no mercado, assumindo uma
  posição estratégica no comércio de drogas da América Latina,
  demonstrando que a questão das drogas é um problema que perpassa
  fronteiras. O mercado sempre busca o equilíbrio da produção na região
  (Ipea; FBSP, 2019; UNODC, 2018).</p>
  <p>As dinâmicas latino-americanas aliadas a questões locais impactaram
  sobremaneira o Nordeste brasileiro. O novo cenário surgiu do
  desdobramento de situações que envolviam tanto o Estado quanto o
  mercado ilegal de drogas. Ainda na década de 1970, o mercado de drogas
  no Brasil se dividia entre o mercado atacadista e o varejista. O
  mercado atacadista funcionava nas fronteiras, onde a droga era trazida
  do Paraguai, da Bolívia e da Colômbia, para ser distribuída pelo
  mercado varejista, que dependia de pessoas disponíveis e interessadas
  em distribuir. O Comando Vermelho (CV) foi o primeiro grupo criminoso
  urbano, organizado no Brasil, que distribuía a droga a partir de
  estrutura hierárquica e verticalizada (Manso; Dias, 2018),
  inicialmente no Rio de Janeiro.</p>
  <p>Houve uma mudança nesse cenário, datada no final da década de 1990,
  quando um conjunto de fatores colaboram para a situação atual da
  segurança pública no Brasil. Primeiro, foi o CV ter iniciado a
  participação no mercado atacadista de drogas, em decorrência da
  diminuição da atuação da Colômbia na produção de cocaína. Essa
  situação fez a facção ser perseguida pela justiça brasileira e,
  consequentemente, passar por um momento de fragilidade em sua
  estrutura, quando grandes líderes foram presos (Ipea; FBSP, 2018;
  2019; Manso; Dias, 2018).</p>
  <p>Paralelamente, fatores exógenos, como as novas tecnologias
  comunicacionais e a popularização do uso dos celulares, contribuíram
  para encurtar a distância, pela facilidade de comunicação, colaborando
  para novas negociações e potencializando novos circuitos de ganhos
  ilícitos (Manso; Dias, 2018). A Lei de Prisão Provisória (7.960/89), a
  Lei de Crimes Hediondos (8.072/1990) e a Lei de Drogas (11.343/2006)
  entraram como motivos de ampliação do grau de punição e agravamento da
  dosimetria da pena (Torres, 2017), o que sedimentou o encarceramento e
  alterou negociações do mundo do crime, sediadas, agora, nos
  presídios.</p>
  <p>Autores como Jorge (2018) trazem argumentos que ponderam a
  concentração da violência no meio urbano, a desigualdade na
  distribuição de renda e a densidade demográfica como fatores que
  influenciam o aumento da violência nas regiões brasileiras. Esses
  elementos destacam a importância de considerar as condições do
  contexto urbano como determinantes significativas na ocorrência de
  crimes. Por outro lado, Kahn (2013) descreve um paralelo entre a
  circulação de armas de fogo, o crescimento econômico e o aumento da
  sensação de insegurança. Essa análise destaca a relação complexa entre
  o acesso às armas, o desenvolvimento econômico e os sentimentos de
  insegurança que podem contribuir para o aumento da violência.</p>
  <p>O início do século XXI é marcado pela redução dos indicadores de
  violência na Região Sudeste, enquanto as demais regiões,
  principalmente a Nordeste e a Norte, veem seus números aumentando. De
  acordo com Kahn (2013), há uma tendência de queda nos índices de
  criminalidade no Sudeste do país, enquanto os mesmos índices têm
  aumentado no Norte e no Nordeste.</p>
  <p>No Sudeste, o aumento de oportunidades de emprego, os investimentos
  em segurança pública e os programas sociais podem ter contribuído para
  a diminuição dos índices criminais. Assim, Kahn (2013) enfatiza a
  importância de considerar o contexto socioeconômico ao analisar os
  índices de criminalidade. Sugere que o combate à criminalidade nessas
  regiões deve estar associado a políticas públicas que promovam o
  crescimento econômico, reduzam as desigualdades sociais e ofereçam
  oportunidades para a população local, visando, a longo prazo, a
  redução dos índices de criminalidade.</p>
  <p>Para Kahn (2013), no entanto, a retirada de armas de fogo de
  circulação, em conjunto com as novas ferramentas e técnicas de gestão
  policiais, o aumento das taxas de encarceramento, além do uso mais
  intenso dos equipamentos de segurança podem ajudar a entender as
  mudanças nos números. No entanto, essa realidade foi e está sendo
  incrementada pela movimentação do mercado ilegal de drogas.</p>
  <p>Nos anos 2000, em decorrência das novas dinâmicas acionadas, do
  superencarceramento e da interiorização dos presídios, o Primeiro
  Comando da Capital (PCC), facção nascida no estado de São Paulo,
  destacou-se pela filosofia adotada. Em resposta ao movimento de
  repressão do Estado, o PCC se fortalece praticando crimes em nome dos
  “oprimidos do sistema”, dando um passo em direção da criação de um
  mercado nacional de drogas interligado, quando ultrapassaram as
  fronteiras do estado paulista e passaram a negociar com todos os
  estados brasileiros. No Brasil, o PCC foi a primeira facção a mudar
  questões logísticas para se prover da conjuntura internacional e
  potencializar sua posição no mercado. (Feltran, 2018).</p>
  <p>O movimento empreendeu expansão nacional ao transformar seu
  discurso. A ideia, até então vigente, de que fazer parte do grupo
  acarretava benefícios individuais de proteção foi modificada para a
  compreensão de que compor o grupo significava fortalecer todo o mundo
  do crime, beneficiando a coletividade em face da forte repressão
  estatal. A partir de uma série de normas, hierarquias e ritos,
  conseguiu ultrapassar o Sudeste brasileiro e formar redes que conectou
  todo o país nas dinâmicas do mercado de drogas (Manso; Dias, 2018;
  Feltran, 2018). O CV, na tentativa de recuperar aliados, flexibilizou
  estratégias, permitindo que os estados parceiros mantivessem autonomia
  financeira e de gestão como diferencial, conseguindo, assim, expandir
  sua influência pelo Brasil.</p>
  <p>Em 2006, com intuito de “frear a atuação das facções nacionais”, o
  Governo Federal colocou em prática o Sistema Penitenciário Federal
  (SPF). A implementação do SPF não freou as facções, ao contrário,
  coincide com os momentos de crescimento; as facções foram adaptadas e
  hierarquizaram seus membros, de maneira que, caso fossem presos, não
  causassem impacto significativo à estrutura. O SPF serviu, no entanto,
  para ajudar a consolidar uma rede nacional do mercado ilegal de drogas
  e fortalecer as principais facções brasileiras, quando construiu
  ambientes que reuniu, fisicamente, lideranças de todo Brasil e
  possibilitou que suas famílias, equipes de advogados, etc. se
  aproximassem. O SPF possibilitou que membros importantes do crime
  organizado estabelecessem redes de norte a sul, de leste a oeste
  (Manso; Dias, 2018).</p>
  <p>Assim, o PCC percebeu que o domínio do mercado de drogas estava
  relacionado à expansão do sistema prisional, o que fez seus
  participantes fortalecerem as movimentações dentro das penitenciárias,
  angariando filiados, por meio do que denominam de “batismo”, o que
  significa que o sujeito assume compromissos morais e financeiros em
  troca de proteção. O movimento de batismo nos presídios criou uma
  série de tensões entre os anos de 2014 e 2016. O CV e grupos menores
  traçaram estratégias para impedir o PCC, em várias localidades do
  país. Até que em 2016, o PCC rompeu com o pacto de não agressão que
  tinha com o CV e com as demais facções a ele aliadas, dando origem a
  conflitos nos presídios brasileiros. A partir de então, dava-se início
  a uma série de episódios que geraram o maior número de homicídios da
  história do sistema carcerário brasileiro e mundial, tendo seu ponto
  nevrálgico em janeiro de 2017 (Manso; Dias, 2018).</p>
</disp-quote>
<p>As tensões causadas pelos movimentos de facções, até o final do
século XX, localizados no Sudeste, expandem-se e alcançam as demais
regiões do país, criando uma sensação de insegurança crescente e
alterando substantivamente os indicadores de segurança pública. O que se
viu na prática foi uma batalha física e ideológica, cada um tentando
mostrar suas razões para o conflito. A guerra entre as facções no
Brasil, então, saiu da invisibilidade e ocupou a pauta da imprensa de
todo o mundo.</p>
<disp-quote>
  <p>Nesse contexto, o termo Nordestinação da Violência foi criado pelo
  Fórum Popular de Segurança Pública do Nordeste (FPSP-NE), para
  denominar a expansão da violência urbana nas cidades do Nordeste
  brasileiro. O FPSP-NE é uma articulação da sociedade civil que reúne
  “movimentos sociais, núcleos de pesquisa, coletivos e organizações
  comunitárias, com o objetivo de fomentar e incidir sobre o debate das
  políticas públicas de segurança, de maneira popular, a partir das
  especificidades da Região Nordeste” (FPSP-NE, 2019, p. 1). A expansão
  das facções criminais para o Nordeste brasileiro não implica apenas no
  domínio de novos mercados locais; a “conquista do Nordeste” significa
  para os movimentos faccionais o controle sobre territórios
  geograficamente cruciais para a exportação da droga latino-americana,
  o que move muito capital humano e econômico.</p>
  <p>A expansão das facções não é a única resposta para o aumento da
  violência na Região NE (Kahn, 2013; Jorge, 2018), muito embora seja
  argumento que parece central para entender episódios entre os anos de
  2015 e 2017, no estado do RN. Segue análise.</p>
</disp-quote>
<p><bold>A ESPETACULARIZAÇÃO DA VIOLÊNCIA NO RIO GRANDE DO
NORTE</bold></p>
<p>O Sindicato do Crime é uma facção fundada em 2013 pelos
norte-rio-grandenses, como forma de resistência às regras restritas do
PCC e para proteger os participantes das violações, do próprio Estado,
dentro do sistema prisional e nas disputas territoriais do tráfico
(Melo; Rodrigues, 2017). Entre 2015 e 2016, o grupo realizou dois
movimentos importantes para a sua consolidação e posição de
enfrentamento ao PCC. Primeiro, firmou aliança com a Família do Norte,
após a presença de um dos seus líderes em Alcaçuz, o que acirrou as
disputas com o PCC. Segundo, foi protagonista de ataques ocorridos em 38
cidades do Rio Grande do Norte, motivados pela instalação de
bloqueadores de celular nos presídios, que desencadeou rebeliões em
diversas penitenciárias do estado, dando indícios da força do movimento
(Manso; Dias, 2018).</p>
<disp-quote>
  <p>A estimativa é que o Sindicato possuía 3.000 integrantes em 2017,
  enquanto o PCC, apenas 700, desacreditando as autoridades acerca da
  viabilidade de um conflito provocado pela facção paulista. O Rio
  Grande do Norte começou a ocupar as páginas de notícias do Brasil e do
  mundo, em 12 de janeiro de 2017, quando deflagrou rebelião na
  penitenciária de Alcaçuz, localizada na Região Metropolitana de Natal
  (Melo; Rodrigues, 2017).</p>
  <p>O ano de 2017 é lembrado pelos potiguares por um início sangrento.
  Na tarde do dia 14 de janeiro, no pavilhão 5 – ocupado,
  majoritariamente, por integrantes do PCC, minoria na penitenciária,
  que ocupavam apenas um entre os cinco pavilhões existentes – da
  penitenciária de Alcaçuz, as pessoas que estavam privadas de liberdade
  se revoltaram e quebraram o muro do pavilhão ao lado, o 4, que alojava
  adversários. Esse conflito durou oito dias e, oficialmente,
  contabiliza-se a morte de 26 detentos e entre 64 a 71 desaparecidos
  (Brasil, 2018). Esses números passam por questionamentos e críticas,
  principalmente, por parte das pessoas que se envolveram no cenário do
  massacre (familiares, profissionais que estavam presentes, as próprias
  pessoas privadas de liberdade sobreviventes, e coletivos sociais que
  apoiam a causa e estiveram presentes, etc.). A ausência de gestão da
  informação penitenciária colaborou para que a publicação dos números
  de mortos passasse por um crivo político que não priorizou a
  responsabilização, nem a justiça para as famílias afetadas. A
  rebelião, que, inicialmente, era entre facções rivais, foi
  incrementada pela truculência e pelo despreparo das ações de
  contenção, o que intensificou o caos (Ipea; FBSP, 2019).</p>
  <p>O Mecanismo Nacional realizou visita ao estado do Rio Grande do
  Norte, após a rebelião e massacre, onde verificou que todos os
  problemas apontados ao longo dos anos foram agravados dentro da
  unidade. Dentre os quais, a superlotação; a omissão deliberada do
  Estado, sobretudo na garantia ao direito à vida e demais direitos das
  pessoas presas, inclusive de acesso à água potável; a gestão da
  unidade estava sendo realizada pela Força Tarefa de Intervenção
  Penitenciária e pela Secretaria de Estado da Justiça e da Cidadania
  (SEJUC); denúncias de violência e tortura; transferências irregulares
  e indícios de desaparecimento forçado de presos. (Ipea; FBSP, 2019, p.
  20).</p>
  <p>O adjetivo ‘sangrento’ foi incluído no nome do Massacre de Alcaçuz
  pela existência de um nível de violência física que ultrapassou a
  utilização de armas de fogo, quando as táticas utilizadas foram,
  também, esquartejamentos, mutilações físicas, cabeças cortadas
  espetadas em lanças, braços e pernas queimadas em fogueiras e até
  canibalismo (durante a rebelião, não houve oferta de alimentação por
  quatro dias). As cenas foram expostas em vídeos, áudios e fotos e
  compartilhadas no <italic>Whatsapp</italic>, narrando o conflito e
  respondendo à mídia, ao governo e afrontando rivais. Vídeos, cartas,
  áudios, “salves” e depoimentos foram compartilhados nas mídias
  sociais, evidenciando os atos violentos, atraindo a atenção da mídia
  local e nacional.</p>
  <p>A repercussão no país, como um todo, por se tratar de um evento com
  conexão em outros estados do Brasil, fez o episódio de Alcaçuz ocupar
  os principais programas da rede de televisão e as páginas das redes
  sociais. Essa cobertura, segundo Kallianny Medeiros (2018), ao
  realizar uma pesquisa sobre a cobertura jornalística da rebelião de
  Alcaçuz, foi fundada a partir de uma série de sujeitos: gestores;
  famílias; detentos; sociedade, que acompanhava a questão; guardas
  penitenciários; além de jornalistas, fazendo coberturas em tempo real
  que ocupavam boa parte das transmissões dos noticiários à época. Para
  se ter uma ideia do engajamento da população na temática, a Tabela 1
  ilustra as interações realizadas entre o público e as
  <italic>lives</italic> dos jornais <italic>Novo</italic> e
  <italic>Tribuna do Norte</italic> sobre a situação na
  penitenciária.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Tabela 1: Engajamento nas <italic>lives</italic> dos jornais
<italic>Novo</italic> e <italic>Tribuna do Norte</italic></bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="24%" />
      <col width="16%" />
      <col width="16%" />
      <col width="16%" />
      <col width="28%" />
    </colgroup>
    <thead>
      <tr>
        <th><bold>Jornal</bold></th>
        <th><bold>Visualizações</bold></th>
        <th><bold>Reações</bold></th>
        <th><bold>Comentários</bold></th>
        <th><bold>Compartilhamentos</bold></th>
      </tr>
      <tr>
        <th><bold>Novo</bold></th>
        <th>1.219.435</th>
        <th>271.400</th>
        <th>19.635</th>
        <th>5.674</th>
      </tr>
      <tr>
        <th><bold>Tribuna do Norte</bold></th>
        <th>1.559.332</th>
        <th>1.043.351</th>
        <th>22.838</th>
        <th>8.737</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p>Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados de Medeiros (2018).</p>
<disp-quote>
  <p>A Tabela 1 demonstra a elevada interação entre o público e a
  notícia, com mais de 1 milhão de internautas em ambas as postagens, e
  mais de 5 mil compartilhamentos, o que demonstra que o número de
  pessoas que visualizaram as publicações é inumeravelmente maior do que
  o constatado nas publicações originais.</p>
  <p>O índice de buscas na internet sobre o tema das facções também é um
  indicador que demonstra a importância que tais eventos tiveram para a
  população, como aponta o Atlas da Violência de 2019 (FBSP, 2020). No
  ano de 2017, os indicadores de pesquisa nos estados palcos dos
  conflitos entre as facções eram justamente os maiores, ou seja,
  Alagoas, Roraima, Amazonas e Mato Grosso do Sul, além do RN, como
  demonstra a Figura 1, abaixo.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Figura 1: Cinco estados brasileiros que mais pesquisaram o
termo “PCC” no buscador do Google em 2017</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image1.png" />
<p>Fonte: Google Trends, 2020.</p>
<disp-quote>
  <p>Com relação ao conteúdo das notícias sobre os massacres e seus
  impactos, Juliana Melo e Raul Rodrigues (2017) apontam que a mídia e o
  governo local, através dos seus discursos, reduziram o evento a uma
  disputa entre facções, retirando do Estado o dever de proteger os
  custodiados. Essa perspectiva reverberou nas ruas, sendo comuns
  posicionamentos, como: “Deixem que se matem ou sejam mortos, mesmo que
  por inanição e falta de água” e “Por que o governo não taca fogo logo
  em Alcaçuz e acaba com isso de uma vez?” (sic).</p>
  <p> Tais posições, que vão contra os princípios democráticos, podem
  ser ilustradas na Figura 2, a seguir. Uma enquete foi realizada pelo
  jornal <italic>Novo</italic> sobre a possibilidade de indenização às
  famílias de apenados que foram mortos na rebelião de Alcaçuz e a
  resposta dos entrevistados foi categórica: não.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Figura 2: Ilustração de enquete realizada pelo jornal
<italic>Novo</italic></bold></p>
<disp-quote>
  <graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image2.png" />
  <p>Fonte: Medeiros, 2018, p. 128.</p>
  <p>Logo após o episódio na Penitenciária de Alcaçuz, 220 pessoas em
  situação de privação de liberdade, do Sindicato do Crime, foram
  transferidas, o que gerou revolta dos integrantes da facção, que
  acreditaram que podia haver uma associação entre o Estado e o PCC, uma
  vez que a retirada de tantos apenados deixava os que ficaram, em
  Alcaçuz, em desvantagem numérica. Assim, em resposta, houve queima de
  ônibus em todo o estado, além de provocações destinadas à mídia, bem
  como a ocorrência de homicídios do lado de fora dos muros (Manso;
  Dias, 2018). Época que corresponde com a greve da Polícia e do Corpo
  de Bombeiro Militar, que durou 14 dias. Os profissionais reivindicavam
  melhores condições de trabalho e pagamento dos salários atrasados
  (Ipea; FBSP, 2019), durante o momento de aumento dos conflitos.</p>
  <p>O maior impacto, muito embora, foi sentido nos bairros pobres do
  Norte e do Nordeste do país, com os homicídios em escalada, ao longo
  do ano de 2017, afetando principalmente jovens pretos e pardos,
  moradores das quebradas, que historicamente não comovem a opinião
  pública, não ocupam espaço de discussão pública e na mídia (Manso;
  Dias, 2018). O conflito no Rio Grande do Norte pôs luz em um problema
  que o estado leva há anos, a má condução da política de segurança
  pública, não apenas na questão fiscal, mas em sua efetividade, uma
  política que não se baseia em evidências conceituais. Cidadãos
  potiguares não estavam acostumados a visualizar o estado do Rio Grande
  do Norte nas pautas de segurança pública, nas notícias nacionais, mas
  em janeiro de 2017, foi incessante a cobertura da “crise do sistema
  penitenciário do RN”. Uma cobertura embasada pelas disputas de
  narrativas. De um lado, o embate entre as facções em si, que por
  salves, cartas e vídeos compartilhados, principalmente pelo WhatsApp,
  disputavam ter “razão” em suas ações e reivindicações. No outro lado,
  as facções <italic>versus</italic> Estado, a primeira buscava que suas
  solicitações fossem atendidas, já representantes do Estado buscavam
  que a sociedade retirasse a sua responsabilidade sobre o episódio. Um
  exemplo foi quando o governador da época, Robinson Farias, declarou:
  “nosso governo não negocia com bandido” (ALRN, 2017). À medida que o
  governo insistiu em não negociar, custou a vida de dezenas de pessoas.
  Nessa disputa, a imprensa, no geral, corroborou o discurso do Estado e
  governantes, representando o fato como “uma disputa com os bandidos”,
  como se o RN estivesse vivendo um estado de guerra, mas não guerra
  entre as facções, mas uma “guerra entre bandidos e a sociedade”. Manso
  e Dias (2018) publicaram carta do Sindicato do Crime/RN se
  posicionando na época:</p>
  <p>DO SINDICATO DO RN PARA A SOCIEDADE DO RN: É IMPORTANTE SABER OS
  FATOS NA FORMA QUE HOUVE PARA QUE TODOS VENHAM A ENTENDER E SABER O
  QUE DE FATO ESTÁ ACONTECENDO NO SISTEMA PRISIONAL DO RN;</p>
  <p>O SINDICATO DO RN FOI CRIADO PARA ORGANIZAR MELHOR OS MANOS QUE NÃO
  QUERIAM ENTRAR PARA A “FACÇÃO PCC”, QUEM NÃO ENTRAVA ELES ESTAVAM
  MATANDO, ENTÃO CRIAMOS O SINDICATO DO RN, JÁ QUE O ESTADO NÃO AGIU
  PARA COMBATER O PCC;</p>
  <p>O PCC AGINDO COVARDEMENTE TEM COMPRADO AGENTES, DIRETORES E
  POLICIAIS, QUE ATUAM COMO INFORMANTES, REPASSAM ARMAS, MUNIÇÕES E
  INFILTRAM NO SISTEMA PENITENCIÁRIO;</p>
  <p>A COVARDIA DO ÚLTIMO SÁBADO, DIA 14/01/2017, DEIXA MUITO CLARO A
  PILANTRAGEM DENTRO DA ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA;</p>
</disp-quote>
<list list-type="order">
  <list-item>
    <label>1)</label>
    <p specific-use="wrapper">
      <disp-quote>
        <p>NA SEXTA -FEIRA OS AGENTES PENITENCIÁRIOS FIZERAM UMA
        VARREDURA MINUCIOSA DO PAVILHÃO QUATRO “SRN” RETIRANDO TODAS AS
        ARMAS E DEIXANDO O PAVILHÃO A MERCÊ DE UM POSSÍVEL ATAQUE, ONDE
        TODA A ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA, ACOMPANHAVA OS RISCOS DE UMA
        GUERRA INTERNA, ENTRE O PCC E SRN;</p>
      </disp-quote>
    </p>
  </list-item>
  <list-item>
    <label>2)</label>
    <p specific-use="wrapper">
      <disp-quote>
        <p>NO SÁBADO APÓS AS VISITAS, OS MEMBROS DO PAVILHÃO CINCO, COM
        A FACILITAÇÃO DOS AGENTES DE PLANTÃO, QUE MAIS UMA VEZ DEIXARAM
        OS PORTÕES DO PAVILHÃO ABERTOS PARA QUE OS MEMBRO DO PCC SAÍSSEM
        E INVADISSEM O PAVILHÃO QUATRO, E MATASSE COVARDEMENTE OS NOSSOS
        IRMÃOS;</p>
      </disp-quote>
    </p>
  </list-item>
  <list-item>
    <label>3)</label>
    <p specific-use="wrapper">
      <disp-quote>
        <p>OS PRINCIPAIS CHEFES DO PCC FUGIRAM, COM ALGUNS PRESOS E ATÉ
        AGORA O ESTADO SEQUER SABE DE NADA, APENAS ALGUNS PRESOS;</p>
      </disp-quote>
    </p>
  </list-item>
  <list-item>
    <label>4)</label>
    <p specific-use="wrapper">
      <disp-quote>
        <p>TODO MUNDO SABE QUE O PAVILHÃO CINCO SÓ TEM FUGA SE OS
        AGENTES FACILITAREM, MAS NINGUÉM NA IMPRENSA FALA NADA, TALVEZ
        PARA PROTEGER O ESTADO QUE ATRAVÉS DE SEUS AGENTES AGIU
        COVARDEMENTE;</p>
      </disp-quote>
    </p>
  </list-item>
  <list-item>
    <label>5)</label>
    <p specific-use="wrapper">
      <disp-quote>
        <p>O CLIMA PIOROU QUANDO A ADMINISTRAÇÃO PENITENCIÁRIA ATIVOU OS
        BLOQUEADORES DE CELULAR, COMO PODEM PENSAR EM QUERER QUE PRESOS
        DE UM SISTEMA PENITENCIÁRIO FALIDO QUE NÃO TEM SEUS DIREITOS
        HUMANOS E DA LEI DE EXECUÇÕES PENAIS GARANTIDOS, EXIGIR QUE
        CUMPRAMOS A LEI? O ESTADO NÃO É EXEMPLO A SER SEGUIDO;</p>
      </disp-quote>
    </p>
  </list-item>
</list>
<disp-quote>
  <p>6) AGORA A GUERRA ESTÁ DECLARADA, VAMOS VARRER O PCC DO RN E QUEM
  SE METER VAI TAMBÉM;</p>
  <p>7) A POPULAÇÃO DO RN PODE FICAR TRANQUILA QUE NOSSO FOCO SERÁ
  CONTRA:</p>
  <p>8) A) AGENTES CORRUPTOS;</p>
  <p>B) POLÍCIAS CORRUPTOS;</p>
  <p>C) DIRETORES CORRUPTOS;</p>
  <p>D) ÓRGÃOS DO GOVERNO CORRUPTOS;</p>
  <p>E) MEMBROS DO PCC;</p>
  <p>O SRN ACONSELHA A TODOS FICAREM EM SUAS CASA ESSA SEMANA, FECHEM
  SEUS COMÉRCIOS E ASSISTAM À TV, VÃO ENTENDER MELHOR PORQUE NÓS NÃO
  QUERÍAMOS ESSA GUERRA, MAS AGORA, NÃO TEM MAS VOLTA;</p>
  <p>ATENCIOSAMENTE,
  *SINDICATO DO RN*. (Manso; Dias, 2018, p. 40).</p>
  <p>Toda a espetacularização do episódio pode ser considerada um marco
  para esse processo de nordestinação da violência, embora já
  demonstrasse sinais de seu caminhar por meio dos indicadores criminais
  desde o início do século. A rebelião de Alcaçuz em 2017 reflete a
  incompetência na gestão da segurança pública do RN e a ideia de um
  maniqueísmo entre a sociedade e a representação do “bandido”, o que
  perpetua uma sociedade em disputa, em guerra, com medo.</p>
  <p>A espetacularização da violência, seja por meio da mídia ou de
  outros mecanismos, pode contribuir para a amplificação do medo e da
  sensação de insegurança na sociedade. Quando ocorrem eventos violentos
  de grande repercussão, como a rebelião de Alcaçuz, isso pode
  intensificar estereótipos e polarizações entre “bandidos” e “cidadãos
  de bem”, simplificando a complexidade da questão e dificultando a
  busca por soluções mais abrangentes.</p>
  <p>Além disso, a gestão da segurança pública é um fator preocupante,
  pois implica na falta de políticas de prevenção e repressão ao crime.
  A ausência de uma estratégia adequada, aliada aos problemas
  estruturais, como a falta de investimentos e a precariedade das
  condições de trabalho dos profissionais da segurança, contribui para a
  perpetuação da violência.</p>
  <p>Para superar esse cenário, é necessário ir além da
  espetacularização e do maniqueísmo, e buscar soluções que abordem as
  causas profundas da violência. Isso inclui investimentos em políticas
  sociais, como educação, saúde e geração de emprego e renda, bem como o
  fortalecimento das instituições responsáveis pela segurança pública.
  Além disso, é essencial fomentar o diálogo e a participação da
  sociedade civil na construção de estratégias efetivas e inclusivas de
  combate à violência, visando uma sociedade mais justa e segura para
  todos.</p>
  <p>É nesse contexto, em 2017, que o aumento das Condutas Violentas
  Letais no estado do Rio Grande do Norte sofre sua maior alta de todo o
  quadro histórico de contagens de mortos no Brasil e é sobre essa
  ascensão, que tem intrínseca relação com os fenômenos aqui
  trabalhados, que o próximo tópico se atém.</p>
  <p>O discurso da mídia e do Estado resumiu o problema em “disputa
  entre bandidos”, eximindo do Estado o dever de zelar pela vida e
  dignidade humana das pessoas privadas de liberdade. O presente tópico
  evidencia uma das faces do processo de “Nordestinação” da violência, a
  sua espetacularização, que é um importante fator para a compreensão
  dos impactos do aumento da violência no RN, uma vez que analisa a
  dimensão subjetiva da violência, a percepção da sociedade sobre ela e
  as representações sociais despertadas a partir dos discursos. O
  próximo tópico explora a dimensão objetiva, a partir dos indicadores
  criminais da violência letal.</p>
</disp-quote>
<p><bold>DINÂMICAS DA VIOLÊNCIA LETAL E INTENCIONAL NO RIO GRANDE DO
NORTE</bold></p>
<disp-quote>
  <p>As Mortes Violentas
  Intencionais<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> (MVIs) são
  distribuídas de forma desigual no território brasileiro, além de
  incidir mais entre jovens, negros, homens, e de classe pobre,
  residentes nas periferias das cidades, estão concentradas em
  determinadas regiões do país (FBSP, 2019). Entre as décadas de 1980 e
  1990, as regiões Norte e Nordeste abarcavam as menores taxas de
  homicídio do país e a Segurança Pública não era uma agenda central
  para a política local. Enquanto isso, Sudeste e Centro-Oeste eram
  protagonistas das MVIs. Uma virada territorial se deu no início dos
  anos 2000, com a queda dos indicadores em São Paulo, que mantém baixos
  índices há 20 anos, ao passo que Norte e Nordeste foram palcos do
  crescimento das taxas de vitimização, sendo marcante o ano de 2017
  (FBSP, 2018).</p>
  <p>A literatura (Jorge, 2018; Kahn, 2013) indica consideração sobre a
  mudança dos números de violência nas regiões Norte e Nordeste. As
  constatações giram em torno da concentração da criminalidade nas
  regiões metropolitanas e metropolizadas, embora no caso brasileiro
  seja igualmente visível um processo de interiorização do fenômeno, a
  partir de 1999. A concentração da violência nas regiões metropolitanas
  no NE, no entanto, pode ser influenciada também por questões, como a
  urbanização, a densidade demográfica, a situação socioeconômica e o
  tamanho das cidades, além de fatores como intensidade do tráfico de
  drogas e disponibilidade de armas de fogo. Jorge (2018) explica a
  diferença entre a tendência do Brasil e do NE:</p>
  <p>Quanto à mortalidade por armas, nota-se um padrão bastante distinto
  entre o Brasil e a Região Nordeste: enquanto o País apresenta certa
  estabilidade na taxa ao longo do período, a partir de 2003 percebe-se
  uma mortalidade crescente no Nordeste. Os anos entre 2000 e 2015
  exibem crescimento de 11,1% na região. (Jorge, 2018, p. 68).</p>
  <p>A entrada de facções do crime organizado de outras regiões na
  disputa pelo controle do tráfico de drogas nas regiões Nordeste e
  Norte foi apontada como um dos argumentos para explicar o aumento
  alarmante da violência nessas áreas durante a década de 2010. Essa
  hipótese sugere que a presença dessas facções e o deslocamento de
  quadrilhas devido à repressão em outras localidades contribuíram para
  os números preocupantes e acima das previsões (Jorge, 2018).</p>
  <p>A atuação das facções criminosas no tráfico de drogas é um fator
  importante a ser considerado na análise da violência nessas regiões.
  Com a entrada dessas organizações, houve uma disputa pelo controle dos
  territórios, o que resultou em confrontos e aumento das dinâmicas
  relacionadas ao tráfico.</p>
  <p>A chegada de grupos criminosos organizados provenientes de outras
  áreas na competição pelo domínio do comércio de entorpecentes na
  região, assim como de facções deslocadas devido à intensificação das
  ações de repressão ao crime nessas localidades, foi uma das suposições
  que poderia elucidar o fato das regiões Nordeste e Norte ultrapassarem
  todas as previsões em relação à violência, emergindo, na década de
  2010, com estatísticas alarmantes e superiores a qualquer prognóstico
  (Jorge, 2018). Portanto, é um argumento revelador para explicar o
  porquê das regiões Nordeste e Norte superarem todas as previsões sobre
  a violência e despontarem, na década de 2010, com números alarmantes e
  superiores a qualquer previsão.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Gráfico 1: Mortes Violentas Intencionais por 100 mil habitantes
no Brasil e no Nordeste (2011-2019)</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image3.png" />
<p>Fonte: Elaboração própria, a partir dos dados do Anuário Brasileiro
de Segurança Pública (FBSP, 2018, 2020).</p>
<disp-quote>
  <p>O aumento das MVIs está atrelado ao crescimento do mercado de
  drogas no país e a teia que se formou entre as malhas urbanas e a rede
  carcerária, criando conflitos entre as facções, principalmente nas
  cidades do Norte e do Nordeste. O maior número de MVIs está onde há
  maior fragmentação entre os coletivos criminais e, assim, disputas
  pelos territórios e mercados (FBSP, 2018). Há que se ressaltar ainda o
  número considerável de mortes decorrentes de intervenção policial.
  Nóbrega Jr. (2016) destaca o contexto de virada entre as regiões
  Sudeste e Nordeste:</p>
  <p>Entre 1980 e 2012 foram registrados 1.200.405 assassinatos no
  Brasil. Em 2012, 11,8% dos homicídios do mundo foram perpetrados no
  Brasil. O Nordeste concentrou 37% dos homicídios do país. Apesar do
  avanço socioeconômico em muitos de seus municípios, a região se tornou
  a mais violenta do país, superando o histórico do Sudeste. (Nóbrega
  Jr., 2016, p. 57).</p>
  <p>A visível queda da letalidade, nos demais estados, se associa,
  possivelmente, às acomodações dos conflitos nos estados em que a
  guerra das facções explodiu em 2017, isto porque as facções são
  negócios e é inviável sustentar conflitos por muito tempo; há uma
  perda de dinheiro e de indivíduos que operam a estrutura do crime
  (Ipea; FBSP, 2019).</p>
  <p>Embora não seja possível mensurar com exatidão, ações de
  inteligência dos estados podem ter desestimulado conflitos mais
  acentuados em 2018 (FBSP, 2019). O contexto impede os gestores de
  saberem se as políticas na área são eficazes e quais seriam as
  correções a fazer. As Condutas Violentas Letais
  Intencionais<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref> (CVLIs) oscilaram
  entre subidas e quedas entre os anos de 2011 e 2015, a partir de 2015
  até 2017, no entanto, elas passam por um progressivo aumento, chegando
  no pico histórico em 2017 e decaindo de 2018 até 2019, como é possível
  visualizar no Gráfico 2, abaixo.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Gráfico 2: Número de Condutas Violentas Letais e Intencionais
no Rio Grande do Norte (2011-2019)</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image4.png" />
<p>Fonte: Elaboração das autoras, com base nos dados do Observatório da
Violência do Rio Grande do Norte (Obvio, 2019, 2020a).</p>
<disp-quote>
  <p>No Rio Grande do Norte, as CVLIs acompanham os processos do
  Nordeste, contudo, não se pode ignorar as características da segurança
  pública que são próprias do estado, ainda que sintomáticas em outros
  territórios.</p>
  <p>No Rio Grande do Norte [entre os anos de 1991 – 2010], as taxas de
  homicídios cresceram 183,3%, não obstante a melhoria do IDH que saiu
  de um patamar muito baixo de desenvolvimento para o nível médio de
  desenvolvimento em vinte anos. O crescimento percentual foi de 29% no
  seu IDH, que em 1991 foi de 0,428 e em 2010 foi de 0,684. (Nóbrega
  Jr., 2016, p. 60).</p>
</disp-quote>
<p>Os indicadores criminais no RN também são o resultado da falha da
gestão pública, que durante anos segue uma política de baixo
investimento em capital tecnológico e humano, fundada em ações não
planejadas e em uma incessante crise fiscal, utilizada como mote para a
fuga de soluções mais incisivas (Ipea; FBSP, 2019). Diante desse
panorama, significativa parte das mortes são desconhecidas, o que
significa a impossibilidade de compreender de forma mais profunda as
dinâmicas que operam no estado (Obvio, 2020a). Assim, até mesmo as
quedas em 2018 estão nubladas. Apesar de todas as problemáticas,
espera-se, no próximo tópico, compreender as dinâmicas da violência
letal que operam no território do RN.</p>
<p><bold>OS TERRITÓRIOS DA VIOLÊNCIA NO RIO GRANDE DO NORTE</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Pela dificuldade de encontrar dados específicos sobre as motivações
  dos crimes, é desafiador construir o perfil das vítimas e das
  características das condutas notificadas no RN, embora seja possível
  traçar algumas dimensões das CVLIs. As vítimas de CVLI seguem um
  perfil similar do resto do Brasil, são homens, jovens, negros, pobres,
  moradores de periferias, com baixa escolaridade e desempregados,
  podendo inclusive ser inseridos no trabalho informal ou até
  integrantes do mercado de varejo de drogas (Feltran, 2018). Um retrato
  do perfil brasileiro, como já demonstrado. A Região Metropolitana de
  Natal (RMN) apresentou 56% das CVLIs, em face dos 44% das ocorridas no
  interior do estado, se aliando à situação de violência metropolitana
  destacada por especialistas (Obvio, 2019, 2020a).</p>
  <p>Os estudos de Jorge (2018) fornecem argumentos relevantes ao
  abordar a concentração da violência no meio urbano, a desigualdade na
  distribuição de renda e a densidade demográfica como fatores que
  influenciam o aumento da violência nas regiões brasileiras. Essas
  análises ressaltam a importância de considerar as condições do
  contexto urbano como determinantes significativas na ocorrência de
  crimes.</p>
  <p>No contexto do RN, observa-se que a Região Metropolitana de Natal
  (RMN) concentra a maioria das CVLIs, em comparação com as ocorrências
  no interior do estado. Esse dado reforça a situação de violência
  metropolitana destacada por especialistas. Portanto, essas informações
  fornecem uma visão abrangente sobre as características das vítimas e a
  distribuição geográfica dos crimes violentos na região, corroborando
  as análises de Jorge (2018) e evidenciando a importância de considerar
  o contexto urbano e as desigualdades sociais na compreensão da
  violência.</p>
  <p>A realidade manifestada na discrepância dos números de mortes
  corrobora argumentos que indicam um perfil racial e socioeconômico
  vinculado a uma localização. Os bairros da RMN, por exemplo, com altos
  índices de CVLIs, são periferias, e estão em espaços associados ao
  estigma da violência urbana. Deve-se destacar que tais crimes
  acontecem mais em determinadas regiões, do que em outras (Obvio,
  2019). Por existir distribuição espacial desigual de CVLIs, torna-se
  necessário considerar as singularidades dos bairros e a situação das
  pessoas que ali vivem, para entender as motivações dos crimes
  cometidos.</p>
  <p>Dentre os municípios com maiores índices de CVLIs, Natal se
  encontra em primeiro lugar, com 25,8% das condutas do estado, com
  44,9% das ocorrências concentradas na sua Zona Norte, seguido pela
  Zona Oeste (25,6%), Zona Leste (12%) e Zona Sul (7,4%), o que marca
  uma característica de localização dos CVLIs. Observa-se crescimento em
  determinadas regiões e redução nas demais. Importante observar a
  redução expressiva nas três regiões com maior incidência, entre -40% e
  -60%, em contraponto à Zona Sul, que praticamente não observou
  alteração no período (-3,3%). A tabela demonstra os tipos de condutas
  apresentadas, por Zona Administrativa, entre os anos de 2015 e 2019
  (período de recorde das taxas de vitimização).</p>
  <p>As condutas letais estão concentradas em determinadas regiões do
  RN, áreas mais fragilizadas, que necessitam de um olhar mais sensível
  do Poder Público, que compreenda as dinâmicas da violência como
  pertencentes a um contexto sociopolítico, comunicando-se com questões
  como desigualdade social, mercado de trabalho, educação formal, acesso
  à bens e serviços urbanos, vitimando uma população negra, jovem e
  periférica.</p>
  <p>Os dados sobre CVLI no RN, especialmente em Natal, revelam quem são
  as principais vítimas do mercado de ilícitos e suas disputas. No
  entanto, ao mesmo tempo em que são reveladores, ocultam outras
  relações que não se relacionam diretamente com as disputas
  territoriais, mas que interferem de forma significativa nessas
  dinâmicas. Quando os mercados de ilícitos se expandem durante os anos
  de 1990 e ganham uma dimensão internacional, a violência urbana
  explode, espalhando-se pelo Brasil (Feltran, 2018). Ao mesmo tempo em
  que organizações criminosas estabeleceram o tabelamento de preços das
  drogas ilícitas, também monopolizaram e controlaram o porte e o uso de
  armas. Como foi o caso do PCC, ao impor um sistema de justiça do
  crime, a facção estabeleceu uma relativa paz nas quebradas, mas abriu
  novas trincheiras em outros estados brasileiros.</p>
  <p>É justamente esse movimento de adesão, filiação e desfiliação a
  determinados agentes da produção e comércio internacional que engendra
  processos violentos que se revelam nos territórios das cidades. Quando
  as facções das regiões Norte e Nordeste estabelecem elos com outras
  organizações, fornecedores internacionais, e passam a vislumbrar novos
  mercados consumidores, rompendo com o PCC, os conflitos tornam-se
  abertos. Não se trata apenas de garantir hegemonia no mercado
  consumidor local, mas de ter acesso direto aos mercados produtores que
  buscam novas rotas para escoar seus produtos para o mercado altamente
  lucrativo.</p>
  <p>Segundo o Atlas de Violência (FBSP, 2019), que se atribuiu de
  analisar os números do Sistema de Informações sobre Mortalidade, a
  explicação para o cenário de crescimento dos números de homicídio e
  encarceramento se explicam tanto pela guerra das facções quanto pela
  gestão escolhida para administrar as pastas de segurança pública:</p>
  <p>Possivelmente, o forte crescimento da letalidade nas regiões Norte
  e Nordeste, nos últimos dois anos [2016 e 2017], tenha sido
  influenciado pela guerra de facções criminosas deflagrada entre junho
  e julho de 2016 (Manso; Dias, 2018) entre os dois maiores grupos de
  narcotraficantes do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o
  Comando Vermelho (CV); e seus aliados regionais – principalmente as
  facções denominadas como Família do Norte, Guardiões do Estado,
  Okaida, Estados Unidos e Sindicato do Crime. (FBSP, 2019, p. 8).</p>
  <p>Os diagnósticos formados pelo Atlas da Violência 2019 sugerem que
  essa crise penitenciária é resultado da “má condução da política
  pública, não apenas no que se refere à questão fiscal, mas também à
  falta de uma política clara e efetiva de segurança baseada em métodos
  de gestão e evidências científicas” (FBSP, 2019, p. 19) no estado
  potiguar, além do conflito entre facções rivais.</p>
</disp-quote>
<p><bold>CONSIDERAÇÕES FINAIS</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Este trabalho, ao almejar responder qual a relação da expansão das
  facções com o aumento da violência no estado do Rio Grande do Norte na
  década de 2010, traz para o cerne da discussão as conjunturas do
  mercado de drogas, do combate à criminalidade e das políticas adotadas
  pelos estados latino-americanos, principalmente pelo Brasil,
  caracterizadas por corrupção estatal, violação dos direitos humanos,
  repressão desqualificada, atuação da mídia, aumento da população
  carcerária e progressão do mercado de drogas, com aumento do poder do
  crime organizado, o que implica em ameaça ao monopólio do poder
  estatal e à democracia.</p>
  <p>Resultados da atenuação da participação de figuras estrangeiras,
  como a Colômbia, no comércio interno de drogas ilegais, novas figuras
  nacionais assumem o protagonismo deste mercado; o CV e PCC são pivô
  dos momentos inaugurais desta nova dinâmica. A telefonia móvel ampliou
  a eficiência mercadológica e acelerou a expansão das facções. As
  articulações e o regimento do PCC afrontaram a dinâmica do CV, que
  flexibilizou suas estratégias a fim de formar coalizões com
  organizações aliadas em outros estados. A criação do Sistema
  Penitenciário Federal fomentou conexões entre lideranças das facções e
  ajudou a deflagrar um quadro de disputas por território e retaliações,
  culminando em numerosas rebeliões nos estados brasileiros. Assim, a
  expansão territorial, política e econômica das facções do eixo sudeste
  alcançaram a região Nordeste, colocando o Rio Grande do Norte em uma
  posição de destaque na distribuição das mercadorias, condição que
  reforçou as convulsões geradas pelo comércio ilegal e provocou
  conflitos internos.</p>
  <p>Destaca-se, por ora, que o fenômeno da Nordestinação da Violência
  não tem caráter apenas regional, mas relaciona-se com o contexto
  nacional e latino-americano. A expansão territorial, política e
  econômica das facções do eixo sudeste brasileiro alcançaram a Região
  Nordeste, colocando o RN em evidência – contexto inserido no processo
  de nacionalização do mundo do crime no Brasil – a partir de 2010.</p>
  <p>Esse quadro causou o aumento das taxas de vitimização letal no RN,
  concentradas espacialmente em territórios de maior vulnerabilidade
  social, atingindo uma população negra, pobre e periférica, aumentando
  as desigualdades e o estigma social. A espetacularização midiática
  sobre as dinâmicas da Nordestinação da violência serviram ao
  etiquetamento da população carcerária e dos “territórios da
  violência”, trabalhando com sentimentos como o medo, por meio do
  sensacionalismo.</p>
  <p>Registra-se, ainda, que a intenção foi entender a Nordestinação da
  Violência como o movimento de expansão das facções para a região
  Nordeste, não se pretendeu identificar características específicas da
  violência na região. Registra-se, igualmente, a inércia de repetir
  referências teóricas que colaboram para perpetuação de estigmas e
  preconceitos com a realidade da região Nordeste; este artigo, muito
  embora, não repetiu esses atores. Ao romper com essa cultura,
  restringiu-se às referências que, ao longo do tempo, construíram a
  literatura.</p>
  <p>Os questionamentos que se pretende deixar para futuras agendas de
  pesquisa são: Como coordenar ações integradas entre Estados da América
  Latina? Como o Estado brasileiro pode atuar para frear os conflitos
  sem intensificar a guerra entre as facções? Como evitar a
  espetacularização da violência e agir comprometido com a proteção das
  vidas nos territórios mais fragilizados do RN? Como incentivar
  formulação e implementação de políticas públicas de segurança baseadas
  em evidências nos estados da região Nordeste?</p>
</disp-quote>
<p><bold>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</bold></p>
<p>ALRN - Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte. <bold>Segurança
Pública é o ponto alto da mensagem anual do Governador</bold>. Natal, 02
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Brasília, 21 dez. 1990.</p>
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e dependentes de drogas; estabelece normas para repressão à produção não
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</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>Nomenclatura utilizada pelo FBSP para categorizar
    as vítimas de homicídio; latrocínio, lesão corporal seguida de morte
    e mortes decorrentes de intervenção policial em serviço e fora
    (FBSP, 2019).</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>Nomenclatura utilizada pelo Obvio para
    categorizar as vítimas de homicídio; latrocínio, lesão corporal
    seguida de morte e mortes decorrentes de intervenção policial em
    serviço e fora (Obvio, 2020a).</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
