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<p><bold>GESTÃO DE ORGANIZAÇÕES DE SEGURANÇA PÚBLICA: UMA ANÁLISE DA
CULTURA DE SEGURANÇA</bold></p>
<p></p>
<p><bold>Aline Costa Almeida Araújo</bold></p>
<p>Escrivã de Polícia Federal. Especialista em Ciências Policiais pela
Escola Superior de Polícia Federal (2020), Graduada em Direito pela
Associação de Ensino Unificado do Distrito Federal (2001). Professora da
Academia Nacional de Polícia (ANP/PF)</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Distrito Federal
<bold>Cidade:</bold> Brasília</p>
<p><bold>Email:</bold>
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="mailto:malpio@yahoo.com.br">malpio@yahoo.com.br</ext-link>
<bold>Orcid:</bold>
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://orcid.org/">https://orcid.org/</ext-link>0000-0003-4131-9627</p>
<p></p>
<p><bold>Andersson Pereira Dos Santos</bold></p>
<p>Delegado de Polícia Federal. Doutor em Administração pela
Universidade de Brasília - UnB (2021). Coordenador de Recrutamento e
Seleção da Polícia Federal. Professor e Tutor da Academia Nacional de
Polícia - ANP/PF.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Distrito Federal
<bold>Cidade:</bold> Brasília</p>
<p><bold>Email:</bold> andersson.aps@pf.gov.br <bold>Orcid:</bold>
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://orcid.org/">https://orcid.org/</ext-link>0000-0002-1266-1418</p>
<p></p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold> Aline Costa Almeida Araújo
planejou e executou a pesquisa, efetuando a revisão de literatura,
construção dos instrumentos, coleta de dados e análise dos resultados.
Andersson Pereira dos Santos participou do planejamento da pesquisa,
indicou a literatura, orientou a pesquisa e efetuou a revisão final do
trabalho.</p>
<p></p>
<p></p>
<p><bold>MANAGEMENT OF PUBLIC SECURITY ORGANIZATIONS: AN ANALYSIS OF
SAFETY CULTURE</bold></p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>Este artigo tem como objetivo avaliar a maturidade da cultura de
segurança em uma organização de segurança pública, a Academia Nacional
de Polícia (ANP). Foi realizada pesquisa documental, além de entrevistas
com gestores, e aplicados questionários com amostra de 243 servidores,
colaboradores e alunos de cursos de formação profissional de policiais
federais. Os resultados demonstram baixo índice de maturidade da cultura
de segurança quanto à estrutura e à aprendizagem organizacional, bem
como elevado grau de maturidade relacionado aos fatores informação,
envolvimento, comunicação e comprometimento. Os dados indicam que não há
efetiva cultura de segurança implantada na ANP, uma vez que foram
identificados elementos e fatores em estágios iniciais do grau de
maturidade. E, de acordo com a literatura, somente se pode afirmar que
existe concreta cultura de segurança em uma organização quando todos os
seus fatores são avaliados nos estágios superiores de grau de
maturidade.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Gestão. Organizações de segurança
pública. Cultura de segurança. Grau de maturidade de segurança.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p>This article aims to assess the maturity of the safety culture in a
public security organization, the National Police Academy (ANP). A
documentary survey was conducted, in addition to interviews with
managers, and questionnaires were applied with a sample of 243 servers,
employees and students of federal police professional training courses.
The results show a low level of maturity of the culture of security
regarding structure and organizational learning, as well as a high
degree of maturity related to information, involvement, communication
and commitment factors. The data indicate that there is no effective
safety culture implanted in the ANP, since elements and factors were
identified in early stages of maturity degree. And, according to the
literature, one can only affirm that there is a concrete culture of
safety in an organization when all its factors are evaluated in the
higher stages of maturity degree.</p>
<p><bold>Key words:</bold> Management. Public security organizations.
Safety culture. Degree of safety maturity.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 23/08/2020 <bold>Data de
Aprovação:</bold> 21/07/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v16.n2.1359</p>
<sec id="introdução">
  <title>Introdução</title>
  <p>Cultura é o modo de pensar, sentir e agir, os quais, aprendidos e
  partilhados por uma pluralidade de pessoas, passam a integrar esses
  indivíduos em uma coletividade distinta de outras (PIRES; MACEDO,
  2006). De Sousa (2009) a define como linguagem e ações comuns que
  possibilitam a um grupo dar sentido ao mundo em que se vive. A cultura
  é adquirida a partir de vivências e aprendizados, não se constituindo
  um atributo nato de um grupo (PIRES; MACEDO, 2006; GONÇALVES FILHO;
  ANDRADE; MARINHO, 2011).</p>
  <p>Os estudos sobre cultura foram levados para o ambiente das
  organizações visando compreender as crenças, os valores e
  comportamentos dos seus integrantes, com o intuito de, a partir do
  entendimento destes elementos, aumentar a sua produção, principalmente
  com o fenômeno da globalização, que aumentou a interação entre pessoas
  de culturas distintas nas diversas corporações (GONÇALVES FILHO;
  ANDRADE; MARINHO, 2011; CAMPOS; DIAS, 2012). Pretende-se, com a
  pesquisa sobre cultura organizacional, entender o funcionamento das
  organizações e suas formas de adaptação frente às mudanças necessárias
  para sua manutenção e desenvolvimento contínuo (DE SOUSA, 2009;
  OLIVEIRA; OLIVEIRA; DE LIMA, 2016).</p>
  <p>A cultura organizacional configura-se nas crenças comuns que se
  refletem nas tradições e nos hábitos, nas histórias, nos símbolos, ou
  mesmo em edifícios e produtos de uma organização (PIRES; MACEDO,
  2006). Para Correia (2015), a cultura organizacional é um conjunto de
  crenças, valores, normas e expectativas que mantêm unidos os
  diferentes membros da organização. A cultura organizacional pode ser
  modificada para atender aos objetivos, às estratégias e aos valores
  das empresas (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011).</p>
  <p>Vários aspectos influenciam a cultura organizacional de uma
  empresa, desde a natureza das atividades exercidas até a localidade
  das suas instalações. Organizações que atuam em áreas com alto
  potencial de risco, como a aviação, militares e policiais têm uma
  cultura organizacional com forte predominância para a segurança das
  instalações e das pessoas, caracterizando-se como uma subespécie de
  cultura organizacional: a cultura de segurança (REIMAN; ROLLENHAGEN,
  2014). Nesse sentido, as percepções e atitudes dos empregados sobre
  segurança no trabalho, o comportamento individual orientado para este
  fim e o sistema de gestão disponível na empresa para lidar com
  questões dessa natureza são os elementos que, combinados, compõem a
  cultura de segurança da organização (COOPER, 2000; SCHULMAN,
  2020).</p>
  <p>Estudos relacionados à cultura de segurança identificam estágios de
  maturidade de acordo com a eficácia do sistema de segurança adotado
  pela organização (GULDENMUND, 2010a; CAMPOS; DIAS, 2012). O conceito
  de maturidade surgiu da necessidade de classificar as empresas de
  acordo com o grau de sua capacidade para gerir o risco de sinistros
  nas suas instalações (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011).</p>
  <p>O grau de maturidade da cultura de segurança indica a capacidade da
  organização de lidar com acidentes nos ambientes laborais
  independentemente de danos ou vítimas, assim como a capacidade de
  prevenção a esses eventos (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011;
  CAMPOS; DIAS, 2012; SCHULMAN, 2020). No entanto, apesar da
  importância, a realização de estudos relacionados à maturidade da
  cultura de segurança em ambiente organizacional no Brasil ainda é
  incipiente (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011; BUFFON; DE
  AGUIAR; GODARTH, 2018).</p>
  <p>Neste contexto, o presente estudo visa contribuir com a produção
  acadêmica nessa área, visto a esparsa produção a respeito do tema
  quando comparado à produção estrangeira (FERREIRA <italic>et
  al.</italic>, 2002). Foi realizada pesquisa junto à Academia Nacional
  de Polícia (ANP) com o objetivo de avaliar a maturidade da cultura de
  segurança da organização, a partir da sua estrutura organizacional,
  bem como da percepção e das ações de seus servidores, colaboradores e
  alunos quanto aos elementos identificadores da sua maturidade. A ANP é
  a Escola de Governo pertencente à Polícia Federal (PF) que tem a
  finalidade de formar e especializar profissionais de segurança
  pública.</p>
  <p>A percepção de cultura é de grande importância para a compreensão
  de fenômenos que ocorrem no âmbito das organizações (COELHO JUNIOR;
  BORGES-ANDRADE, 2004). Estudar a cultura de segurança em instituições
  policiais, como a Escola de Governo da PF, justifica-se pela própria
  natureza das atividades desenvolvidas por essas organizações.</p>
  <p>Desde a década de 1990, a segurança pública é uma área de estudo
  que ganha interesse no Brasil (COSTA; GROSSI, 2007; RIBEIRO; PATRÍCIO,
  2008). Entretanto, apesar do aumento pelo interesse a respeito do tema
  segurança pública no país, permanece o desconhecimento em relação às
  organizações policiais (BEATO FILHO, 1999), pois obter informações
  sobre a segurança pública ainda é campo árido (FIGUEIRA, 2015). Nesse
  sentido, o reduzido número de estudos a respeito da cultura
  organizacional em corporações policiais torna essas organizações ainda
  menos compreendidas (DE SOUSA, 2009).</p>
  <p>Ademais, se verifica que persiste a baixa qualidade na gestão da
  eficiência e efetividade de organizações que atuam no âmbito criminal,
  em especial as polícias (MADEIRA; RODRIGUES, 2015). Neste contexto, o
  presente estudo contribui para suprir uma lacuna da literatura
  nacional, fornecendo dados que podem auxiliar na implementação e na
  gestão da cultura de segurança em organizações policiais, contribuindo
  para o aprimoramento do gerenciamento destas instituições.</p>
  <p><bold>Referencial teórico</bold></p>
  <p><bold>Cultura</bold></p>
  <p>O interesse científico a respeito da cultura se iniciou no final do
  século XVIII e nos primórdios do século XIX, justificado pela
  necessidade de compreender os comportamentos coletivos que traziam
  inquietação à lógica comum (NASCIMENTO, 2014). Segundo Silva, Zanelli
  e Tolfo (2014), cultura significa conhecimentos, costumes ou outras
  capacidades e/ou hábitos adquiridos pelo ser humano como ser social.
  Trata-se de um processo de construção sócio-histórica aprendido pelo
  ser humano de acordo com suas experiências, não se constituindo de um
  conhecimento inato.</p>
  <p>O conceito de cultura ainda é difuso, entretanto, são identificados
  alguns aspectos convergentes, como os componentes ideológicos,
  pressupostos elaborados a partir de valores básicos arraigados, o
  sistema de crenças, o compartilhamento de símbolos, e os conhecimentos
  e as experiências necessárias para saber como agir e sobreviver em
  determinado contexto cultural (FERREIRA <italic>et al.</italic>,
  2002). Schein (1996) define cultura como padrão de suposições básicas
  compartilhadas e adquiridas por um grupo à medida que solucionava
  problemas de adaptação externa e integração interna. Esse padrão é
  transmitido aos novos membros do grupo como o modo correto de
  perceber, pensar e sentir em relação a esses problemas.</p>
  <p>O desenvolvimento do estudo da cultura despertou interesse para a
  área das organizações, ganhando ênfase com a internacionalização das
  organizações e os conflitos culturais advindos dessa globalização (DE
  SOUSA, 2009). Em razão da globalização, as pesquisas a respeito da
  cultura organizacional buscaram entender como as culturas nacionais
  dos diferentes países influenciavam os pensamentos e comportamentos
  dentro da organização (OLIVEIRA; OLIVEIRA; DE LIMA, 2016).</p>
  <p>O estudo dos valores, das crenças e dos símbolos e seus impactos
  nos comportamentos das pessoas no processo produtivo e de mudança
  organizacional possibilitam a formulação de estratégias voltadas para
  a adaptação das empresas no mercado competitivo e em transição
  constante (CAMPOS; DIAS, 2012). Para entender a cultura
  organizacional, é necessário identificar seu conceito, seus elementos
  e suas características, como se verá adiante.</p>
  <p><bold>Cultura organizacional</bold></p>
  <p>Cultura organizacional é um conjunto de características que
  diferencia uma organização de qualquer outra, assumindo o papel de
  legitimadora do sistema de valores expressos através de rituais,
  mitos, hábitos e crenças comuns aos membros que os produzem (PIRES;
  MACEDO, 2006). Cultura organizacional é, portanto, uma qualidade do
  grupo em que os indivíduos são influenciados e influenciam o ambiente
  laboral em que atuam (CORREIA, 2015).</p>
  <p>Assim como a cultura pode ser aprendida no nível social, a cultura
  organizacional também pode ser transmitida por meio das interações
  sociais no ambiente organizacional (SARAIVA, 2002). Os elementos que
  formam a cultura organizacional não são consenso na literatura. Há
  inúmeros estudos sobre cultura organizacional com enfoque e abordagens
  distintas. Essas abordagens podem ser divididas sob duas vertentes
  teóricas. A cultura organizacional como uma variável da organização,
  como algo que a organização possui e pode ser modulado (COELHO JUNIOR;
  BORGES-ANDRADE, 2004; PIRES; MACEDO, 2006); e o aspecto de cultura
  como algo que representa a organização, isto é, algo que identifica a
  organização, sendo mais resistente às modificações (SILVA; ZANELLI;
  TOLFO, 2014). Gonçalves Filho (2011) identifica os membros da
  organização, o caráter de compartilhamento e os valores como os
  elementos mais comuns da cultura organizacional presentes nas diversas
  abordagens sobre o tema.</p>
  <p>A cultura corporativa é um instrumento que regula e adapta as
  pessoas e as organizações (SCHEIN, 1996). O cerne da cultura na
  organização é o fato de ser algo que pode ser aprendido (normas e
  comportamentos), determinando como as coisas são feitas (práticas
  coletivas) (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011). Para entender as
  práticas coletivas, os fenômenos culturais da organização precisam ser
  identificados e compreendidos. Entende-se por fenômenos as
  manifestações dos indivíduos pertencentes ao grupo. Elas são
  classificadas de acordo com o seu grau de visibilidade, sendo
  denominadas de níveis de cultura organizacional (DE SOUSA, 2009;
  RICHERS, 2009).</p>
  <p>Existem três níveis de cultura organizacional, mensurados de acordo
  com o grau de acessibilidade, do critério mais superficial e visível
  ao critério mais profundo e de difícil identificação, são eles:
  artefatos, valores esposados e pressupostos básicos (SCHEIN, 1996). Os
  artefatos são os aspectos mais visíveis da organização,
  constituindo-se das instalações físicas, do mobiliário, dos rituais e
  comportamentos que podem ser identificados. Analisar a cultura sob o
  critério dos artefatos, a princípio, parece atividade fácil, pois seus
  elementos são concretos e palpáveis. Entretanto, a mera identificação
  desses elementos pode não consubstanciar os comportamentos que os
  orientam (SCHEIN, 1996; SILVA; ZANELLI; TOLFO, 2014).</p>
  <p>No nível intermediário da classificação proposta por Schein (1996),
  há os valores esposados, que são as normas que justificam as
  estratégias, metas e filosofias da organização. São os valores e as
  justificativas que os indivíduos da organização alegam como mais
  corretos, mas não necessariamente traduzem a prática cotidiana. Por
  fim, os pressupostos básicos encontram-se no nível mais profundo e são
  os valores arraigados pertencentes aos indivíduos do grupo (SILVA;
  ZANELI; TOLFO, 2014). Esses pensamentos, crenças e valores são
  partilhados entre os membros e não são questionados ou confrontados,
  pois já estão assimilados no subconsciente dos indivíduos (GONÇALVES
  FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011). É importante compreender os
  pressupostos básicos de uma organização para implementar qualquer
  estudo sobre cultura corporativa e sugerir ações de mudança, pois
  implementar mudanças nos níveis mais superficiais, como os artefatos e
  os valores esposados, não se sustentará se não houver o prévio ajuste
  dos pressupostos básicos (RICHERS, 2009).</p>
  <p>A cultura de segurança é um subcomponente da cultura organizacional
  que faz referência aos indivíduos, ao trabalho e às características da
  organização que afetam e influenciam a saúde e a segurança no trabalho
  (COOPER, 2000). Os conceitos, as características e a classificação da
  cultura de segurança serão vistos na seção seguinte.</p>
  <p><bold>Cultura de segurança</bold></p>
  <p>O termo cultura de segurança surgiu em 1988 no relatório do Grupo
  Consultivo Internacional de Segurança Nuclear (International Nuclear
  Safety Advisory Group – INSAG), que apresentou a análise das origens
  do acidente da usina nuclear de Chernobyl, realizada pela Agência
  Internacional de Energia Atômica (AIEA, 1991; PONTES; HONORIO, 2008).
  Após a publicação desse relatório, a década de 1990 foi marcada pelo
  aumento de estudos sobre a cultura de segurança, visto a necessidade
  de estudar as causas de grandes acidentes ocorridos na época (REIMAN;
  ROLLENHAGEN, 2014).</p>
  <p>As investigações concluíram que as falhas nos sistemas de segurança
  tiveram como causa a fraca ou inexistente cultura de segurança, e não
  a ausência de normas ou procedimentos de segurança (CAMPOS; DIAS,
  2012; BUFFON; DE AGUIAR; GODARTH, 2018; STEMN <italic>et al.,</italic>
  2019). Os estudos identificaram que os fatores humanos e
  organizacionais eram causas de operações inseguras no sistema de
  segurança da organização (AIEA, 1992).</p>
  <p>Os estudos sobre a cultura de segurança enfatizam a função dos
  valores, das normas, atitudes e percepções que se encontram na
  organização sobre segurança, sinistralidade, comportamentos de
  segurança e risco dos trabalhadores dentro da organização (CAMPOS;
  DIAS, 2012). O conceito de cultura de segurança é difuso, não havendo
  consenso entre os autores (HEALTH AND SAFETY EXECUTIVE, 2001;
  GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011).</p>
  <p>Guldenmund (2010b) e Stemn <italic>et al.</italic> (2019) definem
  cultura de segurança como o aspecto da cultura organizacional que
  impacta as atitudes e o comportamento dos membros da organização
  relativos à segurança do trabalho. Outros autores conceituam a cultura
  de segurança a partir das práticas coletivas com relação à segurança,
  alegando que estas têm origem nos pressupostos básicos e nos valores
  compartilhados pelos membros da organização (GONÇALVES FILHO; ANDRADE;
  MARINHO, 2011; MARCHITTO, 2011).</p>
  <p>A construção de uma cultura de segurança é possível a partir da
  mudança das práticas da organização com relação à segurança do
  trabalho, que terminam por alterar os valores organizacionais
  relacionados a este aspecto (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011;
  MARCHITTO, 2011). São as práticas organizacionais, os pressupostos
  básicos e os valores compartilhados pelos membros da organização que
  determinam a estrutura e as práticas coletivas da organização com
  relação à segurança (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011).</p>
  <p>A cultura de segurança pode ser mudada independentemente do estágio
  em que ela se encontra na organização (BUFFON; DE AGUIAR; GODARTH,
  2018). É importante identificar a cultura de segurança de uma
  organização, para implementação de medidas que visem a sua melhoria. A
  cultura de segurança é algo que pode ser construído e surge
  progressivamente com insistência e boas práticas (GONÇALVES FILHO;
  WATERSON, 2018).</p>
  <p><bold>Aspectos da cultura de segurança – Modelo de Cooper
  (2000)</bold></p>
  <p>Adepto da abordagem funcionalista, Cooper (2000) criou o modelo de
  interações recíprocas de cultura de segurança sob três aspectos: as
  percepções e atitudes; os comportamentos e as ações (práticas
  coletivas); e a estrutura da organização. As percepções e atitudes são
  aspectos subjetivos do indivíduo, ou seja, como as pessoas sentem. Os
  comportamentos e as ações são o que os indivíduos fazem. A estrutura
  da organização são procedimentos, sistemas de controle, fluxo de
  informação e estão relacionados à organização.</p>
  <p>Segundo Cooper (2000), os comportamentos e as ações são
  manifestações do indivíduo voltadas para a segurança. A estrutura da
  organização são elementos ligados ao sistema de gestão de segurança
  disponível pela organização. As práticas coletivas e os elementos que
  formam o sistema de gestão de segurança são visíveis e podem ser
  mensurados. As percepções e atitudes são de difícil identificação,
  mais ligadas à questão psicológica do indivíduo. O modelo recíproco de
  interações é uma ferramenta que permite analisar a cultura de
  segurança da organização proposto por Cooper (2000) e pode ser
  visualizado na Figura 1:</p>
  <p><bold>Figura 1 – Modelo de interações recíprocas de cultura de
  segurança</bold></p>
  <p>Fonte: Cooper, 2000.</p>
  <p>Quando Cooper (2000) menciona a estrutura organizacional no seu
  modelo de interações recíprocas está se referindo ao conjunto de
  sistemas organizacionais que proporcionam o desenvolvimento da cultura
  de segurança. Nesse sentido, a comunicação, a cooperação e o
  treinamento devem ser integrados e gerenciados, formando o sistema de
  gestão de segurança, com o objetivo de proporcionar-lhe melhorias.</p>
  <p><bold>Grau de maturidade da cultura de segurança</bold></p>
  <p>O conceito de maturidade nos ambientes organizacionais foi
  inicialmente desenvolvido nos Estados Unidos pelo Instituto de
  Engenharia de Software (<italic>Software Engineering
  Institute</italic> – SEI), na década de 1980, para atender demanda do
  governo federal americano de avaliação das empresas contratadas para
  desenvolver sistemas de informática (RICHERS, 2009). A necessidade
  surgiu para avaliar as empresas de engenharia de software quanto a sua
  capacidade, visto que muitas eram contratadas para desenvolver
  soluções tecnológicas, entretanto, não possuíam condições técnicas,
  gerando perda de recursos e tempo (GONÇALVES FILHO, 2011). O modelo
  desenvolvido pelo SEI previa estágios de maturidade para essas
  empresas de software de acordo com sua capacidade, como: inicial,
  repetível, definido, gerenciado e otimizável (GONÇALVES FILHO;
  ANDRADE; MARINHO, 2011).</p>
  <p>Os estudos de cultura de segurança trouxeram para as organizações
  os conceitos de grau de maturidade, com objetivo de identificar o
  estágio das organizações quanto à segurança nos ambientes laborais. É
  importante estudar o grau de maturidade da cultura de segurança porque
  possibilita a identificação de quais aspectos formadores desta cultura
  necessitam de melhorias, possibilitando o avanço de estágio inicial
  para avançado (HUDSON, 2007; GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011;
  STEMN <italic>et al</italic>., 2019).</p>
  <p>Segundo Gonçalves Filho, Andrade e Marinho (2011) essa evolução
  somente é possível com o conhecimento do estágio atual da organização,
  delimitando os pontos fracos e as medidas de seu desenvolvimento.
  Mensurar o grau de maturidade permite, também, definir as
  características dominantes nos diversos setores de uma organização
  quanto à cultura de segurança (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO,
  2011).</p>
  <p><bold>Modelo de maturidade de Hudson e os fatores indicativos da
  maturidade da cultura de segurança de Gonçalves Filho</bold></p>
  <p>Hudson (2007) criou um modelo para avaliar o grau de maturidade das
  organizações com os seguintes estágios: patológico, reativo,
  calculativo, proativo e construtivo. A evolução dos estágios ocorre à
  medida que a informação flui nas organizações para o destino correto,
  sem entraves, de forma clara para todos os envolvidos. O reflexo de um
  bom fluxo de informação é o aumento da confiança entre os
  trabalhadores (HUDSON, 2007). As principais características dos
  estágios de maturidade do modelo de Hudson podem ser visualizadas no
  Quadro 1:</p>
  <p><bold>Quadro 1 – Estágios de maturidade da cultura de
  segurança</bold></p>
  <table>
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <thead>
      <tr>
        <th>Estágios:</th>
        <th>Características</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
      <tr>
        <td>Patológico</td>
        <td><disp-quote>
          <p>Não há ações voltadas à segurança no trabalho.</p>
        </disp-quote></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Reativo</td>
        <td><disp-quote>
          <p>As ações ligadas à segurança do trabalho não são sistêmicas
          e constituem reações advindas de acidentes.</p>
        </disp-quote></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Calculativo</td>
        <td><disp-quote>
          <p>Há ferramentas de gerenciamento de risco na organização,
          entretanto ainda não se pode falar de integração entre essas
          ferramentas.</p>
        </disp-quote></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Proativo</td>
        <td><disp-quote>
          <p>As ações começam a interagir e são de caráter preventivo.
          Há o aprimoramento contínuo para a saúde, a segurança e o meio
          ambiente.</p>
        </disp-quote></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Construtivo</td>
        <td><disp-quote>
          <p>Existe um sistema de segurança no trabalho (saúde,
          segurança e meio ambiente) com as informações necessárias para
          se obter a melhor maneira de controlar os riscos.</p>
        </disp-quote></td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
  <p>Fonte: Hudson, 2007.</p>
  <p>O estágio de maturidade da cultura de segurança é medido através de
  fatores que a caracterizam. No entanto, não existe um grupo de fatores
  instituído como padrão para avaliá-lo (GONÇALVES FILHO, 2011;
  GONÇALVES FILHO; WATERSON, 2018). Com base no modelo de Hudson (2007)
  e por meio de revisão de literatura realizada a partir de 21 estudos
  Gonçalves Filho (2011), selecionou-se os cinco fatores mais utilizados
  em pesquisas que avaliaram a maturidade da cultura de segurança em
  organizações. São eles: informação, aprendizagem organizacional,
  envolvimento, comunicação e comprometimento, cuja descrição pode ser
  visualizada no Quadro 2:</p>
  <p><bold>Quadro 2 – Fatores indicativos do grau de maturidade da
  cultura de segurança</bold></p>
  <table>
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <thead>
      <tr>
        <th><bold>Fator:</bold></th>
        <th><bold>Descrição do fator:</bold></th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
      <tr>
        <td>1 – Informação</td>
        <td>Confiança dos trabalhadores para relatar as ocorrências de
        erros, acidentes e incidentes. Incluem-se nesse fator os índices
        de desempenho da segurança do trabalho.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>2 – Aprendizagem Organizacional</td>
        <td>Forma que a organização trata as informações, se há análise
        dessas informações com propostas de ações de melhoria e
        divulgação dessas ações.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>3 – Envolvimento</td>
        <td>Participação dos empregados nas questões de segurança, como:
        análise dos acidentes e incidentes que lhe dizem respeito;
        identificação e análise dos riscos do ambiente de trabalho;
        elaboração e revisão dos procedimentos relacionados com sua
        atividade. E participação em comitês e encontros de
        segurança.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>4 – Comunicação</td>
        <td>Forma como a organização se comunica com seus empregados, se
        há um canal aberto de comunicação entre os gestores e empregados
        e se é eficiente.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>5 – Comprometimento</td>
        <td>Destinação de recursos e suportes alocados para a gestão da
        segurança do trabalho, pela existência de um sistema de gestão
        da segurança do trabalho.</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
  <p>Fonte: Gonçalves Filho, 2011.</p>
  <p>Os fatores indicativos do grau de maturidade da cultura de
  segurança foram testados e validados por Gonçalves Filho (2011) em
  pesquisa realizada em empresas químicas e petroquímicas. O modelo foi
  empregado por Buffon, De Aguiar e Godarth (2018) em pesquisa efetuada
  em empresa do ramo alimentício.</p>
  <p>Assim, o estágio de maturidade de segurança de uma organização é
  identificado pelo modo como ela cuida de cada um desses cinco fatores,
  podendo ocorrer dos fatores se encontrarem em níveis distintos de
  maturidade em uma mesma organização (GONÇALVES FILHO; ANDRADE;
  MARINHO, 2011). A organização somente pode considerar que possui
  cultura de segurança quando atingir integralmente o último estágio de
  maturidade (GONÇALVES FILHO, 2011).</p>
  <p>No presente estudo, com base na literatura e com o objetivo de
  avaliar a maturidade da cultura de segurança da ANP, foram analisados
  os aspectos do modelo de Cooper (2000): percepções e atitudes,
  comportamentos e ações (práticas coletivas) e a estrutura
  organizacional, empregando-se, para tanto, o modelo desenvolvido por
  Hudson (2007) com os fatores testados e validados por Gonçalves Filho
  (2011), conforme a metodologia que será apresentada na próxima
  seção.</p>
  <p><bold>Metodologia</bold></p>
  <p>O estudo teve como objetivo avaliar o estágio de maturidade da
  cultura de segurança da ANP, Escola de Governo responsável pela
  formação e capacitação continuada dos servidores da PF, bem como pela
  oferta de cursos na área de segurança pública para outros órgãos
  brasileiros e estrangeiros. Em sua estrutura se encontra a Assistência
  de Segurança Orgânica (ASI), unidade responsável pelas seguranças
  patrimonial e física das pessoas.</p>
  <p>A pesquisa realizada possui natureza qualitativa e quantitativa,
  caracterizando-se, também, como um estudo de caso, efetuado por meio
  da análise da maturidade da cultura de segurança daquela Escola de
  Governo. Para a realização do estudo foi efetuada pesquisa documental,
  entrevistas com gestores e aplicação de questionários com servidores,
  colaboradores e alunos do curso de formação profissional de cargos
  policiais. Colaboradores são os funcionários de empresas contratadas
  pela ANP para a prestação de serviço terceirizado.</p>
  <p>Foram analisados os normativos a respeito da segurança orgânica da
  ANP, como a Instrução de Serviço Nº 01/2010 (ANP, 2010), que
  regulamenta o Sistema de Segurança Orgânica da Escola de Governo, a
  Instrução Normativa N° 113/2017 (POLÍCIA FEDERAL, 2007), que trata do
  Regime Escolar da ANP e a Portaria Nº 155/2018 (MINISTÉRIO DA
  SEGURANÇA PÚBLICA, 2018), que aprova o Regimento Interno da Polícia
  Federal. Foram realizadas pesquisas no Sistema Eletrônico de
  Informações da Polícia Federal (SEI-PF) com os seguintes critérios de
  busca: “segurança orgânica”, “atualização” e “ANP”.</p>
  <p>Por meio da análise documental foi possível a obtenção de dados
  relativos à estrutura organizacional da ANP, um dos aspectos da
  cultura de segurança, bem como identificar as prioridades da
  organização em relação ao tema, no âmbito do planejamento de objetivos
  e estratégias institucionais. Foi verificada a tramitação de processo
  administrativo no SEI-PF contendo proposta de atualização normativa
  relativa à segurança orgânica da ANP, iniciado por meio do Memorando
  N° 5/2018-PLANTÃO/ANP/DGP/PF (ANP, 2018).</p>
  <p>As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com as 02 (duas)
  chefias responsáveis pela gestão da segurança orgânica da instituição,
  com o emprego de roteiro elaborado a partir do modelo de Hudson (2007)
  e dos fatores propostos por Gonçalves Filho (2011). As entrevistas
  foram gravadas com autorização dos entrevistados. O questionário
  aplicado com os demais servidores e colaboradores da ANP foi
  construído, também, com base nos referidos modelo e fatores. Os itens
  do questionário foram adaptados para questões relacionadas à segurança
  orgânica, uma vez que o modelo de Gonçalves Filho (2011) tem o foco na
  prevenção de acidente de trabalho.</p>
  <p>O questionário possui 17 (dezessete) itens, relacionados aos cinco
  fatores propostos por Gonçalves Filho (2011), sendo que os fatores
  informação, aprendizagem organizacional e envolvimento possuem 03
  (três) itens cada. Os fatores comunicação e comprometimento possuem,
  cada um, 04 (quatro) itens no questionário. Os respondentes foram
  solicitados a selecionar, para cada item, a opção que mais
  representasse sua percepção a respeito do que ocorria na organização
  de segurança pública. Cada resposta representa a concepção do
  respondente em relação ao estágio de maturidade da cultura de
  segurança dos fatores avaliados.</p>
  <p>Antes da aplicação do questionário foi feita a validação por três
  juízes, servidores da ANP com titulação acadêmica de doutorado e
  mestrado e experiência com pesquisas empíricas, e a validação
  semântica com 02 (dois) servidores e 03 (três) colaboradores, para
  garantir, respectivamente, que os itens eram adequados para o que se
  queria medir e que a linguagem seria de fácil compreensão para os
  respondentes (PASQUALI, 2010). Também foi feita uma pré-aplicação do
  instrumento com estes servidores e colaboradores, para testar o
  sistema de recepção de dados antes de ser aplicado com a
  população-alvo da pesquisa.</p>
  <p>No questionário aplicado aos alunos, também baseado no modelo de
  Gonçalves Filho (2011), optou-se pela manutenção dos itens que
  contemplassem apenas os fatores de informação e comunicação, haja
  vista a interação superficial que se estabelece entre o discente e as
  questões de segurança orgânica, ocorrida apenas ao longo do curso de
  formação profissional, com duração de, aproximadamente, 04 (quatro)
  meses. As questões inicialmente elaboradas e validadas para os
  servidores e colaboradores foram adaptadas ao contexto de ensino e
  aprendizagem, vivenciadas pelos alunos na ANP. O questionário possui
  08 (oito) itens, sendo 03 (três) para o fator informação e 05 (cinco)
  para comunicação.</p>
  <p>Em uma população composta por 167 servidores, 103 colaboradores e
  424 alunos, foram obtidos 243 questionários respondidos, um percentual
  de 35,01% de taxa de resposta, o que, a princípio, pode parecer baixo,
  porém razoável, tendo em vista que os questionários enviados alcançam,
  em média, 25% de devolução (MARCONI; LAKATOS, 2005). A Tabela 1 mostra
  o perfil dos respondentes dos questionários:</p>
  <p><bold>Tabela 1 – Perfil dos respondentes da pesquisa</bold></p>
  <table>
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <thead>
      <tr>
        <th>Relação com a ANP</th>
        <th>N</th>
        <th>%</th>
        <th>Sexo</th>
        <th>N</th>
        <th>%</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
      <tr>
        <td>Servidores</td>
        <td>78</td>
        <td>32,10%</td>
        <td>Masculino</td>
        <td>186</td>
        <td>76,54%</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Colaboradores</td>
        <td>55</td>
        <td>22,63%</td>
        <td>Feminino</td>
        <td>57</td>
        <td>23,46%</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Alunos</td>
        <td>110</td>
        <td>45,27%</td>
        <td></td>
        <td></td>
        <td></td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
  <p>Fonte: Elaborado pelos autores.</p>
  <p>Para a análise da pesquisa documental e das entrevistas adotou-se a
  análise do conteúdo (BARDIN, 2006). Cada fator de Gonçalves Filho foi
  considerado uma unidade de registro, caracterizando o que Bardin
  (2006) denominou de grelha categorial. As perguntas sobre os fatores
  foram direcionadas às ideias centrais relativas aos estágios de
  maturidade propostos por Hudson (2007). Após o inventário dos
  elementos comuns de cada estágio de maturidade, associado às
  categorias predeterminadas, que consistiam nos fatores de Gonçalves
  Filho (2011), foi possível analisar as respostas dos entrevistados e
  classificar a maturidade da cultura de segurança em razão desses
  fatores. Através das entrevistas foi possível colher informações sobre
  como os gestores da organização pública percebem os três aspectos da
  cultura de segurança (COOPER, 2000).</p>
  <p>Para analisar as informações obtidas por meio dos questionários foi
  aplicada a moda, que pode ser definida como o valor que mais se repete
  num conjunto de valores. A moda é a medida de tendência central
  apropriada para análise de dados nominais, não fazendo sentido somar e
  dividir qualidade ou características (GONÇALVES FILHO; ANDRADE;
  MARINHO, 2011).</p>
  <p>O cotejo dos dados obtidos por meio das três técnicas de coleta de
  dados (pesquisa documental, questionário e entrevista) possibilita a
  visualização mais completa dos aspectos e fatores indicativos da
  maturidade da cultura de segurança no âmbito da organização de
  segurança pública estudada. Na próxima sessão serão apresentados os
  resultados e a discussão a respeito dos dados obtidos.</p>
  <p><bold>Resultados e discussão</bold></p>
  <p><bold>A pesquisa documental e a estrutura organizacional da
  ANP</bold></p>
  <p>A pesquisa documental permitiu a análise da estrutura
  organizacional, um dos elementos da cultura de segurança do modelo
  proposto por Cooper (2000). Verificou-se a inexistência de um canal
  específico de comunicação para tratar do tema segurança. O normativo a
  respeito da segurança orgânica da ANP é norma defasada em relação às
  novas demandas surgidas da evolução da Escola de Governo, da sociedade
  e da tecnologia, visto que não disciplina situações advindas dessa
  evolução, como exposto na proposta de atualização do normativo da
  segurança orgânica (ANP, 2018), em trâmite no SEI-PF.</p>
  <p>Apesar da Instrução de Serviço Nº 01/2010 (ANP, 2010), em vigor,
  que regula o sistema de segurança orgânica da Escola de Governo, fazer
  menção à Assistência de Segurança Institucional (ASI) como unidade
  responsável pela execução das medida de segurança da ANP, atualmente
  ela se constitui de um núcleo informalmente instituído, que não existe
  no Regimento Interno da Polícia Federal (MINISTÉRIO DA SEGURANÇA
  PÚBLICA, 2018). Assim, observa-se a necessidade de que seja instituída
  a ASI no organograma da ANP, como unidade formalmente subordinada à
  Direção da Escola de Governo, para regularizar uma situação já
  existente de fato.</p>
  <p>A proposta de atualização normativa, identificada no levantamento
  feito no SEI-PF, foi elaborada a partir de um esforço para
  regulamentar as atividades de segurança orgânica de acordo com os
  desafios atuais, conforme justificativa contida no processo
  administrativo (ANP, 2018). Dentre as inovações apresentadas pela
  proposta, está prevista a criação de uma chefia específica para gerir
  as questões afetas à segurança orgânica em substituição aos
  supervisores que atuam em escala, visto a necessidade de atuação
  convergente com um setor especializado e permanente, que permita o
  planejamento de estratégias e desenvolvimento de ações a respeito do
  tema. Quanto aos aspectos tecnológicos, o novo normativo prevê a
  proibição da ativação de sistema de navegação por satélite em que seja
  possível a identificação da localização da ANP e a utilização de
  veículos aéreos não tripulados, sem autorização.</p>
  <p>O Regime Escolar é outro normativo que disciplina algumas regras
  relativas à segurança orgânica destinadas aos alunos, tais como
  horários, registros de entrada e saída, identificação e restrição de
  acesso a algumas áreas. No entanto, não há qualquer referência às
  novas tecnologias, como, por exemplo, a divulgação de imagens e
  informações em redes sociais, tão em voga na sociedade.</p>
  <p>Aplicando-se o modelo de maturidade de Hudson (2007) na análise dos
  normativos sobre segurança orgânica, se observa que as ações ligadas à
  segurança na Escola de Governo não são sistêmicas e se estruturam para
  reagir aos incidentes, visando solucionar a crise do momento,
  caracterizando-se no estágio reativo, sem a previsão de ferramentas de
  gerenciamento e sem integração entre essas ferramentas para
  conceituá-las em um sistema. Portanto, afirma-se que há necessidade de
  aprimoramento do elemento estrutura organizacional na cultura de
  segurança da ANP.</p>
  <p><bold>Percepções e atitudes, comportamentos e ações de servidores e
  colaboradores da ANP</bold></p>
  <p>Por meio do questionário foram levantadas as percepções e atitudes,
  bem como os comportamentos e as ações de servidores e colaboradores da
  ANP. A Tabela 2 mostra os resultados das respostas dos questionários
  respondidos para cada um dos cinco fatores que identificam a cultura
  de segurança.</p>
  <p><bold>Tabela 2 – Percepção do grau de maturidade da cultura da ANP
  pelos colaboradores e servidores</bold></p>
  <table>
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <thead>
      <tr>
        <th></th>
        <th>Patológico</th>
        <th>Reativo</th>
        <th>Calculativo</th>
        <th>Proativo</th>
        <th>Construtivo</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
      <tr>
        <td>Informação</td>
        <td>3,4%</td>
        <td>14,65%</td>
        <td>0%</td>
        <td>81,95%</td>
        <td>0%</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Aprendizagem Organizacional</td>
        <td>34,3%</td>
        <td>12,7%</td>
        <td>19,4%</td>
        <td>33,6%</td>
        <td>0%</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Envolvimento</td>
        <td>6,8%</td>
        <td>39,1%</td>
        <td>0%</td>
        <td>54,1%</td>
        <td>0%</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Comunicação</td>
        <td>26,3%</td>
        <td>27,1%</td>
        <td>0%</td>
        <td>0%</td>
        <td>46,6%</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Comprometimento</td>
        <td>6%</td>
        <td>17%</td>
        <td>27%</td>
        <td>0%</td>
        <td>50%</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
  <p>Fonte: Elaborado pelos autores.</p>
  <p>Os números indicados na Tabela 2 correspondem ao percentual das
  respostas em relação ao grau de maturidade em que se encontra cada
  fator. A respeito do fator informação (<sc>GONÇALVES FILHO</sc>,
  2011), 81,95% das respostas indicam o estágio proativo. Os
  respondentes demonstraram possuir confiança para relatar a ocorrência
  de erros, acidentes e incidentes.</p>
  <p>Quanto ao fator aprendizagem organizacional, que é a forma como a
  organização trata as informações vinculadas à segurança, com a
  finalidade de promover o aperfeiçoamento da sua segurança (GONÇALVES
  FILHO, 2011), verificou-se a maior incidência de respostas
  correspondentes ao estágio inferior (patológico), com 34,3%. Isso
  demonstra a necessidade de melhorar a forma como a organização
  policial lida com as ocorrências relativas à segurança orgânica nas
  suas dependências e a consequente realização de melhorias decorrentes
  destas.</p>
  <p>Quanto ao fator envolvimento, que é a participação dos integrantes
  de uma organização nas questões de segurança, como, por exemplo, na
  análise dos acidentes e incidentes, na identificação de riscos e na
  elaboração de propostas de ações para melhoria da segurança (GONÇALVES
  FILHO, 2011), 54,1% da amostra identifica este fator no estágio
  proativo.</p>
  <p>Entretanto, chama a atenção o fato de que mais da metade dos
  respondentes identifica este fator em um estágio superior, porém,
  54,2% alegaram nunca terem participado de nenhuma atividade
  relacionada ao treinamento de segurança orgânica, apontando que há
  interesse de participarem de questões sobre segurança, faltando
  oportunidades de realização destes eventos.</p>
  <p>Com relação à comunicação, que é a forma como a organização se
  comunica com os seus empregados (GONÇALVES FILHO, 2011), a maior
  frequência dos respondentes identificou o estágio construtivo para
  este fator, com 46,6%. Entretanto, 53,4% dos respondentes indicaram
  este fator em estágios anteriores do grau de maturidade da cultura de
  segurança, indicando que ainda há deficiência em relação à
  comunicação, que pode ser consequência da não identificação de um
  canal específico de comunicação entre a ANP e os respondentes para
  tratar do tema.</p>
  <p>Quanto ao comprometimento, que se caracteriza pela destinação de
  recursos e suporte para a gestão da segurança, a maior frequência das
  respostas (50%) indica o estágio construtivo. No entanto, metade dos
  respondentes apontou que tal fator possui características de estágios
  anteriores do grau de maturidade da cultura de segurança (patológico,
  6%; reativo, 17%; e calculativo, 27%). A percepção com relação a este
  fator pode estar associada à insuficiência da realização de
  treinamentos, visto que 78,8% dos respondentes afirmaram não ter
  participado de nenhum treinamento de segurança orgânica, nos últimos
  doze meses.</p>
  <p><bold>Percepções e atitudes, comportamentos e ações dos alunos do
  curso de formação da ANP</bold></p>
  <p>Com a aplicação dos questionários junto aos alunos dos cursos de
  formação, foi possível verificar as suas percepções e atitudes, bem
  como os comportamentos e as ações relacionadas à segurança da ANP,
  conforme exposto na Tabela 3:</p>
  <p><bold>Tabela 3 – Percepção do grau de maturidade da cultura da ANP
  pelos alunos</bold></p>
  <table>
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <col align="left" />
    <thead>
      <tr>
        <th></th>
        <th>Patológico</th>
        <th>Reativo</th>
        <th>Calculativo</th>
        <th>Proativo</th>
        <th>Construtivo</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
      <tr>
        <td>Informação</td>
        <td>0%</td>
        <td>6,3%</td>
        <td>0%</td>
        <td>0%</td>
        <td>64,9%*</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Comunicação</td>
        <td>0%</td>
        <td>0%</td>
        <td>13,6%</td>
        <td>85,5%</td>
        <td>0%**</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
  <p>Fonte: Elaborado pelos autores.</p>
  <p>* 28,8% dos alunos responderam desconhecer sobre o questionado.</p>
  <p>**0,9% dos alunos responderam desconhecer sobre o questionado.</p>
  <p>Com base nas respostas dos alunos, pode-se classificar a maturidade
  da segurança quanto ao fator informação no estágio construtivo, com
  64,9% das respostas, refletindo o índice de confiança dos alunos em
  reportar ocorrências anormais à ANP. Destaca-se, entretanto, o elevado
  número de respondentes que alegaram desconhecer qualquer canal de
  comunicação para que os alunos relatem os incidentes (36,4% dos
  alunos).</p>
  <p>Observa-se, além do alto índice de desconhecimento sobre a forma de
  comunicar ocorrências, a crença elevada de que não existe esse canal
  de comunicação. Esses dados encontram relação com os índices dos
  colaboradores e servidores (26,3%), sugerindo-se que sejam instituídos
  e divulgados canais para o recebimento de informações.</p>
  <p>Quanto ao fator comunicação, a frequência das respostas dos alunos,
  85,5%, o classificam no estágio proativo, o que pode ser reflexo do
  fato de que as normas sobre segurança na ANP são amplamente divulgadas
  ao longo do curso de formação, chegando à maior parte dos alunos. A
  maioria (78,7%) acredita que exista um canal aberto de comunicação
  entre a ANP e os discentes para tratar do tema.</p>
  <p><bold>Análise das entrevistas e cotejo com os resultados obtidos
  com os questionários aplicados</bold></p>
  <p>As entrevistas semiestruturadas foram realizadas com as chefias
  responsáveis pela segurança orgânica da ANP. Quanto ao fator
  informação, os entrevistados relataram que as ocorrências são
  informadas de forma verbal e somente os casos graves são registrados.
  O entrevistado A indicou o livro de ocorrências do plantão para as
  situações que resultem incidentes graves. O entrevistado B indicou o
  Sistema Eletrônico de Informações – SEI para o registro destes
  incidentes.</p>
  <p>Os dois entrevistados afirmaram que o quantitativo de informações
  sobre segurança orgânica da Escola de Governo é baixo em razão do
  local ser seguro e não oferecer vulnerabilidade. A afirmação dos
  gestores pode ser confirmada pela resposta dos colaboradores e
  servidores, que informaram que 82% nunca se envolveram em questões
  relativas à segurança orgânica. A sensação de segurança percebida
  pelos gestores pode resultar da baixa ocorrência de acidentes e/ou
  incidentes na ANP. O entrevistado A inclusive menciona que “essa
  característica de segurança pode ser observada em locais sensíveis da
  ANP, como o Serviço de Armamento e Tiro, em que há guarda de armamento
  e munição, visto que nunca houve nenhum registro de ocorrência anormal
  no referido local”. A percepção do entrevistado vai ao encontro do
  estudo realizado por Stemn <italic>et al.</italic> (2019), que afirmam
  a existência de uma relação entre a taxa de incidência de ocorrências
  do local e a percepção de grau elevado de maturidade de segurança.</p>
  <p>Quanto à confiança das pessoas em informar as ocorrências anormais,
  os gestores acreditam que eles se sentem confiantes em relatar essas
  situações. As características apontadas pelos gestores indicam o
  estágio construtivo para o fator informação, em que pese haver traços
  de estágio patológico, haja vista os entrevistados A e B admitirem não
  haver qualquer índice de desempenho de segurança orgânica na ANP. Não
  obstante a percepção dos gestores de que o nível de maturidade do
  fator informação se encontra no estágio construtivo e os resultados
  dos questionários apontarem o estágio imediatamente anterior (estágio
  proativo), pode-se afirmar que as percepções dos públicos pesquisados
  convergem para uma avaliação positiva deste fator.</p>
  <p>A diferença de percepção entre gestores e empregados pode ser
  explicada porque os empregados tendem a classificar o nível de
  segurança em estágio inferior ao indicado pelos gestores (HEALTH AND
  SAFETY EXECUTIVE, 2001). Os gestores indicam estágio superior por um
  desejo de mostrar situação melhor do que a realidade do momento
  (HUDSON, 2007). Ressalta-se que os alunos também classificaram o fator
  informação no patamar mais elevado (estágio construtivo), demonstrando
  coerência entre os dados levantados.</p>
  <p>Para o fator aprendizagem organizacional, os entrevistados A e B
  informaram não haver metodologia para análise das ocorrências anormais
  e que atualmente cada caso concreto é analisado de acordo com suas
  peculiaridades. O entrevistado A defende essa ideia por entender não
  ser possível definir um padrão de reação para as ocorrências. Já o
  entrevistado B entende que: “O procedimento operacional padrão deve
  existir para tudo”.</p>
  <p>A respeito do fator envolvimento, o entrevistado A entende que “o
  envolvimento dos colaboradores e servidores é tímido”. Com relação aos
  alunos, acredita que não seja possível envolvê-los nas questões
  relacionadas à segurança, porque “estes ainda não são servidores e
  estão concorrendo a uma fase do concurso público”. O entrevistado B
  acredita que os colaboradores e servidores têm elevado grau de
  envolvimento com as questões de segurança.</p>
  <p>Com relação à forma de envolvimento destas pessoas, segundo o
  entrevistado A, “somente quando as pessoas perceberem a grandeza e a
  funcionalidade da segurança orgânica para a atividade policial é que a
  ANP terá uma cultura de segurança forte”. Já o entrevistado B acredita
  que não obstante a ANP não ser uma unidade de polícia judiciária, que
  lida com assuntos sensíveis e sigilosos, possui uma forte cultura de
  segurança. Percebe-se visões distintas dos gestores quanto ao fator
  envolvimento, refletindo nos 39% dos respondentes que indicam o
  estágio reativo para esse fator.</p>
  <p>Quanto ao fator comunicação, os entrevistados entendem que o grau
  de maturidade da ANP para este fator é o construtivo, ratificando os
  resultados dos questionários. O entrevistado A cita a intranet e as
  redes sociais como ferramentas de comunicação entre os frequentadores
  e a ANP. Por sua vez, o entrevistado B acredita que a comunicação
  forte da ANP decorre do trabalho realizado na Escola ser mais de
  natureza interna do que as demais unidades da PF, em que há atividade
  de investigação: “a realidade nestes locais onde há a investigação é
  um distanciamento maior entre as pessoas em razão dos trabalhos
  externos e das missões que são realizadas”.</p>
  <p>Observa-se que o fator comunicação com estágio elevado de
  maturidade pode auxiliar na evolução do fator aprendizagem
  organizacional, que se mostrou com problemas, visto que uma boa
  comunicação entre os empregados e alta administração sobre questões de
  segurança gera a retroalimentação entre a análise das causas e medidas
  corretivas e preventivas, contribuindo para a maturidade da
  aprendizagem organizacional (CORREIA, 2015). Uma boa comunicação na
  instituição estimula a confiança entre os empregados e gestores,
  aumentando a cultura de segurança do ambiente (HUDSON, 2007; SCHULMAN,
  2020).</p>
  <p>Não obstante os altos índices demonstrados para o fator comunicação
  pelo público pesquisado, é importante destacar que ainda há
  deficiência nessa seara, visto a elevada quantidade de respostas
  indicando não haver canal de comunicação para tratar do tema
  segurança. Quanto ao comprometimento, os gestores defendem que a ANP
  está no estágio construtivo de maturidade da cultura de segurança,
  correspondendo ao resultado obtido por meio dos questionários.
  Entretanto, observa-se que 50% dos respondentes apontaram estágios
  anteriores do grau de maturidade para este fator (27% calculativo; 17%
  reativo e 6% patológico), indicando que parte da amostra entende
  existirem problemas quanto à disponibilização de recursos e suporte
  relacionados à segurança orgânica da Casa de Ensino.</p>
  <p><bold>Conclusão</bold></p>
  <p>Por meio do estudo foi possível verificar que os servidores,
  colaboradores e alunos da ANP demonstraram entender a importância da
  segurança para o bom desempenho das atividades desenvolvidas naquela
  Escola de Governo, colocando-se como parte integrante do sistema de
  gestão de segurança, colaborando com informações sobre ocorrências,
  independentemente de terem gerado riscos ou danos. Isso demonstra
  forte envolvimento das pessoas que elevam a questão de segurança na
  ANP a um patamar de valor da instituição.</p>
  <p>Quanto à estrutura, foi observada, por meio da análise documental,
  a necessidade de melhorias para evolução da maturidade do grau de
  segurança, como, por exemplo, o novo normativo a respeito da segurança
  orgânica, que prevê a criação formal da Assistência de Segurança
  Orgânica, e a previsão de protocolos de segurança que contemplem as
  inovações trazidas pela evolução da sociedade, principalmente com
  relação à questão tecnológica.</p>
  <p>Esse resultado pode explicar a classificação inferior dada aos
  fatores aprendizagem organizacional e comprometimento, uma vez que
  estes estão ligados aos recursos oferecidos pela instituição para
  garantir a segurança do local, que devem ser amparados na estrutura
  organizacional existente. O grau elevado de cultura de segurança é
  proporcional ao quantitativo de recurso e melhor estrutura oferecida
  pela instituição (GONÇALVES FILHO; ANDRADE; MARINHO, 2011; SCHULMAN,
  2020).</p>
  <p>Quanto ao comportamento e às ações coletivas, observa-se um elevado
  estágio da maturidade da cultura de segurança. Os usuários obedecem às
  regras não por questão disciplinar, mas por um envolvimento profundo
  com os aspectos de segurança, visto que não há normativo específico
  sobre sanções disciplinares para infrações de segurança orgânica. Isso
  pode ser corroborado pelo discurso dos gestores e pela análise dos
  dados fornecidos pelos colaboradores e servidores nos questionários
  aplicados. Quanto aos alunos, o mesmo pode ser observado, entretanto,
  para esse público as sanções disciplinares previstas no Regime Escolar
  inibem o desrespeito às normas, posto que os referidos alunos ainda
  estão em fase de concurso e o conceito positivo impacta de forma
  relevante na classificação final deles.</p>
  <p>O presente estudo não esclarece a motivação dos servidores,
  colaboradores e alunos para classificar a maturidade da cultura de
  segurança da ANP nos níveis encontrados em relação aos valores e às
  crenças, uma vez que a estrutura institucional e os treinamentos não
  correspondem a esse estágio. Recomenda-se, assim, a realização de
  outras pesquisas que tenham por objetivo identificar as razões dos
  integrantes da Escola de Governo para possuírem uma percepção elevada
  de grau de maturidade da cultura de segurança quanto às crenças e aos
  comportamentos.</p>
  <p>Uma hipótese seria a própria natureza da atividade de ensino a
  respeito de segurança pública, que influencia todo o ambiente da
  Escola de Governo. Recomenda-se a adoção de mais atividades voltadas
  para a segurança orgânica, que possibilitem manter o envolvimento dos
  usuários com relação ao tema, bem como a criação de canal específico
  para comunicações de todos os usuários relativo ao tema segurança. Não
  se pode afirmar que há uma cultura de segurança implantada na ANP, uma
  vez que ainda há características de estágios inferiores do grau de
  maturidade. Gonçalves Filho, Andrade e Marinho (2011) afirmam que
  somente existe cultura de segurança no local quando todos os fatores a
  ela relacionados forem avaliados em estágios superiores do grau de
  maturidade.</p>
  <p>Respeitando as limitações, espera-se que o presente trabalho tenha
  contribuído para a evolução dos estudos a respeito da cultura de
  segurança, em especial em organizações policiais. Neste sentido, se
  propõe, como agenda de pesquisa, o desenvolvimento de outros estudos
  que avaliem o nível de maturidade da cultura de segurança em outras
  organizações, em especial naquelas vinculadas às atividades voltadas
  para a prestação do serviço de segurança pública, como as polícias, o
  que pode contribuir para o aprimoramento do gerenciamento destas
  instituições.</p>
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