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<sec id="buscar-e-evitar-a-ação-policial-os-dilemas-operacionais-dos-policiais-militares-na-execução-do-serviço-de-rua-no-ceará">
  <title>BUSCAR E EVITAR A AÇÃO POLICIAL: os dilemas operacionais dos
  policiais militares na execução do “serviço de rua” no Ceará</title>
  <p><bold>RESUMO</bold></p>
  <p>O presente artigo aborda as percepções sociais de policiais
  militares sobre a execução do mandato policial nas ruas. A ideia de
  “busca de ação” está conotada sob o desejo de “operar” na área
  manifestado por parte dos policiais na execução do patrulhamento.
  Essas percepções estão associadas ao grau de identificação com as
  rotinas de policiamento de rua por esse grupo profissional e
  influenciam o seu desempenho laboral e a construção de relações com a
  população. A abordagem metodológica é qualitativa utilizando técnicas
  como a observação direta do patrulhamento e entrevistas
  semiestruturadas do tipo episódicas com policiais militares. Tudo se
  passa como se nesta lógica de operacionalização policial estivesse em
  jogo um tipo de interação com a “área de operações” e as populações
  atendidas pelos policiais. Como contribuição para esse campo de
  estudos, o trabalho permite detalhar e analisar, a partir de relatos
  etnográficos, os contextos de execução do patrulhamento pela polícia e
  as dinâmicas de relacionamento entre polícia e população.</p>
  <p><bold>Palavras-Chaves</bold>: Práticas Policiais; Mandato Policial;
  Busca de Ação.</p>
  <p><bold>To take action or not? Operational Dilemmas of Police Patrol
  in Ceará, Brazil</bold></p>
  <p><bold>ABSTRACT</bold></p>
  <p>The idea of “take action” is connoted under the desire to
  &quot;operate&quot; in the area manifested by the police in the
  execution of patrolling. These perceptions are associated with the
  degree of identification with the street policing routines by this
  professional group and influence their work performance and the
  construction of relationships with the population. The methodological
  approach is qualitative using techniques such as direct observation of
  patrolling and semi-structured interviews of the episodic type with
  policemen. Everything happens as if, in this logic of police
  operationalization, a type of interaction is at stake with the “
  operational area” and the populations served by the policemen. As a
  contribution to this field of research, the work allows to detail and
  analyze, based on ethnographic reports, the contexts in which patrols
  are carried out by the police and the dynamics of the relationship
  between the police and the population.</p>
  <p><bold>Keywords:</bold> Police Practices; Police Mandate; Take
  Action.</p>
</sec>
<sec id="introdução">
  <title>1 INTRODUÇÃO</title>
  <p>O presente artigo analisa o desempenho do “mandato policial” nas
  ruas por policiais militares e seus impactos na construção de relações
  com a população das áreas atendidas por esses profissionais. Investe
  nos sentidos atribuídos pelos policiais ao grau de envolvimento com a
  profissão e suas implicações nas práticas policiais. Nesta construção,
  este artigo aponta aspectos fundamentais para compreensão da dimensão
  discricionária do fazer da polícia (BITTNER, 2003), revelando como as
  percepções dos policiais que estão na linha de frente de execução do
  patrulhamento afetam as interações sociais entre a polícia e a
  população.</p>
  <p>No contexto da contínua evolução da violência urbana no Brasil nos
  últimos 20 anos, especialmente o crescimento dos índices de violência
  letal intencional no Nordeste, com destaque para o Estado do Ceará,
  questões como a alta taxa de violência policial no Brasil, o elevado
  grau de letalidade nas ações policiais e alto número vitimização de
  policiais militares (FBSP, 2019) podem ser citadas como aspectos que
  tornam a análise do funcionamento do trabalho policial uma dimensão
  central para compreender o fenômeno da segurança pública,
  especialmente considerando os aspectos das práticas policiais. Ainda
  merece destaque o aumento na sensação de insegurança por parte dos
  cidadãos relacionada diretamente com a falta de confiança da população
  brasileira nas instituições policiais, especialmente na polícia
  militar, cenário que também diz respeito ao Ceará. Os profissionais
  que atuam na linha de frente das formas de policiamento têm, além
  disso, sido desafiados por um ambiente de trabalho fortemente
  arriscado e insalubre, o que tem produzido sujeitos desmotivados e
  insatisfeitos com as condições da carreira policial.</p>
  <p>A construção dos dados apresentados no trabalho foi possível
  mediante a interlocução contínua com policiais militares da cidade de
  Juazeiro do Norte, Ceará, no período compreendido entre março de 2011
  e dezembro de 2013 que atuavam na Área
  X<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>. O trabalho de campo foi
  realizado a bordo da viatura do Programa de Policiamento Comunitário
  Ronda do Quarteirão<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>, durante a
  realização do patrulhamento ostensivo cotidiano junto a policiais
  militares em serviço. Deste modo, os materiais produzidos permitiram
  entender como construção cotidiana da agência policial é produzida
  pelas relações entre polícia e população. A abordagem do estudo, desse
  modo, concentrou-se em dados qualitativos registrados com base na
  observação direta, nas conversações e realização de entrevistas
  gravadas do tipo episódicas. Foram produzidas mais de 600(seiscentas)
  páginas de diários de campo descrevendo os aspectos do trabalho
  policial observados e registrando as conversações durante a pesquisa.
  Além disso, foram realizadas 6(seis) entrevistas em profundidade, com
  mais de 4 horas de duração, com seis policiais experientes da Área de
  Operações (AO) onde o estudo foi desenvolvido, totalizando quase
  30(trinta horas) de gravação. Paralelamente, realizou-se a pesquisa
  hemeroteca em jornais locais e documentos oficiais sobre a instituição
  policial local.</p>
  <p>Os dados da pesquisa em seu detalhamento e análise apontam como os
  recursos materiais disponíveis e os aspectos simbólicos presentes na
  cultura profissional de policiais militares incidem na execução do
  policiamento. Nessa direção, discute-se como as percepções sociais
  desses profissionais são uma chave para compreender como ocorre o
  policiamento nas periferias das cidades de médio porte, como é o caso
  da cidade de Juazeiro do Norte, Ceará, localizada na região
  Metropolitana do Cariri.</p>
  <p>O artigo analisa como a ação ostensiva dos policiais militares
  durante o policiamento de rua é desempenhado a partir de determinados
  recursos materiais e simbólicos, adentrando aquilo que Muniz (1999)
  chamava de “manobra decisória” no mandato policial e sua dimensão
  discricionária (MUNIZ, SILVA, 2010). Os recursos disponíveis aos
  policiais e seu impacto nos modos de ação policial são uma chave de
  leitura para adentrar a execução da linha de frente do policiamento
  nas cidades brasileiras e revelam elementos fundamentais para a
  compreensão das relações desenvolvidas entre polícia e população.</p>
  <p>No contexto do trabalho de campo, foram observadas situações de
  atendimento à população em que os policiais precisavam lidar com
  impasses e limitações que desencadeavam processos inventivos e
  reflexivos nas ações desempenhadas, descartando recursos tradicionais.
  Nessa trama, as dobras entre o legal e o ilegal, entre agir de forma
  “certa” ou “errada”, segundo as bússolas morais dos policiais,
  deslocavam-se do plano normativo-legal, para assumir um caráter
  circunstancial, envolvendo processos de accountability, no sentido
  atribuído por Scott e Lymann (2009). Os dados produzidos pela pesquisa
  fornecem elementos para fazer novas problematizações a respeito dos
  aspectos discricionários do trabalho policial, acrescentando essa
  dimensão circunstancial para os contextos de “aplicação da lei”, tendo
  como terreno o policiamento ostensivo executado em contextos
  locais.</p>
  <p>Na discussão Bittner (2003, p. 256), o poder discricionário da
  polícia é pensado com base nos muitos fatores que influenciam quando a
  lei deve ser ou não aplicada pelos policiais. Um exemplo citado pelo
  autor é o modo como formas de classificação que tipificam as
  clientelas variam o repertório de ação policial de acordo com as
  circunstâncias da ocorrência ou a identidade dos suspeitos. Nos
  contextos observados pela pesquisa, os policiais lidam com termos do
  “jargão policial” para classificar a população, condicionando os
  moradores<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> atendidos pelo serviço
  policial a diferentes estatutos morais que desencadeiam tratos
  relacionais diferentes.</p>
  <p>Nessa perspectiva circunstancial, as percepções dos policiais
  flexibilizam a execução da legislação criminal com base em operações
  simbólicas que atribuem estatutos morais para a população. Tudo se
  passa como se as leis “aplicadas” pelos policiais estivessem
  condicionadas à permanente incerteza em razão dessa característica
  observada pela pesquisa. Esse caráter, por assim dizer “situacional”
  no sentido de Goffman (1993), dos encontros entre policiais e
  moradores, tendo como pano de fundo a gestão do atendimento das
  demandas da população e a execução do policiamento ostensivo, passa
  por combinações probabilísticas da ação e da omissão desses
  profissionais na condução das suas rotinas.</p>
  <p>As formas de ação e omissão, nessa leitura, estão profundamente
  associadas a elementos simbólicos expressados pelos policiais que
  envolvem dimensões como a motivação, a identificação com o serviço
  policial e a intensidade empregada no desempenho laboral. Para o
  artigo, a questão central é pensar como certos significados
  compartilhados por esses profissionais afetam diretamente a
  operacionalização do trabalho policial e, por consequência, a relação
  construída com a população atendida nesses territórios.</p>
  <p>O trabalho analisa esses processos a partir de categorias nativas
  de policiais militares, sendo a principal a ideia de “policial
  operacional”. Encarnadas nas percepções e nas práticas de policiais
  militares, essa e outras categorias nativas são trazidas à luz das
  observações da pesquisa, dos relatos e das memórias dos
  interlocutores. No desenvolvimento do artigo, são detalhadas e
  analisadas as formas de interação que envolvem a abordagem policial,
  especial atenção é dada às formas simbólicas utilizadas para
  elaboração da suspeita sobre situações, objetos, pessoas e interações
  do ponto de vista dos policiais e seu engajamento ou evitação nesses
  procedimentos.</p>
</sec>
<sec id="a-intensidade-das-ações-policiais-a-busca-de-ação-como-termômetro-das-relações-de-polícia-e-população">
  <title>2. A INTENSIDADE DAS AÇÕES POLICIAIS: A “busca de ação” como
  termômetro das relações de polícia e população</title>
  <p>No sentido atribuído aqui, “buscar ação” significa o envolvimento e
  motivação do policial para “operar na área”. Durante o trabalho de
  campo, parte significativa do policiais alimentava a crença de que
  quanto mais estão envolvidos com operações, sejam abordagens
  policiais, atendimento a ocorrências, interações com moradores,
  prestação de apoio a outras áreas ou modalidades de patrulhamento, o
  serviço em que estão “escalados” tende a terminar mais rapidamente e
  ser mais prazeroso. Trata-se, segundo o soldado Dário (SD), de um
  processo semelhante a “teoria da relatividade”, de acordo com sua
  explicação, o tempo é relativizado na medida em que os policiais estão
  engajados na execução do serviço. Por oposição lógica, quanto mais os
  policiais evitam o trabalho, realizando pausas para descanso ou para o
  produzir o “efeito de presença”, quando feitas com o intuito de
  procrastinar o serviço, afetam a percepção sobre o andar do relógio,
  prolongando o tempo, tornando o serviço entediante.</p>
  <p>Nas expressividades usadas pelos policiais sobre a profissão,
  revelam-se metáforas que ajudam a pensar o dilema entre “buscar” e
  “evitar” a ação policial. Nas categorizações simbólicas apreendidas no
  trabalho de campo, aparecem as tipologias do “policial operacional” e
  o “policial comunitário”. Ambas desempenham a ação policial de modo
  diferente. O primeiro tipo de policial cria o chamado “teatro de
  operações”<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> procurando situações
  suspeitas para fazer abordagens, prevenir crimes, repassar informações
  às outras viaturas para surpreender criminosos etc.; o segundo, se
  prestaria a conversar com os moradores sobre seus problemas, durante o
  atendimento da ocorrência, conversar com as pessoas envolvidas,
  distribuir seus contatos pessoais na comunidade, ser prestativo,
  participar dos eventos na comunidade etc. Alguns policiais podem ser
  classificados como sendo policiais operacionais, outros como sendo
  comunitários, por um ou mais policiais, sejam iguais, subordinados ou
  superiores. Essas categorizações podem ser expressas em algumas
  ocasiões como elogio. O mesmo policial pode agregar características de
  um policial operacional de rua como, também, de um policial
  comunitário. Podem ser pensadas com sendo figuras de alteridade
  complementares nos usos simbólicos do universo policial acessado
  durante o trabalho de campo.</p>
  <p>Durante a interação com policiais militares, parte significativa
  mencionou a Área X como lugar estratégico para desempenho do trabalho
  policial, pelo alto grau de demandas e interpelações que emergem
  durante o serviço. Aqueles identificados e engajados com o serviço de
  rua, ao serem escalados nessa área, costumavam concentrar o
  patrulhamento no bairro Vermelho, antevendo ocorrências policiais e
  processos de construção da suspeita sobre moradores convertidos em
  abordagem e revista policial<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>.
  Nas estatísticas locais, esse bairro concentra a maioria das
  ocorrências da área, produzindo a identificação do lugar como ponto
  preferencial do “policial operacional”.</p>
  <p>Ainda sobre os aspectos simbólicos ligados a identificação dos
  policiais com sua profissão, há outras expressividades como “honrar a
  farda”, “dar o sangue pela corporação” que atribuem qualidades morais
  aos agentes. Por outro lado, há aqueles policiais que estão utilizando
  a profissão como trampolim para outras carreiras e planejam sair da
  instituição tão logo seja possível, estando como referência oposta das
  expressividades citadas. Especificamente sobre o tipo de policial
  identificado com o serviço, existem outros detalhes que o apresentam
  melhor como um marcador simbólico. Trata-se de uma narrativa
  compartilhada entre os policiais que descrevem este sujeito como
  aquele que vive para a polícia, ajuda a população e, justamente por
  essa intensidade, acaba se envolvendo em práticas de uso excessivo da
  força, mortes, tortura, “arrastando um monte de processos nas costas
  ou até morrendo” (dado verbal obtido do trabalho de campo em julho de
  2012 através do policial Bem). Esse tipo de policial evoca certos
  valores heroicos e de abnegação que o expõe diante de subordinados,
  iguais e superiores hierárquicos na profissão. No relato do policial
  apresentado a seguir, aparecem algumas dessas características:</p>
  <disp-quote>
    <p>Cara, um policial operacional é aquele que atende inúmeros
    pré-requisitos, entendeu? Ele atenta, ele tá sempre querendo
    aprender algo novo, entendeu? Ele sabe que tá em situação sempre de
    aprendizagem, ele tá se descobrindo... ele tá aprendendo algo... e
    tem aquela vontade, entendeu? O policial operacional ele se define
    através de sua atuação como: ele gosta do que tá fazendo, do que tá
    é... ele começa a ver que ele tá adquirindo uma série de
    experiências, entendeu? Práticas, entendeu? E teóricas também, né? E
    ele começa a ver a imagem no espelho, né? Na medida em que você olha
    no espelho, você vê um policial, entendeu? Aí operacional o que é, é
    aquele que atua, é aquele que ele é proativo, entendeu? Ele procura
    adquirir conhecimento, ele não se omite, entendeu? Ele é
    companheiro. Ele puxa. Ele sua. Ele identifica a problemática
    naquela área. Ele já começa a levantar os retratos falados da área.
    Ele já sabe com a quem ele pode ficar com abordagem, entendeu? Ele
    mesmo que nunca tenha visto o elemento, ele já abarca de... de
    outros conhecimentos, entendeu? Ou seja, ele tá aberto para
    aprender, entendeu? Ele tá aberto... O policial que tá aberto para
    aprender, ele gosta do que tá fazendo, entendeu? Ele sabe que se
    depara... Ele por esse gosto ele pode tá mais... é... posso dizer o
    termo... mais, é... corre o... termo risco, né? Esqueci o termo
    apropriado, mas de... não usa esse se enrolar, né? Mas onde ele se
    depara com uma ocorrência até mais críticas. (Dado verbal,
    entrevista gravada com o policial Ben em julho de 2012, grifos do
    autor)</p>
  </disp-quote>
  <p>Nos contextos da execução do patrulhamento, a maior parte das
  equipes policiais escaladas mesclam policiais classificados como
  “matadores” ou “moitas”. Essas categorias têm sido encontradas em
  trabalhos de pesquisa com policiais nos últimos quinze anos no Ceará.
  No trabalho de Sá (2002), a qualidade de policial matador refere-se
  aos policiais que além de “operacionais” no policiamento de rua,
  evocam códigos guerreiros como a honra e a abnegação no desempenho de
  atividades fins na organização policial, enquanto os “moitas” seriam
  aqueles que se reservam ao trabalho de meio e burocrático, muitas
  vezes, galgando relações de apadrinhamento para ascender na
  instituição, embora não imprimam tanta intensidade na profissão,
  possuem ambições com a carreira policial.</p>
  <p>Certa vez, durante o trabalho de campo conversava com o policial
  soldado Garcia quando ele me perguntou se eu conhecia a distinção
  entre “matadores” e “moitas”, utilizadas pelos policiais na
  corporação. Respondi já ter me deparado com a questão, mas não saber
  definir a diferença. Ele me descreveu o “matador” como aquele disposto
  a ir até a ocorrência de outra área e que realiza abordagens a
  suspeitos sem esperar os moradores denunciarem, “aquele que vai com
  gosto de gás para a rua”, enfatizou. Enquanto conversávamos, um outro
  policial aproximou-se, e Garcia declarou, “aqui está um matador!”,
  imediatamente o policial riu-se e disse não “matar ninguém” aceitando
  o adjetivo em seguida. Ele continuou seu raciocínio descrevendo “o
  moita” como aquele que “evitava ao máximo as ocorrências e abordagens”
  questionando o seu dever profissional e adiando a ação policial;
  Garcia completou a firmando que o policial moita “se escondia nas
  costas do matador”.</p>
  <p>Essas categorizações simbólicas trazidas montam camada a camada
  dimensões importantes do <italic>self</italic>
  policial<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. Assim, nos contextos
  práticos de desempenho da atividade policial, podem haver equipes com
  diferentes graus de identificação e em diferentes graus de
  intensidade. Policiais matadores, moitas, operacionais, comunitários e
  cruzetas são categorias nativas que apresentam diferentes passagens
  entre as experiências singulares e as regularidades observadas que
  ganham significado a partir dessas categorizações simbólicas.</p>
  <p>É importante considerar que a identificação dos policiais com o seu
  serviço e a intensidade impressa no desempenho do patrulhamento
  acarretam implicações nas maneiras de fazer da polícia e na quantidade
  e na qualidade de suas interações e relações com a população da área
  onde operam. A seguir, tratamos como essas dimensões abordadas geram
  implicações nas relações da polícia e da população no contexto do
  patrulhamento ostensivo.</p>
  <sec id="abordagens-policiais-formas-especiais-de-encontro-e-interação-de-polícia-e-população">
    <title><bold>2.1. Abordagens policiais: formas especiais de encontro
    e interação de polícia e população</bold></title>
    <p>O início desta seção retoma o detalhamento das rotinas de
    policiamento da Área X registrado pela pesquisa nos diários de
    campo.</p>
    <p>Alguns instantes após o início do serviço do turno
    C<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>, a viatura, conduzida pelo
    policial soldado Jáder, seguia as direções apontadas pelo policial
    cabo Lauro, pelas ruas do bairro Vermelho. No deslocamento da
    viatura durante o patrulhamento pelas ruas do bairro, deparamo-nos
    como uma mulher negra, aparentando mais de 40 anos de idade, deitada
    sobre a calçada e com o corpo protegido por um cobertor branco.
    Desconfiados da moradora, um dos policiais comentou:</p>
    <p>- Se passarmos aqui às 3h, essa mulher vai estar aí, só
    repassando drogas (informação verbal, trabalho de campo em agosto de
    2012).</p>
    <p>Contrariado com a afirmação, questionei a equipe de policiais se
    eles poderiam abordar e proceder a revista corporal na mulher ou se
    precisariam recorrer a uma policial mulher em serviço. Lauro
    respondeu que mesmo a equipe sendo formada só por homens, eles
    próprios poderiam proceder a abordagem e revista. Jáder complementou
    afirmando que nessa situação deveriam apenas evitar constranger a
    suspeita. Lauro explicou mais detalhadamente. Segundo ele, tudo se
    resumia à fundada suspeita, caso a suspeita tivesse muitos indícios,
    eles poderiam revistar inclusive a intimidade corporal da
    mulher.</p>
    <p>Seguimos de lá para o bairro Laranja. O local estava
    completamente desértico. Depois de circular por alguns minutos, ouvi
    a primeira passagem de carro, ficando cada vez mais raras com o
    andar do relógio. Conforme o andamento do patrulhamento, um carro
    modelo Corola que realizou a ultrapassagem da viatura, chamou
    atenção do cabo. Apesar da insistência de Jáder, afirmando conhecer
    o carro e seu proprietário, ele insistiu na perseguição, mesmo
    depois de perceber tratar-se de duas mulheres, ele prosseguiu.</p>
    <p>Quando o carro perseguido chegou ao seu destino final, uma
    residência no Bairro laranja, os policiais estacionaram logo atrás.
    Lauro desembarcou do carro, se aproximou das mulheres e foi seguido
    por Jáder. Os policiais cumprimentaram as moças, eram brancas,
    estavam bem vestidas, tal qual, voltassem de uma <italic>happy
    hour</italic>. O policial solicitou o documento de identidade e o
    licenciamento do veículo em posse das mulheres e fez a checagem das
    informações por meio do rádio. Nada de “errado” ou “inadequado” foi
    encontrado. Os policiais se despediram e entraram na viatura. O cabo
    justificou a ação por estar
    “bizurado”<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref> a respeito de um
    carro do mesmo modelo e cor. Segundo ele, fora alertado pelo
    superior, a respeito de um carro, com essas características, alvo de
    perseguição veicular que fracassou, o que, supostamente, poderia
    indicar alguma irregularidade do veículo ou do condutor.</p>
    <p>Nas rotinas do serviço de rua, a construção da suspeita é
    atravessada pelas informações obtidas, mediante “o teatro de
    operações”<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>. Os “bizus”,
    repassados e incorporados, desempenham papel central no mapeamento
    de códigos, transformados em informações sobre objetos, pessoas e
    lugares suspeitos. As associações entre crime e mulheres aparecem,
    em Bretas (1997), como uma relação importante com as questões da
    ordem social; as associações entre crime e condição feminina das
    moradoras, em seu trabalho, apresentam decisivamente as relações das
    mulheres com a polícia nas primeiras décadas do século XX marcadas
    pelo traço social do racismo e por casos envolvendo a proteção ou
    perda da “honra”. No histórico recente de incriminações de mulheres
    no Ceará, tem destaque o controle do mercado de drogas
    ilícitas<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>, fato que tem
    provocado novas conjecturas de envolvimento criminal,
    redimensionando as mulheres também como prováveis suspeitas de
    crimes relacionados ao mercado de drogas ilícitas.</p>
    <p>Nos estudos de Ramos e Musumeci (2005), estereótipos raciais e de
    classe são comumente absorvidos na experiência policial, utilizando
    estigmas sociais para reproduzir padrões de suspeita, tornando esses
    filtros sociais o motor principal das rotinas de abordagem policial.
    Essas informações acabam se materializando no contexto de construção
    de suspeitas sobre moradores. Nas rotinas observadas durante a
    pesquisa, esses estigmas padrões podem ser diluídos, conforme ocorre
    a obtenção de informações mais precisas sobre as dinâmicas criminais
    do território e dos seus sujeitos. No caso relatado anteriormente, o
    modelo de carro, usado no processo de construção da suspeita é
    objeto de consumo de camadas mais abastadas da população,
    contrariando as características, mais comumente, associadas à
    construção da suspeita<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>.</p>
    <p>Risso (2018) argumenta que enquanto política pública, a abordagem
    policial é amplamente entendida no seio dessas organizações como uma
    estratégia voltada para lidar com os “bandidos”. Decorre disso o
    efeito indireto dessa política que á estigmatização de pessoas. Os
    múltiplos sentidos dado a abordagem na vida social conflitam com o
    discurso oficial de que a abordagem é uma estratégia para “proteção
    da sociedade”. Na prática essa política é adotada mais com base em
    crenças do que em evidências de seu
    sucesso<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>. Na visão da autora,
    a abordagem policial constitui uma alteração da performance do
    exercício da autoridade policial, saindo da perspectiva indireta,
    para a direta. A abordagem policial é implementada de forma
    diferente como base no grau de envolvimento entra a polícia e a
    comunidade, sobretudo pelo grau de anonimato desconfiança que existe
    entra a polícia e seu público e volume de interações entre polícia e
    suas clientelas.</p>
    <p>De acordo com seus achados de pesquisa, há duas grandes
    justificativas para a realização de abordagens, a primeira é a
    identificação de delitos criminais, por meio de flagrantes e a
    segunda, seria o efeito de dissuasão, supostamente prevenindo que
    crimes aconteçam. Trata-se de uma concepção muito problemática até
    mesmo para avaliar o grau de efetividade desse tipo de política na
    redução dos índices de criminalidade, uma vez que não há uma visão
    clara e bem definida de seus
    objetivos<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>.</p>
    <p>Durante o trabalho de campo, os “bizus” que circulavam na
    <italic>network</italic> dos policiais da cidade influenciavam a
    construção da suspeita. A preferência de abordagem policial contra
    duplas de homens jovens deslocando-se em motocicletas, associando
    essas características com práticas de assalto ou comércio de drogas
    ilícitas, pode ser citada nesse sentido. Conforme essa suspeita
    ganhasse maior detalhamento, o processo de construção torna-se mais
    refinado e eficiente. Iniciais de placas, cores e modelos de
    veículos, capacetes, tatuagens, altura, corte de cabelo, traços
    raciais podem ser citados como exemplo. Certas informações são alvo
    de maior restrição na <italic>network</italic> dos “policiais de
    rua”, pois envolvem sistemas de competição, suspeitas de porte
    ilegal de armas de fogo<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref> são
    enquadradas nesse tipo de restrição.</p>
    <p>A abordagem policial envolve um tipo de interação social com a
    população, na maioria dos casos, não implicada pelo contexto
    criminal, mas pelo contexto da “fundada suspeita”.</p>
    <disp-quote>
      <p>As abordagens policiais nas ruas da cidade configuram situações
      peculiares de encontro entre polícia e população, em princípio,
      não relacionadas ao contexto criminal (diferentemente, por
      exemplo, do registro de uma ocorrência na delegacia, do pedido de
      intervenção da polícia num conflito em curso, ou da experiência de
      ser detido sob alguma acusação específica). Noutras palavras,
      constituem momentos em que as pessoas têm contato direto com a
      polícia, na qualidade de cidadãos comuns – nem delinquentes, nem
      vítimas - e situações que, ao menos em tese, podem ocorrer,
      cotidianamente, a todo(a) e qualquer cidadão(ã). (RAMOS; MUSUMECI,
      2005 p, 57.)</p>
    </disp-quote>
    <p>A abordagem, apesar de ser uma interação a que a maioria dos
    moradores esteja suscetível, é esquadrinhada por processos de
    seletividade e refinamento. Os policiais não podem, simplesmente,
    revistar todos os moradores com os quais se encontram. O intuito do
    procedimento é objetivar um flagrante, com base em processos
    simbólicos de construção da suspeita que afetam a percepção policial
    e funcionam como gatilhos de ação. Quando lida com os significados
    da abordagem policial, na prática da polícia, o policial soldado Ben
    traz à cena as ações da polícia, consideradas “operacionais”. Nesse
    relato, ele apresenta o cerco a suspeitos e realização do flagrante
    de crime, após a abordagem policial.</p>
    <disp-quote>
      <p>A gente estava operando na viatura de outra área... No nosso
      horário de almoço, e estávamos almoçando, e de repente a gente
      recebeu a ocorrência de um indivíduo que estaria conduzindo uma
      arma de fogo nas mediações próximas, à distância de dois
      quarteirões de onde a gente estava almoçando. Então, de imediato a
      gente deixou, a gente nem almoçou, embarcamos na viatura e fomos
      identificar. Então, bem ali, naquele começo, para você notar como
      é o serviço. Então como? Recebi um chamado, uma denúncia. Um
      elemento de camisa vermelha, trajando camisa vermelha, de short
      claro, com uma bolsa... então, quando a gente se deslocou a gente
      se deparou com um elemento com o formato de denúncia, fizemos a
      abordagem e daí começamos a identificar. Fomos com cautela,
      entendeu? Eu estava ali com dois parceiros já experientes, já
      acostumados a tirar serviços juntos [...] Então, foi bastante, foi
      uma abordagem bastante operacional mesmo, entendeu? Ainda observou
      com cautela, porque ele estava de frente a uma casa e quando foi
      feita a abordagem e encontramos, era uma arma calibre 22. (Dado
      verbal, entrevista gravada com soldado Ben em junho de 2012,
      grifos do autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>O horário de almoço constitui-se de um intervalo de folga para os
    policiais da área. No trabalho de campo durante o “rancho”,
    observava os policiais sentados à mesa para fazerem sua refeição,
    ligando o rádio de comunicação móvel, escutando a frequência. Era
    comum ouvir informações de outras áreas, avisos de placas suspeitas
    ou de veículos roubados etc. Casos como esse, podem ocorrer, mas são
    raros.</p>
    <p>Confirmar a suspeita do morador, baseado nas informações da
    denúncia, cercando o suspeito com cautela, retirando, uma a uma,
    suas possibilidades de fuga ao escalarem as armas em sua direção,
    abordando-o, em seguida. Depois de procedida a revista corporal e
    identificado o crime, a voz de prisão é emitida. Ocasiões, como a
    descrita, são experiências significativas para a carreira moral dos
    PM. Ações como essas produzem confirmações do desempenho
    “operacional” assumido, e adjetivado pelos companheiros de
    profissão.</p>
    <p>Contudo, na maioria das vezes, as buscas pessoais, realizadas
    pela polícia não necessariamente identificam objetos ilícitos ou
    confirmam a fundada suspeita. Abordar “pessoas comuns”, no sentido
    de não tratar, diretamente, de uma ocorrência de crime, ou efetuação
    da prisão a pedido da justiça, é a regularidade deste tipo de ação.
    Esta é uma forma de interação, em particular, onde o poder de
    polícia se manifesta, revelando, em alguns casos, controvérsias.</p>
    <p>No exercício do mandato policial, as decisões por abordagem
    policial podem ocorrer por iniciativa deliberada de um ou de mais
    policiais. Após a tomada de decisão, inicia-se o “ritual de
    interação”, no sentido adotado por Goffman (2011), envolvendo a
    elaboração de fachadas e adoção de linhas específicas de interação,
    seja no sentido de manifestar o desempenho esperado da profissão
    policial, seja no sentido de elaborar atributos sociais sobre
    pessoas consideradas suspeitas de cometer algum crime. No
    detalhamento dessas situações, o suspeito fica sob o alvo das armas
    apontadas pelos policiais. Na percepção do policial, o suspeito deve
    ser tratado de forma “padrão”, uma expressividade policial que
    envolve o emprego da energia como se o suspeito fosse reagir ou
    estivesse cometendo o suposto delito. Na visão do policial, o alvo
    pode desempenhar uma resposta agressiva e reagir de forma violenta,
    caso esteja armado.</p>
    <p>Na abordagem, o corpo do suspeito é posicionado de costas para os
    policiais, que, por sua vez, dividem a função de revistar e dar
    cobertura. Após a busca corporal, os documentos do morador são
    solicitados pra uma consulta na central de informações, através de
    modulação por rádio transmissor.</p>
    <p>Algumas vezes, observei a precipitação de empurrões, tapas e
    socos desferidos pelos policiais nesse tipo de circunstância. Esses
    acontecimentos emergiram no decorrer da interação da abordagem,
    geralmente, por conta de condutas do morador percebidas pelos PM
    como “desacato” e
    “desobediência.”<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref></p>
    <p>Durante uma dessas abordagens, um jovem branco que estava em
    situação de “liberdade provisória” e “respondia” criminalmente por
    assaltos cometidos, sofreu um forte tapa na cabeça e não demonstrou
    reação. Segundo o policial agressor, o golpe desferido ocorreu pelo
    fato de o rapaz continuar fumando o cigarro após receber a ordem
    “ficar parado com as mãos na cabeça e encostar na parede”. Após o
    tapa, o cigarro foi descartado e os policiais continuaram o
    interrogatório.</p>
    <p>Em outro caso, um homem negro de aproximadamente 30 anos foi
    selecionado para abordagem quando os policiais procuravam um
    suspeito de assaltos naquela região. A seleção ocorreu em razão de
    coincidências entre as informações repassadas pelo rádio que
    descrevia “um assaltante deslocando-se de bicicleta de cor vermelha
    utilizando camisa listrada”. Por conta disso, ele e seu filho foram
    abordados e revistados. Conforme se descobriu não tratar do suspeito
    descrito, a abordagem estancou. O homem, insatisfeito
    questionou:</p>
    <p>— A gente não pode ficar mais na calçada conversando não? Vão
    atrás dos vagabundos...</p>
    <p>A fala do morador despertou a ira de um dos PM. Ele empurrou o
    morador contra a parede perguntando-o: “Vai querer inchar mesmo é?”.
    Após o empurrão, a interação se encerrou e os policiais voltaram à
    viatura. O policial agressor mostrou-se, depois, arrependido de sua
    precipitação. Disse ficar irritado com a atitude do morador, mas ao
    notar suas mãos repletas de calos e ainda sujas de massa de
    construção, percebeu se tratar de um trabalhador e interrompeu a
    agressão. A associação entre a condição de “trabalhador” e de
    “cidadão” envolvem aspectos simbólicos da percepção policial.
    Trata-se de uma operação simbólica que classifica as clientelas dos
    policiais na execução do seu mandato. No caso em tela, a
    classificação suspendeu o uso abusivo da força pelos policiais.</p>
    <p>Há casos de abordagem em que o suspeito ri da situação e o
    policial interpreta a linha de interação como um desrespeito à sua
    posição. Nesse tipo de interação, o policial Dário costuma desferir
    tapas na face “para o gaiato se orientar” e não desdenhar da
    polícia. Essa conduta é justificada pelo policial como uma forma de
    tratamento de acordo com o merecimento. “Tratar como merecer”,
    nesses usos sociais dos policiais envolve uma relação de poder e de
    interação violenta naturalizada pelo policial, cujo o extremo é o
    uso da tortura como técnica de construção da autoridade policial, na
    percepção desses atores.</p>
    <p>Na percepção dos policiais, as interações de abordagem carregam
    um forte caráter conflituoso, independentemente do tipo de pessoa
    com que a polícia interage, tudo se passa como se o grau de
    deferência e aceitação do trabalho policial pelo morador fosse o
    termômetro desse tipo de interação social.</p>
    <disp-quote>
      <p>na abordagem, eu prefiro abordar um cara que é bandido, que ele
      não tenha problema em dizer que é bandido e que já foi preso, do
      que abordar um cara que se diz “cidadão”. Porque a pessoa mais
      chata de abordar é “o cidadão”, é o cara que para e diz: “eu sou
      um cidadão”. (SD Dário, entrevista realizada em 2012, grifos do
      autor).</p>
    </disp-quote>
    <p>Certos moradores associados ao estatuto moral autor reivindicado
    de “cidadão de bem”, podem contestar em alguns casos as ações
    tomadas por policiais, ao questionar e orientar o que e como deveria
    ser realizado o trabalho policial. Presenciei nessas interações a
    visível irritação dos policiais ao ouvirem reclamações dos
    indivíduos selecionados para abordagem:</p>
    <disp-quote>
      <p>O pior lugar pra você abordar alguém é perto da casa dele ou,
      então, pessoas da família dele vendo, porque essa criatura chama
      logo a mãe: “mããaããeee”, e eu não estou brincando, pode ser o
      matador que for, o traficante que for, se alguém tiver por perto
      ele chama logo a mãe. “Mãe, não sei o que...” aí vem mãe, vem tia,
      vem cachorro latindo, é horrível. A gente parou certo dia na rua
      tal no Bairro vermelho, e foi abordar os três indivíduos que
      estavam vadiando na calçada, aí paramos, achamos suspeito e
      decidimos abordar, durante a abordagem o pessoal estava distante
      uns quinze metros dele, todo mundo já se levantou: “é meu filho, é
      meu filho”, quando os policiais estão fazendo a abordagem, sempre
      fica alguém na cobertura dele, isto é, quando a composição está em
      três, um faz a cobertura de quem está fazendo a busca, e o
      terceiro faz a cobertura de quem faz a cobertura de quem faz a
      busca. Eu no caso era o terceiro, o pessoal vindo pra cima de mim
      e eu dizendo: “Afasta! Afasta! Fica aí! ” Usando dos meios que a
      gente tem, usando do uso progressivo da força, no caso a
      intimidação, também, tem arma, aponta arma e sai daqui, porque a
      gente não sabe se o cara tá vindo armado quem são as pessoas, o
      que vai sair dali. Então você não pode achar que no momento da
      abordagem não vai acontecer nada, porque pode acontecer...
      [...](Soldado Dário, entrevista realizada em 2012, grifos do
      autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>Nas justificativas elaboradas pelos policiais, está a crença de
    estarem sob alto risco de morte no desempenho de suas funções, para
    adoção dessa linha de interação. A ocorrência da falha profissional
    na percepção desses sujeitos pode ser crucial para a continuidade de
    sua vida e de sua carreira. As práticas de abordagem, ampliam essa
    sensação.</p>
    <disp-quote>
      <p>Na abordagem a gente não pode errar, porque só temos uma vida.
      Se errar não dá pra resetar e jogar novamente. [...] E tem gente
      que não deixa você fazer seu trabalho, que atrapalha. Tem tantas
      formas de atrapalhar nosso trabalho... se a gente está numa
      abordagem, querem chegar perto, querem passar na linha imaginária
      entre a ponta da minha arma e o alvo, que é o cara que pode
      reagir. As pessoas têm o prazer, mórbido, de passar entre o
      policial e a pessoa abordada. Tanto que, às vezes, por ter uma
      pessoa muito perto, geralmente homem, se aproxima, também, muito
      curioso, a gente pede para sair e ele não sai, vai pra parede
      também. Quer ser abordado? Então vá pra parede também. As pessoas
      não conseguem respeitar seu espaço de trabalho. Se você está
      escrevendo um texto, está no computador, você não vai chegar no
      cangote da pessoa olhar o que ela está lendo, o que ele está
      escrevendo. Entendeu? Só que as pessoas querem fazer isso com a
      gente, é difícil. (Idem, ibidem)</p>
    </disp-quote>
    <p>Durante o trabalho de campo, presenciei encontros entre polícia e
    população em diferentes situações, interações com sujeitos ligados
    ou não às práticas criminosas, segundo classificações dos policiais.
    A população do bairro Vermelho era lida pelos policiais da cidade
    como profundamente marcada pela presença direta e indireta com
    práticas criminosas. O morador, sobretudo os jovens, é visto como um
    potencial “envolvido” ou familiar ou amigo de algum outro morador
    ligado às práticas criminosas. Essas representações dos policiais
    sobre esse território e sua população em particular afeta o tipo de
    relacionamento que a polícia constrói.</p>
  </sec>
  <sec id="processos-de-construção-da-suspeita">
    <title><bold>2.2. Processos de construção da suspeita</bold></title>
    <p>Iniciarei esta seção reproduzindo um trecho extraído do diário de
    campo:</p>
    <disp-quote>
      <p>“Durante o translado para o atendimento de ocorrência de
      violência doméstica havia cinco jovens, concentrados em torno de
      um carro, com motos ao lado, que olharam desconfiados a passagem
      da viatura. O comandante da equipe de policiais, o SD Baptista
      comentou, “aí uma situação boa de abordagem”, O motorista Jáder
      perguntou se ele queria abordá-los, eles hesitaram e a viatura
      seguiu em direção à ocorrência” (Nota de campo, junho de 2012)</p>
    </disp-quote>
    <p>Tudo se passa como se, nas rotinas de patrulhamento da cidade,
    construir a suspeita sobre alguém envolvesse reunir indícios para
    elaboração de um processo de acusação informal com maior brevidade
    possível. Desde a formação inicial do policial, esse aspecto do
    processo de construção da suspeita é fortemente demandado. Em
    territórios como a Área X, constituída de bairros periféricos
    estigmatizados como violentos a quantidade de abordagens
    desempenhadas é
    significativa<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>.</p>
    <disp-quote>
      <p>A suspeita, ela se funda, infelizmente, no estereótipo, aquela
      pessoa de tatuagem, na maioria das vezes, até por que, embora nem
      todos tenham envolvimento, mas grande parte tem. Não sei se,
      felizmente ou infelizmente, o local que ele está, às vezes, é
      suspeito. Por exemplo, no bairro Vermelho ali tem trechos que a
      gente sabe que ocorre o tráfico de drogas, uma pessoa que tá
      naquele local ali é suspeito, ou como usuário ou como traficante.
      A suspeita se dá pelo local, às vezes, pela vestimenta, não assim,
      que uma pessoa que tá com camisa longa e calça folgada vai ser
      sempre suspeita, mas com base em informações, por exemplo, ocorreu
      um assalto e um indivíduo com essas características aí,
      possivelmente, tá armado, né? Ou que, às vezes de histórico. Houve
      um tempo que ocorreu vários assaltos de um indivíduo de capacete
      rosa, há umas três semanas. Quer dizer, não é a pessoa, é o
      conjunto de informações de ocorrências anteriores, que indivíduos
      com aquelas características cometeram o crime. (Dado verbal, SD
      Garcia, entrevista realizada em julho de 2012, grifos do
      autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>Fundar a suspeita é sempre uma relação de inferência, com base na
    possibilidade de “envolvimento com o crime” do morador suspeito. São
    formas diferentes de realizar o “teatro de operações”, baseado no
    conhecimento do policial da área. Seja através da leitura corporal
    do morador (de acordo com o imaginário, a intuição e experiência
    acumuladas), através das informações repassadas nos meios de
    comunicação disponíveis (seja pelo rádio, pela descrição dada por
    algum morador), ou, ainda, combinando essas possibilidades.</p>
    <p>A corporeidade é adicionada de outros elementos, à medida em que
    diz respeito às tipificações diferenciadas de tipologias criminais.
    Os casos relacionados aos crimes envolvendo tráfico de drogas e
    porte de armas de fogo ou brancas são mais estritamente
    esquadrinhados com base na construção policial de um corpo suspeito,
    absorvendo fortemente estereótipos sociais e o racismo, como
    observado em estudos anteriores (RAMOS, MUSUMECI, 2005).</p>
    <disp-quote>
      <p>A fundada suspeita, ela principia pela denúncia, né? Mas pode
      acontecer sem ela, com apenas o trabalho de patrulhamento, quando
      a gente identifica o indivíduo, ela vem de várias formas. Por
      exemplo, a expressão de quase 90% do ser humano é a expressão
      corporal, né? Então, a partir do momento que você nota alguém,
      apressa o passo, entendeu? Ela tenta se evadir do local ou de
      repente joga algo, tenta esconder algo que pode ser uma droga.
      Então assim é fundamentada uma suspeita. Outro exemplo também de
      indivíduo na moto, né? Utilização de viseiras, né? A questão de
      placas de motos alteradas, tudo é uma soma. Só que a gente tem uma
      coisa, tem que pensar rápido, porque de repente um elemento desse
      que está sob a fundamentada suspeita ele tenta ludibriar a
      composição, ele só vai culminar a fundamentar a suspeita quando
      ele percebe que ele vai ser abordado. Então isso é rotineiro.
      Quando a viatura percebe um elemento que ele está cometendo
      assalto na área, ele está armado, mas ele não demonstra, mas a
      partir do momento que ele vai sentir que vai ser abordado ai ele
      já... ele se denúncia. Empreendendo fuga, dispensando uma arma.
      Então é mais por isso aí. Esse tema aí depende mais da perspicácia
      do policial, entendeu? O policial olhar bem o semblante do olho
      dele assim e vê se denuncia alguma coisa. Aí ele vai somando, é
      aquela coisa, ele tem que pensar rápido e aí aborda? Aí tem a
      questão do elemento surpresa. São inúmeras coisas que influenciam
      não só a fundamentar a suspeita, mas a própria relação da prática
      da abordagem policial, da cautela na abordagem, da composição. São
      dois, são três homens, como eles vão se comportar no momento da
      abordagem, então são inúmeras coisas. Mas o termo perspicácia é o
      que é isso aí, o que vai determinar é isso aí. Tem policial que
      ele não vai conseguir identificar uma fundamentada suspeita,
      entendeu? Mas vai ter aquele outro policial que vai identificar
      inúmeras, entendeu? Aí em cima disso ele vai querer fazer a
      abordagem. (Dado verbal, entrevista realizada em julho de 2012 com
      o Soldado Ben, grifos do autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>Existem fortes relações entre o conhecimento tradicional da
    polícia e o conhecimento cotidiano construído pelos policiais nas
    ruas. Neste sentido, os arquivos policiais constituídos enquanto
    saber-poder sobre regularidades criminais serve de fundamentação
    para a construção de um perfil social do criminoso. Esse perfil está
    profundamente eivado do recorte racial e de categorias morais e é
    utilizado como critério de seleção na execução do mandato policial.
    O relato do SD Ben prossegue, remontando as camadas simbólicas
    constituintes da fundação da suspeita que culminam no flagrante de
    práticas criminosas.</p>
    <disp-quote>
      <p>Estava com meu parceiro e a gente estava percorrendo as
      mediações da rua tal do bairro Vermelho. Então, nós já sabíamos
      que havia ali uma... Uma... Através de denúncia já é alguns
      elementos que ficavam naquela área ali, que eram traficantes e aí
      a gente andava nesse quarteirão já com toda a atenção. Aí a gente
      se deparou uma situação de se deparar com dois elementos em uma
      moto, dois elementos em uma moto, pararam, entendeu? E mais, uns
      dois elementos em conversação, e quando eles notaram que a viatura
      estava se aproximando, eles tentaram ligar a moto para sair do
      local, ou seja, já fundamentou alguma coisa ali. (Dado verbal,
      entrevista realizada em julho de 2012 com o soldado Bem, grifos do
      autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>A precipitação corporal dos suspeitos converteu-se na leitura de
    uma “tentativa de fuga” na percepção dos PM, sendo o suficiente
    disparador simbólico da ordem de parada.</p>
    <disp-quote>
      <p>Por que eles queriam sair dali quando a viatura estava
      chegando? E, também, que a gente já tinha informações, que aquela
      área já tinha problemáticas de elementos que andavam suspeitos,
      né? Então, em cima disso a gente resolveu dar voz de parada na
      moto com dois elementos e os dois que estavam conversando com os
      mesmos. Aí, a partir daí, a gente identificou mais alguns
      adolescentes na calçada e uns dentro de casa, porque a porta
      estava aberta, né? A abordagem foi feita em casa, mas de frente a
      calçada eram os mesmos que estavam naquela residência, avistamos
      os mesmos entre eles, as mesmas pessoas. Então, eu acho, assim, na
      faixa de uns cinco elementos na parede já eu questionei os mesmos
      a saírem da residência para a realização da abordagem, haja vista,
      uma certa suspeita, porque eles estavam juntos, né? Então fiz isso
      e ficamos com sete elementos na parede. (Dado verbal, entrevista
      realizada em julho de 2012 com o soldado Bem, grifos do autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>Ao construir a seleção dos “alvos” para abordagem, por estarem em
    desvantagem numérica, com apenas dois policiais, renderam os
    suspeitos e pediram reforço de outra viatura. A interação tornou-se
    ocorrência policial na medida em que os agentes colecionaram
    indícios e aumentaram a percepção da complexidade criminal da
    situação.</p>
    <disp-quote>
      <p>E tudo vai se somando uma série de fatores, como? Na hora de
      entrar na sala, eu identifiquei que tinha bebidas e alguns
      resquícios de entorpecentes, de cocaína, e algumas viseiras, fumês
      sobre o chão da sala, né? Então, vários elementos numa casa,
      entorpecentes e viseiras fumês? Então, no mínimo, eles estão
      fazendo, deviam está fazendo assalto e estavam gastando o dinheiro
      do assalto dentro daquela residência, né? Então, você já começa a
      fundamentar, né? Então, o que foi que eu fiz? A gente adentrou até
      o quarto e identificamos mais um elemento. Ou seja, tinha um
      elemento que estava dentro do quarto, que estava armado que
      poderia agir contra a composição, entendeu? Você faz todo um
      levantamento. A casa, ela não tinha saída pelos fundos, entendeu?
      Ou seja, não podia saia pela frente. Então, ele ficou ali perto,
      naquele quarto. Mas, como a gente teve a decisão de adentrar a
      casa, identificou ele. Foi para fora da residência e feita a busca
      também. Aí, ao realizar a varredura dentro da casa identifiquei
      uma arma, um holsters 38, inclusive, com a numeração raspada.
      Então, são justamente essas coisas que falo “direitos dos manos” e
      tudo. Imagine só um elemento desse. Na lei, uma numeração de arma
      raspada não cabe fiança, mas imagina aí, eu passar em menos de uma
      semana identificar o mesmo elemento, entendeu? Dado verbal,
      entrevista realizada em julho de 2012 com o soldado Bem, grifos do
      autor)</p>
    </disp-quote>
    <p>No relato, há um repertório policial utilizado para organizar o
    sentido do que é encontrado na medida em que, os policiais estão se
    deslocando num suposto “campo inimigo”. Os policiais utilizam certas
    expressões para descreverem o que eles entendem como ineficiência do
    sistema de justiça criminal em punir os crimes flagrados por
    operações como a descrita. Essas percepções são, ao mesmo tempo, um
    elemento de frustração pessoal com a atividade laboral, por um lado,
    e a justificativa moral para o uso de punições ilegais como forma de
    compensar essa ineficácia. Nessas narrativas emergem, ainda, as
    possibilidades imaginativas do que poderia “dar errado”, causando
    acidentes e a morte dos policiais. É sob esse emaranhado descritivo
    de ações deliberadas e planejadas nas maneiras de fazer dos
    policiais que se produzem interações, abordagens o flagrante e as
    produção social da
    incriminação<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>.</p>
    <p>Estas interações revelam a dinâmica das respostas da polícia às
    situações, com as quais, se depara em seu cotidiano, quando, em
    interação com moradores da área em que atuam. Elas estão
    entrecruzadas às interpretações do outro, com base na produção de
    escalas acusativas. Em alguns casos, esses mesmos procedimentos
    podem promover a leitura errada dos acontecimentos, podendo culminar
    em precipitações de abordagens sem sentido, não enquadramento do
    delito, e, em casos mais extremos, precipitação da violência letal,
    como veremos a seguir.</p>
    <p>Com base na elucidação da dimensão relacional e situacional das
    interpretações de atitudes suspeitas de moradores, empreendida seja
    de maneira individual, seja de maneira coletiva durante o
    patrulhamento de rua, deter-me-ei, aqui, a alguns dados etnográficos
    de pesquisa. As descrições acrescentam novas dimensões importantes
    das interações analisadas.</p>
    <p>Passava-se das duas da manhã e a dupla de soldados Cain e Duarte
    acabava de ter realizado uma perseguição contra dois jovens que,
    deslocando-se em duas motocicletas, empreenderam fuga da viatura em
    alta velocidade, despistando os policiais seguindo em direções
    opostas do bairro Vermelho. Este fato instalou o clima de tensão na
    viatura, elevando a adrenalina dos PM. Percebi isto pelo tom da
    conversação entre os policiais após perderem de vista os suspeitos.
    Depois disso, seguiu-se a completa ausência de movimento nas ruas
    dos bairros da área, os encontros com outras pessoas dos bairros
    tornaram-se, extremamente, raros.</p>
    <p>Não mais que, minutos após o ocorrido, surgiu uma moto em
    velocidade média à frente da viatura, até então, o fato não fora
    considerado nada demais. Eis que o piloto vestido no capacete, por
    duas vezes olha para trás, enfia a mão em um dos bolsos retirando um
    objeto de cor preta. A ação do morador foi suficiente para que o
    soldado Cain, motorista, sacasse sua arma posicionando-a pela parte
    interna do para-brisa do carro mirando em direção ao suspeito. Por
    sorte, no reflexo o soldado Duarte avisou ser um celular, o objeto
    sacado pelo morador, impedindo a efetuação dos disparos contra o
    motociclista.</p>
    <p>A percepção errada do policial por muito pouco não precipitou o
    recurso à violência letal. Esse tipo de interação revela situações
    em que diferentes percepções dos policiais sobre as ações de
    moradores podem ter degraus de complexidade que, por sua vez,
    desencadeiam em diferentes graus os recursos de ação disponíveis aos
    policiais. A reação do policial não é simplesmente um ato
    deliberado, e sim, uma ação situada.</p>
    <p>A eficácia social das crenças e imaginações dos policiais por
    meio do teatro de operações no cotidiano desses sujeitos constrói
    essas situações como momentos críticos de sobrevivência. Nos manuais
    orais da profissão, desconsiderar que a vida está em jogo a cada
    lance, que surpresas acontecem e podem resultar na morte do policial
    é uma habilidade de concentração que se perdida pode ser fatal. Como
    referência, os policiais compartilham diferentes casos em que a
    desatenção provocou esse resultado.</p>
  </sec>
</sec>
<sec id="considerações-finais">
  <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
  <p>Este artigo buscou explorar os processos simbólicos que revelam a
  escolha subjetiva durante desempenho da atividade policial em rotinas
  de patrulhamento, considerando o ponto de vista dos policiais
  militares. A partir de categorias nativas e registros etnográficos,
  analisamos como essas expressividades, percepções e práticas são um
  importante elemento das formas de estabelecimento de vínculos e
  relações com a população e seu território, especialmente sobre a
  relação dos agentes policiais com as suas clientelas, respondendo às
  demandas da população e realizando a gestão informal dos conflitos e
  da criminalidade. A interação entre polícia e população parece estar
  profundamente atrelada a processos simbólicos de construção da
  suspeita e utilização de recursos materiais e simbólicos para o
  desempenho do patrulhamento e, nesse sentido, se apresenta como um
  aspecto importante para a compreensão das práticas policiais.</p>
  <p>O uso simbólico do teatro de operações pelos policiais militares
  revela um cenário de interações com a população que precisa ser melhor
  compreendido. No interior dessas complexas simulações imaginativas, há
  uma análise combinatória possível de encontros entre polícia e
  população, em alguns casos as linhas de interação podem produzir
  situações de abuso de poder, do uso precipitado da violência letal e
  até mesmo a produção de provas ilícitas contra pessoas. Como também,
  de outra perspectiva, podem desencadear a resolução de conflitos, o
  flagrante de práticas criminosas e a construção de relações e
  confiança entre polícia e população. Obviamente, esses processos podem
  ocorrer em maior ou menor intensidade dependendo do engajamento desses
  profissionais com a “busca de ação”, conforme exploramos ao longo do
  trabalho. Alguns elementos aqui abordados, não são meramente
  particularidades singulares, mais identificam aspectos importantes das
  ações policiais em outros contextos, sinalizando, dessa forma, padrões
  compartilhados pelos policiais militares em suas ações cotidianas na
  produção de práticas com base nas localidades onde atuam.</p>
  <p>O investimento no policiamento ostensivo em diferentes entes da
  federação é encarado muitas vezes como uma forma de reconhecimento e
  valorização dessa modalidade de trabalho policial e uma resposta aos
  apelos da população contra a sensação de insegurança decorrente da
  expansão da violência nos grandes centros urbanos. Trata-se de uma
  combinação perigosa entre a disposição da instituição policial e seus
  servidores de assumirem uma postura para o confronto com os “bandidos”
  e o apoio social para esse confronto.</p>
  <p>De acordo com Schlittler (2016), as orientações e direcionamentos
  das políticas de segurança pública enfocando o policiamento ostensivo
  como a principal estratégia, têm gerado como efeitos perversos o
  aumento nas taxas de aprisionamento e de letalidade policial. Como
  questão adicional, esse enfoque não tem conseguido controlar os
  indicadores de violência urbana e a sensação de insegurança da
  população. O que tem sido observado é o fenômeno da crise de confiança
  do público na polícia, o que coloca desafios para a legitimidade e a
  autoridade dos policiais que estão na linha de frente dessa
  política.</p>
  <p>Um dos dados trazidos pelo seu estudo é que essa centralidade tem
  reforçado certos padrões no perfil criminal das prisões em flagrante,
  que se reflete no perfil social da população carcerária e das vítimas
  de letalidade policial<xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref> –
  observados através de marcadores como idade, raça, cor e classe - e
  elevado número de mortes em decorrência de intervenções policiais.
  Trata-se de um paradoxo: a ampla adoção de políticas ligadas ao
  policiamento ostensivo continua sendo a principal escolha em
  diferentes Estados da Federação mesmo com a contínua evolução das
  taxas de homicídios por 100 mil habitantes, a expansão do tráfico
  ilegal de drogas, aumento de crimes patrimoniais e aumento da
  letalidade em ações policiais e nas taxas de vitimização policial.</p>
  <p>Explorarmos neste o modo como o uso da força, de técnicas de
  mediação de conflito, técnicas do corpo para abordagem policial,
  elaboração da suspeita, ganham sujeitos, situações e práticas e
  exploram elementos descritivos que merecem novos estudos sobre as
  práticas policiais na sociedade brasileira. Esses são aspectos
  fundamentais para compreender o campo espinhoso de produção de
  relações de confiança entre polícia e população, especialmente a grave
  crise de legitimidade por que passam essas instituições. Nesse
  sentido, fornece aspectos para repensar os fundamentos da legitimidade
  policial levando em consideração o ponto de vista dos policiais e os
  processos sociais que o modelam na vida social.</p>
  <p><bold>REFERÊNCIAS</bold></p>
  <p>BARREIRA, C. <bold>Cotidiano Despedaçado</bold>: Cenas de uma
  violência difusa. Fortaleza: Pontes, 2008.</p>
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  segurança pública. <bold>São Paulo em Perspectiva</bold>, São Paulo,
  v. 18, n. 1, p. 77-86, 2004.</p>
  <p>BRETAS, M. L. <bold>Ordem na cidade</bold>: O exercício cotidiano
  da autoridade policial, 1907-1930. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.</p>
  <p>BITTNER, E. <bold>Aspectos do Trabalho Policial</bold>. São Paulo:
  Edusp, 2003.</p>
  <p>BRASIL, M. G. M.; SOUSA, E. B. L. de. Resistências às mudanças na
  corporação policial: a experiência do programa Ronda do Quarteirão no
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  Fortaleza-CE, n. 15, p. 97-109, jan./jun. 2010.</p>
  <p>FBSP – Fórum Brasileiro de Segurança Pública. <bold>Anuário
  Brasileiro de Segurança Pública</bold>: 2019<italic>.</italic>
  Brasília, 2019.</p>
  <p>GEERTZ, C. <bold>O Saber local</bold>: novos ensaios em
  antropologia interpretativa. Tradução de Vera Mello Joscelyne.
  Petrópolis: Vozes, 1997.</p>
  <p>GOFFMAN, E. <bold>Ritual de interação</bold>: Ensaios sobre o
  comportamento face a face. Tradução de Fábio Rodrigues Ribeiro da
  Silva. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>
  <p>______. <bold>A apresentação do eu na vida de todos os dias</bold>.
  Tradução de Miguel Serras Pereira. Lisboa: Relógio D'Água, 1993.</p>
  <p>MUNIZ, J. de O. A crise de identidade das polícias militares
  brasileiras: dilemas e paradoxos da formação educacional.
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  1, p. 177-198, jan. 2001.</p>
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  ser”</bold>: cultura e cotidiano da Polícia Militar do Estado do Rio
  de Janeiro. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Instituto
  Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro,
  1999.</p>
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  <p>PINHEIRO, P. S. Polícia e crise política: o caso das polícias
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  1982.</p>
  <p>RAMOS, S.; MUSUMECI, L. <bold>Elemento Suspeito</bold>: abordagem
  policial e discriminação na sociedade do Rio de Janeiro. Rio de
  Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.</p>
  <p>SÁ, L. <bold>Os Filhos do Estado</bold>: auto-imagem e disciplina
  na formação dos oficiais da Polícia Militar no Ceará. Rio de Janeiro:
  Relume Dumará: Núcleo de Antropologia da Política/UFRJ, 2002.</p>
  <p>______. A condição de 'bichão da favela' e a busca por
  'consideração': Uma etnografia de jovens armados em favelas à beira
  mar. <bold>Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e Controle
  Social</bold>, Rio de Janeiro, v. 4, n. 2, p. 339-355, 2011.</p>
  <p>______.; SANTIGO NETO, J. P. Entre tapas e chutes: um estudo
  antropológico do baculejo como exercício de poder policial no
  cotidiano da cidade. <bold>O Público e o Privado</bold> , Fortaleza,
  n. 18, jul./dez. 2011.</p>
  <p>SCHLITTLER, M. C. Matar muito, prender mal”: a produção da
  desigualdade racial como efeito do policiamento ostensivo militarizado
  em SP. <bold>Tese (Doutorado em Sociologia)</bold>. UFSCar, São Paulo,
  2016.</p>
  <p>SCOTT, M. B.; LYMANN, S. M. Accounts. <bold>Dilemas: Revista de
  Estudos de Conflito e Controle Social</bold>, Rio de Janeiro, v. 2, n.
  2, 2009.</p>
  <p>SKOLNICK, J.; BAYLEY, D. H. <bold>Policiamento Comunitário</bold>:
  Questões e Práticas através do mundo.1. ed. São Paulo: EDUSP,
  2006.</p>
  <p>WEBER, M. <bold>Economia e Sociedade</bold>. 4 ed., v. 1. Brasília:
  Editora UnB, 1999.</p>
  <p>______. <bold>Economia e Sociedade</bold><italic>.</italic> 4 ed.,
  v. 2. Brasília: Editora UnB, 2009.</p>
</sec>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>Nome fictício dado a uma das áreas operacionais (AOs) da Polícia
    Militar do Ceará (PMCE), localizada na cidade de Juazeiro do Norte
    onde o trabalho de campo foi realizado. Na época do estudo, este
    território era composto por três bairros estigmatizados como pobres
    e violentos pela mídia local e pela polícia, nomeados ficticiamente
    aqui de bairro Verde, bairro Vermelho e bairro Laranja.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>O marketing político em torno da promoção do “Ronda do
    Quarteirão”, implantado em 2007 em Fortaleza – CE primeiramente, o
    apresentava como composto por policiais “diferentes” dos segmentos
    mais antigos da polícia militar, propondo-se a realizar o trabalho
    mais preventivo, contudo, com o passar dos anos, acabou por assumir
    um caráter de atividade ostensiva, principalmente no atendimento à
    ocorrências policiais. Mota Brasil e Sousa (2010) observam as
    resistências dentro da corporação, sobretudo as divergências
    internas de polos divergentes sobre o entendimento do agir policial,
    um deles defensor de um patrulhamento mais preventivo e comunitário
    e outro a favor de um policiamento mais repressivo e reativo. Além
    disso enfatizam os problemas apontados por Skolnick e Bayley (2006)
    as resistências a mudanças devido à modalidade de policiamento
    tradicional e seus defensores.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>No decorrer do artigo, o uso da expressão “morador” por policiais
    foi encontrado de diferentes formas no trabalho de campo, sobretudo
    pela forma como os policiais enxergam e nomeiam as suas clientelas.
    Em virtude de o policiamento ser restrito a áreas específicas com
    caráter residencial, produz-se a associação desse estatuto. Em
    algumas passagens, o termo é sinônimo de pessoa, mas incorpora essas
    representações policiais sobre as suas clientelas no desempenho do
    mandato policial.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>No universo simbólico do policial militar o “teatro de operações”
    define o espaço físico do confronto bélico, incorporando simulações
    de possibilidades de acontecimentos no confronto com “inimigos”. Nos
    usos simbólicos dos Policiais Militares, a realização do teatro de
    operações diz respeito à dimensão pedagógica de conhecer a área e,
    conhecendo-a, simular imaginativamente possibilidades de
    acontecimentos para produzir suspeitas e antecipações disparadoras
    da agência policial.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>Sá e Santiago Neto (2011) ao discutirem as agressões físicas
    empregadas por policiais militares na cidade de Fortaleza, Ceará,
    contra jovens classificados como “vagabundos”, entendem o chamado
    “baculejo”, como um nível de punição corporal em que níveis
    assimétricos de poder estão em jogo, de um lado a polícia, de outro,
    os moradores, alvos da abordagem. Para o desempenho bem sucedido
    dessas agressões corporais, os policiais compartilham técnicas de
    castigos corporais de modo a provocar estímulos dolorosos nas
    vítimas, sem com isso deixar provas da ação cometida.</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <p>Para o antropólogo Clifford Geertz no livro “O Saber Local”
    (1997) em condições de uma “experiência próxima” propiciada na
    pesquisa, é fundamental assumir a tarefa de compreender a vida
    social do nativo com base na percepção que ele faz de si mesmo, ou
    seja, as maneiras como os contextos locais produzem o
    <italic>self</italic> dos sujeitos pesquisados. Esse esforço de
    pensar as camadas simbólicas a partir das tipologias nativas de
    policiais é um exercício analítico importante para compreender como
    os policiais percebem o que eles fazem e as maneiras como fazem o
    seu trabalho.</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <p>O turno C corresponde ao horário de 22h às 08h.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <p>“Bizu” é a denominação que, a princípio, remete a um cochicho ao
    pé de ouvido envolvendo dicas e macetes em quartéis para policiais.
    Contudo, o “bizu” é mobilizado pelos interlocutores da pesquisa como
    uma dica ou mensagem, às vezes, informações relacionadas a pessoas
    suspeitas, modelos e placas de carros suspeitos, formas de usar o
    colete, formas de segurar a arma, formas de efetuar a abordagem.</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <p>O termo remete à simulação de suspeitas envolvendo exercício do
    mandato policial. O teatro de operações consiste em simulações
    realizadas para reprimir e prevenir crimes e possíveis crimes nas
    práticas desses policiais.</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <p>O trabalho de Pinheiro, Barbosa e Sousa (2013) discorre sobre
    alguns casos de incriminação de mulheres por tráfico de drogas. Na
    cidade de Juazeiro do Norte (CE), parte significativa dos mercados
    ilícitos de entorpecentes são chefiados por mulheres. Em alguns
    casos descritos e analisados pelos autores, as esposas de
    traficantes assumem as atividades ilícitas dos parceiros no período
    de reclusão, ocorre também, do comércio ser chefiado por mulheres
    sem estas implicações de ordem familiar.</p>
  </fn>
  <fn id="fn11">
    <p>O racismo e a associação entre crime e pobreza continuam, ainda,
    sendo marcas problemáticas das ações da polícia. Não negligencio tal
    caráter, apenas, amplio do ponto de vista analítico, em razão dos
    dados produzidos em campo, os aspectos da “fundada suspeita”.</p>
  </fn>
  <fn id="fn12">
    <p>Vale ressaltar que essa é uma estratégia que concentra muita
    energia e recursos e é amplamente adotada nas rotinas do
    policiamento ostensivo na sociedade brasileira. De acordo com Risso,
    considerando apenas o contexto da Polícia Militar do Estado de São
    Paulo, estima-se a quantidade de 14 milhões de abordagem por
    ano.</p>
  </fn>
  <fn id="fn13">
  </fn>
  <fn id="fn14">
    <p>Durante o período de pesquisa, cada arma apreendida era premiada
    com uma quantia, podendo variar entre R$ 600,00 (seiscentos reais) e
    R$ 800, 00 (oitocentos reais), dependendo do tipo de armamento.</p>
  </fn>
  <fn id="fn15">
    <p>Nessa discussão, o estudo de Pinheiro (2013) realizou um
    levantamento na Corregedoria da Polícia do Ceará, seus dados revelam
    descrições dos casos de maior recorrência de denúncia de policiais
    militares e civis tipificados como: “Agressão física e moral/Ameaça
    de morte/Invasão de domicílio/Extorsão”. Durante o atendimento às
    ocorrências, caso os policiais cometam “excessos” poderão ser
    denunciados na corregedoria. É muito comum os PM serem denunciados
    no quartel da polícia local. Caso a denúncia chegue até os
    comandantes, o policial terá de prestar contas de seus atos e poderá
    ser punido, como já ocorreu com alguns interlocutores, podendo ser
    transferido, receber advertências por escrito ou preso.</p>
  </fn>
  <fn id="fn16">
    <p>Para efeito de análise, deve ser mencionado o fato de que o
    histórico das ações da polícia nesse território produz uma memória
    que impacta a atividade policial. Nesse sentido, a elaboração de
    arquivos policiais e de estatísticas de ocorrências são fatores
    decisivos para a confecção moral do estigma do território no saber
    policial.</p>
  </fn>
  <fn id="fn17">
    <p>Segundo o SD Ben, mesmo a elaboração das provas, comprovando o
    porte de arma ilegal, cuja numeração do artefato bélico estava
    raspada, não efetivaram a incriminação inafiançável do acusado. Esse
    tipo de acontecimento é, para alguns PM, produtor de insatisfação e
    desmotivação da sua atividade. É reforçada pelo dizer: “a polícia
    prende, a justiça solta”. Mesmo produzindo estratégias discursivas,
    competentes para incriminar o acusado, fazendo-o ser punido pelo
    crime cometido, as ações da polícia ostensiva foram desfeitas,
    segundo ele, na duração temporal de uma semana.</p>
  </fn>
  <fn id="fn18">
    <p>A autora aponta como o fenômeno do tirocínio (estoque de
    conhecimento dos policiais) releva o conteúdo prático da política de
    segurança, ao adotar o quadro de experiencias para definir e
    reconhecer o padrão social do bandido acaba reforçando padrões de
    desigualdade racial. Esse modelo além de não garantir uma sociedade
    mais segura e com menos índices de violência e criminalidade, expõe
    a vida da população e dos próprios policiais, de acordo com suas
    conclusões (SCHLITTLER, 2016)</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
