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<p><bold>O fim foi em Goiás.</bold></p>
<p><bold>Rito como memória do mito entre militares</bold>.</p>
<p><bold>Emanuel Souza</bold></p>
<p>Professor de sociologia no CCHSL da Universidade Estadual da Região
Tocantina do Maranhão (Uemasul)</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Maranhão
<bold>Cidade:</bold> Imperatriz/MA</p>
<p><bold>Email:</bold> emanuel@uemasul.edu.br <bold>Orcid:</bold>
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://orcid.org/">https://orcid.org/</ext-link>0000-0003-1862-8501</p>
<p><bold>Resumo</bold></p>
<p>O estudo parte de registros jornalísticos sobre a trajetória do “Novo
Cangaço”, grupo criminoso liderado por indígenas pernambucanos da etnia
Truká, e sobre seu confronto com a PMGO, para se deter na análise do
modo como a PMGO rememora os episódios deste confronto em uma Charlie
Mike (uma canção militar) durante atividade de um curso de formação de
policiais. A Charlie Mike é aqui considerada como rito de memorização da
mitologia militar onde as novas turmas são apresentadas a uma imagem
idealizada dos valores militares.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Instituição militar. Formação militar.
Mitologia militar. Canções militares.</p>
<p><bold>The end was in Goiás.</bold></p>
<p><bold>Rite as a memory of the myth among the military</bold>.</p>
<p><bold>Abstract</bold></p>
<p>The study starts from journalistic records on the trajectory of the
“Novo Cangaço”, a criminal group led by indigenous from Pernambuco of
the Truká ethnicity, and their confrontation with PMGO, to analyze how
PMGO recalls the episodes of this confrontation in a Charlie Mike (a
military song) during activity of a police training course. Charlie Mike
is considered here as a rite of memorization of military mythology where
new classes are presented with an idealized image of military
values.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Military institution. Military training.
Military mythology. Military songs.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 22/05/2020 <bold>Data de
Aprovação</bold>: 21/07/2021</p>
<disp-quote>
  <p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v.16.n2.1318</p>
</disp-quote>
<p><bold>Introdução</bold></p>
<p>No Brasil, as forças de policiamento urbano assumem caráter militar,
o que abre um persistente questionamento acadêmico e político sobre as
implicações do modelo militarizado de polícia (MUNIZ, 2001).</p>
<p>Neste ambiente, as ciências sociais brasileiras acumularam precisas
observações sobre os mecanismos institucionais que produzem os aspectos
mais característicos do militarismo das polícias e o seu tensionamento
na esfera pública.</p>
<p>As nossas polícias compartilham uma autoimagem criada nas forças
armadas, especialmente no exército, onde sua função de forças da ordem
corresponde ao posto de guardiãs da nação. Esta autoimagem ganha alcance
cosmológico, ou seja, como embate de forças morais que se organizam em
um campo positivo, o bem/ordem, e um campo negativo, o mal/desordem.</p>
<p>A proposta deste trabalho é analisar aspectos da formação e
transmissão desta autoimagem durante a socialização dos policiais em seu
ambiente de formação profissional com um recorte de estudo mais
abrangente sobre conteúdos militares em redes sociais, notadamente
Youtube.</p>
<p>A pesquisa em ambientes virtuais, como as redes sociais, se impõe na
medida em que este universo representa uma grande arena para interações
e formação de cadeias de relações as mais variadas (RAMOS, 2015).</p>
<p>Os militares também participam destes ambientes, seja para assuntos
estritamente civis, seja para a difusão ou interação com conteúdos
relacionados à experiência militar. Para esta segunda experiência é
possível observar a proliferação de perfis dedicados à produção/difusão
de conteúdos próprios, institucionais (CALDAS, 2017) ou não, um fenômeno
que merece atenção dos pesquisadores, visto que alguns destes canais
ganharam o <italic>status</italic> de verdadeiras celebridades no
ambiente das redes sociais<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>.</p>
<p>Aqui fazemos uso de apenas um destes materiais, um vídeo produzido
durante um curso de formação da Polícia Militar do Estado de Goiás,
conforme detalharemos mais adiante.</p>
<p>O material é analisado como uma performance ritual com função
educativa, ou seja, destinada a suscitar disposições valorizadas no
grupo (DURKHEIM, 2011).</p>
<p>A performance estudada é uma Charlie Mike, uma canção militar. A
análise privilegia o enredo da canção, pois nela é capturada de maneira
explícita a idealização da autoimagem das polícias sendo produzida e
reproduzida em um ambiente de formação de oficiais. O estudo consiste na
análise e contextualização dos eventos rememorados na Charlie Mike.</p>
<p>Para estes objetivos estruturamos a apresentação com esta introdução,
seguida de uma discussão do ambiente de socialização militar nas
academias de polícia, com ênfase na PMGO, objeto deste estudo. Em
seguida é discutido o que é uma Charlie Mike, para depois contextualizar
a Charlie Mike sobre os irmãos Truká e posterior análise. Ao final são
indicados alguns desdobramentos possíveis no estudo das Charlie
Mike.</p>
<p><bold>A socialização militar</bold></p>
<p>Embora nosso objetivo seja diretamente relacionado ao caráter
simbólico de certas práticas da instituição militar, gostaria de fazer
um intercurso pelo estudo do Prof. Agnaldo Silva (SILVA, 2012) sobre a
formação de policiais nos cursos da Academia Militar da PMGO. Este
estudo nos interessa em especial porque aborda a instituição onde se
promoveu o rito que vamos estudar mais adiante.</p>
<p>Em seu estudo sobre o processo de socialização de
<italic>praças</italic>, os policiais “pontas de lança”, encarregados de
atender diretamente as ocorrências, Silva (2012, p. 17) explorou as
peculiaridades do processo de formação de praças na Academia Militar da
PMGO, considerando que ali o relacionamento direto e constante entre
oficiais e praças e aspirantes a praças permite a observação mais
precisa dos processos de socialização engendrados pela instituição
militar.</p>
<p>Sua investigação revela um empreendimento institucional de
socialização articulado em torno de princípios de racionalização das
condutas com vista à interiorização de dois valores estruturantes da
vida militar: a hierarquia e a disciplina, ambas em uma ambiência de
regras que oferecem uma legitimidade institucional pela via do estatuto
burocrático, muito embora quando tais regras estatutárias escritas
entram em choque com os referidos valores, eles se sobrepõem às regras
(SILVA, 2012, p. 19), de maneira que torna-se de enorme valor explorar a
socialização militar a partir da transmissão destes
valores<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>.</p>
<p>A hierarquia militar se faz através de um ordenamento de grupos com a
atribuição de patentes em dois grandes conjuntos (Praças e Oficiais),
também eles hierarquizados em segmentos menores; são eles, em ordem
ascendente: Praças: Soldado, Cabo, 3° Sargento, 2° Sargento e 1°
Sargento; Oficiais: 2º Tenente, 1º Tenente, Capitão, Major,
Tenente-Coronel e Coronel (SILVA, 2012, p. 16).</p>
<p>De acordo com isso, o processo de socialização dos indivíduos na
polícia militar visa padrões de interação em que indivíduos e grupos
estejam ordenados na condição de comandantes e comandados.</p>
<p>O princípio hierárquico, entretanto, é complementado pela disciplina,
aspecto que corresponde a um indicador mais exato de incorporação ao
universo militar, “um termômetro que registra o índice de internalização
de valores e preceitos militares” (SILVA, 2012, p. 79).</p>
<p>Assim, “a visão que o policial tem de si mesmo é a de que ele
participa de uma formação distinta da educação dada aos civis. O
policial tende a enxergar a si mesmo como um ser capaz de um
autocontrole inatingível pelos civis” (SILVA, 2012, p. 20-21).</p>
<p>Durante sua pesquisa na Academia Militar da PMGO, Silva (2012, p. 21)
percebeu recorrentes referências ao “paisano folgado”, palavra usada
para se referir aos civis que, neste contexto, ganha um sentido
depreciativo, onde “folgado” aparece como mero reforço da condição de
“paisano”, ou seja, civil.</p>
<p>Como produto de semelhante socialização,</p>
<disp-quote>
  <p>policiais constroem estereótipos e modelos de comportamento para as
  pessoas da comunidade, baseando-se nos valores militares, os quais são
  intensamente enfatizados durante o curso de formação, tendendo a
  pautar a conduta dos policiais militares ao longo de suas carreiras.
  Neste sentido, esperam que os civis não se comportem como paisanos
  folgados, mas como pessoas disciplinadas e obedientes, como
  presumivelmente ocorre no quartel. Tais expectativas, geralmente, não
  correspondem às práticas e representações dos civis, gerando um
  desnível de comunicação e uma tensão nas relações entre polícia e
  comunidade resultando frequentemente em violência policial. (SILVA,
  2012, p. 21)<italic>.</italic></p>
</disp-quote>
<p>Isso indica que a socialização militar envolve mais que a formação de
competências profissionais, pois visa a totalidade do indivíduo, seu
corpo, seus valores, ou como sintetizou um dos alunos do curso de
formação de soldados entrevistados pelo Prof. Agnaldo Silva, “não
importa se o policial está de farda ou não, ele é polícia 24 horas por
dia” (SILVA, 2012, p. 79).</p>
<p>Esse sentimento do aluno da PMGO ecoa para além de sua instituição,
pois serve como exemplo perfeito à definição de carreira militar dada
pela Secretaria Geral do Exército, para quem:</p>
<disp-quote>
  <p>A carreira militar não é uma atividade inespecífica e descartável,
  um simples emprego, uma ocupação, mas um ofício absorvente e
  exclusivista, que nos condiciona e autolimita até o fim. Ela não nos
  exige as horas de trabalho da lei, mas todas as horas da vida, nos
  impondo também nossos destinos. A farda não é uma veste, que se despe
  com facilidade e até com indiferença, mas uma outra pele, que adere à
  própria alma, irreversivelmente para sempre. (MIRANDA, 2018, p.
  29).</p>
</disp-quote>
<p>Esse uso dos princípios da hierarquia e da disciplina para o
ordenamento das relações entre indivíduos e grupos durante a
socialização nos cursos de formação de soldados corresponde à ambição de
reproduzir, no nível da experiência concreta, um ideal de ordem, modelo
da vida militar, em oposição à vida civil.</p>
<p>Sendo, entretanto, preparado para trabalhar em meio a civis, “o
policial militar cria uma expectativa de comportamento e respeito do
civil mais ou menos idêntica à expectativa criada na relação entre
oficiais e praças ou entre superiores e subordinados” (SILVA, 2012, p.
89).</p>
<p>Especificamente, “nas relações internas, entre superiores e
subordinados, espera-se dos subordinados uma completa submissão a qual,
não sendo atendida, é tratada como insulto ao superior hierárquico”
(SILVA, 2012, p. 89).</p>
<p>Por óbvio, a própria existência da polícia e das forças militares em
geral supõe um espaço social além dos quartéis, onde os valores
militares não ocupam papel central, e que é o lugar onde ocorre o crime,
visto como prática de indivíduos e grupos que são os antípodas morais da
instituição militar.</p>
<p>Ou seja, os princípios da hierarquia e disciplina compreendem
verdadeiros sustentáculos de uma cosmologia ordenada em polos de
ordem/bem e desordem/mal (crime), na qual os militares se veem como
garantidores do primeiro polo e os criminosos como agentes do
segundo.</p>
<p>Os soldados em formação, entrevistados pelo Prof. Agnaldo Silva,
revelaram, por exemplo, que a sociedade deveria seguir a mesma
disciplina da polícia militar, pois somente assim seria possível pensar
em erradicar a criminalidade. Mais ainda, que leis mais rígidas e penas
mais severas, ao lado da ação da polícia militar, estariam concorrendo
para a construção de uma sociedade mais justa, sem crimes e criminosos;
boa e ordeira, em síntese, onde</p>
<disp-quote>
  <p>todas as mínimas contravenções deveriam ser punidas, todos assim
  teriam respeito. Desde o camarada que cospe no chão, até o camarada
  que fuma maconha, até quem é mendigo, quem pede nas ruas, todas estas
  pequenas contravenções deveriam ser punidas (SILVA, 2012, p. 109).</p>
</disp-quote>
<p>Este é o caso das pequenas contravenções. Quanto ao criminoso, ele
está para além do humano, de modo que “bandido tem que ser erradicado.
Você entendeu? Caça um jeito aí. É cadeira elétrica, fuzilamento em
praça pública. Eu sou a favor disso aí, cara” (SILVA, 2012, p. 107).</p>
<p>A ideia central que queremos sustentar é que os diversos, pequenos e
difusos mecanismos que o Prof. Agnaldo Silva viu serem usados para
inculcação e controle durante os cursos de formação militar, e que se
estruturam através dos princípios da hierarquia e disciplina, se
articulam em uma dimensão mais ampla onde se elabora uma verdadeira
cosmologia, e que é esta quem, ao fim, dá sustentação à instituição
militar.</p>
<p>Vimos isto nas falas dos alunos ouvidos pelo Prof. Agnaldo Silva e
podemos encontrar também em pequenos atos do processo de socialização
dentro da academia militar, como as chamadas “Charlie Mike”, que
passamos a analisar.</p>
<p><bold>Charlie Mike, canções militares</bold></p>
<p>Charlie Mike são canções militares. A designação é corrente entre
militares e surge da aplicação de um código internacional de comunicação
militar, o Código Quebec, cujo uso, quanto a estes dois códigos, opera
mediante o uso da palavra Charlie para substituir qualquer palavra
iniciada com a letra C, e a palavra Mike substitui qualquer palavra
iniciada com a letra M<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>.</p>
<p>O uso do código é contextual, servindo para indicar quaisquer
palavras ou conjunto de palavras que iniciem com as letras/palavras.
Assim que Charlie Mike será “Canção Militar” quando usado para referir
às canções que acompanham os procedimentos de execução de marchas e
outros exercícios físicos coletivos. Mas o termo pode ser usado para
indicar qualquer combinação de duas palavras na qual a primeira inicia
com a letra C (de Charlie) e a segunda com a letra M (de Mike).</p>
<p>As Charlie Mike se encaixam facilmente naquilo que Durkheim chamou de
ritos positivos com caráter representativo e comemorativo. Tais ritos
servem para preservar a fisionomia moral da coletividade, consistindo em
rememoração do passado reverberando a memória mitológica do grupo
(DURKEHIM, 2016, p. 46-47).</p>
<p>Celebração coletiva em forma de cânticos que acompanham e reforçam
atividades físicas (GUILARDI; COSTA, 2018), as Charlie Mike são,
portanto, ritos de comunicação da memória da mitologia militar e, nesta
condição, elemento fundamental para a socialização militar.</p>
<p>Queremos ilustrar isto analisando uma Charlie Mike que foi levada ao
site e aplicativo de compartilhamento de vídeos YouTube no dia 28 de
abril de 2018 no canal “marovisk” com o título de “Charlie Mike - Novo
Cangaço”. Vale ressaltar que este ambiente virtual funciona como espaço
privilegiado para produção e reforço de subjetividades e nesta condição
é uma arena à espera de maiores explorações dos cientistas sociais
(RAMOS, 2015).</p>
<p>Esta Charlie Mike é particularmente apropriada para análise do rito
como memória da mitologia militar porque foi registrada durante o 17º CO
ROTAM da PMGO, Curso Operacional em Rondas Ostensivas Táticas
Metropolitanas, que foi realizado entre abril e junho de
2018<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> e narra eventos havidos entre
janeiro e maio de 2017, menos de um ano, portanto.</p>
<p>Isto parece ser revelador de como a instituição é rápida em
selecionar certos feitos e transformá-los em Charlie Mike, ou seja, em
elementos de idealização de sua autoimagem. É importante notar isto
porque o que temos ali é uma transfiguração de eventos recentes, quase
contemporâneos, em atos heroicos que se integram à mitologia militar
reproduzida no contexto dos processos de socialização para a formação
militar.</p>
<p>Antes de explorar esta Charlie Mike, vamos primeiro dar algum
contexto aos eventos que a instituição militar selecionou para a
produção desta canção militar.</p>
<p><bold>A história dos trukás, saíram de Assunção para
aterrorizar</bold></p>
<p>No dia 04 de maio de 2017, Carlos Jardiel de Barros Dantas, um
indígena da etnia Truká, de 41 anos, natural de Cabrobó/PE, também
conhecido como Jardiel Cabeção, foi morto numa operação policial
especial envolvendo as polícias de, pelo menos, quatro estados e mais a
Polícia Federal<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>.</p>
<p>No dia 17 de maio de 2017, o irmão de Jardiel, Jean Carlos de Barros
Dantas, também conhecido como Bereberê, foi morto na cidade mineira de
Montes Claros em uma grande operação envolvendo várias unidades da
PMMG<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>.</p>
<p>Carlos Jardiel, ou, Jardiel, simplesmente, era, na ocasião de sua
morte, líder de uma quadrilha de assalto a bancos e carros de transporte
de valores conhecida como “Novo
Cangaço”<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>. Segundo o porta-voz da
PMGO, Jardiel era o maior assaltante de bancos do
país<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>. Com a morte de Jardiel, Jean
assumiu a liderança da quadrilha.</p>
<p>Os irmãos Dantas tinham, portanto, uma longa atividade de crimes. Já
chamavam a atenção da imprensa desde, pelo menos, o ano de 2003, quando
Jardiel era notícia em matéria que relatava os impactos devastadores do
Comando Vermelho no chamado Polígono da Maconha, em Pernambuco,
provocando convulsão entre os 4 mil índios Trukás moradores da reserva –
que se estende no arquipélago formado pela Ilha de Assunção e mais 72
ilhas menores localizadas no Rio São Francisco, no município de
Cabrobó/PE.<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref></p>
<p>Naquela oportunidade, Jardiel liderava um grupo de índios que fazia o
plantio de maconha dentro da reserva dos Trukás. Isso era reprovado e
combatido por um grupo liderado pelo cacique Ailton dos Santos, o Issó.
Entre os parceiros do cacique estavam os irmãos João Batista Gomes
Rodrigues e Antônio Roberto Gomes Rodrigues, que haviam destruído
algumas plantações controladas pelo grupo de Jardiel. A resposta veio
com o assassinato dos irmãos Rodrigues.</p>
<p>Por esse crime, Jardiel havia recebido uma sentença de nove anos de
prisão e estava sendo procurado pela Polícia Federal. No ano anterior,
2002, Jardiel já havia sido preso na cadeia de Cabrobó/PE, mas foi
resgatado em ação ousada dos seus liderados.</p>
<p>Em 2003, Jardiel era então um jovem de 25 anos. O que nos interessa
aqui, no entanto, é que o amadurecimento de Jardiel se fez no
deslocamento em direção a outras atividades criminosas, especialmente, o
ataque a bancos e elementos associados (caixas eletrônicos, carros de
transportes de valores etc.), movimentando grandes somas de dinheiro,
mas sempre com o mesmo padrão de ousadia e violência com que fugiu da
prisão em Cabrobó em 2002 e aterrorizou a Ilha de Assunção em 2003.</p>
<p>Neste ponto podemos seguir até a noite do dia 22 de janeiro de 2017,
quando o bando liderado por Jadiel, atacou a cidade baiana de Bom Jesus
da Lapa e explodiu um banco por volta das 23h. Foram impedidos, no
entanto, por três policiais que sustentaram um tiroteio contra o
grupo.</p>
<p>Os policiais Gilberto Lemos Silva Júnior e Everton Oliveira de
Santana, ambos de 26 anos, foram mortos no
confronto<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>. Há notícia de que
foram torturados antes de serem
mortos<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>.</p>
<p>O Novo Cangaço tinha a atenção de várias polícias estaduais e da
Polícia Federal. Após a ação em Bom Jesus da Lapa, uma operação
integrada pela Polícia Federal e as polícias da Bahia, de Minas Gerais,
de Goiás e do Mato Grosso conseguiu monitorar seus passos.</p>
<p>Foi assim que no dia 04 de maio de 2017, enquanto estava na cidade
goiana de Aragarças negociando aluguel de casa e fazenda com vistas a um
novo assalto e fuga, Jardiel percebeu que estava sendo seguido e tentou
fugir, sendo, entretanto, atingido com tiros no rosto.</p>
<p>O Novo Cangaço, agora sob a liderança de Jean, irmão de Jardiel,
continuava sob a mira das polícias. No dia 17 de maio de 2017, Jean
também foi morto num confronto com a polícia mineira que invadiu seu
esconderijo na cidade de Montes
Claros/MG<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>.</p>
<p><bold>Chora a Volante, mas chora de emoção</bold></p>
<p>Havia, portanto, menos de um ano das mortes de Jardiel e Jean quando
a Charlie Mike “Novo Cangaço” foi subida no Youtube, no dia 28 de abril
de 2018. Talvez a comoção gerada pela morte dos policiais em Bom Jesus
da Lapa justifique a pronta seleção destes eventos para serem
comunicados em forma de Charlie Mike nos cursos de formação da PMGO.</p>
<p>A letra da Charlie Mike “Novo Cangaço”, que enumeramos conforme as
frases entoadas para facilitar a análise, é esta:</p>
<p>1 - O fim foi em Goiás, o fim foi em Goiás</p>
<p>2 - Agora eu vou contar a história dos Trukás</p>
<p>3 - Saíram de Assunção pra aterrorizar</p>
<p>4 - E eles iriam um banco estourar</p>
<p>5 - Numa segunda-feira ao anoitecer</p>
<p>6 - Em Bom Jesus da Lapa resolveram aparecer</p>
<p>7 - Pensaram que era fácil, mas se enganaram</p>
<p>8 - Tombaram com a PM e seus 3 heróis fardados</p>
<p>9 - O Novo Cangaço tinha chegado ali</p>
<p>10 - Quinze contra três não pensaram em desistir</p>
<p>11 - Troca de tiros, desespero total</p>
<p>12 - E dois dos heróis tombaram contra o mal</p>
<p>13 - Mexeu com um de nós, mexeu com todo mundo</p>
<p>14 - Jardiel e Jean já sabiam o seu futuro</p>
<p>15 - Pra cumprir essa missão a Volante apareceu</p>
<p>16 - Sem dó nem piedade, a ordem que recebeu</p>
<p>17- Só de ouvir falar, o ladrão estremeceu</p>
<p>18 - A cidade de Aragarças o demônio conheceu</p>
<p>19 - Dois tiros na cara foi o resultado</p>
<p>20 - E embarcou pra morte com o caixão fechado</p>
<p>21 - E a Volante respirou aliviada</p>
<p>22 - Mas falta Jean, continuem a caçada</p>
<p>23 - Foi em Goiás, foi em Goiás</p>
<p>24 - Essa é a história dos irmãos Trukás</p>
<p>25 - A Volante o Jean encontrou</p>
<p>26 - E em terras mineiras forte trovejou</p>
<p>27 - Jean, vagabundo, ali mesmo tombou</p>
<p>28 - E com o seu irmão no inferno se encontrou</p>
<p>29 - Você, ladrão de banco, agora entendeu</p>
<p>30 - A Volante sempre vai vingar os seus</p>
<p>31 - E nossa missão é caçar vocês</p>
<p>32 - Aqui em Goiás, ladrão não tem vez</p>
<p>33 - Chora Volante, mas chora de emoção</p>
<p>34 - Por Bom Jesus da Lapa cumpriram a missão</p>
<p>Como foi dito, trata-se de um rito com a função de comunicar um mito.
O mito em questão é a transfiguração heroica da narrativa dos eventos
entre o assalto frustrado na cidade baiana de Bom Jesus da Lapa e a
morte de Jean em Montes Claros/MG. Aqui, como nos fenômenos estudados
por Durkheim, temos um rito que visa “redespertar certas ideias e certos
sentimentos, ligar o presente ao passado, o indivíduo à coletividade”
(DURKHEIM, 2016, p. 52); isto porque “o rito não é senão o meio pelo
qual um grupo social se reafirma periodicamente” (DURKHEIM, 2016, p.
59).</p>
<p>Ainda que os aspectos estritamente corporais como a marcha, a
entonação, a intensidade e outros recursos físicos e sonoros presentes
na ocasião em que os policiais entoaram esta Charlie Mike sejam aspectos
necessários para a compreensão integral do efeito provocado nos
participantes (GUILARDI; COSTA, 2018), aqui vamos nos deter
exclusivamente na letra, considerando que ela, enquanto componente do
rito, opera um duplo mecanismo, a saber, registra e transmite os feitos
do grupo militar, mas ao fazê-lo opera uma transfiguração idealizada, o
que é essencial para a produção da celebração da memória do grupo.</p>
<p>Notemos já nos primeiros versos (de 1 a 3) que a narrativa encenada
estabelece alguns elementos essenciais. Primeiro, que aquilo que os
policiais cantam são os méritos de combate e valentia da PMGO, e, em
segundo, que se trata de exemplos prodigiosos, como se vê mais adiante,
em que ficam mais bem caracterizados no contraste com seu antagonista,
os Trukás, que “saíram de Assunção pra aterrorizar”. Ou seja, a Volante,
a unidade móvel da ROTAM/PMGO, tem seus méritos realçados quando
considerados frente a seu inverso moral; trata-se, respectivamente, das
realizações institucionais enquanto PM e enquanto quadrilha, dois polos
de ordem e desordem que compõem a totalidade cósmica da qual os
militares se veem como guardiões.</p>
<p>Assim que, na canção, os eventos em Bom Jesus da Lapa são relembrados
(5 em diante) e, mediante os pares ordem/PM desordem/quadrilha
estruturam a narrativa. Entretanto, nesse primeiro encontro entre os
representantes das forças transcendentais, os agentes da desordem levam
vantagem, embora ambivalente, pois seu objetivo, o assalto, foi
frustrado.</p>
<p>Todavia, eles abatem os policiais que lhes resistiram (12). Essas
mortes nos permitem indicar com segurança que se trata de um saldo de
vantagem para as forças da desordem, pois elas provocam efeitos
duradouros no polo oposto, pela natureza do significado da perda de uma
vida, mas também pelo que isso representa de subversão do princípio da
hierarquia.</p>
<p>A queda desses policiais, no entanto, é posta em termos honrosos,
pois, sim, “tombaram contra o mal” (12), mas como heróis, e, mais
precisamente, heróis fardados (8) que não se renderam (10), mesmo em
flagrante desvantagem, que ali é descrita apenas em sua dimensão
numérica (10), mas podemos supor que era também de ordem qualitativa,
com vantagem para o armamento da quadrilha.</p>
<p>A morte dos policiais na Bahia é então apresentada como um ato contra
a PMGO, ou, para sermos mais exato, contra todos os militares (13) –
posto que contra a ordem, de modo que as consequências de um ataque
desta natureza contra policiais já estão dadas (14), e resultam na
eliminação dos ofensores.</p>
<p>Apenas para destacar que esta narrativa corresponde a uma
transfiguração heroica dos eventos que levaram às mortes de Jardiel e
Jean. Podemos lembrar que aqueles não foram os únicos policiais mortos
pela quadrilha<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>, ou seja, a
Charlie Mike conecta as mortes de Jardiel e Jean e os eventos de Bom
Jesus da Lapa, pois esta é uma narrativa compatível com a autopercepção
do grupo militar. Para que isso ocorra com máxima eficácia simbólica, as
mortes dos policiais assassinados anteriormente pelo grupo de Jardiel
precisam ser ignoradas.</p>
<p>Ainda que a sorte de Jardiel e Jean seja dada como decidida desde os
eventos em Bom Jesus da Lapa, vale notar que “a Volante” (da ROTAM/PMGO)
só “apareceu” porque foi cumprir uma missão (15), ou seja, uma ordem
(16) dada por um comando superior, isto é, obedecendo à hierarquia da
instituição.</p>
<p>A ordem foi cumprida, sem dó nem piedade (16), de modo muito
semelhante ao que o já citado aluno ouvido pelo Prof. Agnaldo espera:
“bandido tem que ser erradicado” (SILVA, 2012, p. 107).</p>
<p>Já dissemos que esta Charlie Mike deve ser considerada como uma
retomada idealizada de alguns eventos. Assim que, se ali fica sugerido
que a PMGO deu cabo de Jardiel, há registros que atribuem os disparos no
rosto, “dois tiros na cara” (19), à Polícia Civil de
Goiás<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>, e a morte de Jean foi
obra da PMMG, não da PMGO
(25)<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref>.</p>
<p>Embora a ação descrita seja apresentada no contexto institucional,
onde se age após e em função de uma ordem (16) que estipula uma missão a
cumprir (15), isso é posto num plano onde são ressaltados aspectos
afetivos, com acento de certos sentimentos mais primordiais.</p>
<p>Talvez um indicador valioso do caráter emocional que, no plano da
narrativa, impulsiona a ação, seja o insulto a Jean (27). Podemos
especular que o insulto tenha uma dupla função aqui. Em primeiro plano,
estabelecer uma caracterização depreciativa do indivíduo, neste caso, em
harmonia com outras características e intenções nefastas imputadas ao
grupo antagonista (3). Além disso, esta característica negativa leva à
outra, pois Jardiel sentiu medo ao se colocar no caminho da Volante, da
ROTAM/PMGO, pois esta força policial, que usa como emblema um raio que
traspassa o nome ROTAM, quase numa relação totêmica, troveja (26),
fazendo os adversários estremecerem (17).</p>
<p>Todavia, o caráter emocional é mais claramente indicado quando a
vingança é posta explicitamente (30). Aqui cabe mesmo separar os planos
implicados. Se, de modo genérico, os militares se veem como agentes
mantenedores de uma ordem cósmica contra agentes da desordem (31), a
vingança os põe em uma relação de outra ordem, trata-se de a Volante
vingar um dos seus, não o conjunto da ordem ameaçado pela desordem, mas
uma ação de caráter mais particular, grupal, fraternal.</p>
<p>Talvez seja esse caráter pessoal implicado na narrativa que explique
a aceitação e exibição da abdicação da disciplina, notada no choro da
Volante, choro de emoção (33), que ainda assim se apoia na natureza
hierárquica da instituição, afinal, choram porque cumpriram a missão
(34), pois, como dito por certo famoso personagem militar do cinema
nacional, missão dada é missão cumprida.</p>
<p><bold>Considerações finais</bold></p>
<p>Nesta última seção vamos apresentar breves considerações sobre
aspectos que merecem ser destacados tendo em vista o potencial que
apresentam para possíveis desdobramentos em novas explorações analíticas
sobre o nosso objeto.</p>
<p>Aqui nosso esforço foi demonstrar que uma Charlie Mike permite pensar
a função do rito como memória do mito. Na função de rito, entretanto,
está presente o fenômeno do sagrado, que é um fenômeno que se estende
para bem além do religioso, pois consiste no núcleo de ideias mais
essenciais para a identidade de um grupo (WEISS, 2013).</p>
<p>No que vimos, há um processo de excitação coletiva dirigida por
aspectos narrativos e corporais que conduzem os envolvidos para uma
visão comum sobre o que é heroísmo e vilania, correção e desvio, em
síntese, ordem e desordem como espelhos da polícia e do crime,
respectivamente.</p>
<p>A excitação produzida pelo rito é parte fundamental da produção
desses sentimentos e dessas ideias amplas e fundamentais sobre o mundo e
sobre (e para) aquele grupo. Isto quer dizer que aqui temos um exemplo
muito instrutivo e explícito, com uma demanda analítica urgente para a
sociedade brasileira neste início de século XXI, de momentos de produção
e disseminação dos ideais que delineiam o campo do sagrado para a
instituição policial.</p>
<p>De uma perspectiva complementar, quero observar que a narrativa dada
na Charlie Mike “Novo Cangaço” fala sobre um tipo de relação que se
inscreve em outro plano, pois, se de um lado temos um plano mais geral
em que se chocam forças mais amplas de ordem e desordem, num plano mais
restrito trata-se de um ato de vingança. Ambos os planos são
analiticamente integrados mediante uma teoria da reciprocidade.</p>
<p>Do legado das intuições fundamentais de Marcel Mauss (2003) sobre as
trocas de presentes na composição do fenômeno social, elabora-se um
conjunto de explorações sobre o alcance do modelo das trocas
obrigatórias e de como elas vinculam indivíduos e grupos.</p>
<p>O estudo de Ansparch (2012) aponta, entretanto, que, antes das trocas
de presentes, os grupos humanos trocaram agressões, num ciclo de
altercações recíprocas que chama de reciprocidade negativa, em oposição
ao ciclo apontado por Mauss, a troca de presentes ou reciprocidade
positiva.</p>
<p>O que há de específico em cada ciclo de reciprocidade, positiva ou
negativa, é a orientação temporal. A reciprocidade negativa é alimentada
por uma referência ao passado, onde o indivíduo ou grupo é motivado a
agredir outro porque, no passado, foi alvo de um ataque que exige
retribuição ou retaliação; vingança, enfim. Já a reciprocidade positiva
se orienta para o futuro, um presente é ofertado para que seja
retribuído.</p>
<p>O que ambas têm em comum, no entanto, é que correspondem a modelos
que descrevem redes amplas de circulação, ora de golpes ora de
presentes. Ou seja, a troca é um mecanismo de encadeamento ampliado de
indivíduos mediante a circulação de bens cujos fluxos servem como modelo
para a elaboração de totalidades transcendentes aos atos pontuais,
concretos, praticados nas redes de trocas.</p>
<p>Assim que, no caso de nosso estudo, a imagem de ordenamento cósmico
polarizado em termos de ordem/desordem elaborado na instituição militar,
onde ela aparece como guardiã da ordem, é uma expressão transcendente do
fenômeno muito concreto da rede de trocas positivas, ordeiras, que
representa em si mesma um bem valioso e cujo fluxo positivo de
circulação de bens e serviços (e quem pode esquecer que a polícia,
enfim, é uma fornecedora de serviços entre outros?) serve como base para
a elaboração do enquadramento moral abrangente, onde ordem e desordem se
apresentam como opostos, mas de uma oposição com proximidade, visto que
a ordem, como estamos propondo, é manutenção da reciprocidade positiva,
sempre ameaçada de rompimento, sempre assediada pela desordem.</p>
<p>Vale notar que outro aspecto intrínseco à instituição militar já
apontado pela literatura brasileira especializada é a presença de um
<italic>ethos</italic> guerreiro que correspondente a certo modelo mais
abrangente de masculinidade.</p>
<p>Este conceito nasce na obra de Norbert Elias, no contexto da
explicitação da acomodação burguesa de valores aristocráticos
condensados no privilégio da prática de requerer e dar satisfações na
forma do duelo (ELIAS, 1997).</p>
<p>No Brasil, a ideia é mobilizada para explorar tanto a relação entre
um modelo de masculinidade agressiva e os padrões elevados de violência
sistêmica (ZALUAR, 1998) quanto a violência policial em particular
(ALBUQUERQUE; MACHADO, 2001).</p>
<p>Os depoimentos dos alunos da PM baiana colhidos por Albuquerque e
Machado (2001) apresentam indícios de percepção crítica aos ritos de
militarização onde se celebra esse <italic>ethos</italic> guerreiro nas
polícias. Estudando uma instrução na formação da PMBA, os autores
oferecem ao leitor, por exemplo, a pergunta e o lamento de um aluno: “é
na base da porrada que nasce o homem?” (ALBUQUERQUE; MACHADO, 2001, p.
15)<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>.</p>
<p>Ainda que minoritários e impotentes, relatos como esse revelam que
existem demandas internas para a reformulação das polícias militares no
Brasil com vistas a uma formação voltada para um modelo de instituição
especializada no policiamento urbano profissionalizado e em sintonia com
o ideal de uma sociedade democrática, afastada, por exemplo, do vínculo
com o tema da segurança nacional, que se incrustou na formação das
polícias brasileiras como forças militarizadas em razão da sua
estruturação como forças auxiliares das forças armadas (MUNIZ,
2001).</p>
<p>Esses temas podem ser vistos no horizonte de desdobramento do
presente estudo. Pois, embora tenhamos aqui uma abordagem tópica sobre a
Charlie Mike “Novo Cangaço” como um rito de memorização do mito,
percebemos aspectos das técnicas de integração mobilizados pela
instituição militar que podem ser articuladas com este conjunto
acumulado de observações sobre as polícias brasileiras para auxiliar na
compreensão do papel central que aparentemente está reservado a estas
instituições no desenrolar de lances dramáticos na intersecção entre
ocorrências locais e os grandes movimentos políticos que determinarão a
condução do Estado
brasileiro<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>.</p>
<p><bold>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</bold></p>
<p>17° CURSO Operacional de Rotam forma policiais militares de Goiás e
outros dez estados. Secretaria de Estado de Segurança Pública do Estado
de Goiás. Disponível em:
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.seguranca.go.gov.br/noticias-da-ssp/17o-curso-operacional-de-rotam-forma-policiais-militares-de-goias-e-outros-dez-estados.html">https://www.seguranca.go.gov.br/noticias-da-ssp/17o-curso-operacional-de-rotam-forma-policiais-militares-de-goias-e-outros-dez-estados.html</ext-link>.
Acesso em 04 jul. 2019.</p>
<p>ALBUQUERQUE, C. L.; MACHADO, E. P. O currículo da selva: ensino,
militarismo e ethos guerreiro nas academias brasileiras de polícia.
<bold>Capítulo Criminológico</bold>, v. 29, n. 4, p. 5-33, 2001.</p>
<p>ANSPARCH, M. <bold>Anatomia da vingança</bold>: Figuras elementares
da reciprocidade. São Paulo: É Realizações, 2012.</p>
<p>BRASIL. <bold>Constituição da República Federativa do Brasil</bold>.
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Militar do Estado de Goiás influencia seu relacionamento com a
sociedade. <bold>Revista Brasileira Militar de Ciências</bold>, n. 7, p.
22-32, nov. 2017.</p>
<p>DURKEHIM, E. Os ritos representativos ou comemorativos.
<italic>In</italic>: CASTRO, C. (Org.). <bold>Textos básicos de
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<p>DURKHEIM, E. <bold>Educação e sociologia</bold>. Petrópolis: Vozes,
2011.</p>
<p>ELIAS, N. <bold>Os alemães</bold>. A luta pelo poder e a evolução do
habitus nos séculos XIX e XX. Rio de Janeiro: Zahar, 1997.</p>
<p>FRANÇA, F. G.; RIBEIRO, L. R. “Um bombeiro pede socorro!”:
socialização, treinamento e sofrimento na formação do bombeiro militar.
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<p>GUILARDI, L. C.; COSTA, L. D. As canções militares como instrumento
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<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://g1.globo.com/goias/noticia/suspeito-de-liderar-assalto-a-banco-que-resultou-na-morte-de-dois-pms-na-ba-morre-em-aragarcas-go.ghtml.">https://g1.globo.com/goias/noticia/suspeito-de-liderar-assalto-a-banco-que-resultou-na-morte-de-dois-pms-na-ba-morre-em-aragarcas-go.ghtml.</ext-link>
Acesso em 04 de jul. 2019.</p>
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<p>MIRANDA, D. <bold>A construção da identidade do oficial do exército
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<p>PMs EXECUTADOS durante tentativa de assalto a banco são enterrados na
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<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://g1.globo.com/bahia/noticia/2017/01/pms-executados-durante-tentativa-de-assalto-banco-sao-enterrados-na-ba.html">http://g1.globo.com/bahia/noticia/2017/01/pms-executados-durante-tentativa-de-assalto-banco-sao-enterrados-na-ba.html</ext-link>.
Acesso em 04 de jul. 2019.</p>
<p>RAMOS, J. S. Subjetivação e poder no ciberespaço. Da experimentação à
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<p>SANTOS, P. Tráfico &quot;impõe&quot; toque de recolher a índios.
Disponível em:
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2004200317.htm">https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2004200317.htm</ext-link>.
Acesso em 04 de jul. 2019.</p>
<p>SILVA, A. <bold>Praça velho</bold>: socialização, representações e
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<p>SODRÉ, R. O novo cangaço no Maranhão. <bold>Confins</bold>, n. 37, p.
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<p>SUSPEITO de chefiar um dos maiores grupos de roubo a bancos é morto
em ação policial, em Aragarças. <bold>O popular.</bold> Disponível em:
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://opopular.com.br/noticias/cidades/suspeito-de-chefiar-um-dos-maiores-grupos-de-roubo-a-bancos-%C3%A9-morto-em-a%C3%A7%C3%A3o-policial-em-aragar%C3%A7as-1.1269369">https://opopular.com.br/noticias/cidades/suspeito-de-chefiar-um-dos-maiores-grupos-de-roubo-a-bancos-%C3%A9-morto-em-a%C3%A7%C3%A3o-policial-em-aragar%C3%A7as-1.1269369</ext-link>.
Acesso em 04 de jul. 2019</p>
<p>VALE, J; PARANAIBA, G e RIBEIRO, L. Quadrilha presa no Norte de Minas
tinha histórico de morte de policiais em outros estados. Disponível em:
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/17/interna_gerais,925222/quadrilha-presa-no-norte-de-minas-tinha-historico-de-morte-de-policiai.shtml.">https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/17/interna_gerais,925222/quadrilha-presa-no-norte-de-minas-tinha-historico-de-morte-de-policiai.shtml.</ext-link>
Acesso em 04 de jul. 2019.</p>
<p>WEISS, R. A. Efervescência, dinamogenia e a ontogênese do sagrado.
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https://doi.org/10.1590/S0104-93132013000100006. Acesso em: 20 jun.
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<p>ZALUAR, A. Para não dizer que não falei de samba: os enigmas da
violência no Brasil. <italic>In</italic>: SCHWARZ, L. M. (Org.).
<bold>História da vida privada no Brasil</bold>. Contrastes da
intimidade contemporânea. v. 4. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
p. 245-316.</p>
<p> </p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>No início de 2021, merece destaque o perfil do <italic>Delegado
    da Cunha</italic>, com mais de três milhões de seguidores apenas no
    YouTube.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>Para as Forças Armadas, tais princípios também têm caráter
    administrativo de natureza constitucional, na medida que estão na
    base da organização, nos termos do art 142 da Constituição
    Federal.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>O Código Quebec é mais extenso e inclui também uma série de
    combinações de três letras correspondentes a comandos específicos
    (QTA, QTX etc.).</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>A cerimônia de formatura do 17° CO ROTAM da PMGO aconteceu em 20
    de julho de 2018, como visto disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.seguranca.go.gov.br/noticias-da-ssp/17o-curso-operacional-de-rotam-forma-policiais-militares-de-goias-e-outros-dez-estados.html">https://www.seguranca.go.gov.br/noticias-da-ssp/17o-curso-operacional-de-rotam-forma-policiais-militares-de-goias-e-outros-dez-estados.html</ext-link>
    Acesso em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>Disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://g1.globo.com/goias/noticia/suspeito-de-liderar-assalto-a-banco-que-resultou-na-morte-de-dois-pms-na-ba-morre-em-aragarcas-go.ghtml">https://g1.globo.com/goias/noticia/suspeito-de-liderar-assalto-a-banco-que-resultou-na-morte-de-dois-pms-na-ba-morre-em-aragarcas-go.ghtml</ext-link>.
    Acesso em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <p>Disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/17/interna_gerais,925222/quadrilha-presa-no-norte-de-minas-tinha-historico-de-morte-de-policiai.shtml">https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/17/interna_gerais,925222/quadrilha-presa-no-norte-de-minas-tinha-historico-de-morte-de-policiai.shtml</ext-link>.
    Acesso em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <p>Notamos que, embora os jornais possam fazer vários registros
    desta identificação dada por várias polícias estaduais ao grupo de
    Jardiel, Sodré (2018) trata “Novo Cangaço” como uma denominação
    genérica para este tipo de atividade criminosa ou os seus
    autores.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <p>Conforme depoimento do Tenente-Coronel Ricardo Mendes, assessor
    de imprensa da PMGO registrado na notícia indicada na nota 5.</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <p>Disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2004200317.htm">https://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc2004200317.htm</ext-link>.
    Acesso em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <p>Disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://g1.globo.com/bahia/noticia/2017/01/pms-executados-durante-tentativa-de-assalto-banco-sao-enterrados-na-ba.html">http://g1.globo.com/bahia/noticia/2017/01/pms-executados-durante-tentativa-de-assalto-banco-sao-enterrados-na-ba.html</ext-link>..Acesso
    em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn11">
    <p>Conforme relato do Major Flávio Santiago, da assessoria de
    imprensa da PMMG, disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/17/interna_gerais,925222/quadrilha-presa-no-norte-de-minas-tinha-historico-de-morte-de-policiai.shtml">https://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2017/12/17/interna_gerais,925222/quadrilha-presa-no-norte-de-minas-tinha-historico-de-morte-de-policiai.shtmll</ext-link>.
    Acesso em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn12">
    <p>Ver matéria indicada na nota anterior.</p>
  </fn>
  <fn id="fn13">
    <p>Conforme notícia indicada na nota 12.</p>
  </fn>
  <fn id="fn14">
    <p>Disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www.opopular.com.br/noticias/cidades/suspeito-de-chefiar-um-dos-maiores-grupos-de-roubo-a-bancos-%C3%A9-morto-em-a%C3%A7%C3%A3o-policial-em-aragar%C3%A7as-1.1269369">https://www.opopular.com.br/noticias/cidades/suspeito-de-chefiar-um-dos-maiores-grupos-de-roubo-a-bancos-%C3%A9-morto-em-a%C3%A7%C3%A3o-policial-em-aragar%C3%A7as-1.1269369</ext-link>.
    Acesso em: 4 jul. 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn15">
    <p>Conforme matéria indicada na nota 13.</p>
  </fn>
  <fn id="fn16">
    <p>Importante notar que estes aspectos também estão presentes na
    formação do corpo de bombeiros (FRANÇA; RIBEIRO, 2019).</p>
  </fn>
  <fn id="fn17">
    <p>Enquanto este trabalho era encerrado, a PMGO havia realizado uma
    caçada de semanas que culminou na morte de Lázaro Barbosa e contou
    com uma cobertura diária da imprensa nacional. Os modos de
    apropriação e repercussão destes eventos é um indicador de como a
    ação das polícias se articula com grandes temas políticos. Por
    exemplo, em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://g1.globo.com/tudo-sobre/lazaro-barbosa/">https://g1.globo.com/tudo-sobre/lazaro-barbosa/</ext-link>.
    Acesso em: 10 jan. 2021.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
