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<p><bold>A PEDAGOGIA DO SOFRIMENTO EM UM ACAMPAMENTO BOMBEIRO
MILITAR</bold></p>
<p><bold>Fábio Gomes de França</bold></p>
<p>Pós-Doutor em Direitos Humanos, Doutor e Mestre em Sociologia pela
Universidade Federal da Paraíba. Professor de criminologia e Sociologia
do Centro de Educação da PMPB. Capitão da PMPB.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Paraíba
<bold>Cidade:</bold> João Pessoa</p>
<p><bold>E-mail:</bold> filhosdalegiao@gmail.com <bold>Orcid</bold>:
https://orcid.org/0000-0003-1917-840X</p>
<p><bold>Resumo:</bold> Neste artigo, por meio de uma pesquisa
qualitativa de cunho documental, analisamos os depoimentos testemunhais
de alunos do Curso de Formação de Oficiais (CFO) do Corpo de Bombeiros
Militar (CBM) da Paraíba acerca de um evento pedagógico conhecido na
cultura militarista por acampamento. Os depoimentos colhidos fazem parte
de um procedimento administrativo (Sindicância) realizado pelo CBM da
Paraíba para apurar trotes que ocorreram durante o acampamento através
de uma pedagogia do sofrimento imposta aos alunos. Em conclusão,
destacamos o fato de como uma pedagogia militar aplicada a futuros
profissionais em formação que desempenharão atividades de caráter civil
demonstra ambiguidades quanto às suas finalidades, despertando-nos
reflexões sobre a relação entre o respeito forçado à autoridade e a
aprendizagem para o exercício de vidas a salvar.</p>
<p><bold>Palavras-chave:</bold> Pedagogia do Sofrimento. Bombeiro
Militar. Acampamento.</p>
<p><bold>Title: THE PEDAGOGY OF SUFFERING IN THE FIREFIGHTER MILITARY
CAMP</bold></p>
<p><bold>Abstract:</bold> The article aims to analyze a firefighter
military camp as a pedagogical event of the military culture. We used a
qualitative and documentary research through analysis of students’
written testimonials of the Officer Training Course (OTC) in the Paraíba
State, Brazil. The testimonials show abusive hazing took place at the
military camp for firefighters students through pedagogy of suffering.
In closing, we highlight that there are contradictions in this military
pedagogy for firefighters students that will work developing civilian
activities making us reflect on the relationship between the forced
respect to the authority and the learning for profession.</p>
<p><bold>Keywords:</bold> Pedagogy of suffering; military firefighter;
camp.</p>
<p><bold>Data de recebimento:</bold> 28/02/2021</p>
<p><bold>Data de aprovação:</bold> 19/07/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v16.n0.1438</p>
<p><bold>Introdução</bold></p>
<p>A cultura diz respeito a um conjunto heterogêneo de elementos como
símbolos, crenças, comportamentos, que demarcam características de um
grupo, um povo, uma nação, e até mesmo uma instituição, de modo que as
marcas culturais expostas pelos indivíduos, de certa forma, é o que
revela sua presença em sociedade. No caso específico dos aspectos
culturais de uma instituição passamos a falar de uma cultura
organizacional. Assim, o que se torna alvo de nosso olhar e
interpretação neste artigo é a cultura militar.</p>
<p>No caso do Brasil, a cultura militar, própria das Forças Armadas,
torna-se extensiva às Polícias Militares (PMs) e aos CBMs estaduais
devido à herança imposta a essas organizações por meio da Carta
Constitucional de 1988 (aprovada após o regime político comandado pelos
militares entre 1964-1985), que manteve em seu texto o fato das PMs e
dos CBMs serem Forças auxiliares, reserva do Exército. Essa herança, que
de maneira mais precisa remonta à criação das PMs e dos CBMs no Brasil,
pode ser percebida, quanto às questões formais, em três vertentes
centrais: instrução ou ensino profissional, Justiça Militar e
regulamentos militares. Sobre o papel da cultura castrense própria dos
quartéis, podemos perceber ainda sua presença com mais força e vigor nas
relações informais, como os trotes durante a formação de alunos
militares, além do sentimento de respeito apreendido em relação aos
inúmeros símbolos como bandeiras, estandartes, fardamentos, hinos,
patronos e comportamentos condicionados como a
continência<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>. E mesmo que a Emenda
Constitucional Nº 18 no Brasil tenha deixado clara certa divisão, sendo
militares aqueles que pertencem às Forças Armadas e militares estaduais,
os policiais e os bombeiros militares (BRASIL, 1998), ainda assim
adotamos a perspectiva de que todas as instituições em conjunto envolvem
seus profissionais em uma teia complexa de situações culturais comuns
experienciadas pelos indivíduos que as constituem.</p>
<p>Essas experiências de contato com a cultura militar atingem certo
ápice durante a formação profissional, pela qual os alunos militares
(não importa se das Forças Armadas, das PMs ou dos CBMs) passam a
conviver com um currículo formal (relacionado às disciplinas estudadas
em salas de aula com viés teórico e as matérias de cunho prático) e
outro informal ou oculto (que ocorre diariamente tanto dentro quanto
fora das salas de aula, especialmente por meio das punições pelos
desvios disciplinares cometidos contra as regras militares). Nesse
processo, o currículo formal e o informal acabam confundindo-se em
muitas situações e a naturalização dessa proximidade curricular
cotidianamente vivenciada pelos alunos faz com que a autovigilância para
evitar as punições disciplinares (FOUCAULT, 1987) desenvolva nos
discentes militares a “disciplina consciente”, jargão utilizado nas
casernas para explicar a adequação do comportamento aos ditames das
regras pedagógicas castrenses.</p>
<p>Só que a força da herança cultural do Exército nas PMs e nos CBMs
demonstra um espírito de totalidade quando a busca pela disciplina
consciente torna-se o vetor principal da formação dos alunos, de modo
que, nos cursos militares, as tradições sobrepujam o papel profissional
almejado. Melhor seria dizermos, quando falamos da formação militar para
bombeiros militares (BMs) e policiais militares
(PMs)<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>, que eles se tratam de
militares bombeiros ou militares policiais, invertendo a lógica da
denominação que os caracteriza. A formação militar nas casernas das
Forças estaduais enaltece o ideal bélico criando, <italic>a</italic>
<italic>posteriori</italic>, dilemas em relação aos novos papéis que
devem ser desempenhados no exercício da profissão, no contato com a
sociedade, o que reconhecemos ser um conflito entre “a caserna e a rua”
(SILVA, 2011).</p>
<p>Entre as tradições militares copiadas do Exército pelas PMs e pelos
CBMs temos os acampamentos militares. Esses acampamentos consistem em
momentos nos quais as aulas formais são suspensas para que os alunos
permaneçam em curtos períodos de tensão física e psicológica extrema
(geralmente de 1 semana), sob a tutela de uma coordenação pedagógica,
para testar a capacidade de resistência à obediência à autoridade e aos
limites impostos ao corpo e à mente. São testes de sobrevivência que têm
origem nas Forças Armadas, as quais simulam situações de guerra para que
os alunos tenham uma noção do que pode ocorrer em uma guerra real na
qual os recursos ficarão escassos e o trabalho em equipe será
fundamental para que todos sobrevivam. Geralmente esses testes de
sobrevivência ocorrem em regiões de mata fechada, próximas a rios ou
represas, para que os alunos, trabalhando em equipe, aprendam como obter
recursos naturais para sobreviver.</p>
<p>É uma dessas experiências de um acampamento militar com alunos
bombeiros que passamos a descrever adiante a partir dos relatos dos
próprios estudantes que nos forneceram cópias de seus depoimentos em uma
sindicância na qual foram testemunhas dos excessos praticados pelos
Oficiais<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> que estavam à frente do
treinamento. Os fatos ocorreram em 2018 durante um acampamento com
alunos do CFO para BMs na Paraíba.</p>
<p><bold>O “CURRÍCULO DA SELVA”</bold></p>
<p>Não existem escritos sobre experiências de acampamento militar entre
alunos BMs no Brasil, isso porque até aqui parece-nos que o campo
acadêmico não despertou para os estudos sobre a relação entre os BMs e a
vida castrense e suas regras, o que nos faz levantar a hipótese de que
essa lacuna talvez permaneça devido à imagem social positiva atrelada à
profissão bombeiro militar em nosso país. Recentemente, em um estudo
inédito realizado por França (2018), por meio de dados colhidos em
portais eletrônicos, encontramos a análise de uma série de mortes de
alunos BMs durante a formação profissional em vários lugares do Brasil.
A pesquisa se debruçou sobre as consequências negativas advindas dos
trotes militares durante aulas de salvamento aquático com alunos BMs.
Com o mesmo escopo, França e Ribeiro (2019) analisaram a morte de um
aluno soldado BM, ocorrida em 2016, a qual pode ter sido consequência do
‘caldo’<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> sofrido por ele em uma
instrução de salvamento aquático. Até a escritura deste texto, a batalha
judicial pela incriminação de uma tenente do CBM do Mato Grosso, que é a
principal acusada da prática de tortura pela aplicação do caldo ao
aluno, está em trâmite na justiça (FERNANDES, 2020).</p>
<p>A busca pelo limite físico e psicológico é a tônica reinante em
cursos e acampamentos militares que isolam indivíduos em ambientes
inóspitos para o homem com o intuito de testar sua capacidade de reação
ao que poderá ser encontrado como dificuldade nas diversas situações da
profissão. Não existem comprovações técnicas ou científicas que
ratifiquem essas crenças, pelo contrário, o que os estudos sobre o tema
têm demonstrado é que esses treinamentos desencadeiam um tipo de
socialização que faz os alunos militares internalizarem aspectos como
rusticidade, virilidade e um <italic>ethos</italic> bélico ou guerreiro
que ao mesmo tempo potencializa o machismo e a masculinidade (HUGGINS;
HARITOS-FATOUROS; ZIMBARDO, 2006).</p>
<p>A herança da violência institucional contra alunos militares em
trotes e treinamentos faz parte de um conjunto de tradições que eram
pautadas em formas de punição física contra as Praças por parte dos
Oficiais tanto no Exército como na Marinha (FRANÇA, 2018). As PMs
acompanharam esse caminho e não poderia deixar de ser diferente com os
CBMs, que por muito tempo estiveram subordinados institucionalmente às
PMs. Por mais que formalmente os castigos físicos tenham sido proibidos,
ainda assim, processos culturais, para serem desconstruídos, demandam
várias gerações (ELIAS, 1994), o que não foi o caso da violência
institucional entre os militares que se adaptou a outras situações,
entre as quais os acampamentos. A longevidade desses processos de
violência, o que indica a persistência de fenômenos culturais tão
marcantes, pode ser percebida historicamente entre os militares
franceses desde o Antigo Regime até a formatação de um Exército moderno,
com mais notoriedade a partir do século XIX, onde o ensino da violência
consiste em que</p>
<disp-quote>
  <p>Os antigos praticam sobre os recrutas a pedagogia da violência. Ela
  é feita de troças que, começando pela <italic>feira de
  animais</italic>, rebaixam os recrutas à condição de animais. Depois,
  o conscrito é submetido à <italic>coberta</italic>, quando seu corpo é
  lançado no ar em uma coberta cheia de objetos cortantes. A instrução
  militar se dá, com efeito, muitas vezes, sob o temor permanente da
  punição e em meio a gritos, insultos e golpes. A despeito das
  denúncias feitas pelos médicos do efeito dos maus-tratos infligidos
  sobre os soldados por suboficiais violentos, vis, caprichosos e,
  algumas vezes, perversos, o tempo do exercício continua sendo,
  geralmente, o da brutalidade. A força e resistência ao cansaço, a
  aptidão para superar o sofrimento físico e a dor moral, enfim, a
  aceitação de derramar seu sangue para a defesa do país são um conjunto
  de qualidades viris que encontram sua completa satisfação no estado
  militar. Ao aceitar sofrer a violência dos antigos, sem ficar muito
  zangado, o conscrito se integra em um grupo dentro do qual ele talvez
  seja chamado para o combate (BERTAUD, 2013, p. 74-82, grifos do
  autor).</p>
</disp-quote>
<p>Essa “pedagogia da violência” ou “pedagogia do sofrimento” (FRANÇA;
GOMES, 2015) torna-se o portão de entrada dos iniciados alunos militares
de modo geral ao mundo real das práticas bélicas de morte quando forem
chamados para o combate. A morte deve ser naturalizada para evitar-se a
covardia e a desonra diante do sofrimento de corpos que caem tombados
pelo fogo cuspido do cano dos fuzis, das metralhadoras e pistolas. Para
esse enfrentamento, o sofrimento deve ser o ensinamento ao próprio corpo
para que a mente entenda que, para que o corpo a sustente, este deve
doar-se em sacrifício, não como um exercício definitivo de resignação,
mas como um ato de heroísmo, pois a honra surge como um componente
simbólico necessário de adequação de corpos que aceitam a morte como o
triunfo final, já que foram antes exercitados para tal fim.</p>
<p>Não temos condições de precisar historicamente como essa herança
cultural dos Exércitos europeus chegou até nós, mas acreditamos que no
caso do Brasil não podemos falar de uma transposição unilateral apenas
do legado português ao modo como nossas Forças Armadas, PMs e CBMs
desenvolveram seus modelos culturais <italic>intra corporis</italic>.
Não podemos esquecer que no início do século XX uma missão composta por
oficiais militares do Exército brasileiro foi à Alemanha, os quais
ficaram conhecidos como jovens turcos, onde estagiaram para aprender as
formas de organização do Exército alemão. Esses Oficiais depois se
engajaram na reformulação do ensino militar no Exército com o intuito de
profissionalizar seus homens pela perspectiva das doutrinas castrenses
para afastá-los do ativismo político recorrente na República Velha
(MARQUES, 2014). Outro fato foi a vinda da Missão Militar Francesa para
reorganizar a então Força Pública de São Paulo (depois Polícia Militar)
em 1906 até 1914, com retorno após a Primeira Grande Guerra e a partir
de 1919 no Exército brasileiro, ficando até 1940 (FERNANDES, 1973).</p>
<p>A Missão Militar Francesa deixou um legado de organização
institucional que, provavelmente, se estende dos tipos de treinamento ao
campo das práticas culturais. Tanto que foi o modelo de Educação Física
trazido pelos militares franceses que passou a ser adotado no Exército
brasileiro a partir de 1921, chegando até mesmo a ser aplicado em todo o
território nacional pelas escolas públicas federais e municipais e pelas
escolas privadas, devido à influência do Exército no país durante o
Estado novo varguista (CASTRO, 1997). Sem contar que as técnicas de
tortura utilizadas durante o regime ditatorial em nosso país pelos
militares teve forte influência dos militares franceses de alta patente
que aqui estiveram para ministrar cursos de contra-guerrilha, já que
eles tinham utilizado essas técnicas durante a Guerra de Libertação da
Argélia, que era colônia francesa (DUARTE-PLON, 2016).</p>
<p>No Brasil, um estudo inédito realizado por Huggins, Haritos-Fatouros
e Zimbardo (2006) sobre a formação PM durante o período ditatorial
destaca como a lógica da repressão governamental precisava treinar os
PMs com base no sofrimento para que eles reproduzissem a mesma
disposição quando fossem atuar nas ruas. A crença generalizada entre os
militares, incluindo os policiais, da existência de um inimigo interno
(os subversivos comunistas) que impulsionava a defesa da “ideologia da
segurança nacional” fazia do treinamento dos PMs primeiramente uma busca
pela obediência cega à autoridade. A perspectiva ideológica da luta
contra o comunismo atrelava-se naturalmente ao modo de atuação violento
próprio dos PMs, que deveriam treinar e sofrer arduamente para enfrentar
um inimigo do Estado e da sociedade democrática em perigo, desde que
fossem homens obedientes. Os trotes eram utilizados (na verdade, ainda
hoje o são)<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> como expediente
recorrente na formação dos PMs e o currículo oculto passava a operar
desde a chegada dos alunos para o início do curso de formação, modelo
pedagógico que era estritamente copiado do Exército (CASTRO, 2004).</p>
<p>O que estava em jogo era um modelo de conduta que passava a ser
esperado dos PMs depois de formados, como fruto de forças situacionais
modeladoras do caráter de indivíduos que foram colocados à prova em
situações de estresse extremo, o que não deixa de ser um treinamento de
torturadores, já que são processos de socialização que nos ensinam a
reproduzir violentamente o que aprendemos do mesmo modo (ALMEIDA JÚNIOR,
2016; FRANÇA, 2020b). Nesse contexto, os PMs se transformavam em
“operários da violência” (HUGGINS; HARITOS-FATOUROS; ZIMBARDO,
2006).</p>
<p>Ao entrevistar PMs que participaram da formação pedagógica militar
durante o período ditatorial e sem encontrar fatores diretos que
pudessem apontá-los como indivíduos violentos antes de ingressarem na
PM, Huggins, Haritos-Fatouros e Zimbardo (2006) demonstram que os alunos
PM novatos chegavam ao quartel em cima de um caminhão, sendo
transportados sem nenhum conforto, como animais, já que se tratava de
uma tropa. As boas-vindas eram feitas por um Oficial que, aos gritos,
destratava a todos pela aparência suja e pela ausência de disciplina
militar<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. A partir daí, a nova
rotina passava a ser experienciada, inicialmente com o corte de cabelo
no estilo militar, com a adoção de um nome de guerra, bem como, de um
número (GOFFMAN, 2007) que passava a identificar a todos:</p>
<disp-quote>
  <p>Não sendo mais identificado como o homem que fora e, a partir de
  então, como um “guerreiro” que tinha um “nome de guerra” e um número
  que ocultavam sua identidade, a verdadeira identidade do treinando
  fora separada de seu status civil e estava então madura para ser
  remodelada como uma identidade inteiramente militarizada (HUGGINS;
  HARITOS-FATOUROS; ZIMBARDO, 2006, p. 275, grifos dos autores).</p>
</disp-quote>
<p>Ainda relatam Huggins, Haritos-Fatouros e Zimbardo (2006) que essa
ruptura com a antiga vida civil, que funciona como uma “mortificação do
eu” ou uma “morte civil” (GOFFMAN, 2007, p. 24-25), descortinava-se
entre a aprendizagem das marchas militares e a extenuante jornada de
treinamento que se iniciava às 4h30 da madrugada e se estendia até às
18h. Os alunos em formação passavam por situações desde ter que se
aprontar em dois minutos para se vestir impecavelmente e entrar em
forma<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref> a serem acordados com gás
lacrimogêneo no alojamento. Não obstante, entre atividades práticas e
teóricas, mas especialmente pela convivência com o currículo oculto, que
obrigava os alunos a vivenciarem constantemente o exercício da
obediência para com os superiores (que se mostravam com a face rígida e
jeito de “macho” para impor autoridade), as palavras de um entrevistado
sintetizam que no treinamento: “eram obrigados a rolar no mato, por cima
de espinhos, paus, pedras, como se fossem porcos (...) [Se] se ferisse o
instrutor achava muito divertido. Ele treinava o policial para ir à
guerra, não para proteger o povo. Jogavam bombas de gás dentro da sala
de aula” (HUGGINS; HARITOS-FATOUROS; ZIMBARDO, 2006, p. 278).</p>
<p>As inumeráveis formas de fazer o currículo oculto funcionar ainda
sustentava-se por situações violentas como o corredor polonês, no qual o
aluno PM passava no meio de duas fileiras de colegas e era atingido por
socos e pontapés, como recorda um dos entrevistados: “Eu me lembro de
ter levado um murro no estômago – não sei se foi um soco ou um pontapé.
Só sei que caí no chão desmaiado” (<italic>Ibid</italic>., p. 285).</p>
<p>Essa mesma lógica de uma pedagogia violenta aplicada a alunos
militares de modo geral presente nos treinamentos e na execução dos
trotes também é a mesma utilizada nos acampamentos militares, que é um
misto de trotes com atividades e treinamentos de sobrevivência na selva.
No Brasil, as únicas informações que temos sobre acampamentos militares
dizem respeito a um trabalho de campo (ALBUQUERQUE, 1999; ALBUQUERQUE;
MACHADO, 2001a, 2001b) realizado sobre a Jornada de Instrução Militar
(JIM) aplicada a alunos oficiais da PM da Bahia em 1997, mas em contato
pessoal com um tenente recém formado no CFO da Bahia em 2017,
constatamos que a JIM ainda ocorre nos mesmos moldes de décadas
atrás<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>.</p>
<p>Como não poderia deixar de ser, a análise sobre a realização da JIM
no CFO da Bahia revela aspectos contraditórios do ensino PM após a
abertura política com o fim do regime ditatorial. Paralelo à chegada de
disciplinas humanísticas nas Academias de Polícia Militar, com os
Direitos Humanos como carro-chefe, os trotes e os acampamentos militares
permanecem sendo utilizados por meio de um currículo cultural (LEAL,
2011) e oculto que atua impondo resistências a um ensino com viés
democrático, por meio do qual os próprios alunos militares deveriam ser
respeitados em suas integridades física e psicológica.</p>
<p>O que a JIM demonstrou foi a realização de atividades próprias de
sobrevivência em uma guerra em um verdadeiro “currículo da selva”
(ALBUQUERQUE; MACHADO, 2001a), já que foi realizada em um trecho de mata
atlântica pertencente ao Exército, durante um período de seis dias. Em
síntese, na JIM conjugaram-se “a um só tempo, técnicas de sobrevivência
na selva com velhos ensinamentos anti-guerrilha num ritmo estressante,
baseado em táticas que estimulam a ansiedade e o medo, produzindo um
estado psicológico de absoluta (sic) alerta emocional” (ALBUQUERQUE;
MACHADO, 2001a, p. 11). O sigilo sobre as atividades e as narrativas das
edições passadas circundam e aumentam ainda mais a ansiedade dos
cadetes<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>, pois o local de
realização desses eventos não é revelado aos alunos pela equipe
organizadora, fazendo da surpresa sobre o que se pode encontrar um
componente da pressão psicológica. Assim, a JIM tem início “com a
partida de ônibus da Academia rumo ao local da jornada, numa viagem
estressante, de quase uma hora, com simulações de ataques e bombas de
gás. Após a chegada e concentração de todos para apresentação aos
superiores são repassadas as regras que vigorarão naqueles dias”
(<italic>Ibid</italic>., p. 11). A estrutura militar do acampamento se
revela desde o início, de modo que</p>
<disp-quote>
  <p>A tarefa imediata, ao chegar, é a preparação do acampamento
  (barracas, cozinhas, sanitários, etc.) e o reconhecimento do
  território com uma pequena marcha. Pelas manhãs, depois do despertar,
  passam-se instruções específicas sobre as atividades do dia e, a
  seguir, toma-se um breve café. Os intervalos para refeição, descanso e
  asseio pessoal dependem da dinâmica do dia. Conforme as atividades, os
  dias podem ser divididos em: dias de provas e jogos militares, onde o
  candidato deverá ultrapassar a si mesmo, superando seus limites,
  mostrando coragem e espírito de grupo (ALBUQUERQUE, MACHADO, 2001a, p.
  11).</p>
</disp-quote>
<p>Mas são as palavras dos próprios alunos que participaram da JIM que
se tornam interessantes para compreendermos a dinâmica das
subjetividades envolvidas no acampamento, bem como o ideal coletivo
almejado de fortalecimento do espírito de corpo e solidariedade grupal.
No entanto, essas condições ocultam, na realidade, o objetivo principal
da JIM: a obediência estrita à autoridade por meio da resignação e do
sofrimento. Não por acaso, alguns alunos destacarem os princípios
militaristas da JIM: “Essa mania de misturar as coisas das forças
armadas com as da polícia enche o saco... a gente fica perdendo tempo no
mato, tomando porrada e morrendo de fome” (ALBUQUERQUE; MACHADO, 2001a,
p. 13).</p>
<p>Sabendo que, no Brasil, especialmente durante o período ditatorial,
era comum PMs exercerem o serviço de BMs e vice-versa, como parte de uma
transição fluida entre as instituições, além também de ser comum que os
BMs fossem treinados nos quartéis de polícia militar (FRANÇA, 2018),
fica-nos a reflexão de que em grande medida os treinamentos militares
empregados aos alunos BM foram os mesmos ou talvez apresentassem algumas
adaptações em relação aos que eram aplicados aos alunos PM. A
demonstração dessa hipótese se fortalece exatamente no caso que
descrevemos abaixo, de um acampamento militar do qual participaram
alunos oficiais bombeiros do CFO na Paraíba.</p>
<p><bold>EXPERIÊNCIAS DE UM ACAMPAMENTO MILITAR PARA
BOMBEIROS</bold></p>
<p>O CFO para BMs, na Paraíba, tem como forma de ingresso o Exame
Nacional do Ensino Médio (ENEM), e tem um período de duração de três
anos, tratando-se de um bacharelado em Engenharia de Segurança contra
Incêndio e Pânico. O curso ocorre na Academia de Bombeiro Militar
Aristarcho Pessoa, a qual funciona no mesmo espaço arquitetônico onde
acontece o CFO para os alunos oficiais da PM, ou seja, no Centro de
Educação da Polícia Militar do Estado da Paraíba, localizado na cidade
de João Pessoa. Nesse sentido, os cadetes, como são conhecidos os alunos
oficiais PM e BM, mesmo não dividindo as salas de aula, por se tratarem
de cursos distintos, em contrapartida dividem alojamentos por ano de
curso, de forma separada para homens e mulheres, participam
conjuntamente das formaturas gerais (que são solenidades típicas dos
quartéis com a leitura das ordens do dia, o cântico do hino nacional e o
desfile da tropa), e assumem algumas funções comuns a uma caserna
militar, como plantões de alojamento e adjunto e cadete de dia. Estas
funções informam certo grau de responsabilidade por parte dos cadetes
escalados para exercê-las, visto que eles passam gradativamente ao longo
dos três anos a desempenhar papéis que lhes ensinam a externar certa
autoridade dentro do quartel de formação, especialmente em relação aos
demais alunos.</p>
<p>Por isso falamos nos cursos militares de alunos veteranos e alunos
novatos, cabendo aos primeiros (no caso os do último ano da formação)
geralmente a aplicação dos trotes aos ingressantes no CFO nas semanas
iniciais de adaptação e acampamentos militares. No transcorrer das
atividades cotidianas, gradativamente de acordo com a sequência dos anos
de curso (1º, 2º e 3º), os alunos do 1º ano se reportam aos do 2º e 3º
pela deferência de senhor ou senhora, assim como os do 2º ano aos do 3º
do mesmo modo (FRANÇA, 2012). Ainda mais, com a alternância das turmas a
cada ano, já que enquanto uma se forma outra ingressa; os cadetes também
passam a se tratar como “antigos” e “modernos”, de modo que o aluno se
torna mais antigo com o avanço aos anos posteriores do curso desde a
entrada no CFO (o aluno do 3º ano é mais antigo que o do 2º e do 1º,
enquanto que o do 2º ano é mais antigo que o do 1º), assim como as
turmas também se tornam mais antigas e modernas entre elas mesmas, o que
se estende posteriormente após os alunos formados. Como exemplo, um
tenente formado na turma de 2010 que terminou na 5ª colocação geral é
mais antigo que os demais componentes de sua turma a partir da 6ª
colocação, assim como todos da turma de 2010 são mais antigos do que
todos que se formaram na turma de 2011.</p>
<p>Quando os alunos passam do 1º ano ao 2º, do 2º ao 3º, ou ainda quando
saem formados como aspirantes a oficial para o estágio probatório que os
habilitarão ao posto de 2º tenente carregam consigo a classificação
geral obtida com a média final do somatório das disciplinas estudadas a
cada ano, a qual define antiguidade e modernidade separadamente por ano.
Quanto maiores as médias, mais antigos na classificação, com o adendo da
denominação pejorativa de alunos da “rabada”, aqueles que assumem as
últimas posições na hierarquia das médias, e alunos da “zerada”, aqueles
que são considerados mais estudiosos, o que se torna o indicativo de
como funciona antiguidade e modernidade dentro das próprias turmas de
formação (FRANÇA, 2012). O destaque fica por conta da emblemática figura
do 01 (zero-um), que indica uma posição de prestígio (LEIRNER, 1997),
que pode ser o primeiro colocado quando do ingresso no 1º ano com a
média do ENEM, durante o 2º e o 3º ano a partir da classificação final
obtida no ano anterior, ou por meio da ordem classificatória ao término
do curso.</p>
<p>Outro critério para demarcar “antigos” e “modernos” é a classificação
verticalizada no 1º ano pela nota obtida no ENEM (CASTRO, 2004) quando
do ingresso no CFO, a partir da qual o 01 (zero-um), primeiro colocado,
é mais antigo que o 02 (zero-dois), segundo colocado, seguindo-se os
demais. Ainda se demarca antiguidade e modernidade pela data de fundação
da Academia Militar estadual a que se pertence (mais antiga é a que
primeiro foi fundada), ou ainda considera-se mais antigos os alunos da
Academia sede do curso, seguindo-se os alunos das Academias de outros
estados que enviam seus alunos por não possuírem local de formação
próprio, os quais são conhecidos por “estrangeiros”. Nesse sentido,
antiguidade e modernidade “são posições que servem para elencar
responsabilidades e privilégios entre os cadetes, tanto no que se refere
às regras prescritas como às situações informais do cotidiano. Por isto,
quanto mais antigo na formação supõe-se ser melhor, obtendo-se mais
reconhecimento e status” (FRANÇA, 2019, p. 367).</p>
<p>Na verdade, os critérios de antiguidade e modernidade são
sintomáticos para nos mostrar a importância do papel da autoridade no
meio militar e sua tradução através da hierarquia, havendo
impossibilidade de dois indivíduos ocuparem a mesma posição hierárquica,
pois sempre algum atributo será mobilizado para legitimar a antiguidade.
A partir da complexidade que envolve essas gradações hierárquicas e da
necessidade que se cria para se exigir respeito por parte do subordinado
em relação à autoridade que representa a figura do superior ou da
superiora hierárquica na cultura militar é que podemos compreender como
os momentos de sofrimento impingidos aos alunos acabam se naturalizando.
Isso porque o sofrimento em conjunto os ensina que esse direito
adquirido de exercer autoridade surgiu pelo compartilhamento de
experiências traumáticas que os possibilitaram aprender a comandar
homens em uma rede hierárquica complexa, já que existia uma razão para
as humilhações verbais e as dores físicas: “Cadetes! Ides comandar,
aprendei a obedecer” (CASTRO, 2004, p. 22). Por meio de um rito de
passagem (VAN GENNEP, 2011) que denota um processo ritual de
rebaixamento e elevação de <italic>status</italic> (TURNER, 2013), os
cadetes encontram nos acampamentos militares momentos oportunos de
experienciarem as ambivalências de um modelo de hierarquia e autoridade
que ao mesmo tempo em que rebaixa o indivíduo pela humilhação o enaltece
por ter aceitado compreender a lógica do respeito pela resignação.</p>
<p>No caso específico do acampamento militar com bombeiros paraibanos, a
turma de cadetes protagonistas do evento ingressou no CFO em 2018, de
modo que o acampamento ocorreu durante o segundo ano de formação, em
2019. A turma é composta por 29 alunos no total, sendo 25 homens e 4
mulheres. Na composição da turma, temos 8 cadetes da Paraíba (sendo 5
homens e 3 mulheres), 12 cadetes do Rio Grande do Norte (sendo 1 mulher)
e 9 cadetes de Alagoas (todos homens).</p>
<p>Os relatos colhidos e analisados neste tópico foram obtidos dos
depoimentos de quatro desses alunos, todos do gênero masculino. O
acampamento militar ocorreu na cidade de Pedras de Fogo, na Paraíba.
Houve certo receio dos alunos com o que seria feito com seus depoimentos
nesta pesquisa, mas ficou claro para todos que os relatos seriam
transformados em material analítico para a escritura de um artigo sobre
a pedagogia do sofrimento na formação bombeiro militar. Além disso, o
texto foi repassado a todos os alunos antes de ser definitivamente
enviado para publicação, e seus nomes foram preservados, sendo
utilizados pseudônimos. O acampamento foi dirigido pelos Oficiais da
Academia Aristarcho Pessoa e pelos alunos do 3º ano (os alunos
veteranos) do CFO BM.</p>
<p>Segundo os depoimentos, as atividades prévias de preparação para o
deslocamento ao acampamento ocorreram ainda no Centro de Educação, por
volta da 1h da madrugada do dia 8 para o dia 9 de agosto de 2018, quando
os alunos do 1º ano do CFO BM, que ainda estavam em internato escolar,
foram acordados pelos cadetes do 3º ano recebendo a ordem de se vestirem
com o “uniforme de instrução” em cinco minutos para depois se deslocarem
à sala de aula. Ainda era preciso que os cadetes reunissem todo o
material necessário, pois eles participariam de uma atividade externa, a
qual não foi revelada. Essa primeira etapa ocorreu sob a presença de um
tenente coordenador disciplinar do CFO. No conjunto, nem todos os
cadetes se preocuparam em pegar coisas básicas, como material de
higiene, incluída lâmina de barbear por parte dos homens, de modo que,
já durante o acampamento, “foi enfatizado (pelos instrutores) que a
ausência de informação quanto aos materiais que cada cadete deveria
levar consigo era proposital para fins de verificação de tirocínio de
cada componente da turma” (Aluno 2). Percebemos que o sigilo
(ALBUQUERQUE; MACHADO, 2001a) utilizado comumente nesse tipo de
atividade militar passou a ser usado desde o início, pois a ideia do
“tirocínio”, que seria uma espécie de aprendizado pela experiência, foi
usado pelos coordenadores como argumento sem nenhum critério técnico,
por pura dedução de “senso comum”.</p>
<p>Depois que os cadetes foram embarcados no ônibus, seguiram com
destino ao acampamento por cerca de 30 a 40 minutos, mas precisaram
desembarcar antes do local final, onde encontraram um major, uma capitã
e outro tenente, além dos que já os acompanhavam, os quais compunham os
oficiais da coordenação. A partir daí, os cadetes realizaram uma marcha
por uma estrada de barro até chegar ao local onde seria montado o
acampamento. Nessa marcha, “foram recolhidos os relógios dos cadetes;
após chegarem ao acampamento foi realizada uma revista na bolsa de todos
os integrantes da turma, sendo recolhido todos os alimentos” (Aluno 1).
Foi depois da chegada da marcha que os alunos souberam que a atividade
externa se tratava de um acampamento, de modo que “os Cadetes foram
instruídos a montarem a barraca em que ficariam alojados” (Aluno 2). Uma
das primeiras situações a incomodar os cadetes ocorreu quando um dos
alunos, que tinha recebido uma determinação do major um dia antes para
trocar o cadarço de elástico de seu coturno, não o fez. Na cultura
militar, a ideia é que todos usem os mesmos equipamentos, de maneira
uniforme (FOUCAULT, 1987). Com o descumprimento, ao desembarcarem, “o
major cortou o cadarço do coturno do Cadete utilizando um facão. O
cadete relatou ter se sentido constrangido devido ao episódio do corte
do cadarço” (Aluno 3).</p>
<p>Ao amanhecer, os cadetes foram divididos em quatro equipes de maneira
que “um grupo ficou na responsabilidade de realizar o local do “tchof”,
outro grupo deveria construir a latrina, o terceiro grupo realizou o
local de acampamento, e o último grupo deveria fazer o local que seria a
sala de aula durante a realização do acampamento” (Aluno 1). Entre as
atividades iniciais, o “tchof” “seria uma alteração no curso de um
córrego que havia ali próximo, para originar um (sic) espécie de
represa, onde seriam realizadas algumas atividades de vivacidade; após a
realização desse “tchof”, mesmo a água do córrego sendo limpa, a água
represada ficou turva” (Aluno 2). Com o decorrer das atividades, uma das
que mais incomodaram os cadetes foi a refeição do primeiro dia, na hora
do almoço, de modo que os relatos abaixo descrevem o acontecimento:</p>
<disp-quote>
  <p>No almoço do primeiro dia foi distribuída uma quentinha para cada
  aluno e dado dois minutos para que pudessem comer; devido ao fato de
  não ter sido dado o fora de forma, a turma foi “forçada” a comerem
  (sic) com as mãos, pois não havia a possibilidade de conseguirem algum
  meio de fortuna para comer, em substituição aos talheres que não foram
  disponibilizados; após os dois minutos foi determinado que os cadetes
  colocassem o restante do alimento da quentinha em um único panelão;
  após colocarem o restante do alimento na panela, foi disponibilizado
  mais dois minutos para cada grupo continuar a comer; após cada grupo
  ter comido, foi disponibilizado mais cinco minutos para que toda a
  turma continuasse a comer, devendo levar a panela para o local que
  estavam alojados; após os cinco minutos era dado um silvo de apito
  para que os alunos informassem se haviam terminado de comer, caso não
  tivessem terminado deveriam realizar flexões no solo e voltar a comer;
  não se recorda quantos ciclos de cinco minutos houve. (Aluno 1).</p>
  <p>A primeira refeição que tiveram, desde o momento que foram
  acordados, ocorreu aproximadamente por volta da hora do almoço, sendo
  disponibilizada uma quentinha para cada cadete e fornecido um tempo de
  2 minutos para a realização da refeição, devendo ser feito com a mão,
  pois não foram distribuídos talheres; não foi disponibilizado tempo
  para realização de asseio e limpeza das mãos; a refeição foi realizada
  em pé; após esses 2 minutos o que restou da alimentação de todos os
  cadetes foi reunido em uma panela e após isso os cadetes foram
  divididos em grupos e cada grupo teve 2 minutos para ir à panela para
  continuarem a comer o restante da comida, utilizando as mãos, e todos
  os cadetes tiveram que comer; após todos os grupos irem até a panela
  ainda sobrou comida, então foi determinado aos cadetes que levasse
  (sic) a panela com o restante da comida para onde estava a barraca
  para conclusão da refeição, entretanto a cada 5 minutos eram dados
  silvos de apito e os cadetes tinham que realizar uma quantidade de
  flexões no solo e após as flexões eram disponibilizados mais 5 minutos
  para continuar a refeição, sendo realizado alguns ciclos dessa
  atividade até que toda a comida acabasse; eram alternados as flexões
  com o tempo que tinham para comer, sendo notório que em determinado
  momento já havia uma quantidade de areia dentro da comida. (Aluno
  2).</p>
  <p>Se recorda de uma das refeições, em que todas as quentinhas dos
  alunos foram reunidas em um recipiente, que não se recorda qual, e
  todos tiveram que comer juntos. (Aluno 3).</p>
  <p>No primeiro dia, no período do almoço, foi disponibilizado algum
  tempo para o almoço, o qual estava em quentinhas, e após encerrar o
  tempo, o que restou da comida foi reunida (sic) em uma panela; tiveram
  que comer toda a comida e enquanto comiam realizavam flexões,
  intercalando com período que tinham (sic) para terminar de comer, até
  toda comida acabar; não tinham condições adequadas de higiene na hora
  do almoço. (Aluno 4).</p>
</disp-quote>
<p>Os longos trechos destacados dos depoimentos sobre a hora do almoço
no acampamento revelam o descuido proposital por parte dos coordenadores
com a falta de higiene para o manuseio da comida aliada ao desconforto e
às atividades físicas empregadas como as flexões de braço que, em
alternância com os momentos da alimentação, passou a deixá-la com “uma
quantidade de areia”; vê-se com isso o caráter militar da atividade.
Percebe-se nesse acontecimento a tentativa dos coordenadores de fazer
com que os alunos tenham certa destreza para saberem lidar com o tempo e
a forma de se alimentar própria de um evento bélico, no qual não há
espaço para noções de higiene porque é a sobrevivência que importa.</p>
<p>O fortalecimento da concepção militar no acampamento (ALBUQUERQUE;
MACHADO, 2001a) mostrou-se por meio de agressões aos alunos, já que
elementos como militarismo, masculinidade e rusticidade são parentes
próximos, digamos assim. Casos como o das agressões e da morte do cadete
do Exército Márcio Lapoente em 1990 (FRANÇA, 2020b), assim também como o
dos cadetes que apanharam dos oficiais na JIM no CFO da Bahia demonstram
a perpetuidade da violência institucional em cursos militares. No caso
do acampamento BM em análise, não chegamos a tanto, mas tivemos
situações como a descrita a seguir:</p>
<disp-quote>
  <p>O major havia percebido que o cadete... havia deixado o material
  cair ao solo e ao observar que o referido cadete não havia se acusado,
  então se deslocou até onde estava o cadete e desferiu uma tapa em seu
  peito; enquanto se deslocava em direção ao cadete, o major proferia
  expressões como “isso não é atitude de homem”, e após desferir a (sic)
  tapa contra o peito do cadete, o mesmo veio a cambalear, ficando sem
  reação. (Aluno 3). </p>
  <p>O Major solicitou que o militar que havia errado a execução se
  acusasse (exercícios de polichinelo); que o cadete... se acusou,
  entretanto o Major informou que não havia sido ele; o Major então veio
  na direção do declarante desferindo três tapas fortes em seu peito,
  chegando a fazer o declarante se desequilibrar, mas não caiu ao solo;
  o Major então o segurou forte pela gola da
  gandola<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>, o sacolejando e
  fazendo força para cima, enquanto desferia algumas expressões
  agressivas, a exemplo de “seja homem”, “assuma seus erros”; após isso,
  o declarante não manifestou nenhuma reação, ficando apático; o Major
  estava armado; na noite deste dia, diante do episódio vivenciado, não
  conseguiu dormir, mesmo sendo disponibilizado um tempo de descanso
  para a turma. (Aluno 1).</p>
</disp-quote>
<p>O clímax do acampamento ocorreu diante de uma situação inusitada.
Devido ao acampamento ter sido organizado pelos coordenadores para ser
uma surpresa e por conta do pouco tempo dado para os cadetes pegarem
algum material necessário, nem todos os homens levaram lâminas de
barbear ou barbeador para o acampamento, visto ser regulamentado o não
uso de barba pelos homens de acordo com as regras militares. Esse fato
foi o que obteve maior destaque nos depoimentos, pois diante da
evidência de que não tinham lâminas nem barbeadores suficientes para
todos e da recusa dos alunos em compartilhar os que tinham disponíveis:
“a determinação foi que a turma entrasse no ‘tchof’ (água represada) e
que só sairia de lá com a barba feita” (Aluno 1); “a determinação estava
mantida, por parte da coordenação, e que o asseio pessoal deveria ser
feito” (Aluno 4); “os termos adotados (em tom ríspido) por parte de
ambos os oficiais (major e tenente) era que a imposição de se fazer a
barba era uma ordem” (Aluno 3); “em face da postura da turma em não
cumprir a determinação de fazer a barba, que imputaria necessariamente
em compartilhar os barbeadores, vieram uma série de atividades punitivas
à turma que tinham como objetivo principal mudar a postura dos alunos”
(Aluno 2).</p>
<p>Como vimos até aqui, a obediência à autoridade é o requisito
implícito, não diretamente divulgado pelos coordenadores, em situações
como o acampamento militar (HUGGINS; HARITOS-FATOUROS; ZIMBARDO, 2006).
Diante da ordem imposta, os cadetes, resignados, cumpriram a missão e
compartilharam os barbeadores. O argumento dos coordenadores, como
sempre centrado nas regras militares, previa que “diante da decisão de
não cumprimento da determinação, a coordenação teve a percepção daquela
atitude como sendo um motim [tipo de crime militar]” (Aluno 1). Mesmo
pedindo desculpas à turma após o término do acampamento, pelo ocorrido
na situação do uso coletivo dos barbeadores, ainda assim o tenente teria
afirmado, com base em sua experiência pretérita no Exército, que “a
situação não era absurdo, pois em momentos vivenciados anteriormente no
Exército brasileiro [o tenente] já chegou a compartilhar um barbeador
com 10 militares” (Aluno 3).</p>
<p>Como se vê ao final, são as práticas da cultura organizacional
castrense o mote legitimador que fez do acampamento bombeiro militar
analisado mais uma experiência a ser melhor compreendida da
aplicabilidade da pedagogia militar em uma profissão que demanda um
exercício de cunho eminentemente civil. Em meio aos paradoxos da
profissão BM e seu hibridismo identitário, fica-nos mais um exemplo das
dificuldades de alcançarmos uma democracia que proteja também
profissionais que ainda em formação precisam ser reconhecidos não como
máquinas treinadas para a guerra, mas como homens e mulheres que apenas
buscam uma profissão como qualquer um de nós que convivemos em
sociedade.</p>
<p><bold>Considerações Finais</bold></p>
<p>A denúncia feita ao Ministério Público contra os coordenadores do
acampamento militar para os cadetes BM revela certo avanço contra o
abuso cometido nessas atividades dirigidas sem considerações técnicas
por meio da tradição puramente militar. O que percebemos é que a
organização do acampamento pautou-se em experiências prévias de um dos
coordenadores que passou pelo mesmo processo no Exército e que acabou
por adaptar situações para alunos bombeiros que exercerão uma função
eminentemente de ordem civil. As situações vivenciadas pelos alunos
deixam clara a presença de conteúdos autoritários e intimidatórios por
parte dos coordenadores na forma de tratar os alunos durante os dias de
acampamento, com a imposição de ordens absurdas e violentas como
obrigá-los a compartilhar lâminas de barbear ou até mesmo se colocar no
direito de violentar o corpo físico dos alunos com tapas e
empurrões.</p>
<p>A falta de preparo profissional e comedimento das ações como um todo
faz parte de um processo cultural absorvido da vida castrense e que
chega à vida institucional dos BMs pela junção do modelo organizativo
militar, da herança histórica desse modelo cultural naturalizado e pelo
reforço de novos oficiais que ingressam na Corporação BM após passarem
por experiências similares quando pertenciam ao quadro das Forças
Armadas, em especial do Exército brasileiro. Enxergamos de forma
positiva a denúncia contra as práticas que foram empregadas no
acampamento BM, o que mostra, diferentemente de situações pretéritas nas
quais dificilmente essas denúncias ocorriam, que tem se desenvolvido
certa ‘desnaturalização’ desses procedimentos de ordem cultural. Tais
condições de violência institucional no mundo militar são geralmente
alimentadas pelo desejo à autoridade e pela insipiente concepção da
aprendizagem pelo sofrimento, a qual é vazia de conteúdo. Ao contrário,
talvez os CBMs consigam reverter tal quadro pedagógico se descobrirem o
caminho da resolução de conflitos humanos a partir da criatividade e do
senso de justiça e empatia desde a formação de seus futuros
profissionais, legitimando uma proposição mais coerente ao lema dos
bombeiros de ‘vida alheia e riquezas salvar’.</p>
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“pato” – uma análise antropológica da instituição policial militar a
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<p>VAN GENNEP, A. <bold>Ritos de passagem</bold>: Estudo sistemático dos
ritos da porta e da soleira, da hospitalidade, da adoção, gravidez e
parto, nascimento, infância, puberdade, iniciação, ordenação, noivado,
casamento, funerais, estações, etc. Petrópolis: Vozes, 2011.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>Segundo França (2020a, p. 24), a continência diz respeito ao
    “gesto utilizado pelos militares como forma de cumprimento e
    saudação entre eles e deles para com os símbolos reverenciados na
    cultura militar como a bandeira nacional, por exemplo.
    Caracteriza-se por um gesto feito com energia em um único tempo
    deixando o braço paralelo ao solo na mesma altura do ombro e o
    antebraço em um ângulo de 45 graus em relação ao braço com a palma
    da mão estendida para baixo, dedos das mãos unidos numa postura rija
    e estes últimos tocando ligeiramente a fronte na altura da
    testa”.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>Percebam que no caso das Polícias Militares podemos utilizar a
    mesma sigla tanto para se referir à instituição quanto aos seus
    profissionais, de modo que o entendimento depende do contexto no
    qual a sigla está sendo empregada.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>O modelo hierárquico das PMs e dos BMs é uma cópia do modelo
    organizacional do Exército que consiste em dois quadros distintos: o
    das Praças (soldado, cabo, terceiro-sargento, segundo-sargento,
    primeiro-sargento e subtenente) e o dos Oficiais (segundo-tenente,
    primeiro-tenente, capitão, major, tenente-coronel e coronel). Ao
    primeiro, em tese, cabem as funções de execução e, ao segundo, as
    funções de comando, gestão e fiscalização.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>O caldo é uma espécie de trote utilizado pelos BMs em aulas de
    natação e salvamento aquático, no qual o(a) aluno(a) é literalmente
    afogado(a), tendo sua cabeça forçadamente submergida por meio de
    outra pessoa. O caldo funciona na cultura bombeirística como
    adaptação do sofrimento impingido a alunos militares em cursos nas
    Forças Armadas.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>Ver Albuquerque e Machado (2001a; 2001b; 2003); Alvito (2013);
    França (2013) e Leal (2011).</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <p>A mesma forma de tratamento aos insultos e gritos foi descrita em
    livro por um jornalista que fez o concurso para soldado da PM do Rio
    de Janeiro em 2007 apenas para acompanhar as semanas iniciais do
    curso e entender melhor como ocorre esse processo de socialização
    profissional. Ver Gomide (2018).</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <p>Entrar em forma é o ato em que todos os alunos ficam colocados um
    atrás do outro em colunas e linhas, geralmente estáticos na posição
    de sentido ou de descansar, formando uma figura retangular, por meio
    de certa padronização espacial. Ver França (2019).</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <p>Informação oral.</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <p>Expressão dos quartéis das Forças Armadas, das PMs e dos CBMs
    para nomear os alunos oficiais.</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <p>Parte superior do fardamento militar.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
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