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<p><bold>Luto por suicídio e posvenção na Polícia Militar</bold></p>
<p><bold>Fernanda Novaes Cruz</bold></p>
<p>Pesquisadora de Pós-Doutorado no Núcleo de Estudos da Violência da
Universidade de São Paulo - NEV/USP. Coordenadora Adjunta de Ensino e
Pesquisa do Instituto de Pesquisa, Prevenção e Estudos em Suicídio
(IPPES Brasil). Doutora em Sociologia pelo IESP-UERJ. Mestre e Bacharela
em Ciências Sociais pela UERJ. Bacharela em Comunicação Social
(UFRJ).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> São Paulo
<bold>Cidade:</bold> São Paulo</p>
<p><bold>Email:</bold> fernandanovaescruz@gmail.com <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/ 0000-0002-2874-5827</p>
<p><bold>Amanda Neves Rastrelli</bold></p>
<p>É doutoranda no Programa de Pós Graduação em Psicologia Social
(PPGPS) da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e mestra pelo
mesmo programa.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio de Janeiro
<bold>Cidade:</bold> Nova Friburgo</p>
<p><bold>Email:</bold> rastrelli.amanda@gmail.com <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-0559-1175</p>
<p><bold>Dayse Miranda</bold></p>
<p>Pós-doutorado em Sociologia pela Universidade do estado do Rio de
Janeiro. Atualmente, é presidente do Instituto de Pesquisa, Prevenção e
Estudos em Suicídio e coordenadora do Grupo de Estudos em Saúde Mental,
Violência(s) e Segurança Pública do IPPES. Autora dos livros: O que a
Polícia quer: poder ou competência? e Por que Policiais se Matam? e
co-autora da obra As vítimas ocultas.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio de Janeiro
<bold>Cidade:</bold> Rio de Janeiro</p>
<p><bold>Email:</bold> ensinoepesquisa@ippesbrasil.com.br
<bold>Orcid:</bold> https://orcid.org/0000-0002-7284-1867</p>
<p><bold>Contribuições das autoras:</bold></p>
<p>Fernanda Novaes Cruz trabalhou na concepção e no delineamento, na
análise e interpretação dos dados e na redação final do artigo. Dayse
Miranda trabalhou na concepção e no delineamento, na análise e
interpretação dos dados e na redação final do artigo. Amanda Neves
Rastrelli trabalhou na concepção e no delineamento, na análise e
interpretação dos dados e na redação final do artigo.</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>Este artigo apresenta e analisa o processo de luto vivenciado por
familiares de policiais militares mortos por suicídio. Dez entrevistas
com familiares de policiais da Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro (PMERJ) foram examinadas. Esses dados foram coletados pela
pesquisa sobre o suicídio e risco ocupacional desenvolvido na referida
instituição, entre 2010 e 2012. Destacamos cinco fatores principais nas
narrativas, três específicos ao suicídio, que são: (i) as diferenças nos
rituais fúnebres relacionados a essas mortes em relação a outras mortes,
(ii) a importância da transparência na investigação das causas desses
óbitos e, (iii) a ausência de políticas específicas para esses
familiares. Além desses, destacamos (iv) as mudanças na dinâmica
familiar a partir das mortes e (v) os distintos percursos no acesso
desses familiares aos direitos. Por fim, defendemos a inclusão desse
grupo nas políticas institucionais de promoção da saúde mental.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Luto. Suicídio policial. Polícia
Militar. Sobreviventes do suicídio. Posvenção.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic><bold>Grieving for suicide and postvention in the Military
Police</bold></italic></p>
<p>This paper presents and discusses relevant aspects of the grieving
process experienced by family members of military police officers killed
by suicide and the institutional responses provided by the Military
Police of the State of Rio de Janeiro (PMERJ). We conducted ten
interviews with family members of police officers killed by suicide.
This data was part of a study on suicide and occupational risk carried
out between 2010 and 2012. From the narratives we highlight five main
factors, three that are specific of this type of death, such as, (i)
differences in funeral rituals compared to other types of deaths, (ii)
the importance of transparency in the investigation of the causes of
these deaths, (iii) the absence of specific policies for these family
members. Besides that, we highlight (iv) changes in family dynamics
after the relative death, and (v) families’ difficulties and facilities
in accessing rights. Finally, we argue for the inclusion of this group
in the promotion of mental health institutional policies.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Grieving. Police suicide. Military Police.
Suicide survivors. Postvention.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 26/01/2021 – <bold>Data de
Aprovação:</bold> 04/06/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v.16.n3.1413</p>
<p><bold>Introdução</bold></p>
<p>A morte é um dos tabus de nossa sociedade. Temos dificuldade em
aceitar e lidar com a morte, seja de nós mesmos ou de outras pessoas.
Quando se trata da morte de outras pessoas, fatores como as
circunstâncias do fato, as motivações, as condições do corpo e as
pessoas envolvidas influenciam essas percepções e, consequentemente, o
processo de aceitação (SOARES; MIRANDA; BORGES, 2006).</p>
<p>As mortes violentas– suicídios, homicídios ou acidentes – podem ser
ainda mais difíceis de serem assimiladas do que as mortes naturais,
especialmente entre os casos de violência autoprovocada. A morte por
suicídio é marcada por preconceitos e estigmas que, consequentemente,
afetam os familiares das vítimas. O processo de luto por suicídio,
segundo especialistas, provoca questionamentos, sentimentos e emoções
específicas. Trata-se de uma experiência de perda que difere do luto por
mortes naturais ou até mesmo por outras mortes por causas externas, como
acidentes e homicídios (BRASIL, 2011).</p>
<p>Estima-se que a cada morte por suicídio, cinco a dez pessoas são
afetadas social, emocional e economicamente. Entre elas estão:
familiares, amigos e pessoas próximas à vítima (WHO; IASP, 2008).
Aqueles que são diretamente impactados pelo suicídio são chamados de
“sobreviventes do suicídio”. Os sobreviventes:</p>
<disp-quote>
  <p>têm maior probabilidade de desenvolver sentimentos de
  responsabilidade pela morte do ente querido do que os que perderam
  alguém por causas naturais, além de se sentirem mais envergonhados e
  isolados dos demais. Esses sentimentos são particularmente acentuados
  em pais cujos filhos se suicidaram. (BERTOLOTE, 2012, p. 120).</p>
</disp-quote>
<p>Além dessa sensação de responsabilidade pela morte, a culpa, a
vergonha, a busca incessante por motivos, a rejeição, o abandono,
autoacusações, isolamento e mudanças na dinâmica familiar são
sentimentos e comportamentos vivenciados pelos “sobreviventes de
suicídio” (WHO; IASP, 2008). Fukumitsu e Kovács (2016) salientam que
filhos enlutados por suicídio relataram “sentir vergonha” ao
compartilhar a causa da morte de seus pais. Por vezes, eles preferiram
dizer que a vítima tinha sofrido um acidente de carro ou morrido por
descuido do que assumir a real <italic>causa mortis</italic>.</p>
<p>Famílias com histórico de mortes violentas são altamente vulneráveis
ao risco do suicídio. Soares, Miranda e Borges (2006), ao entrevistarem
familiares que haviam perdido parentes por suicídio, identificaram que
1/6 (um sexto) das vítimas já tinha vivenciado pelo menos mais um
suicídio na família.</p>
<p>A perda e o luto dos sobreviventes do suicídio são elementos
relevantes para a formulação de estratégias de posvenção para esse
público. A posvenção visa aliviar os efeitos relacionados com o
sofrimento e a perda, prevenir o aparecimento de reações adversas e
complicações do luto, minimizar o risco de comportamento suicida nos
enlutados por suicídio e promover resistência e enfrentamento em
sobreviventes (BERTRAIS, 2014; SCAVACINI, 2011). A posvenção busca
“atenuar o abalo da perda por suicídio e possibilita ainda a prevenção
do sofrimento das próximas gerações” (FLEXHAUG; YAZGANOUGLU apud
FUKUMITSU; KOVÁCS, 2016, p. 4).</p>
<p>Este artigo é derivado do material coletado para uma pesquisa que
buscava compreender o comportamento suicida entre policiais militares do
estado do Rio de Janeiro. A pesquisa demonstrou como o acesso facilitado
ao meio e à presença de fatores organizacionais, sociais, situacionais
ou individuais eram relevantes para compreender o suicídio policial
(MIRANDA, 2016). Na ocasião da pesquisa, além de entrevistas com
policiais que haviam pensado ou tentado suicídio e com outros que não
haviam pensado nem tentado suicídio (grupo controle), foram
entrevistados familiares e amigos de policiais vítimas de mortes
violentas (homicídio, suicídio e acidente). Embora o objetivo inicial
das entrevistas com os familiares fosse compreender a trajetória das
vítimas, a análise desse material demonstrou uma série de processos
específicos vivenciados por essas famílias a partir da morte de seu ente
querido, bem como ações que poderiam contribuir para amenizar o
sofrimento que envolve esse processo. A partir dessa constatação,
passamos a nos colocar as seguintes reflexões: como esses familiares
lidaram com a perda de seus familiares por suicídio? E, em uma
perspectiva institucional, qual foi a atuação da Polícia Militar nesses
casos?</p>
<p>Neste artigo, analisamos o luto por suicídio sob a ótica de
familiares de policiais militares. As narrativas elucidam as
consequências das mortes por suicídio sobre o cotidiano das vítimas,
como também convidam o leitor a refletir acerca do papel das
organizações de segurança pública no enfrentamento do luto dos
sobreviventes do suicídio. Por fim, reforçamos a importância de ações de
posvenção na condução desses processos.</p>
<p><bold>Metodologia</bold></p>
<p>O projeto de pesquisa <italic>Suicídio e risco ocupacional: o caso da
Polícia Militar do Rio de Janeiro</italic>, realizado entre 2010 e 2012,
investigou a magnitude e as dimensões do comportamento suicida entre
policiais militares (MIRANDA, 2012). Foram entrevistados policiais que
declararam “ter pensado e/ou tentado suicídio em algum momento de suas
vidas”, assim como aqueles que disseram “nunca ter vivenciado essas
experiências” (grupo controle). Os sobreviventes enlutados por
homicídio, suicídio e acidente na Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro também foram objeto de análise. A investigação mapeou as
consequências psicossociais e organizacionais das perdas de um ente
querido por mortes violentas na Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro. Como os familiares lidam com a perda de seus entes queridos por
mortes violentas? Como a Polícia pode contribuir para o processo de luto
de familiares e amigos, vítimas indiretas das mortes violentas? A meta
foi comparar as possíveis semelhanças e diferenças do processo do luto
de familiares e amigos de policiais vitimizados por mortes
violentas.</p>
<p>A seleção dos participantes enfrentou uma série de obstáculos. O
maior deles foi o acesso aos entrevistados. A partir de duas fontes de
informações, uma organizada pelo setor da Polícia Militar, intitulado
Grupo de Atendimento ao Familiar do Policial Falecido (GAFPMF), e a
outra, uma lista de nomes e contatos, organizada pelo Grupo de Mães e
Viúvas da PMERJ, a equipe de pesquisa elaborou um banco de dados
integrado com os contatos dos parentes de policiais mortos por
acidentes, homicídios e suicídio.</p>
<p>Esses familiares foram convidados a assistirem à palestra “As Vítimas
Ocultas da Violência<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> na PMERJ”. Ao
final da palestra, os participantes receberam um envelope que continha
um formulário com uma autorização para que membros da equipe entrassem
em contato com aqueles que consentissem em participar da pesquisa.
Seguindo os parâmetros previstos pelo Comitê de Ética, todos que
aceitaram participar da entrevista assinaram o Termo de Consentimento
Livre e Esclarecido (TCLE)<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>. A
partir do consentimento dos entrevistados, todas as entrevistas foram
gravadas, transcritas e analisadas com auxílio de um
<italic>software</italic> para análise qualitativa. De forma a garantir
o anonimato das vítimas e dos entrevistados, os nomes das vítimas e dos
entrevistados utilizados neste trabalho são fictícios.</p>
<p>As consequências individuais e institucionais das mortes por suicídio
no cotidiano de familiares de policiais são objetos de análise deste
artigo. Para tanto, exploramos dez entrevistas com familiares de
policiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ). Em
alguns casos, tivemos a oportunidade de interpretar as entrevistas com
mais de um familiar da mesma vítima. Esse fato possibilitou identificar
semelhanças e diferenças entre as percepções dos entes queridos das
vítimas. Esse assunto será retomado nas próximas seções.</p>
<p><bold>O suicídio entre policiais militares e os rituais
institucionais para as mortes</bold></p>
<p>Nos Batalhões da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ),
em unidades operacionais convencionais e especiais, é muito comum a
presença de um espelho com a seguinte frase: “Esse espelho reflete você
e você a PMERJ”. Segundo Muniz (1999), a formação da identidade de um
policial militar passa pela construção do <italic>ethos</italic> de um
profissional comprometido incondicionalmente com a sua instituição.</p>
<disp-quote>
  <p>A construção do <italic>ethos</italic> do policial militar, ou
  melhor, a ressocialização no mundo da caserna imprime marcas
  simbólicas que são visíveis ao primeiro olhar, que se mostram
  evidentes logo no primeiro contato. O espírito da corporação
  encontra-se cuidadosamente inscrito no gestual dos policiais, no modo
  como se expressam, na distribuição do recurso à palavra, na forma de
  ingressar socialmente nos lugares, no jeito mesmo de interagir com
  pessoas, etc. (MUNIZ, 1999, p. 89).</p>
</disp-quote>
<p>O <italic>ethos</italic> policial cria o sentimento de pertencimento
e laços de solidariedade, o que cumpre um papel fundamental no
enfrentamento da rotina do trabalho policial. Por outro lado, “ser
policial”, especialmente no contexto da cidade do Rio de Janeiro,
implica em inúmeras privações, como: deixar de frequentar determinados
locais, se afastar do convívio de pessoas, esconder a sua identidade
profissional para não expor a si mesmo e aos seus familiares, entre
outros. Portanto, soma-se aos riscos inerentes à profissão, como portar
armas e enfrentar situações de violência, uma demanda de mudança de
comportamento. Por vezes, essas mudanças afetam não apenas o policial,
mas também seus familiares.</p>
<p>Apesar de todas essas dificuldades, espera-se sempre que o policial
esteja pronto para vivenciar com bravura qualquer situação. Um erro na
ação pode colocar em risco sua própria vida ou a de outros. Ao mesmo
tempo, as vulnerabilidades a que ele se expõe, muitas vezes, não recebem
a devida atenção, seja por ele mesmo, por seus colegas ou superiores, ou
pelas instituições às quais ele está vinculado.</p>
<p>O suicídio policial pode ser pensado como o ápice dessas
vulnerabilidades. O estudo conduzido com policiais militares do Rio de
Janeiro mostrou que o risco relativo de morte de policiais militares por
suicídio foi quase 4 vezes superior ao da população geral (homens e
mulheres), entre 2005 e 2006. Ainda assim, os autores sugerem que as
estatísticas oficiais de suicídios (consumados e tentativas) são
subnotificadas por inúmeras razões.</p>
<disp-quote>
  <p>Entre elas, estão as questões socioculturais – o tabu em torno do
  fenômeno; a proteção ao familiar da vítima (a preservação do direito
  ao seguro de vida) e a existência de preconceito ao policial militar
  diagnosticado com problemas emocionais e psiquiátricos. (MIRANDA,
  2016, p. 28).</p>
</disp-quote>
<p>A relevância do espírito de corpo para a construção do
<italic>ethos</italic> dos policiais militares, que iniciou a discussão
desta seção, é fundamental para a compreensão dos rituais simbólicos das
homenagens institucionais aos policiais quando são vitimizados. Esses
rituais estão associados à bravura do policial e à gratidão pela
dedicação da vítima à atividade policial.</p>
<p>Na PMERJ, a morte de um policial pode ser classificada por
“falecimento em ato de serviço, em consequência de ato de serviço ou
falecimento sem ato de serviço” (PMERJ, 2015). Se o policial é morto
durante um confronto armado, por exemplo, o fato é considerado um “ato
de serviço”. Essa categoria de morte implica em uma série de rituais e
serviços oferecidos pela Polícia Militar, entre eles, os serviços de
Capelania<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> e a Guarda Fúnebre com
salva de tiros para o local do sepultamento, a banda com músicos, o
corneteiro e a disponibilização da bandeira nacional. A instituição deve
informar que o fato ocorreu em decorrência de “ato de serviço”. Os
custos do sepultamento<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> e os
rituais são de responsabilidade da Polícia. O Comando, nessas
circunstâncias, determina também a criação de uma Comissão de Pêsames
composta por policiais militares pertencentes à unidade de trabalho do
falecido que acompanhará o sepultamento (PMERJ, 2015).</p>
<p>O “ato de serviço” também pode se estender às mortes provocadas por
acidentes. Nesses casos, parte das honrarias descritas no parágrafo
anterior é concedida. Quando não há “ato de serviço”, a instituição
policial não oferece honrarias e nem financia os custos do sepultamento.
O velório fica a cargo dos familiares, se a vítima não possuir algum
plano funeral.</p>
<p>Quando a <italic>causa mortis</italic> é o suicídio, há outras
especificidades. De acordo com o Decreto N° 544 (de 7 janeiro de 1976),
o “ato de serviço” não se aplica às mortes autoinflingidas. Todos os
sobreviventes entrevistados tiveram as despesas do velório pagas pela
família ou por financiamento coletivo realizado pelos colegas de
trabalho. Houve casos em que colegas da vítima não tiveram autorização
para o comparecimento ao velório e ao enterro. Esses relatos reforçam o
estigma social que caracteriza as mortes por suicídio na Polícia
Militar. Silva (2015) explica que a morte por suicídio na PM, por estar
associada ao preconceito e ao estigma social, por vezes, torna-se não
reconhecida, podendo intensificar o véu de silêncio que se forma em
torno dos enlutados.</p>
<p>A fala da esposa Laís traduz a indignação dos familiares com a
ausência de apoio institucional no momento da perda. Quando perguntamos
quem havia arcado com as despesas do velório, em suas palavras: “Tudo
foi a gente. Tudo foi a gente. Tudo foi a gente. A PM não deu nenhum
tostão. Nem uma salva de tiros a PM deu pra ele. O tempo que ele
trabalhou, nada. Nem uma bandeira, nada botaram” (Laís, esposa do
sargento Denis).</p>
<p>Quando questionada se a polícia havia liberado os colegas da vítima
para comparecerem ao velório, a esposa respondeu: “Todos os policiais
amigos dele [compareceram ao velório]. Todos eles foram fardados.
Carregaram o caixão, todos eles. Mas porque eram amigos dele.
Trabalhavam com ele, amigos dele. Até os que não trabalhavam” (Laís,
esposa do sargento Denis).</p>
<p>Por fim, a pesquisadora questionou se os colegas compareceram porque
houve uma comitiva liberada pela polícia e a esposa desabafa: “Nada
disso. Nada disso. Nada disso”, indicando que o comparecimento dos
colegas foi uma iniciativa individual (Laís, esposa do sargento
Denis).</p>
<p>As narrativas dos familiares denunciam um sentimento de injustiça
frente ao regulamento da corporação, no que tange à concessão
diferenciada do “ato de serviço”. A ausência dos rituais fúnebres nas
mortes por suicídio é percebida pelos familiares entrevistados como
falta de reconhecimento institucional do trabalho realizado pelo seu
ente querido. Trata-se de um sentimento de abandono e rejeição por parte
da PMERJ, segundo os entrevistados.</p>
<p><bold>A perda, o trauma e o luto</bold></p>
<p>Na seção anterior, analisamos os rituais de morte. Contudo, esse é
apenas o primeiro passo de um longo processo vivenciado por
sobreviventes enlutados por suicídio. Lidar com a perda de algum ente
querido já é, por si só, um episódio doloroso e marcante na vida de uma
pessoa. A sensação de desamparo provocada pela morte intencional pode
ocasionar um trauma. O trauma é oriundo de um acontecimento na vida do
indivíduo que, por sua intensidade, e pela incapacidade de o sujeito
responder de forma adequada, provoca transtornos e efeitos patogênicos
na organização psíquica do indivíduo (FUKUMITSU; KOVÁCS, 2016). Trata-se
de um período de desequilíbrio psicológico, resultante de um evento ou
uma situação danosa que o indivíduo não consegue resolver utilizando
suas estratégias defensivas usuais, geralmente levando a um estado de
crise (ANTON; FAVERO, 2011).</p>
<p>A elaboração e a superação do trauma são essenciais para evitar que
os sobreviventes revivam a angústia da perda, quando em contato com
pessoas, locais ou situações que rememorem o ente que se foi. Essa
elaboração acontecerá por meio de um processo de luto. O luto adquire a
função de transformar a dor da perda em outra potência que favoreça quem
o sofre. É importante que a fase de luto não seja ignorada; expressar e
lidar com os sentimentos são essenciais para a vivência da perda pelas
vítimas ocultas (ANTON; FAVERO, 2011).</p>
<p>O luto é um processo que acompanha toda a vida do sujeito, uma
experiência pela qual a vítima indireta terá que se desvencilhar do
objeto amado perdido. Ele faz parte da elaboração de uma perda e não se
configura como uma patologia (FREUD, 2008). Alguns fatores-chave
influenciam o luto: (i) a relação com a pessoa perdida; (ii) a natureza
da ligação (intensidade, segurança, ambivalência ou conflitos); (iii) a
forma da morte: repentina e violenta; (iv) antecedentes históricos; e
(v) variáveis de personalidade e sociais (KOVÁCS, 2007).</p>
<p>No que tange às especificidades do luto por suicídio, encontramos,
nas entrevistas, a negação da <italic>causa mortis</italic>. As mortes,
para estes sobreviventes, teriam ocorrido em consequência de um acidente
ou um homicídio. É curioso ressaltar que as narrativas sobre as
discrepâncias são relativas ao mesmo caso contadas por membros de uma
mesma família. As contradições sobre as circunstâncias da morte
apareceram em dois casos específicos.</p>
<p>O policial militar Mateus foi encontrado morto na residência da
família. Ele havia retornado há alguns dias de uma viagem de visita à
sua filha de um casamento anterior. Era um dia de jogo da Copa do Mundo
e os familiares ouviram barulhos de tiro, ao mesmo tempo em que fogos de
artifício comemoravam o resultado do jogo. Seu filho, Leonardo, conta
que:</p>
<disp-quote>
  <p>Nesse dia, no sábado, eu saí de manhã pra ir ao mercado, porque a
  minha mãe me mandou comprar umas coisinhas né, comprar carne pra nós
  fazermos um churrasco no jogo do Brasil. Aí comprou, depois ele saiu,
  e eu fiquei em casa também, com minha mãe e as crianças, ele pegou as
  crianças, pegou a menina menor e saiu, foi pro mercado, até levou a
  televisão pra lá pra ver o jogo por lá, e o churrasco aqui, depois ele
  voltou pra ver o final do jogo com a gente né, com meu cunhado, a
  minha irmã e minha mãe também, e os outros menores, depois nós
  descemos, que ele falou que tinha que descansar e ir ao mercado,
  porque ele tinha um mercado né. Como segurança. [...] Ele voltou pra
  casa e ficou com a gente lá em cima vendo o jogo. Quando acabou o
  jogo, aí ele falou que ia descansar né, aí todo mundo desceu, meus
  irmãos, meu cunhado, e ele ficou vendo o final do jogo (Leonardo,
  filho do policial militar Mateus).</p>
</disp-quote>
<p>Em seguida, perguntamos: “E como ele morreu?”. Leonardo respondeu:
“De tiro [...] com a própria arma”. Entretanto, Cecília, que é irmã do
policial militar Mateus, tem outra versão. Cecília afirma que seu irmão
foi assassinado. Em sua narrativa, ela explica como os possíveis
assassinos do irmão poderiam ter entrado na casa:</p>
<disp-quote>
  <p>Porque a casa, ela tinha, assim, a laje e ela não tinha porta, não
  tinha portão. Sim, uma tinha uma escada que dava pra laje de casa,
  tipo um terraço e não tinha nem porta e nem portão. Então, a parte de
  cima era um terraço, aí tinha essa escada, por essa escada descia
  assim onde uma sala lá em cima e os dois quartos. E o quarto dele
  inclusive é com banheiro. Embaixo da parte da casa era outra sala e um
  outro banheiro e cozinha, entendeu? E atrás, que eu fiquei sabendo,
  aquelas casas de conjunto, tinha uma casa abandonada, por onde, acho
  que, duas pessoas passaram por ali, dois homens, passaram por ali e
  entraram. Quer dizer, todo mundo na época falava que quem fez isso
  conhecia a casa e ele estava deitado dormindo (Cecília, irmã do
  policial militar Mateus).</p>
</disp-quote>
<p>No segundo caso, Carlos, que é pai do policial militar João, afirma
que o disparo da arma que matou o filho poderia ter ocorrido por
acidente. João discutia com a ex-namorada quando disparos de arma de
fogo foram efetuados contra a sua cabeça. Quando perguntamos o que havia
ocorrido com João, ele explica: “Olha, eu até agora eu não sei. Eu, no
meu entender, até por ele conhecer arma, acho que, até hoje, no meu
entender, que ele tava brincando. Eu acho. Pode ser. Ninguém provou, nem
a PM fez nada com isso. Que não tinha informação” (Carlos, pai do
policial militar João).</p>
<p>Quando perguntamos se houve perícia ou investigação sobre o caso, ele
respondeu:</p>
<disp-quote>
  <p>Não. Não teve nada. Houve o que aconteceu, veio um carro da PM,
  pegaram ele, botaram ele dentro do carro, levaram ele para o hospital.
  E levaram a menina pra delegacia. A menina desesperada. Disseram, aí
  não sei, que houve até um tipo de coação pra falar que ele se matou.
  Até hoje ninguém houve apuração nenhuma. Só a declaração dela (Carlos,
  pai do policial militar João).</p>
</disp-quote>
<p>Então perguntamos qual foi a declaração da namorada, e Carlos
respondeu: “Eu não sei. Eu não tenho. Dizem que ela falou que ele se
suicidou, que botou a arma na cabeça e atirou. Mas, aí, se ele tivesse
brincando?”. Doralice, que é irmã de João, também tem desconfiança sobre
os motivos da morte do irmão:</p>
<disp-quote>
  <p>Tem amigos meus e até primos que acreditam que chegou alguém por
  trás e deu um tiro na cabeça dele. Não acreditam que ele tenha feito
  isso. E porque eles não acreditam, eles vão conversar com você e vão
  fazer você acreditar nisso. [...] só que eu tenho ainda muita dúvida.
  Tem momentos que eu acho que ele fez e tem momentos que eu acho que
  foi por acaso. Foi uma distração ou a arma disparou acidentalmente,
  não acidentalmente porque ele colocou, mas acidentalmente porque ela
  disparou. Pelo que eu sei, a arma da polícia fica sempre uma na
  agulha, ele sempre falou que uma vez ele limpando aqui a arma, a arma
  disparou. Então eu tenho essa dúvida até hoje. Ou uma coisa ou outra.
  Tem horas que eu não acredito que por si só fez, por querer, mas no
  decorrer da briga também pode ser que sim, cada um fala uma coisa,
  cada um fala uma história. Uns dizem que ela gritou com ele e disse
  que não queria mais, se ele quisesse fazer que ele fizesse; que ele
  quisesse se matar que ele se matasse, uns falam isso (Doralice, irmã
  do policial militar João).</p>
</disp-quote>
<p>Em outros momentos da entrevista, o pai de João se apega à
inexistência de uma mensagem do filho para justificar sua dúvida de que
a morte tenha sido um suicídio. Também identificamos, nas entrevistas, a
negação do suicídio quando associado à menção de planos de futuro
próximo da vítima. Carlos nega a possibilidade da causa da morte por
suicídio, pois o seu filho, João, tinha planos para o futuro próximo.
Por essa razão, o pai atribuiu a morte do seu filho a outras causas
externas.</p>
<p>Soares, Miranda e Borges (2006), ao estudarem as “vítimas ocultas da
violência” – familiares de vítimas de homicídio, suicídio ou acidente –,
salientam que, muitas vezes, os familiares das vítimas por suicídio
duvidam que o fato tenha sido cometido pela própria pessoa, atribuindo a
morte a um terceiro, um agressor desconhecido ou conhecido. Além disso,
os autores apontam que a falta de informações seguras sobre as vítimas
impede o “fechamento” psicologicamente necessário para que as vítimas
ocultas prossigam com suas vidas. No caso apresentado, a ausência da
perícia reforçou a negação da causa morte por parte do pai de João.</p>
<p>Um segundo aspecto que destacamos nas entrevistas é um padrão de
comportamento em situações de estresse agudo (<italic>avoidance
behaviors</italic>). São as tentativas de evitar situações que possam
lembrar a dor da perda. No trecho a seguir, a esposa fala sobre a forma
que a filha lida com a morte do pai:</p>
<disp-quote>
  <p>Ela nem gosta de falar, não comenta. Nem no nome dele ela fala. Não
  fala porque ela lembra e chora igualzinha a mim. Aí ela não fala. Ele
  era vascaíno doente, como te falei, né? Ela também. Depois que ele
  morreu, desistiu, falou que “Nunca mais vou ser Vasco na minha vida”.
  Trocou. Ela é Fluminense hoje. Aí é Fluminense: “Eu não quero mais ser
  Vasco”; “Mas por que filha?”; “Porque lembra o meu pai e eu não
  quero”. (Laís, esposa do policial militar Denis).</p>
</disp-quote>
<p>Para Soares, Miranda e Borges (2006), “procurar não lembrar” da
vítima é uma das formas de lidar com o sentimento trazido pela perda. Os
autores destacam ainda os sentimentos de revolta e descontentamento, de
culpa e de incompreensão nos relatos das vítimas secundárias que tiveram
parentes e amigos mortos por suicídio. O ato, por vezes visto como
covardia ou loucura, pode ajudar a explicar a revolta ou a raiva com
relação à vítima.</p>
<p>O terceiro aspecto aborda as mudanças significativas no dia a dia das
casas a partir da morte do familiar. Diversos familiares relataram a
perda como ponto de inflexão em dinâmicas, como a casa estar sempre
cheia de pessoas, festas, músicas etc. As narrativas sugerem que a morte
expõe essas pessoas a situações de isolamento social, seja por
iniciativa dos próprios enlutados ou ainda das pessoas próximas que não
sabem como lidar com a situação.</p>
<disp-quote>
  <p>E a única pessoa mais próxima é quem tá junto com a gente. Mas a
  gente tenta superar, sair. Muitos amigos aí, eu fico bobo. Teve
  colegas que sumiram. Muitos chegam pra mim, olham pra mim: “Carlinhos,
  não sei nem o que falar contigo”. Falei: “Meu irmão, a vida tá
  continuando, rapaz”. E tem outros que são assim, chegam em cima, em
  cima, em cima. Liga todo dia. Chama: “Vamos pra tal lugar?”. Ontem
  mesmo eu fui trabalhar. Aí um amigo: “Pô, Carlinhos, vamos pra praia?
  Vamos pra praia?”; “Porra cara, não tô a fim de ir pra praia”. E sai
  com grupo. Aí tu chega meio desanimado, eu sempre fui alegre. Eu
  sempre fui de fazer festa, de chamar todo mundo. A casa lá em cima
  ficava cheia. E tudo isso diminuiu (Carlos, pai do policial militar
  João).</p>
</disp-quote>
<p>Outros relatos apontaram o afastamento de alguns amigos. Aqui reside
uma quarta especificidade do luto por suicídio. Pessoas, por não saberem
como lidar com o familiar enlutado por suicídio, acabam se afastando das
mesmas. Sendo assim, além do afastamento gerado pelos próprios
familiares, quando relatam não sentirem mais vontade de fazer atividades
de lazer, existe o afastamento das pessoas que não sabem como lidar com
a questão, o que acaba por reforçar ainda mais o isolamento social
desses “sobreviventes do suicídio”. Muitas vezes, as vítimas eram os
principais provedores financeiros de suas famílias. Nesses casos,
soma-se às dificuldades do processo de luto a necessidade de
reconfigurar financeiramente a família enlutada. Esse assunto será
debatido em maior profundidade adiante.</p>
<p>As narrativas confirmam a literatura especializada (FUKUMITSU;
KOVÁCS, 2016, p. 4). Trata-se de uma morte e suas consequências
<italic>sui generis</italic>. Nelas, encontramos: (i) a importância dos
rituais fúnebres; (ii) as demandas por transparência no esclarecimento
das mortes para esses familiares; e (iii) o isolamento social desses
familiares, seja por iniciativa própria ou pelo afastamento de pessoas
próximas. A seguir, discutiremos os mecanismos e procedimentos
institucionais que podem contribuir, positiva ou negativamente, na
elaboração do luto pelos familiares das vítimas de suicídio da
PMERJ.</p>
<p><bold>Os entraves e os dispositivos institucionais da PMERJ no
processo do luto</bold></p>
<p>A perda de um ente querido por suicídio é uma experiência difícil por
inúmeras razões, conforme vimos no decorrer deste artigo. Não obstante,
as narrativas sinalizam uma série de dispositivos que podem contribuir
para atenuar o sofrimento gerado pela perda de um ente querido. Alguns
exemplos, nesse sentido, seriam: o acompanhamento psicológico dedicado
aos enlutados, o engajamento com a religiosidade, o fortalecimento dos
laços familiares, a presença de amigos ou pessoas próximas, entre
outros.</p>
<p>Sabe-se que, além do sofrimento e da dor da perda, a morte implica em
lidar com questões burocráticas. Essa tarefa normalmente cabe aos
parentes mais próximos da vítima. São inúmeros trâmites que familiares
vivenciam para terem acesso aos direitos previdenciários e sociais,
como, por exemplo, as pensões e os auxílios financeiros. As vítimas são
muitas vezes os principais responsáveis pela provisão da renda familiar.
Nessas circunstâncias, além do sofrimento pela perda, a morte pode
acarretar uma desintegração social e econômica nas famílias de policiais
militares. Os familiares entrevistados das vítimas na PMERJ não são
diferentes. Muitos sobreviventes confessaram ter tido problemas
financeiros após a morte do seu ente querido, em especial, quando houve
demora para que a família pudesse acessar a pensão ou outros benefícios,
conforme as dificuldades mais citadas nas entrevistas.</p>
<p>As entrevistas mostram que o apoio institucional em termos materiais
é um fator importante a ser considerado na superação do luto. O amparo
financeiro temporário das famílias pode minimizar eventuais
consequências negativas para o processo de luto de parentes próximos.
Portanto, a burocracia que envolve o acesso a esse auxílio financeiro
também pode afetar essa fase.</p>
<p>É preciso destacar ainda que os familiares do policial morto por
suicídio não têm direito a acessar o seguro que os policiais contribuem
mensalmente, tampouco outras indenizações. O único direito que esses
familiares conseguem acessar é a pensão destinada aos dependentes da
vítima. No entanto, mesmo esse direito demanda uma série de trâmites que
muitas vezes os familiares não estão preparados para enfrentar. Quando
perguntamos se a Vania (mãe do policial militar João) tinha recebido
algum apoio da Polícia Militar, ela respondeu:</p>
<disp-quote>
  <p>Não. Nenhum apoio. E aqui com esse negócio da demora de laudo, o
  que é que eles iriam falar, o que eu acho... É que eles botaram lá que
  ficou como suicídio, porque eu acho também que mesmo sendo suicídio,
  acho que tem a ver com a profissão dele, eu acho que tudo está
  incluído, e nisso tudo ficou sem ganhar nada, a filha ficou sem ganhar
  nada, a pensão que ele “coisava”, mas ele estava pagando, se ele
  descontava, seguro de vida eu acho que desconta de todo o policial,
  mesmo que não saia todo, mas por causa da menina, mas não saiu nada
  (Vania, mãe do policial militar João).</p>
</disp-quote>
<p>Esta mãe da vítima demonstra descontentamento por saber que a neta
não terá acesso ao valor referente ao seguro de vida que o policial
militar pagava. Então, perguntamos o que havia sido alegado para não
conceder o direito ao seguro, e ela respondeu: “Só disseram que o laudo
ficou como suicídio, sem direito a nada. Mas eu acho que tem que
procurar um advogado, e vê e correr atrás disso aí. Porque mesmo sendo
suicídio, eu acho que esse suicídio gerou dentro da profissão dele. Pra
mim foi.” (Vania, mãe do policial militar João).</p>
<p>Mesmo nos casos em que o suicídio foi atribuído a questões
passionais, alguns familiares identificaram um comportamento mais
agressivo da vítima a partir da entrada delas na polícia. Essa
constatação, de relação entre o suicídio e algum comportamento
identificado a partir da entrada na polícia, aumenta o sentimento de
injustiça desses familiares diante das diferenças de tratamento desse
tipo de morte, já que para esses familiares é perceptível uma relação
entre a morte e o trabalho policial.</p>
<p>Além do auxílio com os trâmites burocráticos e o apoio financeiro, os
entrevistados mencionaram a importância de um espaço de escuta e
acompanhamento para as famílias. As entrevistas sugerem como primordial
a relevância de acompanhamentos psicológicos dirigidos, especialmente,
aos filhos de policiais vítimas de mortes violentas. Anton e Favero
(2011) explicam que a perda de um genitor representa, para a criança, um
duplo dano: a perda do pai/mãe e a ausência do familiar que ficou, porém
que se encontra fragilizado pela situação traumática. Esse fato acarreta
uma sensação de maior desamparo para a criança/adolescente.</p>
<p>No entanto, observamos que o apoio – formal e/ou informal – recebido
pelas famílias entrevistadas variou de acordo com o perfil do comandante
do batalhão ao qual a vítima estava lotada até o momento da morte.
Encontramos disparidades entre os relatos que abordaram o apoio
oferecido pelos comandantes e colegas de trabalho. Enquanto uma esposa
indica que:</p>
<disp-quote>
  <p>Tive, tive sim apoio de todo mundo. Tive apoio de coronéis; do
  próprio presídio em que ele estava preso. Eles durante um tempo me
  ligaram pra saber como é que eu estava, e foi sempre assim. Sempre
  tive muito apoio de muita gente. De coronel, de comandante de onde ele
  estava preso (Rosane, esposa do policial militar Osmar).</p>
</disp-quote>
<p>Outra esposa narra uma experiência muito distinta:</p>
<disp-quote>
  <p>Da polícia não tive apoio nenhum, assim, como eu tô tendo agora uma
  conversa com você. Não veio ninguém pra poder falar nada. Eu que tive
  que ficar correndo atrás, entendeu? Me mandavam pra um batalhão, me
  mandavam pra outro, me mandavam pra outro. Não teve nenhuma pessoa que
  chegasse lá de dentro que viesse conversar comigo, saber como tá minha
  filha, se ela tá precisando de uma cesta básica, sei que ela até tinha
  direito nisso, nunca levaram uma cesta básica até ela. Eu
  desempregada, né? A única coisa que eu tive direito, porque ele deixou
  pra mim, foi o seguro que eu te falei, e é só. A pensão que ela
  recebe, que é de quatrocentos reais, que é dividido com essa mulher
  que prejudicou a vida do cara ainda, né? (Laís, esposa do policial
  militar Denis).</p>
</disp-quote>
<p>Portanto, além dos temas apresentados na seção anterior,
identificamos a importância do amparo institucional no que tange os
trâmites burocráticos e o acolhimento para essas famílias. Além disso,
reforçamos como a questão financeira pode ser um ponto de atenção no
atendimento a essas famílias enlutadas.</p>
<p><bold>A Assistência Social e Psicológica às Famílias de Policiais
Militares Falecidos</bold><xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref></p>
<p>Desde o ano de 2002, a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro
conta com um serviço de atendimento psicológico, vinculado à Diretoria
Geral de Saúde. Atualmente, cerca de 100 policiais oficiais psicólogos
atuam no atendimento clínico de policiais militares ativos e inativos e
de seus dependentes. As entrevistas indicam que a cobertura do
atendimento psicológico aos familiares enlutados é ainda insuficiente.
As unidades localizadas no interior do estado do Rio de Janeiro são mais
prejudicadas nesse atendimento. Os entrevistados chegaram a buscar o
apoio psicológico, mas não conseguiram dar prosseguimento ao tratamento,
devido à distância de suas residências.</p>
<p>A mais recente iniciativa na PMERJ, voltada para atender e orientar
os familiares de policiais militares, ativos e inativos, falecidos em
situação de violência, em serviço ou em folga, foi protocolada por meio
de uma instrução normativa. Ela foi elaborada em julho de 2017 e
publicada em Boletim interno em novembro do mesmo ano (PMERJ, 2017),
devido à crescente vitimização policial no estado do Rio de Janeiro.
Nela, constam as diretrizes para o protocolo de busca ativa, no âmbito
das políticas de Assistência Social, Previdência e Atendimento
Psicológico.</p>
<p>O Protocolo de Busca Ativa para Assistência Social e Psicológica às
Famílias de Policiais Militares Falecidos visa: (i) oferecer assistência
social e psicológica às famílias desde o momento de falecimento do
Policial Militar por causas externas, em serviço ou folga; (ii)
proporcionar orientações e esclarecimentos sobre os direitos
previdenciários; (iii) disponibilizar atendimento psicológico às
referidas famílias, de acordo com a necessidade de cada caso; e (iv)
viabilizar suporte de entidades externas à PMERJ às famílias
mencionadas.</p>
<p>É inegável que a instituição tenha buscado expandir e oferecer um
atendimento psicológico aos policiais militares ativos e inativos e aos
seus dependentes. Contudo, os relatos dos familiares de policiais
falecidos por suicídio revelam que a rede de atenção psicossocial aos
enlutados pode ser aprimorada. O serviço de Psiquiatria, por outro lado,
é o “Calcanhar de Aquiles” do sistema de saúde mental da PMERJ. O
restrito quadro de médicos oficiais psiquiatras prejudica o atendimento
clínico de policiais militares na ativa, inativos e seus dependentes.
Esse fato não só compromete o trabalho da tropa na promoção do
policiamento ostensivo seguro e de qualidade, como também sobrecarrega
os profissionais de saúde responsáveis pelo atendimento psicológico.</p>
<p>Apesar dos avanços, a instituição ainda não possui um serviço
especializado de posvenção que possa auxiliar na redução do sofrimento
psíquico associado ao luto dos sobreviventes de suicídio. Não há ações
de suporte aos familiares, por meio de recrutamento ativo dos familiares
“sobreviventes do suicídio”, como as abordagens de grupo de apoio ao
luto, conduzidas por facilitadores treinados. Ao mesmo tempo, é sabido
que as ações focadas na posvenção são eficazes na ajuda ao processo de
luto e na redução em curto prazo do sofrimento psíquico associado ao
luto dos sobreviventes de suicídio (ABP, 2014). Esse é um desafio que a
PMERJ terá que enfrentar a médio e a longo prazo.</p>
<p><bold>Considerações finais e Recomendações</bold></p>
<p>O luto é um processo que precisa ser vivenciado. Neste trabalho,
buscamos compreender como a composição do ambiente policial (a família,
o profissional de saúde mental, a instituição de trabalho, entre outros)
pode colaborar para reduzir o sofrimento emocional dos
sobreviventes.</p>
<p>Os dados analisados sugerem que o tratamento diferenciado aos
policiais militares vítimas de suicídio na PMERJ está associado à falta
de reconhecimento das mortes por suicídio como um problema de saúde
pública. Entrevistas com policiais militares da ativa revelaram que o
apoio e o cuidado com o sofrimento do policial correspondem ao perfil de
seus comandantes (MIRANDA, 2016). O amparo aos familiares segue a mesma
lógica. O adoecimento e o apoio à família do policial morto por suicídio
estão relacionados ao comportamento dos líderes das unidades
administrativas e/ou dos batalhões convencionais e especializados.</p>
<p>As narrativas dos familiares sugerem que a solidariedade de
policiais, colegas das vítimas, é essencial no amparo das famílias
enlutadas, seja por ajuda financeira seja por iniciativas coletivas, a
saber: a doação de dinheiro para cestas básicas e/ou despesas com o
sepultamento. Amigos e colegas de policiais mortos por suicídio
oferecem, acima de tudo, o acolhimento emocional às famílias das vítimas
por meio de ligações telefônicas e visitas em datas marcantes.</p>
<p>A atuação do profissional de saúde mental nesse processo,
especialmente quando existem crianças entre os “sobreviventes do
suicídio”, é fundamental. Como vimos, as mortes por suicídio produzem um
isolamento social que amplia ainda mais a necessidade de acompanhamento
médico e terapêutico aos familiares sobreviventes.</p>
<p>Esses fatos reforçam a urgência por ações de prevenção e posvenção ao
comportamento suicida nas instituições policiais militares no país. As
políticas de posvenção devem contemplar a condição emocional das vítimas
policiais e de seus familiares. A família é uma instituição de suma
importância para o policial. A conscientização dos familiares sobre o
suicídio e a sua participação na prevenção pode ser um fator preventivo
ao suicídio. Ao mesmo tempo, é preciso considerar que a perda do
policial pode desencadear uma série de processos dolorosos entre aqueles
que convivem com ele. Esse fato reforça a relevância de incluir na
agenda de políticas de saúde mental a prevenção e a posvenção do
suicídio nas instituições policiais.</p>
<p>A Corporação, portanto, pode contribuir oferecendo ferramentas
comprometidas com o amparo das famílias. Essa cobertura abrange desde a
valorização da vida do policial até o pós-morte, como ocorrem nos casos
de “ato de serviço”. O investimento no acompanhamento dos parentes com
os vínculos mais fortes, em especial os filhos dos policiais, é
essencial. Medidas como acelerar os trâmites burocráticos para obtenção
do auxílio financeiro e ter um serviço específico de atendimento
psicológico para os parentes próximos das vítimas de suicídio podem
contribuir diretamente na passagem por cada uma das fases do luto,
fazendo com que elas não se tornem patológicas. E, ao mesmo tempo, essas
medidas podem somar para o não agravamento do sofrimento à perda, seja
por conta de instabilidade financeira seja pelo sentimento de abandono
por parte da instituição.</p>
<p>Ressaltamos, ainda, a necessidade de repensar o significado da morte
por suicídio na PMERJ e os rituais inerentes a essa morte dentro da
corporação. Acreditamos que o simbólico adotado hoje dentro das
corporações gera um sentimento de não reconhecimento do trabalho
policial do falecido. É necessário rever questões, como o direito ao
seguro de vida nos casos de suicídio, entendendo o suicídio como o ato
final de um processo de adoecimento do indivíduo.</p>
<p>Entendemos que, da mesma forma que a satisfação profissional pode
contribuir como um fator de proteção emocional, o cuidado com as
famílias enlutadas pode somar positivamente para o amparo ao longo do
processo de luto, ao passo que a desatenção a esse público pode tornar
essa experiência ainda mais dolorosa.</p>
<p>Em suma, é preciso destacar a urgência de estender esse olhar para os
colegas de trabalho dos policiais e para a tropa como um todo. As
entrevistas evidenciam o quanto os policiais se sensibilizam e vivenciam
o luto de seus colegas, seja por suicídio ou por outras mortes
violentas. A perda de um colega por morte violenta é uma dimensão que
merece destaque quando estamos analisando as consequências psicossociais
e individuais dos sobreviventes enlutados em contexto de polícia
ostensiva (militar).</p>
<p><bold>Referências Bibliográficas</bold></p>
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Estudos e Prevenção de Suicídio. – Brasília: CFM/ABP, 2014.</p>
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<p>FUKUMITSU, K.; KOVÁCS, M. J. Especificidades do processo de luto
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<p>MUNIZ, J. <bold>“Ser policial é, sobretudo, uma razão de ser”</bold>.
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<p>POLÍCIA MILITAR DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO – PMERJ. <bold>Instrução
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<p>SCAVACINI, K. <bold>Suicide Survivors Support Services and
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<p>SILVA, D. R. Na trilha do silêncio: múltiplos desafios do luto por
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<p>SOARES, G.; MIRANDA, D.; BORGES, D. <bold>As vítimas ocultas da
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survivor’s group. Geneva: WHO/IASP, 2008.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>Vítimas ocultas, secundárias ou indiretas são pessoas atingidas
    pela perda de um familiar ou amigo íntimo de forma violenta (SOARES;
    MIRANDA; BORGES, 2006).</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>A pesquisa foi aprovada, em 2011, pelo Comitê de Ética da SR2 da
    Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Processo Nº
    011.3.2011).</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>Assistência religiosa, de acordo com a religião do policial.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>Em 2011, no momento de realização das entrevistas, a PMERJ arcava
    com os custos do velório e do enterro para as mortes em atos de
    serviço. Em tempos de crise financeira do estado do Rio de Janeiro,
    a PMERJ não teve como assumir os custos do velório. Essa informação
    foi compartilhada por integrantes da PMERJ que participaram do
    Workshop de Prevenção do Suicídio, dirigido aos profissionais de
    Saúde, realizado no dia 26 de outubro de 2016, na Universidade do
    Estado do Rio de Janeiro.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>A última consulta sobre os serviços e os decretos publicados
    neste trabalho ocorreu junto a profissionais de saúde da Corporação,
    no final do ano de 2020.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
