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<p><bold>EDIÇÃO ESPECIAL - VOLUME 16</bold></p>
<p><bold>“Na teoria, a prática é outra coisa!” – socialização “escolar”,
estrutura bipartida e conflitos na Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro (PMERJ)</bold></p>
<p><bold>Lenin dos Santos Pires</bold></p>
<p>Doutor em Antropologia e professor do Departamento de Segurança
Pública da Universidade Federal Fluminense. É pesquisador associado do
Instituto de Estudos Comparados em Administração de Conflitos
(INCT-InEAC) e dedica-se aos estudos dos conflitos envolvendo mercados
informais, segurança pública e transportes urbanos.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio de Janeiro
<bold>Cidade:</bold> Rio de Janeiro</p>
<p><bold>E-mail:</bold> leninpires@id.uff.br <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-8250-467X</p>
<p><bold>Elizabete Ribeiro Albernaz</bold></p>
<p><bold>Minibio:</bold> Doutora em Antropologia, pesquisadora visitante
da Universidade Witwatersrand (WITS), em Joanesburgo, e coordenadora
adjunto do Laboratório de Estudos sobre Conflito, Cidadania e Segurança
Pública (LAESP/UFF). Desenvolve etnografias em áreas de favelas, bem
como sobre a temática de segurança pública, no Brasil e África do
Sul.</p>
<p><bold>País:</bold> África do Sul <bold>Estado:</bold>
<bold>Cidade:</bold> Johanesburgo</p>
<p><bold>E-mail:</bold> betealbernaz@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0003-3083-1473</p>
<p><bold>Contribuição de cada autor:</bold> Ambos os autores foram
responsáveis pela construção dos dados etnográficos, bem como pela
mobilização de ferramental teórico para sua análise. A escrita foi
compartilhada, bem como os processos de revisão.</p>
<p><bold>Resumo</bold></p>
<p>Com base em extenso trabalho de campo, o presente artigo aponta
algumas implicações estruturais de representações e práticas organizadas
em torno da implementação da política de formação profissional esboçada
pela extinta Secretaria de Segurança Pública do Estado do Rio de Janeiro
(SESEG) entre os anos de 2008 e 2017, período conhecido pela chamada
<italic>política de pacificação</italic>. Partindo dos objetivos da
política, conforme professados por seus gestores e idealizadores, o
texto explora a forma como o discurso da <italic>pacificação</italic>
era consumido nos espaços ditos “escolarizados” de socialização da PMERJ
no período em que esta pesquisa foi realizada. A etnografia revelou como
a desautorização de discursos identificados com um funcionamento “ideal”
das instituições realizava uma tensão estrutural de fundo, fazendo com
que representações acerca de noções como <italic>mudança</italic> e
<italic>continuidade</italic> atravessassem o cotidiano do referido
projeto de formação profissional, que era também um projeto de
consolidação de uma “nova polícia”. Característica amplamente
reconhecida em diversos outros trabalhos sobre a formação policial
militar, essa tensão encontrava sua expressão mais acabada na frase “na
teoria, a prática, é outra coisa”, repetida à exaustão ao longo de todo
o trabalho de campo realizado. Por fim, o artigo explora a oposição
contínua entre <italic>mudança</italic> e <italic>continuidade</italic>,
<italic>nova</italic> e <italic>velha</italic> polícia, entre outros
binarismos que embalaram a política à época.</p>
<p><bold>Palavras-chaves:</bold> Polícia Militar, Formação, Violência,
Conflito, Divisão Estrutural, Pacificação</p>
<p><bold>&quot;Theory is not practice!&quot;schooled spaces, binaries
aproachs and conflict in the military police</bold></p>
<p><bold>Abstract</bold></p>
<p>The article addresses the professional training policy outlined by
the Rio de Janeiro State Secretary for Public Safety, among 2008 and
2017. This period was known for the “pacification policy”. Based on that
public politic, the text explores developments with the sectors
responsible for police education. Material conditions are explored to
situate the way in which the “speech of pacification” was consumed in
the <italic>schooled</italic> spaces for socialization of the PMERJ. The
ethnography reveals the existence of a fundamental structural tension,
making representations about notions such as <italic>change</italic> and
<italic>continuity</italic> across the referred training project. The
opposition between <italic>theory</italic> and <italic>practice</italic>
was reworked in the continuous tension between &quot;change&quot; and
&quot;continuity&quot;; <italic>new</italic> and <italic>old</italic>
police, among other binaries that packed the Pacification Policy.</p>
<p><bold>Key words:</bold> Military Police, Educanting Process,
Violence, Conflict, Structural Division, Pacification Process</p>
<p><bold>Data de recebimento:</bold> 13/12/2020 - <bold>Data de
aprovação:</bold> 17/09/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v16.n0.1397</p>
<p><bold>Introdução</bold></p>
<p>Com o sol à pino, faziam 42 graus no abafado dia 12 de novembro de
2013. Por volta das 15h, o
<italic>recruta</italic><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> Paulo
Aparecido desfaleceu e não mais recobrou os sentidos. Exposto ao rigor
físico da chamada <italic>semana
zero</italic><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref> do treinamento do
Curso de Formação de Soldados (CFSD), ele não resistiu à prova. Aquela
era apenas a etapa inicial para o ingresso no círculo das
Praças<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> da Polícia Militar do
Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Naquela mesma tarde ensolarada de
terça-feira outros 33 alunos, segundo o comando do Centro de Formação e
Aperfeiçoamento de Praças (CFAP), à época, teriam precisado de algum
tipo de atendimento médico devido às condições climáticas adversas em
que realizavam o treinamento. Dezoito, dentre eles, teriam apresentado
também queimaduras nas nádegas e nas mãos. Os demais registraram
sintomas que sugeriram insolação, dores de cabeça e pressão alta. Paulo
Aparecido viria a falecer uma semana depois, no Hospital Central da
Polícia Militar (HCPM). A <italic>causa mortis</italic> divulgada:
“derrame causado por uma série de fatores que incluem a temperatura, a
prática de exercício físico e uma possível propensão
genética”<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>, segundo o Comandante do
HCPM, à época, Coronel Armando Portocarrero. Naquele dia fatídico, a
turma de Paulo Aparecido estava sob a supervisão direta de um grupo de
quatro jovens oficiais, em sua maioria tenentes, todos pertencentes ao
Corpo de Alunos (CA) do CFAP. Paulo Aparecido teria morrido durante uma
das contumazes sessões da chamada “suga”, instituto o qual analisaremos
mais à frente.</p>
<p>O caso suscitou questionamentos sobre as razões para a aplicação de
um tipo de treinamento tão rigoroso, cruel e irascível àqueles que
passariam a integrar o projeto de uma “nova polícia”, centrada na
aproximação com a sociedade e na prevenção à violência, a chamada
“Política de Pacificação”
(2008-2018)<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>. À época, estávamos
diretamente envolvidos com a coordenação de pesquisa empírica sobre o
processo de formação de policiais que integrariam as Unidades de Polícia
Pacificadora (UPP), e que envolvia a implementação de um novo currículo
para as Escolas de Formação, tanto de Praças quanto de Oficiais. O
referido projeto de formação foi chamado pela Secretaria de Estado de
Segurança do Rio de Janeiro (SESEG) de “Um novo tempo para a segurança
pública” e pretendia promover a “profissionalização das atividades de
ensino”, bem como “uma transformação cultural do fazer policial”,
capitaneada pela Doutrina de Polícia de
Proximidade<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. Relembramos aqui a
trágica morte de Paulo Aparecido para retomar uma série de questões que
nos colocávamos por ocasião da pesquisa. Quais os limites e as
possibilidades de projetos que propõem transformar as práticas policiais
ditas <italic>tradicionais</italic> (principalmente no que se refere ao
uso da força) a partir da formação e do treinamento, com foco nas formas
“escolarizadas” de produção e reprodução do saber-fazer policial? Como o
discurso de “reforma” era consumido no caminho entre as instâncias
político-estratégicas responsáveis pela elaboração de uma política
pública, e aquelas incumbidas de sua efetiva implementação? Como estas
mudanças são sentidas ou recepcionadas pela sociedade?</p>
<p>No presente artigo buscamos refletir sobre estas questões com base em
dados construídos a partir de estudo empírico realizado entre os anos de
2013 e 2015<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>. Para o
desenvolvimento da pesquisa, privilegiou-se a mobilização de técnicas
qualitativas, sobressaindo a observação direta dos ambientes estudados e
a realização de entrevistas com atores relevantes. Foram realizadas
visitas <italic>in loco</italic> ao Centro de Formação e Aperfeiçoamento
de Praças (CFAP) e a Academia de Polícia Militar D. João VI (APMDJVI),
as unidades operacionais (batalhões e UPP), bem como o acompanhamento de
reuniões de Conselhos Comunitários de Segurança (CCS) situados na
capital e na região metropolitana do Rio de Janeiro. Nestas
oportunidades, acompanhamos por horas a fio as dinâmicas afetas a tais
espaços e, em ocasiões pontuais, ocupando a posição de professores. Para
além de observações diretas, foram realizadas conversas informais com
“recrutas” (aluno-Soldado PM), e entrevistas com Comandantes e
profissionais diretamente responsáveis pela orientação e instrução de
futuros Praças e Oficiais<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>.</p>
<p>Buscaremos contribuir com uma compreensão sobre as potencialidades e
os limites de tais processos formativos a partir da análise dos mesmos.
Estaremos dialogando com os pontos de vista consolidados na literatura
especializada acerca da existência de uma “cultura” institucional ou de
“éticas” policiais, argumentando para uma dimensão fenomenológica dos
processos de constituição dessas identidades profissionais, que podem
combinar predisposições prévias dos indivíduos com formas
institucionalizadas de pensar e agir a partir da socialização dos
agentes pela sensibilização sensorial e através de intervenções sobre
seus corpos. Para dar conta deste objetivo, direcionamos nossa análise
especificamente para a política de formação desenhada pela SESEG,
expondo os termos pelos quais eram definidos seus objetivos e
desdobramentos junto aos setores responsáveis pela formação policial,
problematizando a forma como o <italic>discurso da pacificação</italic>
era consumido nos espaços escolarizados de socialização da PMERJ na
época da pesquisa. Finalmente, gostaríamos de argumentar que esse estado
de coisas, uma vez exposto, só pode ser devidamente compreendido se
remetido à existência de uma tensão estrutural de fundo, que se abre em
uma série de inversões sociologicamente relevantes. Buscamos perseguir
estas “inversões” para refletir não apenas sobre as lutas internas ao
<italic>projeto de pacificação</italic>, mas sobre o papel da formação
policial na consolidação de processos de reforma das organizações,
principalmente no que se refere aos padrões estabelecidos de uso da
força.</p>
<p>É muito interessante perceber como, depois de mais de três décadas de
governos democráticos, os desafios para a área de segurança pública
persistem em torno das tensões entre as lógicas corporativas informais e
os desígnios normativos institucionais. A nosso juízo, tais tensões
envolvem outras dimensões, de cortes racial, de gênero e de classe, cuja
abordagem no presente texto, entretanto, não será enfatizada. Para a
oportunidade, nos interessa chamar a atenção para aspectos mais
cotidianos da socialização corporativa, buscando evidenciar aspectos que
favorecem uma inscrição nos sujeitos das dimensões irrefletidas destas
identidades.</p>
<p><bold>Teoria e prática da reforma da polícia no Brasil</bold></p>
<p>Entre os anos de 2012 e 2014 – período que abrange a realização de
parte desta pesquisa e a morte de Paulo Aparecido –, a população do Rio
de Janeiro testemunhou o auge da expansão do projeto das Unidades de
Polícia Pacificadora (UPPs), com a inauguração de várias das 38 UPPs que
funcionaram até 2018<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>, quando se
iniciou o desmonte do projeto durante a chamada intervenção federal na
segurança pública do Rio de
Janeiro<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>. O recém elaborado
Planejamento Estratégico da PMERJ previa a propagação, para toda a
corporação, da chamada Doutrina de Polícia de Proximidade, filosofia
criada no âmbito da Política de Pacificação. Como vimos, esperava-se que
a <italic>proximidade</italic> norteasse todas as atividades
finalísticas da PMERJ, promovendo a sua propalada “transformação
cultural”. Apostava-se na ideia de “prevenção do delito” e na difusão de
técnicas de “mediação de conflitos” enquanto estratégias para “o
restabelecimento da legitimidade da polícia militar junto a população”,
como afirmavam os gestores policiais entrevistados. A adoção daquela
perspectiva implicava uma verdadeira inversão no foco de atuação da
corporação até então, em que “a prisão de marginais da lei [tornava-se]
mera consequência de uma bem articulada rede solidária de proteção
baseada na aproximação entre polícia e
sociedade”<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>.</p>
<p>Nesse período, o Rio de Janeiro testemunhava também os menores
índices de violência observados nos últimos 10 anos, com uma acentuada
queda na chamada “letalidade
violenta”<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref> – em especial, dos
‘homicídios decorrentes de intervenção
policial’<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref> – e dos roubos em
geral, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP). Uma pergunta que
passamos a nos fazer naquela época era: como, nesse cenário em que se
observava a queda nos índices de criminalidade e o foco institucional na
<italic>proximidade</italic>, se poderia justificar a rusticidade do
treinamento que levou à morte de Paulo Aparecido? Morte esta ocorrida
durante a formação dos policiais que se tornariam os principais
promotores da propalada “nova forma de fazer polícia”, trazida pelas
Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e pela Doutrina de Polícia de
Proximidade. Cabe destacar, entretanto, a evidente tensão entre os
princípios que idealmente informavam a Política de Pacificação e sua
dimensão performativa. Uma tensão entre o discurso emanado pela esfera
político-estratégica, positivado nos currículos de formação e diretrizes
institucionais, e aquilo que era praticado <italic>na ponta</italic>,
pelos atores em situações concretas, seja na relação entre pares, seja
na relação com a população.</p>
<p>Essas questões, em certa medida, já haviam sido colocadas em
perspectiva por estudos anteriores sobre o tema das reformas policiais,
no Brasil e no exterior; e a proposta de uma nova polícia, a partir das
chamadas UPPs, aguçava a discussão em torno dele. Quem é o/a policial
que é entregue pelo processo formativo experimentado nas escolas, a
partir de saberes ditos escolarizados? Como esse ideal é consumido pelas
pessoas em situações concretas no ambiente organizacional? Quais são as
possibilidades reais de que esse ideal, produzido nas esferas da gestão
e da política, possa chegar à &quot;ponta da linha”, modificando
comportamentos concretos na relação entre pares e com a população? Mas
que polícia é essa que se esconde no plano das práticas, que se mantém
blindada ao controle e à previsibilidade? Por que o discurso da
“política pública” não consegue alcançá-la? Estes questionamentos não
são novos no tocante às abordagens sociológicas sobre a chamada área da
Segurança Pública.</p>
<p>Ao longo de pelo menos quatro décadas, as práticas policiais têm sido
colocadas sob análise, indagando-se sobre as condições de possibilidades
para suas reformas, buscando sua modernização. Barreira (2004), por
exemplo, analisou as políticas de segurança pública implementadas no
estado do Ceará, no período entre 1987 e 2002, chamando a atenção para
as mudanças, adaptações e readaptações dos aparatos policiais às
conjunturas políticas locais e nacionais. Focalizando o período
posterior à ditadura militar, particular atenção foi dada às alterações
na estrutura administrativa da área de segurança, buscando aumentar a
credibilidade dos aparelhos policiais e, com isso, a capacidade
discursiva do governo em oferecer maior segurança para a população. O
estudo das transformações internas e externas da política de segurança
pública ocupa uma dimensão essencial na abordagem do sociólogo,
sublinhando a dificuldade da institucionalização das práticas
democráticas na dimensão da segurança pública. Barreira analisa um
contexto no qual se travou uma luta pela hegemonia do Estado, no ocaso
dos antigos coronéis mandatários, dando lugar ao chamado “governo dos
empresários”. Nele teve lugar uma disputa simbólica entre o “novo” e o
“antigo”, o “moderno” e o “atrasado”, o “racional” e o “irracional”. Seu
trabalho é importante de ser resgatado, em primeiro lugar, por conta
destas polarizações.</p>
<p>Outro elemento importante é que no período analisado, a exemplo do
observado no Rio de Janeiro no governo de Sérgio Cabral, se estabelece
um contexto de crise de confiança da população diante dos casos de
violência e corrupção. Diferentemente, porém, do observado com as
chamadas UPPs, o governo cearense buscou a parceria e a participação da
comunidade local com a criação de conselhos comunitários de defesa
social (CCDS). Estes conselhos seriam o elo de ligação entre a
comunidade e os órgãos de segurança, tendo como principal objetivo
“participar ativamente na solução dos problemas de segurança do bairro,
apoiando e auxiliando a SSPDC”. Contudo, o que se percebe, segundo
Barreira, é que as mais variadas demandas são recepcionadas pelas
polícias, bem como por parte da população, como meras distrações diante
do que realmente interessa, ou seja, o “combate à criminalidade”,
dificultando uma mudança de paradigma em relação ao período
anterior.</p>
<p>Em tais contextos, todo o corolário de discussões dos chamados
“Direitos Humanos”, introduzido no processo de redemocratização,
perderia sua força inovadora diante das práticas tradicionais da
polícia, que permaneceria enquanto balizador, uma espécie de “currículo
oculto”, conforme identificou Paixão (1982) ao estudar o policiamento
civil em Belo Horizonte. Paixão compreendeu que os policiais da linha de
frente se orientam por um estoque de conhecimento não formalizado
institucionalmente, que comporia sua cultura organizacional. Esse
estoque de conhecimento seria formado por teorias sobre a origem e a
natureza dos criminosos, métodos próprios de investigação e por uma
série de outros conhecimentos aprendidos informalmente e que contrastam
fortemente com os valores e comportamentos formalmente prescritos pela
organização. O antropólogo Roberto Kant, que estudou a polícia civil no
Rio de Janeiro mais ou menos no mesmo período, identificou tal dinâmica
como pertencente a uma “ética policial” (KANT DE LIMA, 1995), onde os
instrumentos legais e os princípios de direitos humanos seriam encarados
como obstáculos à realização de um policiamento eficiente, mais ou menos
como apontados em outros trabalhos sócio-antropológicos, envolvendo
outras forças de segurança (ADORNO, 1998; RATTON, 2007; SAPORI; SOUZA,
2001; SAPORI, 2007).</p>
<p>Esta oposição estrutural original, entre <italic>mudança</italic> e
<italic>continuidade</italic>, <italic>prática</italic> e
<italic>teoria</italic>, se desdobra, como afirmamos, em uma série de
outras oposições: <italic>rua</italic> e <italic>administrativo,
escola</italic> e <italic>batalhão,</italic> e assim por diante.
Binariedades que irão se alinhar em uma matriz complexa, combinando
incessantemente suas componentes. Assim, afirmar que “na prática, a
teoria é outra coisa”, frase que figura no título do presente artigo,
significa negar legitimidade não só ao conteúdo do que é dito, mas
também das próprias fontes de produção do discurso, do lugar
institucional identificado com o formal/escolarizado e seus emissores. A
aposta analítica que gostaríamos de desenvolver aqui, portanto, é que a
oposição entre <italic>teoria</italic> e <italic>prática</italic>
policial se refere, em última instância, a um tipo de antagonismo de
classe; um que perpassa toda a estrutura organizacional da polícia
militar: a divisão entre os círculos de oficiais e praças. Toda a
estrutura da organização policial reitera essa oposição. Dos refeitórios
ao tipo e à qualidade das refeições, até a formação de seus quadros,
realizada em escolas separadas. Igualmente, se observados mais de perto,
esses contingentes humanos apresentam formações morais e disposições
estéticas diversas, balizadas por um contínuo regime de desconfianças
recíprocas.</p>
<p>Aqui introduzimos uma breve digressão para chamar a atenção para os
riscos de uma leitura enviesada nas conjugações estruturais e binárias.
Os estudos e as reflexões empreendidas por Roberto DaMatta (1997) foram
profícuas em sinalizar para os limites dessas estruturas bipartidas que
caracterizariam a sociedade brasileira. As distinções entre Indivíduo e
Pessoa, bem como as oposições entre a “Casa e a Rua” são contribuições
importantes dessa forma de construir problemas e suscitar abordagens na
sociologia brasileira. Nossa leitura, porém, difere da conjugação
empreendida por aquele autor. No contexto por nós analisado, na maior
parte do tempo, o oficial estaria moral e cognitivamente afeito ao
espaço dos batalhões (ou <italic>casa</italic>, enquanto “caserna”) e os
praças, às ruas. Ora, neste arranjo o espaço reservado às relações
internas seria o lugar da imposição da regra, de uma suposta
impessoalidade. Sobretudo se pensarmos na maneira como os oficiais
administram a atividade e a carreira das praças, fundamentados numa
burocracia implacável, cuja autoridade da regra advém do Regimento
Disciplinar. Diferentemente, as ruas conformariam o
<italic>lugar</italic> onde a regra, a lei, seria flexibilizada ao
extremo; seja no que concerne à relação dos agentes com a lei ordinária,
seja com os ditames da corporação. A rua é lugar de fazer “polícia de
verdade”. No trato com a administração do uso da força, em nome do
Estado, os agentes experimentariam nesse espaço a discricionariedade
própria daqueles que devem agir, não em nome da lei, mas da ordem.
Experimentando, assim, ampla liberdade na perpetração de abusos para com
os direitos de cidadania.</p>
<p><bold>O papel da violência na tensão entre mudança e continuidade na
PMERJ</bold></p>
<p>Um ponto que chamou nossa atenção durante a pesquisa – também
apontado por outras pesquisas na área de formação policial no Brasil
(ver CARUSO; PATRÍCIO; PINTO, 2010) – foi o papel desempenhado pelo
Corpo de Alunos (CA). Uma de suas funções, segundo consta nos
regulamentos da PMERJ, seria introduzir os novos
<italic>recrutas</italic> à hierarquia e à disciplina militares,
princípios organizativos entendidos como basilares da vida corporativa
dos futuros policiais. Nesse sentido, os Oficiais e Praças que fazem
parte do CA, durante a <italic>semana zero</italic>, assumem um
importante protagonismo na socialização dos alunos. Nesse período, os
<italic>recrutas</italic> são introduzidos nas artes da <italic>ordem
unida</italic>, aprendem a <italic>prestar continência</italic>, a
reconhecer os <italic>postos</italic> e as <italic>graduações</italic>
de seus superiores hierárquicos. Também lhes é apresentado o Regulamento
Disciplinar (RDPM), peça igualmente basilar na regulação das relações
hierárquicas na PMERJ, bem como os regulamentos que regem a escola de
formação, suas rotinas administrativas e pedagógicas.</p>
<p>Extraoficialmente, entretanto, o grupo de Oficiais e Praças do CA,
durante a <italic>semana zero</italic>, é também o principal responsável
pela aplicação das chamadas
<italic>sugas</italic><xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>.
Justamente um dos “rituais” que utilizam a violência como uma forma de
produzir uma adesão identitária englobante por meio do suplício do
corpo, como uma forma de nele inscrever uma série de significados
sociais – um pouco como as técnicas de marcação corporal descritas por
Pierre Clastres (2004) nas sociedades ameríndias. Estes rituais
supliciantes são conhecidos, no jargão policial, como
<italic>sugas</italic> e são aplicados, segundo interlocutores, para
produzir “a rusticidade necessária à atividade policial militar”.</p>
<p>A morte de Paulo Aparecido, em meio a toda aquela agitação
reformista, foi um banho de água fria. Seja para a própria pesquisa da
qual participávamos ativamente – que precisou ser interrompida no âmbito
do CEFAP, por um tempo –, seja para os gestores da SSEVP, diretamente
implicados com a <italic>mudança cultural</italic> da PMERJ via área de
educação. Dentre outras coisas, a trágica morte do jovem
<italic>recruta</italic>, ocorrida nas dependências da escola de
formação de Praças, expunha uma descontinuidade radical entre o discurso
da pretensa política pública, seus emissores, e as práticas adotadas por
seus principais consumidores, fossem estes os gestores das escolas,
fossem os responsáveis diretos pelo trato com o alunado.</p>
<p>Essa “descontinuidade” era epitomizada pela frase “na prática a
teoria é outra coisa”, um jargão amplamente difundido na corporação
policial militar. Esta foi repetida à exaustão pelos entrevistados e
durante todo o trabalho de campo que embasou esta pesquisa. A tensão
entre <italic>mudança</italic> e <italic>continuidade</italic>
atravessava o projeto das UPPs como um todo. Essa tensão, quando
observada a partir dos cenários promovidos pela política de formação,
encontrava sua expressão numa discursividade que se mostrou persistente
ao longo de todo nosso trabalho de campo. Como referimos, a velha
oposição entre <italic>teoria</italic> e <italic>prática</italic> se via
reelaborada na tensão entre mudança e continuidade, entre uma
<italic>nova</italic> e uma <italic>velha</italic> polícia, que
habitavam simultaneamente a Política de Pacificação.</p>
<p>Essa tensão, segundo o argumento que gostaríamos de desenvolver, se
realiza num plano de expressão simbólica que remete a uma oposição
estrutural fundada sobre a estrutura bipartida da organização policial:
a chamada “dupla entrada”<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref>. Nesse
sentido, a oposição entre <italic>teoria</italic> e
<italic>prática</italic> – em sua dimensão sabotadora, que desqualifica
e enfraquece o discurso da política – remete, em última instância, a um
campo de disputas institucionais que opõe Oficiais e Praças. Na última
seção do presente artigo, exploraremos os desdobramentos dessa oposição
nos diversos âmbitos de socialização policial militar observados durante
a pesquisa. Atribuiremos especial destaque, entretanto, às consequências
dessa tensão estrutural de fundo, encarnada na imagem de uma estrutura
fraturada, para as iniciativas de “reforma” focadas nos espaços
escolarizados de socialização policial.</p>
<p><bold>Promovendo a “mudança cultural”</bold></p>
<p>Como mencionamos antes, as escolas de formação – principalmente o
CFAP, onde a morte de Paulo ocorreu – deveriam ser o
<italic>locus</italic> da <italic>mudança cultural</italic> que
viabilizaria a transição para uma polícia de proximidade. Diversas
medidas foram adotadas nesse sentido. Tanto no âmbito dos órgãos de
ensino e instrução da própria PMERJ, quanto por meio da Subsecretaria de
Educação, Valorização e Prevenção (SSEVP). A principal política pública
na área de ensino e formação policial, para a gestão do Secretário José
Mariano Beltrame (2007-2016), foi a criação do chamado Banco de
Talentos. A ideia central da política, nas palavras de seus gestores na
SESEG, era “profissionalizar o ensino e a instrução nas Polícias Civil e
Militar”. Essa propalada <italic>profissionalização</italic> envolvia,
em termos gerais, a seleção por mérito e a remuneração dos corpos
docentes das unidades de ensino<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>
e das unidades especializadas<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>.
Antes do Banco de Talentos, as atividades de docência nas escolas eram
organizadas com base em professores voluntários; em sua maioria,
policiais da ativa e da reserva.</p>
<p>Com a nova política, os currículos passaram a ser cadastrados por
meio de uma ferramenta aberta, disponível na
internet<xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref>, incluindo candidatos
civis e policiais. Além disso, a seleção passou a ser feita por um
sistema de pontuações que buscava ponderar a relação entre currículo
acadêmico e técnico, experiência profissional e as ementas das
disciplinas. Ementas estas que, diga-se de passagem, não existiam antes
da implantação do Banco de Talentos, o que nos leva à segunda dimensão
importante da missão de <italic>profissionalização do ensino
policial</italic>: as reformas curriculares e pedagógicas.</p>
<p>Para serem beneficiadas pelos recursos do Banco de Talentos, as
escolas e unidades especializadas, por meio de suas Divisões de Ensino,
precisaram implementar uma série de medidas de gestão educacional:
construção de ementas e planos de aula das disciplinas, material
didático, bancos de questões, instrumentos de avaliação docente e
discente, supervisão, dentre outras. Todo esse ferramental era empregado
em serviço da implementação de uma revisão curricular profunda. Essa
revisão, segundo os gestores da SESEG em entrevista por nós realizadas,
tinha partido de uma ampla discussão envolvendo o público interno e
profissionais de fora das corporações, realizada com o intuito de
“identificar os conhecimentos, habilidades e atitudes necessárias ao
desempenho da atividade policial voltada a uma polícia de proximidade”.
Como a Pacificação era uma política que mobilizava principalmente
efetivos da Polícia Militar, o epicentro desse processo acabava sendo as
Unidades de Ensino da PMERJ; em especial, o CFAP, onde formam-se as
Praças da corporação. Na entrada da escola, na época da pesquisa, tinha
sido instalada uma grande placa com os dizeres: “aqui formam-se os
pacificadores”.</p>
<p>A despeito da afirmação dos gestores da área de educação de que a
“proximidade” era um valor curricular transversal, no caso da formação
de Praças, os princípios da Pacificação eram repassados de forma
organizada em um módulo cursado em separado. No caso da formação de
Oficiais, esse módulo sequer existia; via-se incorporado nas discussões
de policiamento comunitário. O módulo de “polícia de proximidade” do
CFSD era coordenado diretamente pelo setor de ensino e instrução de uma
unidade externa ao ambiente do CFAP à época, a Coordenadoria de Polícia
Pacificadora (CPP). Por conta disso, na percepção do alunado do CFSD com
quem conversamos, era como se a formação para a Pacificação fosse um
período de suspensão da normalidade, de descolamento em relação à
realidade cotidiana das escolas<xref ref-type="fn" rid="fn19">19</xref>.
Por uma semana, as futuras Praças eram apresentadas a um “dever ser”
que, segundo diziam, contradizia abertamente aquilo que era praticado no
CFAP. Mas de que forma isso se relacionava com as medidas adotadas no
âmbito do projeto do Banco de Talentos?</p>
<p>Da parte dos idealizadores da Pacificação, a expectativa que se
depositava sobre a recém-criada Subsecretaria de Educação, Valorização e
Prevenção (SSEVP) era de promover uma “mudança cultural” em relação às
práticas policiais. Essa “mudança” deveria seguir no sentido de
transformar “velhas práticas”, “aproximando a polícia da sociedade” e
ampliando seu foco de atuação do crime para a promoção de “qualidade de
vida” e “desenvolvimento social” nas <italic>comunidades
pacificadas</italic>. Com isso, esperava-se, principalmente, enfraquecer
o poder de cooptação ideológica do chamado <italic>ethos</italic>
<italic>guerreiro</italic><xref ref-type="fn" rid="fn20">20</xref>. Este
último entendido enquanto valor referencial de uma cultura
policial<xref ref-type="fn" rid="fn21">21</xref> que enaltece a coragem
e o destemor dos <italic>guerreiros</italic> no <italic>combate à
criminalidade</italic> e que se realizaria, em sua apreensão mais
arquetípica, no enfrentamento de grupos armados de narcotraficantes nas
favelas cariocas.</p>
<p>As Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) e a Política de
Pacificação<xref ref-type="fn" rid="fn22">22</xref>, na percepção de
seus gestores, na PMERJ e na própria SESEG, deveriam intervir
diretamente nesta dinâmica de cooptação. Herdariam, portanto, o ônus de
investir ativamente na desconstrução desse imaginário
<italic>guerreiro</italic> como condição de seu próprio sucesso. Era
preciso fundar uma “nova polícia” no seio da velha, assim lidavam com a
questão em nível político-estratégico à época. Essa <italic>velha
polícia</italic>, imaginava-se, se nutria das práticas e dos
<italic>vícios</italic> construídos nas ruas, com os mais
<italic>antigos</italic>, na relação direta com a sociedade. Como era
possível blindar, simbólica e materialmente, os aprendizados de uma nova
forma de fazer polícia, a <italic>polícia de proximidade</italic>, em
relação às práticas violentas e corruptas da <italic>velha
polícia</italic>, também chamada <italic>tradicional</italic>?</p>
<p>Uma das estratégias adotadas – além de todo um trabalho de formação
diferenciada e diferenciação estética – foi a decisão de compor o
efetivo das UPPs majoritariamente com <italic>policiais novos</italic>.
Assim, com o tempo, além de um problema de supervisão de graduado, a
medida gerou questões de segurança, uma vez que expunha jovens policiais
a um ambiente complexo de atuação sem o devido suporte de policiais mais
experientes. Mas qual era o valor real dessa medida? Este elemento é
assaz importante por duas razões. Primeiro, por que ao retirar dos
batalhões a atribuição de patrulhamento ostensivo em diferentes favelas,
se apostou num redimensionamento de pessoal das mesmas. Esse
redimensionamento não aconteceu, uma vez que 100% do efetivo formado no
CFAP, tecnicamente, era direcionado para as UPPs, deixando os
<italic>batalhões tradicionais</italic> descobertos nesse sentido. A
partir de um rotineiro processo de aposentadorias, desligamentos,
falecimentos, entre outras variáveis que fazem oscilar o efetivo
policial, este contingente superdimensionado das UPPs, a princípio,
deveria atuar em outras áreas sem equalização orçamentária. Estes
recursos materiais e humanos seriam distribuídos de forma desigual entre
os agrupamentos policiais, privilegiando as UPPs, e deixando os ditos
“batalhões convencionais” da PMERJ responsáveis pela administração de
áreas muito maiores e complexas, com restrições severas para o seu
desempenho.</p>
<p>Por outro lado, as novas unidades passaram a exibir diacríticos
próprios, promovendo uma nova marca: a UPP. Esta passou a ter carros
diferentes, uniformes diferentes e, dessa maneira, atrair atenções
externas e evocar discursos discriminadores e contrários à polícia dita
“tradicional”. Barreira e Russo (2012) relatam uma experiência análoga,
em Fortaleza, com a chamada Ronda do Quarteirão, pela polícia militar
cearense, que constituiu uma das principais propostas do então candidato
a governador Cid Gomes, contribuindo para sua eleição em 2006. A
proposta deste programa foi criar uma <italic>polícia de
proximidade</italic>, com viaturas modernas, atuando em uma área
restrita, de 3 quilômetros quadrados, com qualificação em Direitos
Humanos. Contudo, antes mesmo de começar a funcionar, o programa recebeu
críticas pelo alto custo das viaturas adquiridas e, como no caso das
UPPs, por adotar um uniforme diferente do utilizado pelos demais membros
da Polícia Militar do Ceará, criando uma divisão dentro da Corporação
entre aqueles que eram da Ronda do Quarteirão e os que não eram. Como
observado no Ceará, o pretenso processo de “reforma” que ocorreu com as
UPPs no Rio de Janeiro contribuiu para mobilizar antipatia e processos
de sabotagem internos à corporação.</p>
<p>Na prática, as métricas para avaliar esse tipo de impacto são
escassas. Entretanto, durante a pesquisa, a empiria colocou em evidência
a suposta eficácia de muitas das estratégias adotadas para a fundação de
uma <italic>nova polícia</italic>. Em primeiro lugar, mostrou-se frágil
a pressuposição de que os policiais novatos seriam menos suscetíveis à
corrupção insidiosa das ruas. Afinal, as pessoas não são tábulas rasas
quando entram para polícia; por ocasião do seu ingresso na corporação
trazem ideias e representações claras acerca da natureza da atividade
policial. A partir de uma etnografia com jovens participantes de um
curso para ingresso na PMERJ, oriundos do subúrbio da cidade do Rio de
Janeiro, Rodrigues (2021) mostra que eles têm uma expectativa de se
estabelecer naquela profissão para obter ganhos e vantagens a partir de
uma representação do trabalho da polícia voltado para o uso da força,
sem se preocupar com seus eventuais abusos. Um instrutor da APM,
responsável pela formação de Oficiais, contava-nos uma história que era
muito ilustrativa nesse sentido. Quando atuava como instrutor do CFSD,
pediu a um grupo de <italic>recrutas</italic>, logo no início da aula,
para realizarem um procedimento de abordagem. Para sua surpresa, antes
mesmo de receberem qualquer informação técnica acerca do procedimento, o
grupo já reproduzia a lógica agressiva com que a polícia realiza
revistas pessoais, principalmente em áreas periféricas. Em parte,
considerando o relato do instrutor, a violência policial parece ser um
processo de reconhecimento. Se a polícia é violenta, é também porque a
sua composição social é oriunda de áreas em que a polícia aplica a
violência, principalmente contra a juventude, como forma de
regulação.</p>
<p>O segundo ponto é a própria violência institucional, promovida entre
pares no cotidiano da organização (escalas, equipamentos,
<italic>judarias
internas</italic><xref ref-type="fn" rid="fn23">23</xref>), mas também
nos próprios bancos escolares, de onde deveriam partir os
<italic>policiais pacificadores</italic>. Quando se referiam a um tipo
de <italic>suspensão da realidade</italic> na relação entre o Módulo de
Polícia de Proximidade e o dia a dia do Curso de Formação de Soldados
(CFSD) no CFAP, nossos interlocutores se referiam às
<italic>sugas</italic>. As sessões de <italic>suga</italic>, como
referimos, envolvem a extenuação física do alunado e alguma dose de
violência controlada que, como vimos no caso de Paulo Aparecido, às
vezes pode escapar das mãos dos supostos controladores. Na época da
pesquisa, as <italic>sugas</italic> eram defendidas abertamente pelo
comando do CFAP como forma de produzir “rusticidade”, um termo que será
apresentado mais adiante. As <italic>sugas</italic> eram aplicadas pelo
Corpo de Alunos (CA), órgão que divide com a Divisão de Ensino, centro
da “mudança cultural” nas escolas, a responsabilidade da formação dos
futuros policiais. Na prática, segundo constatou a pesquisa, o CA era um
dos responsáveis por sabotar toda a teoria da Pacificação.</p>
<p><bold>Entre <italic>amamãezados</italic> e
<italic>rústicos</italic></bold></p>
<p>As <italic>sugas,</italic> como a que vitimou Paulo Aparecido, por
diferentes ocasiões, ao longo dos anos, foram proibidas nas dependências
das unidades de ensino da PMERJ por comandantes considerados de linha
mais “progressista”. O mesmo ocorreu com as <italic>canções de
guerra</italic><xref ref-type="fn" rid="fn24">24</xref>, entoadas pelo
efetivo quando em deslocamento no interior das escolas ou durante o
condicionamento físico. Ambas atividades, é claro, sob responsabilidade
do Corpo de Alunos (CA). Muda o comando, muda a linha de trabalho da
escola (como ocorre, aliás, com qualquer unidade policial) e as
<italic>sugas</italic> e as referidas canções sempre acabam sendo
restabelecidas na rotina da unidade de ensino, depois de banidas por um
certo período de tempo.</p>
<p>Pode-se dizer que é bastante difundida a percepção – mesmo entre os
próprios alunos submetidos à violência ritual das <italic>sugas</italic>
– de que as turmas formadas fora desses rituais de guerra seriam
<italic>amamãezadas</italic>, como se diz no jargão nativo. “Cheios de
direitos e opiniões” – como reclamavam os mais intransigentes na defesa
de tais expedientes –, estas gerações de policiais
<italic>amamãezados</italic> seriam inábeis para o desempenho do
<italic>verdadeiro trabalho de polícia</italic>. A expressão faz
referência às atividades ditas <italic>operacionais</italic> e de
<italic>combate ao crime</italic>, incluindo aí a necessária rusticidade
para o seu desempenho. O principal motivo alegado para a suposta
inaptidão dos <italic>amamãezados</italic> para o trabalho policial
seria exatamente a ausência desse atributo, provocada, por sua vez, pela
proibição das <italic>sugas</italic>, das <italic>canções de
guerra</italic>, dos <italic>trotes</italic> e de todo um universo de
práticas rituais – informais, porém amplamente aceitas e cultuadas –
durante a sua formação. Não é preciso dizer que os “policiais de UPP”
eram considerados como uma geração de policiais
<italic>amamãezados</italic>, o que conduzia a uma certa tolerância e
permissividade no controle de práticas como a <italic>suga</italic> no
interior das escolas, prática que visa, como vimos, imprimir
<italic>rusticidade</italic> ao futuro policial militar.</p>
<p>Abertamente valorizada como um atributo positivo pela cultura
policial (PONCIONE, 2003), a <italic>rusticidade</italic> é uma dessas
competências “não-escolarizadas” desenvolvidas nos interstícios da
implementação do currículo formal das escolas de formação da PMERJ. O já
referido “currículo oculto”<xref ref-type="fn" rid="fn25">25</xref>. Faz
referência a uma suposta capacidade física e mental para resistir às
condições adversas da atividade policial militar. A
<italic>rusticidade</italic> – como nos foi explicado diversas vezes –
prepararia o policial para a “dura realidade das ruas”, para enfrentar
“os níveis crescentes de violência da criminalidade”, mas também a
precariedade de suas próprias condições laborais. Entre elas, as escalas
de 24 horas, a carga pesada de trabalho, as horas em pé no sol, o peso
dos equipamentos, entre
outros<xref ref-type="fn" rid="fn26">26</xref>.</p>
<p>A <italic>rusticidade</italic> do policial, segundo nossos
interlocutores da pesquisa, deveria ser fustigada ao longo de todo o
processo formativo dos <italic>recrutas</italic>. Entretanto, era na
<italic>semana zero</italic> que ela vinha a desempenhar um papel
fundamental. Por meio das <italic>sugas</italic>, os alunos seriam
testados no domínio desse atributo, promovendo uma separação entre os
<italic>vocacionados</italic> e aqueles ditos
<italic>não-vocacionados</italic> para o serviço de polícia. Ficou
patente que, desde o início de seu processo formativo, contradizendo
abertamente o que era propalado em sala de aula, o alunado era exposto a
um ambiente organizacional que buscava suscitar o velho
<italic>ethos</italic> <italic>guerreiro</italic>. Além disso, para o
grupo envolvido com a pesquisa, era como se a Polícia Militar estivesse
tentando, por meio de um tipo de pedagogia informal, ensinar os
<italic>recrutas</italic> a adotarem uma postura cínica em relação à
institucionalidade de sua própria instituição. Uma coisa é o que está
escrito, outra é o que se faz na prática; na sala de aula, um discurso
de <italic>mudança</italic>, no cotidiano da escola, órgãos como o Corpo
de Alunos (CA) desautorizavam todo um esforço baseado em diretrizes
formais para a área de educação.</p>
<p>Neste contexto no qual se praticava uma certa <italic>pedagogia da
dor</italic> parecia operar, subliminarmente, uma lógica que é alcançada
por um adágio bastante popular no Brasil que afirma: “quando a cabeça
não pensa, o corpo padece”. Como sugeriu Clifford Geertz (2002: 114), os
ditados populares podem encerrar um conhecimento socialmente instituído,
calcado na experiência e nas práticas dos indivíduos. Nas situações
comuns, faz-se apelo a uma racionalidade que se antecipa aos atos
irrefletidos, protegendo os indivíduos em seus interesses e direitos. No
caso da PMERJ, o adágio “quando a cabeça não pensa, o corpo padece”, nos
pareceu aludir a um ensinamento básico para a internalização da
hierarquia. Quando o superior – a cabeça que pensa – não era obedecido,
o corpo do desobediente sofria. No caso específico, um corpo que padecia
em função de não ser prescrito que este recorra ao ato de pensar. A
resistência à introdução dessa <italic>heresia</italic> – o pensar – no
ambiente escolar castrense se dava a partir das lições da chamada
<italic>ordem unida</italic>. Não por acaso, os cursos de formação de
praças da PMERJ, ao longo do período de pesquisa, teve acrescido o
número de horas dessa <italic>disciplina</italic>. Consiste,
aparentemente, em ensinar a tropa a marchar e perfilar. Contudo, é muito
mais que isso, constituindo-se em um processo pedagógico, ritualizado,
de internalização de valores fundamentais da hierarquia militar. Os
comandos de ordem unida são dados por um oficial, graduado ou o mais
antigo presente à frente de um grupo, por corneta ou clarim, apito,
gestos ou pela voz de comando. Emitido em tom enérgico, tem por objetivo
fundamental inspirar respeito à figura da autoridade
presente<xref ref-type="fn" rid="fn27">27</xref>.</p>
<p>Esse conjunto de oposições em constante tensionamento –
<italic>mudança/continuidade</italic>, <italic>teoria/prática</italic>,
<italic>escrito/não-escrito</italic>, <italic>formal/informal</italic>
–, como trataremos a seguir, apresentam um caráter aparentemente
estrutural. Em um plano simbólico, reflete a estrutura de relações e os
valores comungados pelos membros da instituição policial. No plano
material, é a expressão da própria estrutura bipartida da corporação,
cindida pela chamada “dupla entrada”, que separa os círculos de praças e
oficiais<xref ref-type="fn" rid="fn28">28</xref>. Como esperamos
demonstrar, porém, essa estrutura bipartida é apenas uma versão desse
mundo que se erige e que cobra uma racionalidade própria, bem como um
entendimento sofisticado daqueles que julgam ser partícipes dele. Há
outras conjugações e possibilidades para as interações. Para que tenham
vigência, entretanto, deverão fazer referência aos elementos que nos
parece estruturar essa versão bipartida para que seja autorizada a
passagem para uma espécie de <italic>matrix</italic>, uma versão
paralela e, supostamente,
independente<xref ref-type="fn" rid="fn29">29</xref>.</p>
<p><bold>“Na teoria, a prática é outra coisa”</bold></p>
<p>Como referimos, existe um jargão muito difundido, pelo menos nos
meios policiais militares que nos são mais familiares, na qual se
veicula que, “na teoria, a prática é outra coisa”. Este dito, quando
evocado nas interações sociais entre pares, busca quase sempre colocar
em oposição a realidade dos batalhões de polícia, seu caráter
<italic>operacional</italic>, e a das escolas de formação, construídas
no imaginário institucional como um lugar para o <italic>dever
ser</italic>. Esta seria a dualidade original contida na expressão,
digamos. Na PMERJ, como era de se esperar, a frase tem a mesma
conotação. À despeito de seu caráter desqualificativo, de submissão do
saber formal à prática policial, ela foi ouvida reiteradamente pelas
equipes de pesquisa durante a realização do trabalho de campo nas
próprias escolas de formação de Oficiais e Praças. Mas dizer “na
prática, a teoria é outra coisa” pode se referir também a uma série de
outras circunstâncias, que não se restringem à área de educação.</p>
<p>A expressão tem suas variações, podendo ser aplicada a diversos
outros contextos relacionais. Seu sentido forte, entretanto, se mantém.
Seu efeito é atribuir um valor negativo a todo e qualquer referencial
que, no quadro de oposições entre <italic>teoria</italic> e
<italic>prática</italic>, se situe do lado do conhecimento formal. Por
exemplo, afirma-se que “a radiopatrulha é a verdadeira escola de
polícia” (CARUSO, 2004). O que essa frase quer dizer? Principalmente,
que o <italic>verdadeiro trabalho de polícia</italic> se aprende na
<italic>prática</italic>, na dura realidade da <italic>rua</italic>, não
nas escolas de formação. Ora, existem grandes mercados de bens materiais
e simbólicos – políticos, morais, financeiros e mesmo acadêmicos –
disputando o poder de dizer o que é ser polícia, o que é o trabalho
policial. Esses campos de disputas, como se referiu Bourdieu (1983),
estão organizados em formas de dizer esses campos que, no caso da PMERJ,
implica o constante tensionamento entre <italic>teoria</italic> e
<italic>prática</italic>. Quando os policiais dizem “na prática, a
teoria é outra coisa” estão opondo campos de forças, expondo divisões e
tensões, as linhas em disputa e o que está sendo disputado.</p>
<p>É claro que o aprendizado do ofício policial, como todos os demais,
tem uma dimensão prática que agrega competências e conhecimentos
experienciais ao fazer profissional. Mas por que, no caso da polícia
militar, ao invés de se complementarem, uma forma de saber parece
assumir a desqualificação da outra como condição? Como essa tendência,
reconhecida por uma sólida bibliografia sobre o tema da formação
policial (KANT DE LIMA; MISSE; MIRANDA, 2000; VEIGA; SOUZA, 2018a;
2018b), de desqualificação do saber formal, pode sabotar as pretensões
de <italic>transformação cultural</italic> de uma política pública, como
o fez com a Política de Pacificação? Primeiro, porque essa oposição,
segundo nos parece, pertence ao mundo do trabalho, não necessariamente à
política de educação e à gestão do conhecimento profissional. Ela está
presente nas escolas de formação, é responsável, por exemplo, pelo baixo
<italic>status</italic> da política de educação na corporação, mas não
se restringe a ela.</p>
<p>Os policiais militares, via de regra, se referem às transferências
para atuarem profissionalmente vinculados às escolas de formação como
<italic>ficar na geladeira</italic>. Isso porque os afasta daquilo que
realmente importa para a constituição do “ser policial”, o controle das
ruas (MUNIZ, 1999). Um policial pode desejar tal coisa. Mas o fará
sabendo como seus pares interpretarão seu movimento, optando por ser do
<italic>administrativo</italic> em lugar do
<italic>operacional</italic>. Neste contexto, fazer cursos pode ser uma
maneira de galgar posições esperadas, sobretudo, entre os regimes do
oficialato. Mas também pode exprimir um <italic>castigo</italic> diante
de algo equivocado que se tenha feito. Ou, como diz o termo nativo, “uma
cagada”. Nesse último caso, entre os oficiais muitas vezes se trata de
um policial com “costas quentes” ou que tenha <italic>padrinho</italic>
e o curso significa que seu translado o fará <italic>cair pra
cima</italic> e ascender na hierarquia das patentes. Entretanto,
dependendo do curso que fizer (e com quem faça e o momento que o faça),
poderá selar sua identidade mais voltada para a lógica
<italic>operativa</italic> ou <italic>administrativa</italic>. Esta
última selaria seu afastamento das ruas, episódica ou
definitivamente.</p>
<p>Analisando os currículos dos cursos de formação e aperfeiçoamento
dessas escolas, ficou claro para nós que, mesmo formalmente, eles se
integravam unicamente sob a perspectiva de formar “comandantes” e
“comandados”<xref ref-type="fn" rid="fn30">30</xref>. Essa divisão
primal da organização policial militar, como vimos, inaugura uma série
dinâmica de oposições estruturais que organizam campos de disputas em
torno do “ser policial”<xref ref-type="fn" rid="fn31">31</xref> e da
natureza do “verdadeiro trabalho de polícia”. Quem pode saber sobre
essas coisas? Ou, pelo menos legitimamente, afirmar um lugar para falar
sobre elas? É em torno do poder de traçar essas linhas, entre o que é ou
não o “ser policial” e a natureza de suas atribuições, que se organiza
todo um campo de disputas que tem na oposição oficial/praça o seu
enclave primal.</p>
<p>Por outro lado, no cotidiano da PMERJ, existem linhas divergentes em
relação a essa estrutura que, ao se propagarem nos espaços relacionais,
a reafirmam a todo instante. Vanessa Cortes (2005), em seu estudo sobre
o chamado “bico policial”, ou situação de segundo emprego
não-regulamentado nas folgas<xref ref-type="fn" rid="fn32">32</xref>,
chama a atenção para a maneira como os interesses de oficiais e praças
se conjugam, se combinam, possibilitando premiações tais como mudanças
nas escalas de serviços, destinação para funções mais tranquilas, de
forma a que uma praça, ao assumir a função de gestor de um serviço
privado, possa beneficiar um oficial direta ou indiretamente, seja com
sociedade na empreitada, seja acolhendo policiais que fazem parte do
“esquema” do superior hierárquico. Essa interessante inversão apenas
reforça que, afinal, esses universos concebem diferentes regimes e
públicos sobre os quais se exercem soberanias e mandatos policiais
distintos, combinando processos pedagógicos conflitantes que favorecem o
exercício da desigualdade jurídica e a deslegitimação de direitos
básicos, seja em nome da ordem, seja em nome da hierarquia.</p>
<p><bold>Comentários finais</bold></p>
<p>No momento em que concluímos o presente texto, a política das UPPs é
mais uma página virada no capítulo da Segurança Pública do Estado do Rio
de Janeiro, por uma combinação de elementos, que correspondeu a uma
sucessão de episódios que minaram a credibilidade do modelo. Por um
lado, a ocorrência de situações de violências nas favelas, rompendo
definitivamente com a noção de uma <italic>polícia de
proximidade</italic>, versão não pacificada dentro da própria Polícia
Militar e, por conseguinte, não estabelecida como um padrão em todas as
localidades. Por outro lado, a dispersão dos mercados ilegais de drogas
e armas para outras localidades da região metropolitana e do estado,
gerando uma maior pressão e certo desequilíbrio nas relações internas da
corporação.</p>
<p>Como um sumário de todo esse processo, se pode depreender que aquilo
que foi uma <italic>nova polícia</italic> na teoria, era uma
<italic>velha polícia</italic> na prática. A tensão estrutural entre
<italic>mudança</italic> e <italic>continuidade</italic> esteve sempre
enraizada no coração da Política de Pacificação. Como sabemos hoje, a
implementação da mudança cultural pretendida pelos gestores da política
não aconteceu. O imperativo prático, dimensão associada à <italic>velha
polícia</italic> experimentada no <italic>calor das ruas</italic>,
distante dos gabinetes climatizados, de onde emanam os princípios da
política e da gestão, acabou por englobar a <italic>nova
proposta</italic><xref ref-type="fn" rid="fn33">33</xref>. São variados
os motivos de tal desfecho para mais uma iniciativa de “reforma” da
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. E desde seus primeiros
momentos foi constituído um esforço acadêmico para abordá-los em suas
mais diversas facetas (CANO, 2012; MISSE, 2014; 2019; MACHADO DA SILVA,
2015; PIRES; EILBAUM; KANT DE LIMA, 2017). Afirmamos que foi a partir
das vicissitudes das relações estruturais acima descritas que o projeto
se exauriu. As rusgas internas se conjugaram com uma forçosa dispersão
de práticas violentas que encontram abrigo no interior da corporação
militar, construindo novos espaços para o exercício de sua
territorialidade de poder e alcance de suas expectativas econômicas.</p>
<p>Nesse sentido, não menos importante é sublinhar as formas de atuação
particularizada com que alguns policiais podem se relacionar com
criminosos em áreas de favela, os chamados “arregos” (PIRES, 2010). Com
as UPPs, num primeiro momento, as práticas extorsivas que garantiam
vantagens econômicas para determinados grupos dentro da Polícia Militar
sofreram mitigações, sobretudo em áreas extremamente rentáveis da região
metropolitana. Entretanto, como pudemos observar, essas práticas
acabaram sendo exercidas em outras localidades, gerando um efeito não
desejável de dispersão das dinâmicas inerentes ao que o sociólogo Michel
Misse (2006) denominou por “acumulação social da violência” ou, numa
outra chave de leitura, o que os meios de comunicação chamaram de
“migração do crime”.</p>
<p>Um lugar para falar dessas coisas é o lugar da
<italic>teoria</italic>, que nesse imaginário bipartido é o lugar da
gestão e da política pública. O lugar de um discurso que se pretende
mais processual, previsível, lugar dos princípios, das métricas e das
ponderações. Esse discurso tendia a ser consumido pelo público interno
de forma cínica. Era como se todos já soubessem que existe uma teoria
que opera como um verniz para a manutenção de velhas práticas. Estas
velhas práticas, por sua vez, estão sempre nas ruas, onde o
<italic>calor dos acontecimentos</italic> promove inexoravelmente a
deturpação do princípio, do plano, do procedimento, dando substância aos
<italic>vícios das ruas</italic>, dos <italic>antigos</italic>. Afinal,
a rua é o lugar onde acontecem as interações com a população, o “cartão
de visitas da polícia”. É onde se exibem também as aplicações de força,
dando lugar ao exercício da violência do Estado. Assim, o lugar da
<italic>teoria</italic>, na perspectiva das Praças, é o lugar do
Oficial, do nível de gestão da corporação, seu ambiente
interno/administrativo, de onde emana uma concepção idealizada da
atividade policial, que nada tem a ver com a <italic>prática</italic>,
com a <italic>rua</italic>, com a rotina da ponta da linha nos
batalhões, vivida pelas Praças.</p>
<p>Poderíamos afirmar, alternativamente, que “a teoria depende da
prática, e vice-versa”, como nos foi também afirmado no campo. Sobretudo
no que concerne à disposição econômica dos serviços policiais, numa
perspectiva autônoma – ou &quot;para si&quot; – da organização da
corporação policial frente ou contra a sociedade. Como afirmou Nogueira
(2013), o cotidiano dos batalhões é alimentado por uma gestão criteriosa
e interessada, econômica e financeiramente, do que ocorre ou deve
ocorrer nas ruas. Economia essa que envolve recursos monetários,
mobiliza muito mais recursos políticos e simbólicos, manejados a partir
de uma concepção de ordem pública estranha à ordem
democrática<xref ref-type="fn" rid="fn34">34</xref>.</p>
<p>Nesse sentido, a polarização a que fazemos alusão se aproxima mesmo
de uma “ideologia” sobre o que venha a ser a “verdadeira” atividade
policial. Ou seja, uma consciência alternativa, autoafirmada, do que
venha a ser a ordem pública patrocinada pelas polícias, que não se
conjuga com a ordem pública ou ordem política como preconizada
constitucionalmente (ARAÚJO FILHO, 2003). Neste exercício, onde se
observa a prática do Estado no controle da sociedade, os universos do
oficial e da praça, bem como seus diacríticos, são embaralhados. Ainda
que estes antagonismos possam ser reinterpretados na prática, dando
lugar a formas mais ou menos temporais de convivência com estruturas
relacionais alternativas – ou um tipo de “antiestrutura”, para
lembrarmos de Victor Turner (1974) –, via de regra, nossos
interlocutores, praças e oficiais, procuravam se apresentar como seres
bipartidos, referindo-se a uma discordância perpétua e persistente entre
“teoria” e “prática” que, no fundo, visava blindar o seu fazer e repelir
o controle democrático de sua atividade.</p>
<p><bold>Referências Bibliográficas</bold></p>
<p>ADORNO, S. Consolidação democrática e políticas de segurança pública
no Brasil: rupturas e continuidades. In: ZAVERUCHA, J. (Org.).
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narrativa policial. Cadernos de Ciências Sociais, v. 29, p. 1-44,
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<p>NOGUEIRA, R. <bold>Como nascem os monstros</bold>. A história de um
ex-soldado da Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro. Rio de
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<p>OBERLING, Alessandra. Maconheiro, dependente, viciado ou traficante?
Representações e práticas dos policiais militares sobre o consumo e o
comércio de drogas na cidade do Rio de Janeiro. Dissertação de mestrado
apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da Universidade
Federal Fluminense. 2011</p>
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<p>PIRES, Lenin. Uma etnografia de processos de administração
institucional de conflitos no âmbito da venda ambulante em Buenos Aires
e Rio de Janeiro. Tese de doutorado apresentada ao Programa de
Pós-Graduação em Antropologia da Universidade Federal Fluminense,
2010.</p>
<p>PIRES, L.; EILBAUM, L.; KANT DE LIMA, R. Lógicas corporativas,
particularismos e os processos de administração institucional de
conflitos no Rio de Janeiro. <bold>Confluências: Revista
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<p>PONCIONI, P.F. Tornar-se policial: a construção da identidade
profissional do policial do estado do Rio de Janeiro. Tese de doutorado
apresentado ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade
de São Paulo. 2003</p>
<p>RAMOS, Leonardo. Entre a &quot;judaria interna&quot;, a &quot;pista
salgada&quot; e o &quot;medo de se entregar&quot;: uma</p>
<p>etnografia das representações de medo entre policiais militares do
Estado do Rio de Janeiro. Monografia de Conclusão do Bacharelado em
Segurança Pública da Universidade Federal Fluminense. 2017</p>
<p>RATTON, J. L. Aspectos Organizacionais e Culturais da Violência
Policial. In: RATTON, J. L.; BARROS, M. (Orgs.). <bold>Polícia,
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<p>REINER, R. <bold>A Política da Polícia</bold>. São Paulo: Edusp,
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<p>RODRIGUES, E. O. Necropolítica: Uma pequena ressalva crítica à luz
das lógicas do “arrego”. <bold>Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e
Controle Social</bold>, v. 14, p. 189-218, 2021.</p>
<p>RODRIGUES, E. O. <bold>Um “campo de pacificação”?</bold> Algumas
considerações sobre o programa das Unidades de Polícia Pacificadora
(UPPs) no Rio de Janeiro. Tese (Mestrado em Geografia) – Instituto de
Geociências, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2013.</p>
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<p>VEIGA, C. C. P. S.; SOUZA, J. S. Coerção e consenso: dilemas da
formação policial militar. Revista Brasileira de Estudos de Segurança
Pública, Goiânia, v. 11, n. 2, 2018b.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>Utilizaremos aspas quando estivermos reproduzindo uma fala ou
    escrita literal. Já o uso do itálico buscará dar tratamento a
    categorias específicas ou termos nativos que merecem do leitor
    atenção para o significado dos mesmos através de conteúdos por nós
    veiculados ao abordar os problemas em si, no corpo do texto, ou
    através de notas de rodapé.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>A <italic>semana de adaptação</italic> ou <italic>semana
    zero</italic> é o principal marco de “ruptura com a vida civil” do
    aluno, seja ele praça ou oficial. Foi o que depreendemos do material
    empírico construído a partir de trabalho de campo, em pesquisa
    financiada pela FAPERJ entre 2013 e 2015, como apresentaremos a
    seguir. Nos pareceu ser uma espécie de “rito de separação”, nos
    termos de Victor Turner (1974), a simbologia mobilizada no contexto
    da <italic>semana zero</italic> busca despir os neófitos, futuros
    policiais militares, dos signos e significados de sua vida
    pregressa, de suas origens sociais, para que possam abraçar sua nova
    condição identitária.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>O chamado <italic>ciclo das praças</italic> corresponde às
    graduações de soldado, cabo, sargento e subtenente.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>Disponível em:
    https://oglobo.globo.com/rio/coracao-de-recruta-da-pm-para-depois-de-dez-dias-de-internacao-10852509.
    Acesso em: 31 maio 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>O Programa foi instituído pelo Decreto Nº 42.787 de 06/01/2011,
    exarado pelo governo do estado do Rio de Janeiro, e <italic>dispõe
    sobre a implantação, estrutura, atuação e funcionamento das Unidades
    de Polícia Pacificadora (UPP) no Estado do Rio de Janeiro e dá
    outras providências.</italic> Alterado, posteriormente, pelos
    Decreto Nº 44.177/2013 e, finalmente pelo Decreto Nº 45.186/2015.
    Posteriormente, a Lei Estadual Nº 7.799, de 04/12/2017, de
    iniciativa do Poder Executivo, autorizou que batalhões incorporassem
    as UPPs, o que é interpretado como a pá de cal no programa.</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <p>Publicada na Instrução Normativa N° 22, através do aditamento ao
    Boletim Ostensivo da Corporação N° 027, de 12 de fevereiro de
    2015.</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <p>O Projeto “Saber Policial e Segurança Pública: formas
    escolarizadas e não escolarizadas de produção, reprodução e
    transmissão do saber policial” registrou seu desenvolvimento entre
    22/6/2013 e 21/6/2015. Teve por objetivo, durante seu
    desenvolvimento, compreender, privilegiando a utilização do método
    etnográfico de pesquisa, quais processos de produção, reprodução e
    transmissão dos saberes orientam a ação e o discurso policial em
    diversos âmbitos de atuação. Buscou-se perceber como se podem
    identificar e estabelecer possíveis diálogos e trânsitos entre a(s)
    “ética(s) escolarizada(s)” transmitida(s) nas escolas de formação da
    Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro, perfazendo um código
    institucional para determinados universos profissionais, e a(s)
    “ética(s) não escolarizada(s)”, compartilhada(s) e transferida(s) no
    dia a dia do fazer policial “operacional”, prático ou corporativo
    (<sc>KANT DE LIMA</sc>, 1995; <sc>OBERLING</sc>, 2011). Ambas
    “éticas” entendidas como pautadas em regras e valores
    institucionalizados e formalmente estabelecidos, embora nem sempre
    oficialmente instituídas. Durante as variadas etapas do projeto, a
    construção de dados foi objeto de discussões patrocinadas pelos
    pesquisadores, em seminários de pesquisas mediados por leituras de
    textos que contribuíssem para a captação de problemáticas surgidas
    nas interações em campo envolvendo pesquisadores da universidade e
    membros da Secretaria de Estado de Segurança Pública.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <p>Entre as entrevistas formais, conduzidas mediante roteiros
    previamente estabelecidos, a equipe de pesquisa ouviu oficiais
    coronéis (2, sendo 1 aposentado), tenentes-coronéis (3), majores
    (2), capitães (2) e, entre as praças, sargentos (4), cabos (2)
    soldados (5) e um tenente recém saído do sub-oficialato.</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <p> Ver:
    https://pt.wikipedia.org/wiki/Unidade_de_Pol%C3%ADcia_Pacificadora
    (Acesso em: 9 abr. 2019).</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <p>A referida intervenção federal na segurança pública teve
    desdobramentos e efeitos que fogem aos interesses da presente
    análise e será, certamente, objeto de uma avaliação futura de nossa
    parte. Entre fevereiro e dezembro de 2018, o governo estadual ficou
    restrito a essa área e praticamente acéfalo nas demais.
    Evidentemente, porém, para lidar com os aspectos bipartidos e
    estruturais que aqui elencamos, a estratégia do governo federal foi
    nomear um general do exército como interventor. Este, por sua vez,
    nomeou um outro general como secretário de segurança para submeter
    as polícias e, dessa maneira, tentar dar alguma coerência à atuação
    numa área de difícil governabilidade, como sabemos. Como resultado
    mais gritante, observa-se um aumento considerável entre as mortes
    decorrentes das intervenções policiais no ano de 2018, padrão
    mantido em 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn11">
    <p>Ver:
    https://www.iets.org.br/IMG/pdf/apresentacao_seguranca_cel_robson.pdf
    (Acesso em: 9 abr. 2020).</p>
  </fn>
  <fn id="fn12">
    <p>Categoria/indicador que inclui homicídios, latrocínios,
    homicídios decorrentes de intervenção policial e lesão corporal
    seguida de morte (Fonte: ISP).</p>
  </fn>
  <fn id="fn13">
    <p>A morte decorrente de intervenção policial é um termo criado para
    substituir a antiga denominação oficial “ocorrência de resistência
    seguida de morte ou auto de resistência”, que ficou popularmente
    conhecida como “Auto de Resistência”. Como sua predecessora, faz
    referência à ocorrência na qual o policial, ao atuar para cessar uma
    agressão considerada injusta, leva o infrator a óbito. Ver:
    https://tiagopereira1015.jusbrasil.com.br/artigos/595143206/morte-decorrente-de-intervencao-policial-a-quem-compete-a-investigacao
    (Acesso em: 9 abr. 2020).</p>
  </fn>
  <fn id="fn14">
    <p>A &quot;suga&quot; é uma categoria que designa a exposição dos
    recrutas a exercícios e atividades físicas extenuantes, muitas vezes
    ambientalizadas em situações de insulto às condições existenciais
    dos atores. Sobre seu emprego no meio policial, pode-se ler Ramos
    (2017).</p>
  </fn>
  <fn id="fn15">
    <p>A chamada <italic>dupla entrada</italic>, como é conhecida,
    inaugura distintas e mensuráveis trajetórias institucionais para
    Oficiais e Praças na Polícia Militar: uma vez ingressando como
    Soldado, chega-se, no máximo, ao posto de Major QOA (Quadro de
    Oficiais Administrativos), por meio de um concorrido concurso
    interno; apenas para aqueles que ingressam direto como Tenentes, no
    meio da pirâmide hierárquica da corporação, é possível chegar ao
    posto máximo de Coronel. A pirâmide hierárquica completa envolve, no
    ciclo das Praças, nesta ordem de progressão, Soldados, Cabos,
    Sargentos e Subtenentes; no ciclo de Oficiais, Tenentes, Capitães,
    Majores, Tenente-coronéis e Coronéis.</p>
  </fn>
  <fn id="fn16">
    <p>Academia de Polícia Civil (ACADEPOL), CFAP, APM, Escola Superior
    de Policia Militar (ESPM), entre outras.</p>
  </fn>
  <fn id="fn17">
    <p>Batalhão de Operações Especiais (BOPE), Batalhão de Choque da
    PMERJ, dentre outras.</p>
  </fn>
  <fn id="fn18">
    <p> Disponível em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://bancodetalentos.pmerj.rj.gov.br/">https://bancodetalentos.pmerj.rj.gov.br/</ext-link>.
    Acesso em. 21/12/2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn19">
    <p>Escolas estas que, por sua vez, eram uma suspensão e uma
    antecipação da realidade vivida nas ruas, socializada pelos
    instrutores, nas unidades operacionais, nos batalhões, da
    “verdadeira prática de polícia”.</p>
  </fn>
  <fn id="fn20">
    <p>Segundo Fromm (2010), a categoria <italic>guerreiro</italic>
    conota um defensor da guerra, alguém que não só é habilidoso, mas
    também sanguinário e primitivo – ou “antigo e medieval” –, que luta
    por sua própria glória e deleite e até mesmo por um prazer visceral.
    Fromm faz alusão ao termo “<italic>warrior ethos</italic>”, cunhado
    por Gray (1998) e é com este sentido que empregamos o termo,
    considerando a utilização do termo por parte de nossos
    interlocutores.</p>
  </fn>
  <fn id="fn21">
    <p>Roberto Reiner afirma que a cultura policial, na democracia
    liberal, não significa meramente atitudes da polícia. Ela, como toda
    cultura, é um complexo conjunto de valores, atitudes, símbolos,
    regras e práticas que resultam da reação do grupo, enquanto
    categoria profissional, em virtude das pressões estruturais que os
    estimulam, cognitivamente (e corporalmente, acrescentamos nós, em
    virtude de nossa etnografia). No exercício de suas faculdades e
    atribuições, adotam estratégias e iniciativas comuns à diversidade
    existente no âmbito da agência policial, bem como nos grupos
    profissionais e sociais com os quais interagem. Modelada por
    diferentes padrões e legados históricos, a Polícia parece
    desenvolver suas ações entre regras de engajamento constituídas a
    partir de distintas dimensões. As regras legais e de apresentação
    perfazem os valores, as normas, as perspectivas e as orientações de
    ofício que direcionam sua conduta (REINER, 2000).</p>
  </fn>
  <fn id="fn22">
    <p>A política de pacificação se insere na doutrina da Polícia de
    Proximidade e, subliminarmente, estabelece diferenciação com a
    lógica de confronto que, no jargão nativo, se refere ao
    “tiro-porrada-e-bomba”. historicamente empregado em áreas de
    favelas. Especialmente nas favelas da zona norte do Rio de Janeiro.
    As UPPs seriam, assim, aquelas unidades que, instaladas em áreas de
    favela, abrigariam agentes orientados por essa política, buscando
    prestar serviços de mediação de conflitos, substituindo atores
    vinculados aos grupos criminosos que, atuantes no território, se
    dedicariam a resolver disputas e conflitos entre os moradores dessas
    regiões.</p>
  </fn>
  <fn id="fn23">
    <p>Ver novamente Ramos (2017).</p>
  </fn>
  <fn id="fn24">
    <p>As “canções de guerra” são cânticos motivacionais para inspirar
    força aos alunos. Não são oficiais, mas são aceitas e informalmente
    incentivadas. Cada pelotão, que constitui as turmas de formandos da
    PMERJ, tem as suas. Como, por exemplo: “Quando eu morrer eu vou de
    FAL e de BERETTA/Vou lá no inferno dar três tiros no capeta/E o
    capeta vai ficar desesperado/Meu Deus do céu tira daqui esse
    soldado”. Ver Milagres, 2001.</p>
  </fn>
  <fn id="fn25">
    <p>Alguns estudos, oriundos da Pedagogia, entre 1960 e 1970,
    destacaram a existência de vários níveis de currículo: Formal, Real
    e Oculto. O Currículo Formal refere-se ao currículo estabelecido
    pelos sistemas de ensino, expresso em diretrizes curriculares,
    objetivos e conteúdos das áreas ou disciplinas de estudo. O
    Currículo Real é aquele que acontece a cada dia dentro da sala de
    aula com professores e alunos, em decorrência de um projeto
    pedagógico e dos planos de ensino. Já o Currículo Oculto é o termo
    usado para denominar as influências que afetam a aprendizagem dos
    alunos e o trabalho dos professores. Ele representa tudo o que os
    alunos aprendem diariamente em meio às várias práticas, atitudes,
    comportamentos, gestos e percepções que vigoram no meio social e
    escolar. Ver Moreira e Silva, 1997.</p>
  </fn>
  <fn id="fn26">
    <p> Dentre os vários perigos dessa representação, certamente está a
    naturalização das condições adversas de trabalho dos agentes. Ao
    prepará-los para esse tipo de situação, a corporação acaba por
    reificar essa condição como um dado inelutável da realidade, dando a
    sua própria parcela de contribuição para a perpetuação dos riscos de
    vitimização a que está exposto o seu efetivo. Sobre o tema da
    vitimização policial e das condições de trabalho das polícias ver
    Minayo, Souza e Constantino (2007, 2008); Minayo, Assis e Oliveira
    (2011).</p>
  </fn>
  <fn id="fn27">
    <p>Segundo a doutrina, é através dessa autoridade que se alcançam
    valores fundamentais como disciplina, autocontrole, senso de grupo,
    autoestima e desenvolvimento físico. Ver:
    http://forcasarmadasbrasil.blogspot.com/2012/03/oque-e-ordem-unida.html.
    (Acesso em: 30 maio 2020).</p>
  </fn>
  <fn id="fn28">
    <p>Os oficiais na PMERJ são responsáveis por comandar as praças
    (soldados, cabos e sargentos), tendo como premissa institucional a
    hierarquia e a disciplina. Entende-se por hierarquia a ordenação da
    autoridade em níveis diferentes e por disciplina o rigoroso
    acatamento de leis, normas, regulamentos e disposições que
    fundamentam o organismo policial militar. Os oficiais são
    organizados em três ciclos distintos: a) os oficiais superiores que
    reúnem coronéis, tenentes-coronéis e majores; b) os oficiais
    intermediários, que são os capitães; e c) os oficiais subalternos
    que são os tenentes e subtenentes.</p>
  </fn>
  <fn id="fn29">
    <p>Fazemos recurso à imagem da Matrix, conforme explorado no filme
    de mesmo nome, de 1999, dirigido por Lilly e Lana Wachowski.
    Trata-se de uma simulação computadorizada que cria um mundo
    imaginário onde as pessoas são prisioneiras daquela realidade
    virtual. Enquanto isso, o corpo humano é preservado em uma cuba com
    múltiplos fios ligados à Matrix, cujas máquinas se alimentam de sua
    energia vital como se fossem pilhas. A analogia aqui, a princípio,
    se refere à existência de dois planos de realidade, uma cobrando um
    plano mais hierárquico. Contudo, a prostração dos corpos guarda
    relação com a densidade da descrição que queremos empreender neste
    texto.</p>
  </fn>
  <fn id="fn30">
    <p>O que mais vimos, seja a partir da análise dos currículos, seja
    nas incursões pelo CFAP, foi que os praças tinham muito mais ordem
    unida e menos sala de aula, bem como empregados em atividades de
    limpeza e manutenção das instalações. Os oficiais, por seu turno,
    estavam a maior parte do tempo em sala de aula, como instrutores.
    Por outro lado, considerando os conteúdos curriculares, era muito
    maior a carga de direito positivo e dogmático, bem como conteúdos
    herméticos voltados para noções de gestão, liderança e comando.</p>
  </fn>
  <fn id="fn31">
    <p>&quot;Ser policial”, afinal, “é sobretudo uma razão de ser”, como
    diz o Hino da PMERJ.</p>
  </fn>
  <fn id="fn32">
    <p>Quando o trabalho foi realizado ainda não existiam legislações
    que permitiam o emprego do trabalho policial para além de suas
    escalas de serviços. Atualmente existe o RAS – Regime Adicional de
    Serviço, ao qual se associa o Programa Estadual de Integração de
    Segurança (PROEIS), que permite o estabelecimento de convênios entre
    órgãos estaduais e municipais para a percepção de serviço
    direcionado de policiais militares visando complementar as demandas
    por segurança. Em que pese as mudanças, as lógicas estruturalmente
    descritas não apenas seguem sendo observadas, como incrementadas em
    nível significativo. Ver Misse, 2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn33">
    <p>Que também não era tão “nova” assim, diga-se de passagem, tendo
    em vista iniciativas anteriores como o GPAE – Grupamento de
    Policiamento em Áreas Especiais, por exemplo, cuja proposta de
    “policiamento comunitário em favelas” era quase idêntica à da
    UPP.</p>
  </fn>
  <fn id="fn34">
    <p>O que Reiner, para resgatar sua contribuição a respeito da
    “Política da Polícia”, afirma ser um desafio permanente nas
    democracias liberais. O que dizer, no Brasil, onde o liberalismo
    sempre teve dificuldades de enraizar-se (SANTOS, 1979; KANT DE LIMA,
    1995; PIRES, 2010; ALBERNAZ, 2018).</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
