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<p><bold>Desafios para a segurança pública no Maciço de Baturité –
Ceará: mortalidade violenta e insegurança no “Território
Unilab”</bold></p>
<p><bold>Francisco Thiago Rocha Vasconcelos</bold></p>
<p>Professor da Universidade da Integração Internacional da Lusofonia
Afro-Brasileira (UNILAB), em Redenção-CE. Bacharel em Ciências Sociais
pela UFC. Mestre em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC).
Doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo (USP).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Ceara
<bold>Cidade:</bold> Fortaleza</p>
<p><bold>Email:</bold> fvasconcelos@unilab.edu.br <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0003-3807-3187</p>
<p><bold>Antonio Micael Pontes da Silva</bold></p>
<p>Mestrando em Sociologia na Universidade Federal do Ceará (UFC).
Bacharel em Humanidades e Licenciado em Sociologia (Unilab).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Ceara
<bold>Cidade:</bold> Fortaleza</p>
<p><bold>Email:</bold> mickaelpontessilva@gmail.com <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0003-0997-391X</p>
<p><bold>Julimar Trajano Lopes</bold></p>
<p>Bacharel em Administração Pública (Unilab).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Pernambuco
<bold>Cidade:</bold> Cajazeiras</p>
<p><bold>Email:</bold> julimartl.1988@gmail.com
<bold>Orcid:</bold>https://orcid.org/0000-0003-2240-2513</p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold> todos os autores contribuíram
no desenvolvimento das pesquisas que subsidiaram o artigo e na
elaboração do rascunho ou na revisão crítica do conteúdo.</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>O presente texto aborda o aumento da mortalidade violenta no interior
do Ceará tomando como objeto a situação do Maciço de Baturité e
considerando dois aspectos: 1) as transformações sociais da
criminalidade e das violências; e 2) o funcionamento das organizações de
segurança pública e de justiça criminal. Na análise, leva-se em conta
especialmente as cidades de Acarape, Barreira e Redenção, por
apresentarem aumento mais expressivo da mortalidade violenta na região
no período recente e por serem cidades-sede da Universidade da
Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab). Em
termos metodológicos, utilizou-se de entrevistas semiestruturadas com
sujeitos locais (políticos, profissionais da segurança pública e
operadores do direito) e análise de dados estatísticos.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Segurança pública. Homicídios. Maciço de
Baturité/CE. Unilab.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><bold>Challenges for public security in the Baturité Massif – Ceará:
violent mortality and insecurity in the “Unilab Territory”</bold></p>
<p>The present paper addresses the increase in violent mortality in the
hinterland of Ceará, taking as object the current situation in the
Maciço de Baturité region and considering two aspects: 1) the social
transformations of crime and violence and 2) the functioning of public
security and criminal justice organizations. In the analysis, Acarape,
Barreira and Redenção were especially highlighted for presenting a more
significant increase in violent mortality in the region in the recent
period and for being host cities of the University of International
Integration of Afro-Brazilian Lusophony (Unilab). In methodological
terms, semi-structured interviews were used with local subjects
(politicians, public security professionals and legal operators) and the
analysis of statistical data.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Public security. Homicides. Baturité Massif.
Unilab.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 25/02/2021 – <bold>Data de
Aprovação:</bold> 01/11/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v.16.n3.1436</p>
<p><bold>Introdução</bold><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></p>
<p>A partir de 2006, as taxas de mortes violentas no Nordeste brasileiro
apresentaram crescimento muito acima da média nacional, de tal modo que
a região passou a ser a mais violenta do país em números de homicídios
absolutos e também em taxas por 100 mil
habitantes<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>. Desde 2005, há
mudanças significativas nos padrões de produção da violência homicida no
país, como resultado de vários processos econômicos e sociais
convergentes: a migração dos polos dinâmicos da violência de um limitado
número de capitais e/ou grandes regiões metropolitanas, que melhoraram a
eficiência de seus aparelhos de segurança, para regiões menos
protegidas, seja no interior dos estados, seja em outras unidades
federativas (WAILSELFISZ, 2011).</p>
<p>Nessa “nordestinação” da
violência<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, muito há que ser ainda
investigado (NÓBREGA JR., 2017). Uma das principais hipóteses diz
respeito a um processo migratório do crime violento, potencializado por
ao menos seis fatores: 1) melhoria socioeconômica do Nordeste, que criou
novas oportunidades para crimes contra o patrimônio e para o fluxo de
mercadorias e a expansão do consumo de drogas ilícitas; 2) a extensão da
influência de facções criminais, as já estabelecidas no Sudeste, assim
como as de origem mais recente no Norte e no Nordeste; 3)
aperfeiçoamento da gestão da segurança pública no Sudeste, em comparação
com o Nordeste, onde o aparato de segurança pública se manteve estável
e, em geral, precário, ao mesmo tempo em que não se modificaram as
condições de crise nas prisões; 4) crise fiscal a partir de 2014, que
impôs restrições de orçamento em níveis federal, estadual e municipal;
5) descontrole da circulação dos armamentos; e 6) manutenção das
desigualdades sociais que afetam sobretudo a parcela jovem, negra e
periférica da população.</p>
<p>No ano de 2017, o estado do Ceará bateu seu recorde de Crimes
Violentos Letais Intencionais
(CVLI)<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>, com mais de 4.681 mortes,
superando o acumulado do ano de 2016, segundo dados oficiais da
Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS). Em homicídios
de adolescentes, o estado se destaca também como o primeiro colocado, e
Fortaleza como a capital que também
lidera<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> (UNICEF; ALECE; GOVERNO DO
ESTADO DO CEARÁ,2017. Este cenário impacta sobretudo a vida da juventude
pobre, negra e periférica diante dos conflitos territoriais das novas
dinâmicas políticas dos mercados ilegais.</p>
<p>Os índices de violência parecem seguir o ritmo das acomodações ou dos
conflitos das relações entre as facções e entre estas e a polícia, de
modo que seria possível presumir que, diante de acordos, haja diminuição
dos padrões de resolução violenta dos conflitos, o que pode ser
modificado caso o acordo não permaneça (BARROS <italic>et al</italic>.,
2018). Este é um argumento presente desde o pacto nacional entre
Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV), que
repercutiu na forma de um “salve” assinado pelo “Crime” no Ceará em
janeiro de 2016 (Ibidem). Para muitos, a redução dos índices de
homicídio nesse período seria repercussão desse “cessar fogo” através do
qual os conflitos territoriais foram apaziguados, servindo o domínio das
facções para manter uma sensação de estabilidade local. Embora o governo
do Estado não tenha reconhecido tal fato, quando o acordo foi desfeito
no início de 2017, os índices recomeçaram a crescer.</p>
<p>Contudo, a partir de 2018 destaca-se relevante queda do número de
homicídios no país. Em 2019 houve uma queda de 22% no número de mortes
violentas registradas nos nove primeiros meses em comparação com o mesmo
período de 2018. E foi no Nordeste, região que era apontada até 2017
como principal responsável pela escalada de homicídios no Brasil, onde
as taxas mais caíram (IPEA; FBSP, 2018). Entre as hipóteses
explicativas, ressaltam-se dois fatores que parecem articulados: as
ações dos governadores e das autoridades estaduais do Judiciário, mais
focadas nos presídios, que foram capazes de impor custos aos grupos
violentos; e a situação que acaba impulsionando os concorrentes do
mercado criminal a cessar conflitos e mortes, posto que significam
custos elevados e redução nos lucros obtidos com as drogas (MANSO; DIAS,
2018). “A trégua, dessa forma, pode interessar a todos os concorrentes,
desde que os rivais saibam que seus respectivos oponentes não farão
movimentos de agressão e expansão” (MANSO, 2019).. Esta hipótese é
pertinente para explicar a situação do Ceará que, desde a criação da
Secretaria de Administração Penitenciária, sob a gestão de Mauro
Albuquerque, reduziu seus índices de homicídios, não sem questionamentos
sobre o nível de violência da administração estatal nos presídios
(SUDRÉ, 2019).</p>
<p>O objetivo do presente trabalho é investigar como estas questões
repercutem no interior do estado. Para isso, será apresentada análise da
realidade de uma macrorregião específica, o Maciço de
Baturité<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>.</p>
<p><bold>Figura 1: Macrorregião de Baturité</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image2.png" />
<p>Fonte: Seplag, Governo do estado do Ceará, 2011.</p>
<p>Na região, acompanhando tendência do estado como um todo na última
década, a piora dos índices de violência também tem sido significativa.
No que se refere aos dados
estatísticos<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref>, selecionamos os
referentes aos Homicídios por Arma de Fogo (HAF), de 1996 a 2017, pois
expressam de modo mais direto a dimensão principal do processo aqui
analisado:</p>
<p><bold>Gráfico 1: Homicídios por Arma de Fogo – 1996 a 2017</bold></p>
<p>[CHART]</p>
<p>Fonte: Elaboração própria com base no DATASUS.</p>
<p>A curva segue tendência geral de todo o estado durante o período, que
é de aumento, incluindo relativo decréscimo em 2015 (IPEA; FBSP, 2018).
Em outro momento se faz necessária comparação entre as diferentes
sub-regiões do estado, mas ressalta-se que os índices no Maciço do
Baturité não são irrelevantes, ocupando a sétima posição em número de
homicídios entre as 32 macrorregiões no estado em 2014 (IPEA; FBSP,
2016).</p>
<p>Em relação ao perfil do assassinado por arma de fogo, observa-se que
a faixa etária, a escolaridade e o critério cor/raça asseveram o padrão
brasileiro de mortalidade de homens, de baixa escolaridade (44,79%
possuíam nenhuma ou até três anos de estudo; 86,25% até sete),
pardos/negros e jovens (no caso da região, jovens adultos, de 20 a 29
anos). Este perfil é similar em nível estadual. Conforme o
<italic>Relatório Trajetórias Interrompidas</italic> (UNICEF; ALECE;
GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ, 2017), do Comitê Cearense Pela Prevenção de
Homicídios na Adolescência, os jovens de 17-18 anos de cor negra/parda e
de baixa escolaridade ainda continuam sendo os que mais morrem no
Ceará.</p>
<p>Este conjunto preliminar de indicadores nos permite perceber que há
um aumento progressivo da mortalidade violenta nesta sub-região, que
parece estar em forte ligação com o mercado ilegal de armas, os
conflitos entre coletivos criminais e os confrontos com a polícia em
espaços periféricos da região. O Maciço do Baturité, caracterizado por
municípios pequenos (com menos de 50 mil habitantes), com pouco
desenvolvimento, mas marcados pelo fluxo populacional entre região
metropolitana e interior, e por zonas rurais compostas por serras,
tornou-se estratégico para rotas de comércio, de fuga e de articulação
de atividades criminais.</p>
<p>Não sendo possível no momento abordar as diversas particularidades
territoriais do Maciço, pretendemos trabalhar principalmente a realidade
específica dos municípios de Acarape, Redenção e Barreira.</p>
<p><bold>Figura 2: Os municípios de Acarape, Redenção e
Barreira</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image1.png" />
<p>Fonte Portal Messejana, s/d.</p>
<p>Além da proximidade geográfica e do fato de serem os primeiros
municípios do Maciço após a região metropolitana de Fortaleza, os três
municípios possuem fortes laços históricos e sociais: originalmente,
Acarape e Barreira eram distritos de Redenção e conquistaram sua
emancipação política recentemente, ambos em 1987. Há, nesse sentido, uma
formação histórica e social comum que nos possibilita considerar
sociologicamente, para os fins desta pesquisa, os três municípios como
um mesmo
<italic>território</italic><xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>.</p>
<p>Enquanto, em geral, na região os índices de Homicídios por Arma de
Fogo se distribuem segundo o nível populacional dos municípios, Acarape,
Redenção e Barreira fogem à regra. Redenção, por exemplo, com 26.415
habitantes se destaca frente às demais cidades, inclusive de Baturité –
o município cidade-polo da rede de núcleos urbanos da região, mais
extenso e populoso, com mais de 33 mil habitantes. No que se refere aos
municípios com população entre 25 e 50 mil habitantes no estado,
Redenção e Baturité aparecem respectivamente como 10ª e 11ª cidades em
homicídios entre os anos de 2010 e 2013. Já quanto aos municípios entre
15 e 25 mil habitantes, Acarape se destaca em 3º (FBSP, 2017). Esta
realidade pode ser visualizada nos gráficos abaixo, referentes ao número
absoluto e ao ritmo de crescimento das mortes por arma de fogo:</p>
<p><bold>Gráfico 2: HAF por município – 1996 a 2017</bold></p>
<p>[CHART]</p>
<p>Fonte: Elaboração própria com base no DATASUS.</p>
<p><bold>Gráfico 3: HAF – Progressão por município – 2013 a
2017</bold></p>
<p>[CHART]</p>
<p>Fonte: Elaboração própria com base no DATASUS.</p>
<p>Em relação à curva ascendente a partir de 2013, chama atenção o
aumento da violência nos três municípios, em comparação com aqueles de
maior população. Se considerarmos a estreita relação geográfica e social
entre os municípios, podemos estar observando uma realidade específica,
que concentrou 39,78% dos homicídios por arma de fogo na região durante
o período considerado (2013 a 2017). Estes dados sugerem fatores
específicos (mudanças urbanas e sociais, desenvolvimento e
diversificação de atividades criminais), que podem indicar, por exemplo,
a formação de corredores de articulação criminal entre um conjunto de
municípios.</p>
<p>As entrevistas realizadas<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>
ofereceram indicativos sobre as dinâmicas regionais e locais. Uma
primeira proposição considera dois “microssistemas” de atividades
criminais: 1) os municípios de Acarape e Redenção, atrelados à CE-060 e
a Maracanaú, um dos principais distritos industriais da região
metropolitana de Fortaleza, e que serve de corredor para a serra do
Baturité; e 2) o município de Barreira, atrelado à BR-116, ligando a
região jaguaribana à Fortaleza, e próximo à Itaitinga, onde se situa uma
das principais penitenciárias do estado. Uma outra delimitação, corrente
de modo informal, refere-se ao “Maciço de baixo” e ao “Maciço de cima”,
tendo como delimitador das diferenças a relação com as serras, que
impõem particularidades da distribuição e do funcionamento, tanto da
segurança pública como da criminalidade.</p>
<p>A sub-região que envolve os municípios de Redenção, Acarape e
Barreira formam, nesse sentido, vinculações que favoreceram o aumento da
violência: com centros urbanos situados no “Maciço de baixo”, eles estão
ligados ao fluxo de mercadorias ilícitas entre interior e capital e são
pontos de passagem/articulação entre o “mundo do crime” com o sistema
penitenciário. Essas articulações se evidenciam em algumas das práticas
criminais na região, como assaltos a
banco<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref> , apreensões de
laboratórios de produção de
drogas<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>, mortes decorrentes de
confrontos com a polícia<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>, fugas
de cadeia<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref> e
chacinas<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>.. Este conjunto de
fatos ocorreram nos últimos dez anos, coincidindo com o aumento do
registro de homicídios e com evidências de envolvimento de atores locais
como lideranças de facções na organização da economia do crime na região
do Maciço de Baturité, chegando até mesmo a se envolver com a política
local<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref></p>
<p>Um maior investimento em pesquisa é necessário para explicar de uma
maneira mais conclusiva as correlações aqui estabelecidas. O presente
artigo sintetiza as primeiras iniciativas nesse sentido, considerando
como prisma inicial de análise as representações presentes no discurso
de agentes públicos, especialmente policiais e operadores do
direito.</p>
<p><bold>Crime e violência: o olhar dos agentes públicos</bold></p>
<p>Através das entrevistas obteve-se narrativas sobre as dinâmicas que
acompanhariam o crescimento da violência na região, construídas em torno
de um núcleo discursivo majoritário da expansão de facções do crime
organizado ligado ao tráfico de drogas. Esse núcleo discursivo tem suas
nuances. Na maioria das entrevistas, defende-se uma separação clara
entre o “mundo da ordem” e o “mundo do crime”, de traficantes
“pirangueiros”, “quase todos viciados”, envolvidos com ciclos de
vingança e “acertos de contas”.</p>
<p>Da parte das polícias, há uma percepção de Redenção como uma das
cidades mais dominadas pelo tráfico, com problemas comparáveis a cidades
metropolitanas como Pacajus e Horizonte. Teria havido uma migração de
criminosos de municípios maiores para o interior, sendo Redenção uma das
principais escolhas (um “labirinto do crime”, por suas muitas vielas
estratégicas para fuga e circulação de drogas) ou como “corredor do
crime” que liga a região metropolitana até o sertão central de Quixadá
(Entrevista 1, 2016), o que ocasionaria o aumento do crime e de brigas
entre gangues ou facções.</p>
<p>Segundo esse discurso, essa dinâmica se somaria ao desenvolvimento
histórico de “bolsões de pobreza” ligados à violência. Este seria o caso
do bairro de Boa Fé em Redenção:</p>
<disp-quote>
  <p>Agora me pergunte como foi criado esse bairro? Essa comunidade da
  Boa Fé tem uma criação violenta: você tira umas pessoas e vai jogando
  num espaço sem estrutura. As pessoas vão se ajeitando por ali. E qual
  é a forma mais fácil de ganhar dinheiro? É o Bolsa Família,
  aposentadoria (incentivos). E claro, o tráfico de drogas. Um tráfico
  de subsistência. Você entra na casa para cumprir um mandato, aí você
  vê lá uma mãe doente, um pai doente e uma criança; e um cara
  traficando para bancar a família. Você se comove com a situação. Eu
  tinha piedade. Tinha que lidar com aquele momento; porque tinha uma
  criança. E você tem que chegar com todo cuidado para cumprir o
  mandato. Ali é uma zona muito violenta, que tinha uma articulação com
  Antônio Diogo. (Entrevista 1, 2016).</p>
</disp-quote>
<p>Nesses “bolsões” haveria “presença indubitável de organizações
criminosas à serviço do tráfico” (Entrevista 5, 2017). Para outro
entrevistado, grande peso é dado ao <italic>crack</italic> como fator de
agravamento dos conflitos:</p>
<disp-quote>
  <p>A minha percepção é porque entre 10-20 anos atrás apareceu um
  <italic>elemento</italic>, e este não foi discutido com seriedade que
  o Brasil precisa discutir: ele chama-se crack. Eu vi uma pesquisa do
  deputado [...] que fez um levantamento que 90% das pessoas que estão
  presas têm relação direta com o uso de drogas. E 30% por homicídio.
  Ele está preso pelo homicídio. Quando você vai discutir para saber o
  porquê ele matou, o plano de fundo está a droga e briga de facção.
  Matou num latrocínio. Tem um porcentual que está relacionado ao roubo.
  Quando vai analisar esse roubo terá também como plano de fundo, em
  grande parte, pelo consumo ou a serviço do tráfico. (Entrevista 5,
  2017).</p>
</disp-quote>
<p>Para esse agente público, o <italic>crack</italic> e outras drogas em
menor escala como cocaína, heroína e maconha delineariam o perfil dos
usuários: jovens entre 18-19 anos, envolvidos em dívidas de drogas ou
que encontram na participação no tráfico uma forma de
reconhecimento:</p>
<disp-quote>
  <p>Eu vejo frases do tipo: “bandido bom é bandido morto”. Mas qual é o
  bandido bom morto? O bandido que sonega imposto ou o que é dependente
  químico? O branco ou o preto? O bandido seu irmão que se envolveu numa
  confusão ou porque dirigiu embriagado pois cometeu um delito criminoso
  ou aquele jovem que está numa favela que vê uma oportunidade de
  crescimento pessoal – tem um plano de carreira nas drogas pois as
  pessoas passam a serem respeitadas e terem moral. Para um jovem que se
  vê desamparado e que passa na rua e as pessoas mudam de calçada. Ou
  seja, o reconhecimento dele é zero pela sociedade. Então ele chega no
  tráfico e lá é tratado como rei ou herói. Logo isso traz para aquele
  jovem uma gratificação de reconhecimento pessoal – e financeiro.
  (Entrevista 5, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Na representação destes agentes públicos percebe-se a cristalização
de uma representação social estigmatizante sobre territórios vistos como
perigosos e violentos, razão pela qual há que se fazer uma ressalva
crítica, no sentido de problematizar uma visão que naturaliza a relação
entre pobreza e crime, englobando um conjunto populacional variado de
trabalhadores pobres no estigma da violência (WACQUANT, 2006; VIEIRA,
2017).</p>
<p>Sobre o poder, o enraizamento ou a “institucionalização” das facções
em Redenção, Acarape e Barreira, as posições variam entre uma afirmação
de uma grande presença organizada e entre uma presença mais
nominal-identitária, do que propriamente bem estruturada.</p>
<p>Para alguns, haveria uma densa relação com o tráfico da região
metropolitana e as dinâmicas de conflitos territoriais entre as facções
em Guaiúba e Pacatuba (Entrevista 4, 2017), repercutindo nas posturas e
tomadas de decisões dos grupos criminais em Acarape, Redenção e
Barreira. Estes conflitos resultariam em casos bárbaros de morte, a
exemplo da chacina ocorrida em 2014, quando cinco corpos de adolescentes
foram encontrados em duas covas rasas em um canavial em
Redenção<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref>; do triplo assassinato,
com uma decapitação, envolvendo conflitos por território entre facções
na localidade rural de Água Verde, do município de Guaiúba, zona
limítrofe de Acarape<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref>; e do
adolescente, suspeito de praticar crimes em Redenção, morto em troca de
tiros com a polícia, que teve seu velório invadido por grupo que ateou
fogo em seu caixão<xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref> :</p>
<disp-quote>
  <p>Esse menino que vocês estão falando era do Antônio Diogo. Ele era
  pra ter morrido naquela chacina na Boa Fé e foi um sobrevivente.
  [Sobre a chacina:] Eram cinco adolescentes que estavam lá
  ‘aterrorizando’ e aí o F.N., que tem uma relação tão forte com a
  comunidade – se acha superior que a polícia –, queria livrar a
  comunidade desses baderneiros. Para resolver toda essa situação, ele
  juntou um bando. Algo bem cinematográfico: juntaram-se todos
  encapuzados e com tochas. Tiraram os meninos de dentro da casa e
  levaram pro Canavial. E enterraram. Eles devem ter cavado a própria
  cova. E saíram nas ruas do bairro dizendo: “esses aqui são os
  pirangueiros que morreram... E está faltando <italic>fulano</italic>”.
  Foi exatamente esse menino que saiu (foi se esconder) da Boa Fé para
  Antônio Diogo. (Ele, F.N., que contou essa história). Lá ele se juntou
  com outra gangue. Já tinha personalidade voltada para o crime; isto é,
  para a criminalidade. Enfim, questão de vulnerabilidade: o pai e a mãe
  estava nem aí. Aí ele se voltou para o homicídio. Era também um
  pistoleiro. Então morreu de forma trágica lá no Antônio Diogo [o
  menino] [...] essa é uma história de filme. Essa chacina dá um filme.
  (Entrevista 1, 2016).</p>
</disp-quote>
<p>Segundo estes entrevistados, as facções ofereceriam um sentido de
ordem, vigilância e regulação dos microterritórios, promovendo punições
aos integrantes que ferirem suas concepções, “sugando” os recursos
locais e ao mesmo tempo “parasitando” as instituições prisionais:</p>
<disp-quote>
  <p>Aqui no estado tem só um presidio para a GDE, outro para CV e outro
  para outras facções. Ou seja, oficializaram-se as facções no Ceará. Em
  Rio Grande do Norte colocaram fogo em ônibus e etc.; mas o estado
  segurou. O preso, a partir do momento que é aprisionado,
  principalmente por tráfico (que é um crime entre os piores possível),
  ele perdeu o direito. Estão suspensos. Mas eles usam celular e
  comandam dentro dos presídios. (Entrevista 4, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Por outro lado, para outros entrevistados, as questões em torno das
facções são relativamente recentes na região, configurando-se apenas num
agrupamento frágil e limitado, mesmo durante as crises de insegurança
que apareceram nos “salves” de <italic>WhatsApp</italic>:</p>
<disp-quote>
  <p>Praticamente começaram a falar disso do ano passado pra cá. Então,
  não reconhecemos essas facções como uma força institucionalizada. Elas
  existem e isso é fato, pois nas abordagens que fazemos nos celulares
  vemos algo sobre CV (Comando Vermelho), GDE (Guardiões do Estado), PCC
  (Primeiro Comando da Capital) [...] ainda tenho a impressão que o
  sujeito se autodenomina de determinada facção. [...] Eu não tenho um
  posicionamento oficial sobre isso, pois estão muito recentes. Mas se
  existe, é necessário qualificar e quantificar essa força. (Entrevista
  2 – PM de Redenção, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Mas é importante destacar que a interpretação mais presente é a da
predominância do domínio político das facções criminais, especialmente
após as recomposições advindas da chamada “pacificação” ou “unificação”
entre as duas principais facções criminosas do país (BARROS <italic>et
al</italic>., 2018), que repercutiu na diminuição dos índices de
homicídios no ano de 2016, e a ruptura desses acordos, com consequente
aumento desses índices. Vale considerar a narrativa abaixo, acerca do
crescimento da liderança local de uma das principais facções na
região:</p>
<disp-quote>
  <p>Tinha um rapaz, o F.N. Ele era vigilante. Começou a vida como
  vigilante. Mas ele era aquela pessoa fronteiriça: tanto ligado ao
  crime como também ligada à polícia. Era aquele sujeito informante, mas
  tinha uma proximidade maior com a violência, com a violência estatal e
  histórica e dos grupos criminais organizados. Eu acho que houve um
  processo muito grande de marginalização em cima dele. Ele não era
  aquilo que pregava. Teve até um dia lá na delegacia que uma pessoa me
  contou assim: “eu não sou nada disso aí que estão falando de mim.
  Então vou me transformar” [F.N. disse para essa pessoa na delegacia].
  Assim, a própria polícia criou um “Mito F.N.”. E F.N. hoje em dia é
  considerado bandido de alta periculosidade, envolvido com assalto a
  banco. Sabe, ele foi migrando; foi se envolvendo com policiais ligados
  à corrupção e começou a crescer no meio da bandidagem: formação de
  infantaria, uma “engenharia social” muito boa. E o cara começou a
  crescer. Foi crescendo... (Entrevista 1, 2016).</p>
</disp-quote>
<p>Nessa entrevista alguns elementos são acrescentados, que borram as
fronteiras entre os “mundos da ordem” e da “desordem”. O tráfico de
drogas não é o único vetor que estruturaria as organizações criminais:
os homicídios se conectariam com outros processos, no caso a
estigmatização e a rotulação dos sujeitos como fatores de consolidação
de uma identidade e de uma <italic>carreira criminal</italic> (BECKER,
2008), sobretudo em espaços periféricos, que se alimentam das
criminalizações simbólicas baseadas em estereótipos nos discursos sobre
ordem e repressão.</p>
<p>As duas ênfases discursivas apresentadas nesta seção parecem oferecer
duas respostas que, mesmo não sendo opostas, são diferentes em relação
às medidas a serem adotadas: uma envolvendo a manutenção do mesmo modelo
organizacional e a prioridade orçamentária; e outra ressaltando a
necessidade de reforma da segurança pública e investimento em controle
da atividade policial e treinamento, como expressa a fala abaixo:</p>
<disp-quote>
  <p>Tem um policial lá [...] que se agrupou com essa pessoa que estou
  falando, o F.N.<xref ref-type="fn" rid="fn19">19</xref> [...] começou
  a rixa, que é por <italic>poder</italic>, e é até complicado o que vou
  falar... A rixa se acirrou devido ao assalto que teve no Banco do
  Brasil, no município de Baturité. Teve uma intervenção policial. Dizem
  que o F.N. estava como um dos autores do assalto. Só que
  <italic>dizem</italic> que ele, muito próximo da polícia e muito
  inteligente, como diz a gíria: “caboetou” um grupo lá na Boa Fé. Aí a
  polícia entrou lá [...] Aí é que tá. Às vezes uma intervenção
  policial, se não for bem pensada, bem planejada, ela vai gerar mais
  violência. Entraram de uma forma muito truculenta. Inclusive pessoas
  me relataram coisas que eu não posso falar aqui de forma alguma, já
  estou falando demais, entraram lá <italic>arrepiando</italic>. Dizem:
  “quem é que entregou o bando? O F.N.”. Aí o conflito lá foi cada vez
  mais se acirrando. Teve um mês lá que foram [...] na casa de 20
  homicídios. Então a situação piorou. Tudo por causa de uma intervenção
  policial, que ao invés de pacificar, acabou gerando mais violência
  (Entrevista 1, 2016).</p>
</disp-quote>
<p>Nesse sentido, na sequência analisaremos as representações dos
agentes públicos entrevistados sobre a estrutura organizacional e o
funcionamento da Segurança Pública na região, assim como as condições de
carreira e trabalho de policiais e operadores do direito.</p>
<p><bold>“Precariedade de polícia do interior e problemas de polícia
metropolitana”</bold></p>
<p>Na visão geral sobre o sistema de segurança pública, dois pontos
principais são ressaltados: a falta de integração e a precariedade
material do policiamento do interior para dar conta de problemas que vêm
se tornando mais complexos. Este seria um problema geral no Brasil, mas
que no estado do Ceará, e especificamente no interior, ganharia
contornos mais graves: “Há precariedade da polícia do interior com os
problemas de uma polícia metropolitana” (Entrevista 1, 2016).</p>
<p>A esta discussão, acrescenta-se um julgamento a respeito da
organização do planejamento e da distribuição de equipamentos e efetivos
na Área Integrada de Segurança Pública (AIS) que não seriam condizentes
com as necessidades, tipos de crime e integração entre
órgãos<xref ref-type="fn" rid="fn20">20</xref>:</p>
<disp-quote>
  <p>Esse plano da AIS é uma colcha de retalhos, porque a PC não tem Lei
  de Organização Básica. Já a PM possui. E lá se define quantos
  batalhões e suas competências, área constitucional e de circunscrição.
  Na PC é tudo baldeado (sic). O Maciço tem suas especificidades e
  territórios. Aqui já é outro tipo de crime, por mais que a droga
  esteja generalizada. (Entrevista 4, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Dificuldades similares derivam da localização do Instituto Médico
Legal (IML) e do núcleo da Perícia Forense, que se encontram na cidade
de Canindé (sede central da AIS-15, com 98,1 km de distância de
Redenção, via CE-257 e CE-60). Haveria uma dependência da delegacia de
Maracanaú (48,5 km de Redenção), polo plantonista mais próximo ou da
delegacia regional de Baturité (32,2 km de Redenção), principalmente nos
finais de semana. Essas distâncias aparecem nas falas dos entrevistados
como entrave na atuação e na operação dos agentes e das formas de
planejamento da segurança pública na região, levando em conta também a
formação geográfica local. Estas lacunas aparecem na opinião de
delegados:</p>
<disp-quote>
  <p>Eu me surpreendi ao chegar em Baturité. A Regional pega três
  municípios do Maciço [...]. E quando eu fui ver, tinha 13 delegacias,
  mas somente 3 funcionavam: Barreira, com uma delegada, um escrivão e
  dois inspetores, trabalhando somente em único expediente. Depois de
  18h o plantão ia para Canindé, lá no outro lado do mundo; Aracoiaba:
  com um novato, trabalhando também em um único expediente. Período da
  noite, final de semana e feriado, nada. Pelo menos tem uma delegacia
  modelo. Redenção: também do mesmo jeito. Uma casa caindo aos pedaços.
  Um delegado que também cursou a última turma; trabalhando com poucas
  pessoas e em um único expediente. E lá em cima da serra tínhamos:
  Guaramiranga: um delegado, dois escrivães e dois inspetores. Não
  possuem condições de fazerem diligência. Sem plantão. Sem nada. Todos
  insatisfeitos. Um local pequeno. E por fim, Baturité. Desses treze
  municípios só cinco tinham PC e Judiciária. E tínhamos muitas e muitas
  dificuldades. (Entrevista 4,
  2017)<xref ref-type="fn" rid="fn21">21</xref>.</p>
</disp-quote>
<p>Em termos de estrutura, critica-se as poucas viaturas da Polícia
Civil e da Polícia Militar responsáveis por Acarape, Redenção e
Barreira, o que atrapalharia no andamento das diligências e das
investigações. Além disso, havia<xref ref-type="fn" rid="fn22">22</xref>
uma Cadeia Pública, em Redenção, que, no entanto, estava proibida de
receber presos de Acarape por conta das condições precárias e de
lotação. Esta condição repercutia no trabalho da delegacia de Acarape,
que se via obrigada a deslocar a única viatura para a alocação de presos
em outro município. Os argumentos dos Policiais Militares vão no mesmo
sentido, de denúncia da precariedade estrutural e da grande demanda de
trabalho, o que impossibilitaria o atendimento de todas as ocorrências.
Isto se refletiria na precariedade do atendimento, por conta do número
insuficiente de policiais para a demanda de casos investigativos, da
estrutura de prédios e das viaturas com mal funcionamento. Os agentes da
segurança pública se sentiriam desestimulados, afetando o cumprimento da
subordinação, hierarquia e disciplina dos policiais.</p>
<p>Outro ponto relevante é o da instabilidade das carreiras na Polícia
Civil, que não teriam a mesma autonomia que carreiras jurídicas do
Ministério Público e do Poder Judiciário, que só seriam transferidos a
pedido ou por promoção. “O cara querendo sair hoje não precisa nem
justificar. Somente tira e coloca em outro local, e assim se vai”
(Entrevista 4, 2017). Segundo o mesmo depoimento, esta situação
desestimularia o trabalho, alimentando também a corrupção: “a polícia
judiciária, hoje desestimulada, e com a politicagem interferindo e sem
autonomia faz com que ela esteja fragilizada. E o pior, sem condições de
trabalho. Sem efetivo. As delegacias funcionam pouco”. A principal razão
para este quadro, segundo o entrevistado, seria o receio de
investigações da Polícia Civil atingirem esquemas de corrupção mais
disseminados entre poderosos locais e autoridades públicas: “o Poder
Público não fortalece a PC é com medo de algumas investigações, de
algumas coisas que nós sabemos que acontece” (Entrevista 4, 2017).
Haveria inúmeros reclames que derivam dessa situação, o que abriria
espaço para o descrédito das instituições e para o apelo a formas
violentas de controle do crime.</p>
<p>Mas como resposta a esse contexto também surgem inovações
institucionais, como é o caso da criação da Guarda Municipal em Acarape
em 2015. Surgida da necessidade de suprir a precariedade de policiamento
militar na região, a Guarda Municipal tenta se legitimar, mas enfrenta
contestações:</p>
<disp-quote>
  <p>A cidade estava vivendo um momento de crescente violência e os
  números de assaltos estavam muito grandes. Já tivemos casos de três
  assaltos por dia, e o efetivo da PM passou por uma crise: se não me
  engano, tínhamos 14 policiais apenas para trabalhar se revezando em
  equipes. Chegou o momento em que ficaram com quase todas as viaturas
  baixadas e tinha somente uma viatura na área cobrindo Barreira,
  Redenção, Antônio Diogo e Acarape. Uma viatura para três cidades!? Não
  tinha como... Aí o prefeito viu a necessidade de Acarape auxiliar e
  reforçar na Segurança Pública. (Entrevista 3, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Os PMs entrevistados fazem um elogio aos Guardas Municipais de
Acarape, por terem uma boa estrutura e por atenderem algumas
ocorrências, quando se torna inviável a ida da PM. Porém, segundo os
mesmos policiais, a Guarda teria assumido muitas atribuições, expondo-se
inclusive a situações de risco. Já do ponto de vista de gestores
municipais, a percepção é de uma insatisfação, seja por conta das
acusações de violência por parte da Guarda, que exigiriam o incremento
das formas de treinamento e supervisão, seja em razão dos custos
políticos de uma eventual desativação da Guarda:</p>
<disp-quote>
  <p>Confesso que estou insatisfeito com o trabalho da Guarda. Mas me
  sinto refém de tê-la, pois se não tiver a violência aumenta. Mas temos
  feito treinamento e plano paliativos. E outra, a Guarda não é polícia.
  [...] Tenho a impressão de que depois possa ser responsabilizado
  juridicamente como ato de impropriedade, sobre fuga de
  responsabilidades. Podem até dizer que estávamos fazendo uma milícia,
  como em campanha já fui acusado. Mas, ao mesmo tempo, se eu tirar os
  comerciantes reclamam [...] O meu problema com a Guarda hoje é que eu
  não sei até que ponto ela é sustentável. Saindo da prefeitura, até que
  ponto ela se mantém como política pública. (Entrevista 5, 2018).</p>
</disp-quote>
<p>Nosso propósito não é o julgamento de valor a respeito da Guarda, nem
a condenação do experimento, mas cabe ressaltar os riscos inerentes a um
processo de institucionalização ainda frágil de uma organização que se
propõe inovadora. Estas questões podem ser evidenciadas na fala
abaixo:</p>
<disp-quote>
  <p>O que vamos colocar como meta é conseguirmos o efetivo de guarda
  municipal através de um concurso [...] e que no próximo ano tenhamos
  uma guarda armada constitucionalmente, com armamento menos letal [...]
  A gente pretende fortalecer a guarda nesse sentido: de equipamentos e
  armamentos e também maior efetivo feminino, prestando um serviço ainda
  melhor e mais eficiente à população. Acreditamos que se um trabalho
  for bem-feito, independente de quantos prefeitos irão vir assumir, ele
  não terá coragem de mexer, porque a população não irá aceitar; já que
  está fazendo bem ao povo [...] Além de equipar e ampliar a guarda, é
  criar uma ouvidoria e corregedoria. Por quê? Apesar d’eu acreditar que
  os nossos guardas são bons profissionais, mas como estamos trabalhando
  com pessoas e pessoas pecam, então eu tenho que ser realista e
  acreditar que a qualquer momento um guarda possa cometer um erro,
  cometer um abuso; e a população tem que ter o local a quem procurar e
  a quem denunciar. (Entrevista 3, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>A partir das entrevistas, percebe-se que o caso da Guarda Municipal
de Acarape exemplifica a seu modo grande parte dos dilemas da segurança
pública no Maciço de Baturité: criada para suprir a demanda por
repressão e supervisão do espaço público diante das lacunas de uma
organização de segurança pública precária, ela acaba por reiterar os
padrões de policiamento repressivo tradicionais na segurança pública
brasileira, em sobreposição ao trabalho da PM, ao mesmo tempo em que se
estrutura de forma também precária, como expresso na utilização da noção
de “voluntário” para caracterizar a situação de não concursado. Criada
há mais de cinco anos, a Guarda Municipal funciona ainda à margem da
institucionalização de suas políticas de formação, dos contratos de
emprego e dos seus mecanismos de fiscalização e monitoramento por parte
da sociedade e de outros órgãos públicos. Isto confirmaria a tendência
das Guardas Municipais brasileiras ao <italic>isomorfismo
institucional</italic> (OLIVEIRA JR.; ALENCAR, 2016): a tendência de
novos grupos profissionais se espelharem em outros grupos com maior
visibilidade, no caso, as Guardas Municipais se moldariam de acordo com
o modelo de policiamento militarizado, e uma organização orientada
inicialmente para a renovação torna-se reprodutora das referências
preexistentes.</p>
<p>Apesar de todos os questionamentos apresentados, o problema da
segurança pública na região é visto muitas vezes como problema material
(equipamento e efetivo) e não de modelo organizacional:</p>
<disp-quote>
  <p>Quando você tem as receitas do bolo e os moldes do bolo, logo você
  entende os modos de fazê-lo. No nosso caso, o bolo não está saindo bom
  pela falta de ingredientes. Eu só poderia propor uma mudança quanto à
  estrutura, viaturas. Estamos distantes da recomendação da ONU em
  termos de quantitativo e efetivo. Se a partir daí nós tivéssemos uma
  estrutura adequada, ou seja, em termos de quantitativo e efetivo para
  o município, e se a PC, que é irmã ao nosso trabalho, tivesse também
  todos esses aparatos, aí sim, poderíamos ver que o trabalho estaria
  sendo feito bom ou não. O problema que acho é que falta esses
  ingredientes do bolo. (Entrevista 2, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Porém, outras opiniões contestam o atual modelo ou lhe sugerem
modificações e complementações. Um primeiro aspecto é a crítica às
soluções baseadas no aumento do efetivo policial repressivo e no
encarceramento:</p>
<disp-quote>
  <p>Será que dobrar e triplicar ou quadriplicar o efetivo policial na
  região irá resolver a questão da violência? Será que se construirmos
  mais cadeias irá resolver algo? [...] a questão de policiamento
  ostensivo [...] o estado nunca vivenciou um aumento tão grande desse
  tipo de policiamento e também de centro de inteligência com compras de
  equipamentos caros, desde aparelhamento da polícia e contratação de
  novos policiais. Mas a violência subiu na mesma velocidade. Então tem
  algo de errado. As pessoas precisam discutir isso de forma mais
  franca. (Entrevista 5, 2018).</p>
</disp-quote>
<p>Seria preciso, então, rediscutir as políticas de drogas e melhorar
políticas públicas para as juventudes e políticas educacionais:</p>
<disp-quote>
  <p>Como vamos discutir sem debater como essas armas e drogas alimentam
  o tráfico? Discutir as nossas fronteiras. Discutir uma política de
  legalização e de apoio aos usuários [...] quando é que vamos parar de
  enfrentar os soldados para encarar os generais? [...] Quando vamos dar
  importância dentro da nossa sociedade sobre as oportunidades aos
  jovens para que se tenham reconhecimento pessoal e financeiro?
  (Entrevista 5, 2018).</p>
</disp-quote>
<p>Há também um questionamento sobre o sistema de proteção da infância:
“O que temos é o Conselho Tutelar, o CRAS, o CREAS, o Conselho da Mulher
em Redenção. Mas é muito precário” (Entrevista 1, 2016). Isto é visto
inclusive na perspectiva de uma rede de proteção que auxilie em um tipo
de policiamento mais “humanizado” e mais pautado na “inteligência” que
na repressão, na indiferença e na intimidação truculenta (Entrevista 1,
2016).</p>
<p>No sentido de uma mudança nos padrões de atuação, aponta-se também
para a necessidade de reformas mais amplas, que dependeriam de mudanças
constitucionais, como no caso de uma polícia unificada:</p>
<disp-quote>
  <p>Eu sou a favor de uma única polícia. Em alguns países temos a
  polícia municipal, estadual e federal. Mas aqui temos a municipal que
  está nascendo que é a guarda, a do estado que são duas que poderiam
  estar trabalhando de forma integrada e sobre um único comando. Mas na
  verdade são dois comandos. E isso fica muito subjetivo e pessoal,
  porque logo depende de quem está fazendo a integração. Os afetos estão
  acima do institucional. (Entrevista 4, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Interessante também é perceber diferentes concepções sobre o papel
das Prefeituras na segurança pública por parte dos gestores. Enquanto os
gestores de Acarape se orientaram para uma inovação institucional, os
gestores de Redenção mostram-se cautelosos, indicando o suporte já
concedido pela Prefeitura ao suprir as lacunas materiais no serviço do
policiamento:</p>
<disp-quote>
  <p>O estado é responsável por esta questão de segurança, mas deixa
  muito a desejar. Se não for muitas vezes os municípios, em situações
  muitas vezes humilhante para quem está no exercício de policial, que
  tem que recorrer à prefeitura. Os policiais têm que ter cesta básica,
  uma pessoa para limpar, e outras questões que envolvem tudo isso. Se
  formos pensar profundamente sobre isso, é uma questão muito grave
  [...] Como o estado e o governo federal deixam muito a desejar [...] o
  próprio município em si não tem recurso para desenvolver algo na
  política de segurança. A não ser que seja um município de grande
  porte. (Entrevista 6, 2018).</p>
</disp-quote>
<p>As opiniões indicadas demonstram que não há uma visão única ou
estacionária na segurança pública da região. Ao contrário, as propostas
induzem a mudanças e reformas incrementais e estruturais nas políticas
públicas de segurança, não somente localizadas no policiamento, mas em
toda a rede de ações de proteção social e mediação de conflitos. Embora
se ressalte a falta de <italic>expertise</italic> na construção de
indicadores em segurança pública no nível do gerenciamento territorial e
participativo (LOPES, 2018), a ampliação do espaço público e das
articulações interinstitucionais sinalizam para possibilidades de
mudança no cenário da região.</p>
<p><bold>A insegurança no “Território Unilab”</bold></p>
<p>Um dos fatores que já está acarretando mudanças e poderá fortalecer a
pressão por reformas na região foi a instalação da Unilab, em 2011, nas
cidades de Acarape e Redenção. Desde então essas cidades passam por uma
dinâmica demográfica nova, com a implantação de uma universidade que
gerou um conjunto de fatos sociais que precisam ser estudados e
compreendidos. No presente estudo, amparados em Lopes
(2018)<xref ref-type="fn" rid="fn23">23</xref>, consideramos as cidades
de Redenção e Acarape como realidades sociais periféricas que
denominamos “Território Unilab”:</p>
<disp-quote>
  <p>Em termos pragmáticos justifico o uso do conceito “Território
  Unilab” considerando que a presença da Unilab nessas cidades
  estabeleceu uma dinâmica urbana de fluxos e de discussão pública em
  torno desse investimento. O comércio ampliou sua oferta para atender o
  público universitário; muitos serviços nasceram para atender essa nova
  demanda; nas escolas, professores incentivam crianças, adolescentes e
  jovens a ingressarem na Unilab; muitas famílias nessas duas cidades
  foram beneficiadas ou com um emprego nessa instituição ou com o
  ingresso no ensino superior próximo de casa; nas conversas cotidianas
  de calçada, aparecem perguntas do tipo: “Como que traz uma
  universidade e não trazem uma viatura, inclusive para segurança da
  Unilab mesmo?” Essa centralidade assumida pela Unilab no cotidiano das
  famílias dessas cidades me permite falar no “Território Unilab”.
  (LOPES, 2018, p. 10).</p>
</disp-quote>
<p>Ao admitir o conceito “Território Unilab” não se nega a existência de
um histórico de fatos sociais anteriores que integravam essas cidades,
como a sua origem comum e a sua dependência de centros mais populosos
como Fortaleza, inclusive facilitada por estarem no fluxo entre o Maciço
Baturité e a região metropolitana de Fortaleza; e por fim, serem cidades
que se integram a um macroprocesso estrutural de disputa territorial por
facções do crime organizado. Não se nega, muito menos, outras
possibilidades de recortes territoriais justapostos ao que se propõe
aqui. Dito isto, admite-se a centralidade da Unilab como estratégia de
inclusão de todos os entes federativos em ações integradas e coordenadas
de gestão de um território que se tornou ainda mais complexo.</p>
<p>Um fato social relevante são as externalidades produzidas por um
processo de crescimento econômico sem coordenação estratégica do Estado
para recepcionar o grande contingente de imigrantes nacionais e
internacionais que em curto espaço de tempo ocuparam essas
cidades<xref ref-type="fn" rid="fn24">24</xref>. Desse modo, a partir de
2011, à população de Acarape e de
Redenção<xref ref-type="fn" rid="fn25">25</xref> soma-se o trânsito de
uma população de aproximadamente 4 mil pessoas, composta por estudantes,
técnicos, professores e trabalhadores, totalizando aproximadamente 50
mil habitantes. Com este acréscimo, os problemas já presentes na região
– como o número insuficiente do efetivo policial e de viaturas, as
dificuldades da operação policial de rotina diante da distância e da
dispersão dos equipamentos que compõem o sistema de segurança pública,
que dificulta também o acesso da população – tornam-se mais
flagrantes.</p>
<p>A presença desse contingente migratório estimulou os proprietários de
imóveis a alugar ou construir imóveis para atender os estudantes. O
custo social desses empreendimentos é ressaltado, particularmente para
as famílias de baixa renda já auxiliadas por programas de transferência
de renda como o Bolsa Família. Isso origina como hipótese que famílias
de baixa renda e estudantes viram os aluguéis subirem a um nível
insustentável para sua permanência no espaço urbano e se comportaram
recorrendo às piores localizações em termos de facilidade de acesso aos
direitos sociais, em um silencioso êxodo urbano de famílias – “a subida
da serra” – para adaptarem-se à especulação imobiliária e à inflação da
cesta básica (LOPES, 2018).</p>
<p>Essa “violência invisível” se soma à “violência visível” exercida
pelas atividades de grupos faccionais, que começaram a delimitar seus
territórios a partir de 2016. Sem intimidação, escrevem em paredes de
muros de instituições públicas, estabelecimentos comerciais e de
residências nos bairros onde marcaram sua territorialização. Em um
pequeno passeio pelo município, é possível ver, nos muros, frases de
ordem como: “Abaixe o vidro, tire o capacete”; “Se roubar vai morrer”.
Mesmo não tendo legitimidade oficial, eles exercem a coerção ao
administrarem conflitos e sancionarem punições promovendo a
previsibilidade das rotinas em uma suposta segurança para os habitantes,
a qual é concorrente à segurança
estatal<xref ref-type="fn" rid="fn26">26</xref>.</p>
<p>Uma demonstração cabal de força do autointitulado “Crime” no
“Território Unilab” ocorreu em 2017. Em maio daquele ano, após a prisão
de um integrante de uma facção, foi estabelecido “toque de recolher” e
liberado os assaltos nessas cidades. No dia 19 de maio de 2017, nas duas
cidades, a grande maioria dos estabelecimentos (comércios e escolas,
dentre outros) foram fechados e as ruas ficaram desertas. A Unilab
suspendeu suas atividades devido aos assaltos aos ônibus
<italic>intercampi</italic>. A população passou a ser notificada por
mensagens de WhatsApp, supostamente enviadas por integrantes de facção
criminosa, através de celulares roubados. Tais mensagens amedrontaram
também alunos e professores da Unilab. O primeiro comunicado teria
chegado aos estudantes por meio de grupos no WhatsApp.</p>
<p>Na primeira mensagem, pessoas que se intitulam “nois do crime
organizado (sic)” (O POVO, 2017) direcionam a todos os moradores de
Redenção ameaças de roubos, mortes “e outras coisas” (O POVO, 2017) Isso
porque, conforme consta no comunicado, a população teria dado
informações sobre o crime organizado local à Polícia:</p>
<disp-quote>
  <p>Todos vocês viram e acompanharam nossa ajuda para manter a
  tranquilidade da cidade em relação a roubos e coisas ao qual não somos
  de acordo. Mas o resultado dessa nossa ajuda foi a traição por parte
  de alguns moradores que passaram a viver denunciando pessoas que só
  ajudam na segurança de vocês mesmos. Ou seja, enquanto ajudamos vocês
  de um lado, vocês nos traíram de outro com suas cabuetagens em ato de
  covardia (sic). (Texto da mensagem enviada pelo WhatsApp, supostamente
  por integrantes de facção criminosa, em 19/5/2017. O POVO, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>O segundo texto circulou no sábado, 20, no WhatsApp, e reforçou o tom
ameaçador (O POVO, 2017). As mensagens afirmavam que o “Crime” havia
proibido o roubo na cidade e ainda alegava que, por causa deles, não
havia mortes na região há nove meses e por isso ela estava em paz.
Porém, após denúncias dos moradores, eles resolveram reagir e demonstrar
sua força política:</p>
<disp-quote>
  <p>Toda ação tem sua reação. Vcs q preferi cuidar da vida dos outros
  vindo a denúncia os bandidos de Redenção. Agora nois do crime
  organizado vamos mexer com o sossego de vcs. Nois vinhemos a colocar
  uma paz em Redenção a qual proibindo roubo na Cidade até mesmo mortes
  ta com 9 meses q não morria gente vítima de execução na Cidade. Mais
  em troca vcs preferiram trair o crime organizado de Redenção.
  Denunciando e cabuetando agente. Então nois dá a segurança mais nois
  também tira. Agora vcs vão sofrer as consequência. Pode pedir ajuda em
  quem vcs tanto confia q é na Polícia
  (sic)<xref ref-type="fn" rid="fn27">27</xref>. (Texto de mensagem
  enviada pelo WhatsApp, supostamente por integrantes de facção
  criminosa, em 20/5/2017., O POVO, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>A “ordem pública” somente foi supostamente “retomada” depois de
algumas ações típicas de gestão de crise investidas pelo governo
estadual que enviou tropas para o interior do estado.</p>
<p>Este acontecimento demonstra parte do contexto em que se encontram
estudantes, técnicos e professores da Unilab. As denúncias de roubos e
assaltos, assim como de conflitos entre estudantes e moradores e de
violência contra a mulher, trazem à tona desafios institucionais e
políticos ainda pouco enfrentados, que pressionam a universidade em suas
competências, mas sobretudo os poderes públicos.</p>
<p>Os conflitos em pauta extrapolam as competências da universidade e
dizem respeito à maneira como se constituíram relações ainda pouco
integrativas entre comunidade universitária e os municípios que a
acolheram. Enquadram-se nesse recorte casos de racismo e xenofobia
contra estudantes africanos que resultam em agressões e casos como a
tentativa de feminicídio ocorrida em
2017<xref ref-type="fn" rid="fn28">28</xref> . Estas situações mobilizam
a comunidade universitária que passa a refletir sobre esta realidade e
se torna mais um ator político a pressionar por medidas urgentes, mas
também estruturantes, que beneficiem não apenas a universidade, mas que
sejam extensivas à população local, que sofre e compartilha dos mesmos
problemas ( ABRANTES, 2020).</p>
<p>Nos últimos anos, e em parte acompanhando o processo de
institucionalização da Unilab, o debate sobre segurança pública na
região tem se desenvolvido, oferecendo oportunidades para que
questionamentos sejam apresentados pelos atores locais. Uma análise mais
circunscrita do jogo de relações entre esses atores e seus diferentes
argumentos não pôde ser feito nos limites do presente texto. Por ora
forneceremos algumas indicações preliminares de problemas e propostas
que surgiram nas entrevistas realizadas com os agentes políticos e da
segurança pública na região, que permitem um primeiro entendimento das
questões em pauta.</p>
<p>Para os entrevistados, as dinâmicas de Acarape, Redenção e Barreira
se assemelham em termos históricos e políticos, pela precarização ou
ausência de equipamentos de segurança e falta de ferramentas e
instrumentos de políticas públicas de cultura, arte e lazer, voltadas à
sua população, encontrando dificuldades para promover a integração entre
as realidades das(os) estudantes estrangeiras(os) e de outras regiões e
estados brasileiros com o cotidiano das cidades.. Por conta da maior
circulação de pessoas, há percepção do crescimento das ocorrências de
“perturbação da ordem” por conta de reuniões e festas. As denúncias
colocam em questão as formas de intervenção institucional e mediação de
conflitos, não raras vezes interpretadas como postura xenofóbica e
racista.</p>
<p>Os entrevistados percebem a necessidade de maior atenção do estado à
segurança da Unilab por conta da repercussão nacional e internacional,
levando em consideração os conflitos culturais. Seria indispensável
rediscutir a tutela das(os) estudantes estrangeiras(os), principalmente
o embaraço diplomático que o estado teria em uma eventual violência mais
grave. A universidade poderia se tornar um vetor de diálogo que poderia
acionar outras instâncias de poder que proporcionassem um olhar
diferenciado a esta região. O fluxo de pessoas teria aumentado, mas, em
contrapartida, o estado acionaria poucas iniciativas num plano de
desenvolvimento urbano e local que se faça numa parceria com governo
municipal, entidades e movimentos sociais, sociedade civil e Unilab. O
que se constata é um agudo descuido de políticas públicas de segurança
pública no Maciço por parte do estado e do governo, pois “a universidade
não trouxe a insegurança” (Entrevista 6, 2017); ela seria produzida
pelas condições sociais, pela localização das cidades e pela
precariedade política de segurança desenvolvida no estado. A Unilab é
vista como “instituição mal aproveitada”, que poderia exigir mais do
Estado, ter maior autonomia de decisão e poder de reivindicação
(Entrevista 6, 2017), notadamente quando os casos de violência e
criminalidade começam a afetar os processos da própria instituição.</p>
<p>Apesar das dificuldades, a Unilab é entendida como fator de
desenvolvimento econômico do comércio impulsionado pelo “turismo
universitário” (Entrevista 5, 2017), mesmo que frágil e limitado. A
Unilab é enfatizada como vetor de produção de conhecimento e habilidades
técnicas no desenvolvimento do Maciço. Há grande expectativa, por
exemplo, em torno de um curso de Medicina, que poderia “exigir mais
ações do Estado, principalmente pelas questões que um hospital fornece”
(Entrevista 6, 2017). Mas seria necessário que os gestores pudessem
garantir meios de aplicabilidade desses conhecimentos, fortalecendo
parcerias com a instituição segundo seus planos de desenvolvimento:</p>
<disp-quote>
  <p>As pessoas precisam entender que nós não estamos falando de uma
  faculdade, mas sim de uma universidade. Uma universidade, geralmente,
  pela ausência de muros. A universidade tem um papel mais transformador
  na região que se envolve através da extensão e pesquisa [...] Mesmo
  num momento de crise, esperamos que a Unilab volte a ter um aporte
  financeiro e assim possa continuar o seu processo de expansão. Aí a
  comunidade acadêmica irá discutir o que é para ela prioritário, e da
  melhor forma. (Entrevista 5, 2017).</p>
</disp-quote>
<p>Ressalta-se a necessidade de potencializar redes de parcerias de
extensão e pesquisa voltadas às esfericidades locais, de modo
contextualizado, em temas como pobreza e vulnerabilidades, violência
contra mulher, direitos humanos, segurança pública, criminalidade, saúde
pública e evasão escolar.</p>
<p><bold>Considerações finais</bold></p>
<p>Destacamos o crescimento da mortalidade violenta e da criminalidade
violenta no Maciço de Baturité, sobretudo em Acarape, Redenção e
Barreira. Constatamos que a dinâmica de crime e violência na região se
interliga a um processo geral no Nordeste e no Ceará, ligado à expansão
de facções criminais em busca de novas rotas de tráfico e domínio
territorial, associado à situação de proximidade da região metropolitana
de Fortaleza, que tornou os municípios de Redenção, Acarape e Barreira
regiões estratégicas. Situação agravada pela precariedade de serviços
públicos de segurança nesta região.</p>
<p>Diante dos problemas que surgem das dinâmicas específicas desta
sub-região, indicamos que vale considerar o “Território Unilab” (LOPES,
2018) como uma justaposição de territórios e problemáticas urbanas,
sociais e culturais. Com isto não afirmamos a Unilab como responsável
pela gravidade da situação, embora possamos concluir que o acréscimo
populacional e a circulação de bens de consumo em uma situação de
precariedade da segurança pública possam ter conduzido a um crescimento
das oportunidades para cometimento de crimes, fenômeno pertinente às
hipóteses de correlação entre urbanização e crimes contra o patrimônio
(CERQUEIRA; LOBÃO, 2003).</p>
<p>Ao mesmo tempo, a Unilab é também o instrumento de uma mudança social
significativa na região (incremento de renda, mudanças culturais,
pressão social por garantia de direitos, projetos de intervenção,
qualificação profissional), importante para o seu desenvolvimento e para
a superação dos problemas deste cenário. Nesse sentido, a noção de
“Território Unilab” poderia servir como base para ações consorciadas
entre estes municípios e o governo estadual, pois a política das facções
criminais indica problemas graves, a serem trabalhadas de forma a
conjugar fatores sociais ligados à proteção da juventude, à inteligência
policial, à investigação criminal e à integração urbana e
urbana-rural.</p>
<p>Mas, para tanto, haveria a necessidade de investimento e de
imaginação institucional sobre formas de garantir segurança pública.
Parte destes desafios foram expressos nas entrevistas, que indicam a
insuficiência da organização administrativa da AIS 15 para oferecer um
planejamento e uma articulação pertinente às especificidades do Maciço
de Baturité, que possui demandas muito próprias em cada uma de suas
sub-regiões. Algo notório é o maior crescimento da violência se dar em
municípios que não concentram os equipamentos de segurança pública.
Assim, embora tenha havido um aumento da operacionalidade policial,
expresso no aumento dos índices de apreensão de armas e drogas, não
houve redução da violência letal, nem da insegurança. Parece pertinente,
nesse sentido, interligar o aumento da desigualdade de renda e do
adensamento demográfico, em contexto cujo modelo de policiamento está
exaurido, com o aumento dos homicídios (CERQUEIRA; LOBÃO, 2003).</p>
<p>A região do Maciço não é privilegiada no planejamento dos novos
programas e ações de segurança pública do atual governo, que tem
concentrado sua atenção na região metropolitana ou em cidades de
médio/grande porte no interior do estado. Há que se ressaltar, nesse
sentido, o contraste histórico entre os programas e as ações, que
iniciam e se concentram na região metropolitana de Fortaleza antes de
serem implementadas no interior, de forma irregular, sujeitas a disputas
por orçamento entre as diferentes regiões e áreas administrativas.</p>
<p>Situação comum, característica desta relação entre governo do estado
e municípios do interior, é a administração da precariedade como tática
de legitimação política através do gerenciamento de crises. Entre os
entes federativos se estabelece uma negociação na qual a precariedade
das estruturas de prédios, recursos humanos e técnicos no interior do
estado serve de instrumento para a satisfação de demandas através do
dispêndio de poucos recursos que não solucionam os problemas, mas que
parecem significativos para a população e, sobretudo, para o uso
político-eleitoral dos benefícios. Esses recursos são em geral
contingenciados, de modo proposital ou não, e utilizados em situações de
crises de violência e insegurança, quando há um aumento da pressão sobre
o governo. Assim, a chegada de viaturas, a reforma de um distrito
policial ou o deslocamento de novo efetivo são medidas que surtem
efeitos, capitalizados por políticos locais, mas que estão longe de
efetivamente modificarem a situação da segurança pública nas
regiões.</p>
<p>Por sua vez, esta situação corrobora para a manutenção dos mesmos
modelos de atuação, uma vez que, segundo ponto de vista corrente, já se
tem a “fórmula” da segurança pública, faltam apenas os “ingredientes”.
Assim, geralmente as propostas acabam por se restringirem à necessidade
de mais homens e mais equipamentos (viaturas e armas), deixando-se em
segundo plano as possibilidades de revisão do modelo organizacional e
das práticas implementadas. Dessa maneira, torna-se reduzida a criação
de estratégias alternativas às implementadas na região metropolitana de
Fortaleza ou para a mudança das políticas a partir das especificidades
de cada região, a partir de instrumentos de diagnóstico e planejamento
para monitorar políticas de redução de índices de homicídio e crime,
assim como construção de expectativas sociais positivas, redutoras de
conflitos e do sentimento de medo.</p>
<p>O Maciço de Baturité como um todo, portanto, mas especialmente a
sub-região composta por Acarape, Redenção e Barreira, constitui um
laboratório para estudos sobre dinâmica criminal e segurança pública,
através de um programa de pesquisa permanente a partir dos grupos de
pesquisa na região. Alguns dos marcos iniciais para aferição
georreferenciada e de indicadores de insegurança já foram esboçados
(LOPES, 2018), mas muito ainda há para desenvolver no sentido de
subsidiar o estado e a sociedade para uma atuação preventiva com base em
explicações mais complexas sobre fatores criminogênicos objetivos ou
intersubjetivos presentes na literatura especializada (CERQUEIRA; LOBÃO,
2003), que articulam as desigualdades sociais e urbanas, as disposições
socioculturais para o uso da violência, as oportunidades para
cometimento de crimes e a distribuição de redes sociais e institucionais
de contenção e supervisão.</p>
<p><bold>Referências Bibliográficas</bold></p>
<p>ABRANTES, C. S. A. Um texto acadêmico para uma ação política: a
Unilab e os episódios de violência em Redenção e Acarape. In: BARROSO,
M. M.; ABRANTES, C. S. A. (Orgs.). <bold>Antropologia, cooperação
internacional e processos de formação de estado</bold>: entre práticas
de governo e práticas da política. Rio de Janeiro: Associação Brasileira
de Antropologia, 2020, p. 232-256.</p>
<p>BARROS, J. P. P.; PAIVA, L. F. S.; RODRIGUES, J. S.; SILVA, D. B. da;
LEONARDO, C. dos S. Pacificação nas Periferias: discursos sobre as
violências e o cotidiano de juventudes em Fortaleza. <bold>Revista de
Psicologia</bold>, v. 9, n. 1, p. 117-128, jan./jun. 2018.</p>
<p>BECKER, H. S. <bold>Outsiders</bold>. Estudos de sociologia do
desvio. Rio de Janeiro: Zahar, 2008 [1963].</p>
<p>COELHO, M. de A.. <bold>Polícia e comunidade:</bold> um estudo das
relações sociais em uma delegacia do interior do Estado do Ceará.
Orientador: Luiz Fabio Silva Paiva. 88 f. Dissertação (Mestrado em
Sociologia) - Programa de Pós-graduação em Sociologia, Centro de
Humanidades, Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2021.</p>
<p>CERQUEIRA, D.; LOBÃO, W. <bold>Determinantes da criminalidade</bold>:
uma resenha dos modelos teóricos e resultados empíricos. Texto para
Discussão Nº 956 (TD 0956). Rio de Janeiro, Ipea, jun. 2003. Disponível
em:
https://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&amp;view=article&amp;id=4186.
Acesso em: 26 jun. 2022.</p>
<p>FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA – FBSP. <bold>Ceará
Pacífico</bold>: o cenário da violência e da criminalidade no Brasil e
no Ceará. FBSP; Governo do Estado do Ceará, 2017. [Livro 2].</p>
<p>INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA; FÓRUM BRASILEIRO DE
SEGURANÇA PÚBLICA – FBSP. <bold>Atlas da Violência 2016</bold>.
Brasília: Ipea/FBSP, 2016.</p>
<p>INSTITUTO DE PESQUISA ECONÔMICA APLICADA – IPEA; FÓRUM BRASILEIRO DE
SEGURANÇA PÚBLICA – FBSP. <bold>Atlas da Violência 2018</bold>. Rio de
Janeiro: Ipea/FBSP, 2018.</p>
<p>GOMES, C. A. C. Espaço urbano e criminalidade: uma breve visão do
problema. <bold>Revista de Desenvolvimento Econômico</bold>, v. 7, n.
11, p. 57-67, jan. 2005.</p>
<p>LOPES, J. T. <bold>Segurança Pública no Território Unilab</bold>: uma
análise triangulada em Acarape/CE e Redenção/CE. Monografia (Bacharelado
em Administração Pública) – Instituto de Ciências Sociais Aplicadas,
Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira
(Unilab), Redenção/CE, 2018.</p>
<p>MANSO, B. P.; DIAS, C. N. <bold>A guerra</bold>: a ascensão do PCC e
o mundo do crime no Brasil. 2 ed. São Paulo: Todavia, 2018.</p>
<p>NÓBREGA JÚNIOR, J. M. P. da. Violência homicida no nordeste
brasileiro: dinâmica dos números e possibilidades causais.
<bold>Dilemas-Revista de Estudos de Conflito e Controle Social</bold>,
v. 10, n. 3, p. 553-572, 2017. Disponível em:
https://revistas.ufrj.br/index.php/dilemas/article/view/14563/. Acesso
em: 28 jun.2022.</p>
<p>OLIVEIRA JUNIOR, A. de; ALENCAR, J. L. O. Novas polícias? Guardas
municipais, isomorfismo institucional e participação no campo da
segurança pública. <bold>Revista Brasileira de Segurança Pública</bold>,
v. 10, n. 2, p. 24-34, ago./set. 2016.</p>
<p>PAIVA, L. F. S. “Aqui não tem gangue, tem facção”: as transformações
sociais do crime em Fortaleza, Brasil. <bold>Caderno CRH</bold>, v. 32,
n. 85, p.165-184, abr. 2019.</p>
<p>SEPLAG - Secretaria de Planejamento e Gestão do governo do estado do
Ceará. <bold>Perfil da Macrorregião de Baturité.</bold> Disponível em:
https://www.seplag.ce.gov.br/wp-content/uploads/sites/14/2011/05/Perfil-Regional-Baturite.pdf.
Acesso em: 28 jun. 2022.</p>
<p>UNICEF – FUNDO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A INFÂNCIA; ASSEMBLEIA
LEGISLATIVA DO ESTADO DO CEARA – ALECE; GOVERNO DO ESTADO DO CEARÁ.
<bold>Trajetórias Interrompidas</bold>: homicídios na adolescência em
Fortaleza e em seis municípios do Ceará. Fortaleza, 2017.</p>
<p>UNICEF. <bold>Homicídios de crianças e adolescentes.</bold>
Disponível em:
https://www.unicef.org/brazil/homicidios-de-criancas-e-adolescentes.
Acesso em: 29 jun. 2022.</p>
<p>UNILAB. <bold>Nota:</bold> Estudante é atingida por tiros na unidade
acadêmica dos Palmares em Acarape-CE. 20 de outubro de 2017. Disponível
em:
http://www.unilab.edu.br/noticias/2017/10/20/nota-estudante-e-atingida-por-tiros-na-unidade-academica-dos-palmares-em-acarapece/.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>VIEIRA, J. L. T. <bold>O elemento suspeito no território
estigmatizado</bold>: efeitos psicossociais da atuação policial no
Distrito de Antônio Diogo em Redenção-CE. Trabalho de Conclusão de Curso
– (Graduação em Humanidades), Universidade da Integração Internacional
da Lusofonia Afro-Brasileira (Unilab), Redenção/CE, 2017.</p>
<p>WACQUANT, L. A estigmatização territorial na idade da marginalidade
avançada. <bold>Sociologia: Revista da Faculdade de Letras da
Universidade do Porto</bold>, v. 16, p. 27-39, 2006.</p>
<p>WAILSELFISZ, J. J. <bold>Mapa da violência 2012:</bold> os novos
padrões da violência homicida no Brasil. Instituto Sangari. São Paulo,
2011</p>
<p><bold>Notícias de imprensa:</bold></p>
<p>DIÁRIO DO NORDESTE. Bandidos resgatados da cadeia em Redenção.
<bold>Diário do Nordeste.</bold> Fortaleza, 07 de maio de 2003.
Disponível em:
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/bandidos-resgatados-da-cadeia-em-redencao-1.11414.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>DIÁRIO DO NORDESTE. Chacina em Redenção – cinco corpos achados em
canavial. <bold>Diário do Nordeste.</bold> Fortaleza, 02 de setembro de
2014. Disponível em:
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/chacina-em-redencao-cinco-corpos-achados-em-canavial-1.1091481.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>DIÁRIO DO NORDESTE. Chefe de facção criminosa é preso suspeito de
comprar votos para candidato a vereador em Redenção. <bold>Diário do
Nordeste.</bold> Fortaleza, 17 de novembro de 2020. Disponível em:
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/chefe-de-faccao-criminosa-e-preso-suspeito-de-comprar-votos-para-candidato-a-vereador-em-redencao-1.3012276.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>DIÁRIO DO NORDESTE. Três homens morrem em confronto com a polícia em
Guaiúba. <bold>Diário do Nordeste</bold>. Fortaleza, 14 de janeiro de
2020. Disponível em:
https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/tres-homens-morrem-em-confronto-com-a-policia-em-guaiuba-1.2198328.
Acesso em 28/05/2022.</p>
<p>G1. No Ceará, criminosos invadem velório e colocam fogo em caixão.
<bold>G1.</bold> Fortaleza, 01 de dezembro de 2015. Disponível em:
http://g1.globo.com/ceara/noticia/2015/12/no-ceara-criminosos-invadem-velorio-e-colocam-fogo-em-caixao.html.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>G1. Polícia fecha laboratório de refino de drogas e prende dupla em
Fortaleza. <bold>G1</bold>. Fortaleza, 31 de maio de 2016. Disponível
em:
http://g1.globo.com/ceara/noticia/2016/05/policia-fecha-laboratorio-de-refino-de-drogas-e-prende-dupla-em-fortaleza.html.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>G1. Quadrilha armada explode agência bancária e foge levando dinheiro
em Redenção no Ceará. <bold>G1.</bold> Fortaleza, 10 de julho de 2017.
Disponível em:
https://g1.globo.com/ceara/noticia/quadrilha-armada-explode-agencia-bancaria-e-foge-levando-dinheiro-em-redencao-no-ceara.ghtml.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>MACHADO, L. Atlas da Violência: os fatores que levaram Norte e
Nordeste a serem as regiões com mais homicídios do Brasil. BBC News, São
Paulo, 2019.Disponível em:
https://www.bbc.com/portuguese/brasil-48517967. Acesso: 28 jun.
2022.</p>
<p>MANSO, B. P. Depois de se tornar região mais violenta Nordeste lidera
redução de homicídios. <bold>G1 - Monitor da violência.</bold> São
Paulo, 01 de setembro de 2019. Disponível em:
https://g1.globo.com/monitor-da-violencia/noticia/2019/09/01/depois-de-se-tornar-regiao-mais-violenta-nordeste-lidera-reducao-de-homicidios.ghtml.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>O POVO. Três suspeitos de assaltos a banco são presos em Redenção.
<bold>O Povo.</bold> Fortaleza, 21 de março de 2014. Disponível em:
https://www20.opovo.com.br/app/ceara/redencao/2014/03/21/notredencao,3224116/tres-suspeitos-de-assaltos-a-banco-sao-presos-em
redencao.shtml. Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>O POVO. Assaltos e áudios atribuídos a facções criminosas assustam
moradores. <bold>O Povo.</bold> Fortaleza, 22 de maio de 2017.
Disponível em:
https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/redencao/2017/05/assaltos-e-audios-atribuidos-a-faccoes-criminosas-assustam-moradores-d.html.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>O POVO. Moradores de Guaiúba têm casas invadidas e três homens são
executados; uma vítima foi decapitada. 15 de setembro de 2020.
Disponível em:
https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/guaiuba/2020/09/15/moradores-de-guaiuba-tem-casas-invadidas-madrugada-pessoas-executadas.html.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>O POVO. Polícia investiga se três mortes no Maciço de Baturité seriam
em retaliação a prisão de ex-fuzileiro naval. <bold>O Povo.</bold>
Fortaleza, 17 de novembro de 2020. Disponível em:
https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/2020/11/17/policia-investiga-se-tres-mortes-no-macico-de-baturite-seriam-em-retaliacao-a-prisao-de-ex-fuzileiro-naval.html.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
<p>PORTAL MESSEJANA - Promovendo o Ceará. <bold>Ceará, descubra essa
alegria no Maciço de Baturité.</bold> s/d. Disponível em:
http://www.portalmessejana.com.br/noticias.php?exibir=turismo&amp;id_noticia=14675.
Acesso: 28 jun. 2022.</p>
<p>SUDRÉ, Lu. Tortura virou regra em prisões do Ceará, relatam
organizações. <bold>Brasil de Fato</bold>. São Paulo, 13 de setembro de
2019. Disponível em:
https://www.brasildefato.com.br/2019/09/13/tortura-virou-regra-em-prisoes-do-ceara-relatam-organizacoes/.
Acesso em 28 mai. 2022.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>Neste texto apresentamos os resultados das atividades de pesquisa
    do Grupo de Pesquisa e Extensão em Segurança Pública, Justiça e
    Direitos Humanos da Unilab (SEJUDH/Unilab), criado em 2016, a saber:
    <italic>Diagnóstico da Segurança Pública no Maciço de Baturité:
    representações sociais, políticas públicas e trabalho policial em
    Acarape e Redenção</italic> (2016-2017); e <italic>Segurança Pública
    no Maciço do Baturité: insegurança, vitimização e o papel das
    prefeituras em Acarape e Redenção</italic> (2017-2018). As pesquisas
    foram financiadas pelo programa de iniciação científica da
    Unilab.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>De acordo com o <italic>Atlas da Violência 2018</italic> (IPEA;
    FBSP, 2017), no Nordeste, a taxa de homicídios chegou a 48 mortes
    por 100 mil habitantes em 2017. Já os sete estados do Norte bateram
    a marca de 47 assassinatos por 100 mil habitantes. Em 2007, esses
    índices eram menores que 30. Como comparação, no Sudeste o índice
    médio de homicídios foi de 26,7 em 2017. Cf.: MACHADO, 2019. 7</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>A expressão é utilizada por alguns pesquisadores e atores
    políticos para enfatizar o crescimento conjuntural dos homicídios
    nos estados do Nordeste brasileiro em contraste com o decréscimo no
    Sudeste. Ela não diz respeito, portanto, a uma caracterização de uma
    violência que seria típica do Nordeste, nem a uma estigmatização da
    região, pois na análise das duas regiões trata-se, em geral, dos
    mesmos fatores intervenientes.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>Entende-se por CVLI a soma de crimes de homicídio
    doloso/feminicídio, lesão corporal seguida de morte e roubo seguido
    de morte (latrocínio).</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>Segundo o UNICEF (UNICEF, 2020), 7 das 10 cidades mais violentas
    do Brasil estão na região Nordeste. Fortaleza/CE tem o maior índice
    de homicídios de adolescentes do país, com 10,94 para cada 1.000
    adolescentes, seguida por Maceió/AL (9,37). Rio de Janeiro/RJ e São
    Paulo/SP, na região Sudeste, ocupam as posições 19 e 22 no ranking
    (com 2,71/1.000 e 2,19/1.000, respectivamente).</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <p>A menos de 100 km da capital, a macrorregião administrativa do
    Maciço de Baturité é composta de 13 municípios: Baturité, Pacoti,
    Palmácia, Guaramiranga, Mulungu, Aratuba, Capistrano, Itapiúna,
    Aracoiaba, Acarape, Redenção, Barreira e Ocara. Segundo estimativas
    do IBGE, a população regional para 2006 era de 225.590 habitantes,
    representando 2,7% da população estadual.</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <p>Utilizou-se do portal DATASUS como um dos instrumentos de
    análise, através de estatísticas de mortalidade por causas externas,
    centralmente: Homicídios [CID-10: X85-Y09 (agressão) e também
    Y35-Y36 (intervenção legal)] e Homicídios por Arma de Fogo CID-10:
    X93-X95. Para os municípios e o período considerado, a diferença
    entre Homicídios (1182) e Homicídios por Arma de Fogo (1136) não
    interfere nas conclusões da análise exposta no artigo, pois segue a
    mesma tendência e proporção.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <p>Esta decisão é teoricamente justificável ao considerar
    <italic>território</italic> como uma categoria analítica mais
    flexível que <italic>município</italic> ou <italic>espaço
    urbano</italic> e, nos termos de Gomes (2005, p. 58-60, grifos
    nossos), “[...] encerrando características culturais, sociais e
    econômicas própria e <italic>que podem ter uma justaposição de
    territórios</italic>”.</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <p>Nas pesquisas realizamos seis entrevistas com gestores públicos e
    agentes da segurança pública do Maciço de Baturité, além de
    conversas informais e encontros em Audiências Públicas: Entrevista
    1. Ex-Delegada de Redenção (2016); Entrevista 2. Policial Militar de
    Redenção (2017); Entrevista 3. Guarda Municipal de Acarape (2017);
    Entrevista 4. Ex-Delegado de Baturité e Guaiuba (2017); Entrevista
    5. Gestor Público de Acarape (2018); Entrevista 6. Gestor Público de
    Redenção (2018).</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <p>Mais informações em:
    https://www20.opovo.com.br/app/ceara/redencao/2014/03/21/notredencao,3224116/tres-suspeitos-de-assaltos-a-banco-sao-presos-em
    redencao.shtml Acesso em 28 mai. 2022;
    https://g1.globo.com/ceara/noticia/quadrilha-armada-explode-agencia-bancaria-e-foge-levando-dinheiro-em-redencao-no-ceara.ghtml
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn11">
    <p>Mais informações em:
    https://g1.globo.com/ceara/noticia/quadrilha-armada-explode-agencia-bancaria-e-foge-levando-dinheiro-em-redencao-no-ceara.ghtml
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn12">
    <p>Mais informações em:
    https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/tres-homens-morrem-em-confronto-com-a-policia-em-guaiuba-1.2198328
    Acesso em 28/05/2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn13">
    <p>Mais informações em:
    https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/bandidos-resgatados-da-cadeia-em-redencao-1.11414
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn14">
    <p>Mais informações em:
    https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/chacina-em-redencao-cinco-corpos-achados-em-canavial-1.1091481.
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn15">
    <p>Mais informações em:
    https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/chefe-de-faccao-criminosa-e-preso-suspeito-de-comprar-votos-para-candidato-a-vereador-em-redencao-1.3012276
    Acesso em 28 mai. 2022;
    https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/2020/11/17/policia-investiga-se-tres-mortes-no-macico-de-baturite-seriam-em-retaliacao-a-prisao-de-ex-fuzileiro-naval.html
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn16">
    <p>Mais informações em:
    https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/seguranca/chacina-em-redencao-cinco-corpos-achados-em-canavial-1.1091481
    . Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn17">
    <p>Mais informações em:
    https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/guaiuba/2020/09/15/moradores-de-guaiuba-tem-casas-invadidas-madrugada-pessoas-executadas.html
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn18">
    <p>Mais informações em:
    <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://g1.globo.com/ceara/noticia/2015/12/no-ceara-criminosos-invadem-velorio-e-colocam-fogo-em-caixao.html">http://g1.globo.com/ceara/noticia/2015/12/no-ceara-criminosos-invadem-velorio-e-colocam-fogo-em-caixao.html</ext-link>.
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
  <fn id="fn19">
    <p>Iniciais modificadas para evitar identificação.</p>
  </fn>
  <fn id="fn20">
    <p>O planejamento da SSPDS se organiza em Áreas Integradas de
    Segurança (AIS). Desde 2017, o estado é dividido em vinte e duas
    AIS. O Maciço de Baturité compõe a AIS 15, que contém ainda seis
    cidades do Sertão Central (Canindé, Caridade, Boa Viagem, Paramoti,
    Itatira e Madalena), totalizando 19 cidades.</p>
  </fn>
  <fn id="fn21">
    <p>Para um estudo mais aprofundado sobre o funcionamento e a cultura
    interna da delegacia regional de Baturité, cf. COELHO, 2021.</p>
  </fn>
  <fn id="fn22">
    <p>A Cadeia Pública de Redenção foi fechada pelo governo do estado
    em 2019, junto com outras 66 cadeias no interior do estado.</p>
  </fn>
  <fn id="fn23">
    <p>O trabalho de Julimar Lopes representa esforço pioneiro e mais
    consolidado de análise da segurança pública nas cidades de Redenção
    e Acarape, considerando dados registrados, sensação de segurança e
    políticas de gestão municipal.</p>
  </fn>
  <fn id="fn24">
    <p>A Unilab tem recebido imigrantes estudantes de Angola, Cabo
    Verde, Guiné Bissau, Moçambique, São Tomé e Príncipe, Timor Leste, e
    de outras partes do Ceará e do Brasil; o mesmo valendo, embora em
    menor expressão, para professores que vêm de outras regiões do
    Brasil e/ou de outros países.</p>
  </fn>
  <fn id="fn25">
    <p>Acarape possuía 15.538 habitantes no último Censo (2010) e
    estimativa de 15.036 em 2020. Já Redenção possuía 26.415 (2010) e
    estimativa de 29.146 em 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn26">
    <p>Sobre as contradições desta suposta segurança, cf. PAIVA,
    2019.</p>
  </fn>
  <fn id="fn27">
    <p>Cf. <bold>Mais informações em:
    .</bold>https://www.opovo.com.br/noticias/ceara/redencao/2017/05/assaltos-e-audios-atribuidos-a-faccoes-criminosas-assustam-moradores-d.html</p>
  </fn>
  <fn id="fn28">
    <p>Mais informações em:
    http://www.unilab.edu.br/noticias/2017/10/20/nota-estudante-e-atingida-por-tiros-na-unidade-academica-dos-palmares-em-acarapece/
    Acesso em 28 mai. 2022.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
