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<p><bold>Juventude e morte: indicadores de (des)legitimação do sistema
penal em Belém/Pará</bold></p>
<p><bold>Jorge Luiz Aragão Silva</bold></p>
<p>Formado em Direito (2009) e Mestre em Segurança Pública (2021) pela
Universidade Federal do Pará. Ocupa o posto de Coronel da Polícia
Militar do Pará, estando comandante do Batalhão de Polícia Rodoviária.
Desenvolve trabalhos e docência voltados à qualidade na gestão de
polícia ostensiva e estratégias de prevenção da violência e da
criminalidade.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Pará
<bold>Cidade:</bold> Belém</p>
<p><bold>Email: afisicavive@gmail.com</bold> <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0001-8454-6585</p>
<p><bold>Marcus Alan de Melo Gomes</bold></p>
<p>Doutor e mestre em Direito (PUC-SP). Pós-doutorado pelo Centro de
Direitos Humanos da Universidade de Coimbra. Professor Associado do
Instituto de Ciências Jurídicas da UFPA. Professor permanente no
Programa de Pós-graduação em Direito e no Programa de Pós-graduação em
Segurança Pública da UFPA. Juiz de Direito.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Pará
<bold>Cidade:</bold> Belém</p>
<p><bold>Email:</bold> marcusalan@ufpa.br <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-3699-5164</p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold></p>
<p><bold>Jorge Luiz Aragão Silva:</bold> desenvolvimento da pesquisa
bibliográfica e documental; redação do texto; realização dos ajustes
metodológicos e de revisão do texto recomendados pelo coautor.
<bold>Marcus Alan de Melo Gomes:</bold> definição dos aspectos
metodológicos do trabalho (problema, referencial teórico, metodologia,
etc); orientação da redação e revisão final do texto.</p>
<p><bold>Resumo</bold></p>
<p>O artigo examina a política pública de segurança no estado do Pará
face ao contexto dos homicídios de jovens em Belém no ano de 2018, à luz
das premissas teóricas críticas da criminologia da libertação. Os
pressupostos que orientam a análise são: a) a seletividade do sistema
penal; b) a deficiência dos mecanismos de controle social; e c) a ênfase
em medidas de repressão. As reflexões partem da pesquisa sobre a
distribuição territorial dos homicídios nos bairros Cabanagem,
Telégrafo, Paracuri e Nazaré; sobre o perfil criminal e socioeconômico
de 26 vítimas jovens (18 a 29 anos); de estudos sobre o perfil criminal
das vítimas de homicídios em Belém; e de análises sobre as ações do
planejamento estadual interagências nas áreas de segurança pública,
saúde e educação; aliados à análise da atuação do policiamento ostensivo
nos quatro bairros. Os resultados alcançados indicam que a incidência
dos homicídios obedeceu a uma lógica de prática punitiva, com
seletividade socioeconômica das vítimas, definindo a concentração dos
casos em áreas periféricas da capital paraense, bem como que o perfil
criminal e socioeconômico das vítimas sinaliza para falha dos mecanismos
locais de controle social, e também que os resultados concretos das
políticas de segurança pública, materializadas nos programas dos Planos
Plurianuais do Estado, refletiram a carência de coordenação
intersetorial entre as políticas públicas de segurança, restando por
evidenciar apenas o reforço de ações repressivas pela polícia ostensiva
nos bairros. Com base nas análises cartográficas e nos indicativos da
criminologia da libertação, verificou-se a oportunidade de
sistematização da metodologia de análise dos homicídios pela cartografia
criminológica para a polícia
ostensiva.<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref></p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Violência Urbana. Crítica Criminológica.
Polícia Militar. Violência Parainstitucional.</p>
<p><bold>Youth and death: indicators of (de)legitimization of the Penal
System in Belém/Pará</bold></p>
<p><bold>Abstract</bold></p>
<p>The article examines the public security policy in the state of Pará
in view of the analysis of homicides in Belém in a period of the year
2018, facing of the critical theoretical premises of Liberation
Criminology. The assumptions on which this analysis is based are: a) the
penal system selectivity; b) the lack of social control mechanisms; c)
the emphasis on the repressive measures. The reflections start from
studies on the territorial distribution of homicides in Belém,
specifically in the neighborhoods of: Cabanagem, Telégrafo, Paracuri,
and Nazaré about a criminal and socioecomonic profile of 26 young
victims aged 18 -29 years old.; study on a criminal profile of homicide
victims in in Belém; also a study of the analyzes of the actions of
state inter-agency planning in the areas of public security, health and
education, coupled with the analysis of the performance of ostensive
policing in the four neighborhoods. The results achieved indicate that
the incidence of homicides followed the logic of a punitive practice,
which has socioeconomic selectivity of the victims, defining the
concentration of cases in peripheral areas of the capital Pará, as well
as the criminal and socioeconomic profile of the victims signals for
failure of local social control mechanisms, also that the concrete
results of public security policies, materialized in the Multiannual
Plan of Pará, reflected of a necessity about cross-sectoral coordination
among public security policies, remaining to show only the reinforcement
of repressive actions by the ostensive police in the neighborhoods.
Based on the cartographic analyzes and indications of liberation
criminology, there was an opportunity to systematize the homicide
analysis methodology by criminological cartography for the ostensive
police.<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref></p>
<p><bold>Keywords:</bold> Urban Violence. Critical Criminology. State
Police. Parainstitutional Violence.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 04/04/2021 – <bold>Data de
Aprovação:</bold> 29/09/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2023.v17.n1.1470</p>
<p><bold>CONSIDERAÇÕES INICIAIS</bold></p>
<p>O sistema penal é uma complexa manifestação de poder social cuja
legitimidade depende do funcionamento racional das agências que o
compõem (ZAFFARONI, 2017). Ele exprime o controle punitivo
institucionalizado que se manifesta desde a ocorrência – ou suspeita de
ocorrência – de um crime até a execução da sentença condenatória.
Segundo Batista (2007, p. 25), o sistema penal é constituído pelas
instituições policial, judiciária e penitenciária, responsáveis pela
operacionalização do direito penal, e que atuam em três estágios
diferentes e sucessivos: a polícia é responsável pela investigação dos
crimes; a justiça pela interpretação e aplicação da lei; e a instituição
penitenciária pela execução das penas aplicadas pelo judiciário.</p>
<p>O sistema penal se manifesta em três dimensões: a dogmática
jurídico-penal, a política criminal e a criminologia. Segundo Aguiar
(2016), a dogmática jurídico-penal constitui o saber da ciência penal
que estabelece critérios para compreensão do fenômeno criminal e
interpretação da lei. A política criminal, por sua vez, deve ser
compreendida como o conjunto de estratégias e mecanismos de controle
social que perpassam o processo de elaboração da norma penal (processo
legislativo) e as ações concretas das agências executivas, sobretudo das
polícias e dos órgãos de justiça (AGUIAR, 2016). E a criminologia é a
ciência que, além de se propor ao estudo do delito, do delinquente e da
delinquência, busca compreender a dinâmica da criminalização (CASTRO,
2015). São por esses processos que as agências policial e judicial
selecionam um reduzido número de pessoas que submetem a sua coação com o
fim de lhes impor uma pena, em regra privativa de liberdade (ZAFFARONI
<italic>et al.</italic>, 2011, p. 43).</p>
<p>Os processos de criminalização se desenvolvem, basicamente, em duas
diferentes fases. Na primeira, designada criminalização primária, dá-se
a criação da lei que incrimina um comportamento e permite, portanto, a
aplicação de uma sanção penal. Essa etapa é cumprida pelas agências
políticas (parlamentos) e dela resulta um programa criminalizante, isto
é, a definição do espaço normativo em que o controle penal será
exercido. Na segunda fase, chamada de criminalização secundária, dá-se a
ação persecutória e punitiva propriamente dita. É quando pessoas são
concretamente submetidas à intervenção coativa da polícia e da justiça
(ZAFFARONI <italic>et al.</italic>, 2011, p. 43).</p>
<p>Da criminalização primária resulta um programa tão vasto, por serem
tantas e tão variadas, em conteúdo, as leis penais, que é praticamente
impossível cumpri-lo em toda a sua extensão. A quantidade de fatos
puníveis é imensamente superior à capacidade das agências policial e
judicial de investigar, processar e punir seus autores. A consequência
mais expressiva dessa disparidade é a seletividade do sistema penal, que
precisa escolher um número suportável de fatos cujos autores serão
punidos para representar, simbolicamente, a eficiência das agências.</p>
<p>A deslegitimação do sistema penal, de sua dinâmica seletiva e de seus
efeitos meramente simbólicos e estigmatizantes tem sido a maior
preocupação da criminologia crítica nos últimos quarenta anos. Castro
(2015) ressalta que o encontro no 23º Curso Internacional de
Criminologia (1974), em Maracaibo, na Venezuela, fez surgir a ideia de
realizar uma pesquisa comparada entre os países latino-americanos,
levando à formação do grupo latino-americano de criminologia comparada
do qual decorreu outro grupo, militante de uma criminologia da
libertação. Partindo do escopo de estudar e defender a necessidade de um
saber criminológico próprio para a realidade latino-americana, esse
grupo passou a elaborar uma teoria crítica do controle social na América
Latina (CASTRO, 2015).</p>
<p>Por controle social entende-se:</p>
<disp-quote>
  <p>o conjunto de sistemas normativos (religião, ética, costumes, usos,
  direito) cujos portadores, através de processos seletivos
  (estereotipia e criminalização) e estratégias de socialização
  (primária e secundária e substitutiva), estabelecem uma rede de
  contenções que garantem a fidelidade (ou, no fracasso dela, a
  submissão) das massas aos valores do sistema de dominação; o que, por
  motivos inerentes aos potenciais tipos de conduta dissonante, se faz
  sobre destinatários sociais diferentemente controlados segundo a
  classe a que pertencem. (CASTRO, 2015, p. 53).</p>
</disp-quote>
<p>A própria Lola Castro figurou como um dos nomes expoentes desse grupo
e registrou as bases teóricas da criminologia da libertação em livro de
igual título, de sua autoria, em 1987.</p>
<p>Esses pesquisadores latinos, inspirados nos trabalhos de Alessandro
Barata sobre a criminologia crítica (ANDRADE, 2012), que compreende o
fenômeno da delinquência a partir do contexto social que envolve a
prática do delito (histórico constituído), mas principalmente das forças
propulsoras que produzem essa realidade (história constituinte),
estudaram alternativas para a América Latina à legitimação de um sistema
penal de desigualdade corroborada pelo papel subalterno que a
criminologia tradicional vinha desempenhando (CASTRO, 2015).</p>
<p>Assim, a criminologia da libertação se apoia na criminologia crítica,
denunciando a deslegitimação do sistema penal, ao passo que traz ao
debate a formação do saber criminológico na América Latina, propondo a
evolução das concepções engendradas à realidade europeia e assimiladas
nas antigas colônias sem considerar as necessidades decorrentes do
processo de formação e desenvolvimento desses povos, para uma nova
leitura das necessidades latentes, com vistas ao enfrentamento mais
coerente dos fenômenos da violência e da criminalidade.</p>
<p>Em seu livro, Castro (2015) discorreu sobre pressupostos que
fundamentam a crítica ao sistema penal diante dos quais a criminologia
da libertação busca alternativas com atuação mais voltada à prevenção
dos delitos do que ao encarceramento em massa. Dentre esses
pressupostos, destaca-se a seletividade do controle penal em relação ao
crime e ao criminoso, a ênfase em medidas de repressão ao delito, a
influência dos meios de comunicação e a deficiência dos mecanismos de
controle social informal (CASTRO, 2015).</p>
<p>Chagas (2014) investigou a lógica de disseminação da criminalidade na
região metropolitana de Belém/Pará, entre 2011 e 2013, analisando a
distribuição da delinquência pelo território urbano da cidade, dividido
em bairros, e constatou que nas áreas periféricas os crimes violentos
eram mais frequentes, enquanto que nas regiões elitizadas econômica e
socialmente prevaleciam os delitos contra o patrimônio. Nesse sentido,
passou a investigar a dinâmica da produção do espaço urbano e de seu
território, das novas territorialidades e o seu impacto na elevação e
distribuição da criminalidade (homicídios) na região metropolitana de
Belém (CHAGAS, 2014).</p>
<p>Em linha convergente de investigação, Vilaça (2016) analisou a
vitimização por homicídios em Belém/PA também no intervalo compreendido
entre 2011 e 2013, com base na identificação do perfil socioeconômico e
criminal das vítimas, visando elucidar a relação entre antecedentes
criminais; práticas criminais recorrentes; e condições de
vulnerabilidade socioeconômica (VILAÇA, 2016).</p>
<p>Trindade (2019) também abordou os homicídios em Belém/PA, mas sob o
enfoque do planejamento das ações do estado a partir dos Planos
Plurianuais do Pará (PPA), com o objetivo de verificar se houve
implementação concreta de ações intersetoriais/transversais por meio dos
programas do PPA nas áreas de segurança pública, saúde e educação que
abrangessem políticas de contenção de homicídios, drogas e evasão
escolar (TRINDADE, 2019).</p>
<p>Assim, utilizando os métodos de análise cartográfica da lógica de
distribuição territorial das vítimas de homicídios em Belém, associada
ao exame estatístico desses perfis e ao levantamento das ações
intersetoriais/transversais do estado por meio dos programas do PPA,
esta pesquisa discute a realidade dos homicídios em Belém/PA, à luz da
criminologia da libertação.</p>
<p>A reflexão aqui proposta parte das seguintes premissas
caracterizadoras do controle penal: a) a seletividade do sistema penal;
b) a deficiência dos mecanismos de controle social; e 3) a ênfase em
medidas de repressão ao delito. Neste sentido, com o objetivo de
confirmar a verificação dessas três premissas, foram aplicadas as
metodologias desenvolvidas por Chagas (2014), Vilaça (2016) e Trindade
(2019).</p>
<p>Inicialmente, para investigar a premissa da seletividade do sistema
penal, foi realizada a análise cartográfica da difusão espacial dos
homicídios em Belém no ano de 2018, seguindo o método de Chagas (2014).
Já a premissa da deficiência dos mecanismos de controle social foi
investigada a partir dos perfis criminais e socioeconômicos das vítimas
de homicídios, conforme método de Vilaça (2016). Por fim, a verificação
da premissa de ênfase em medidas de repressão ao delito foi feita a
partir dos Planos Plurianuais do Pará no tocante à
intersetorialidade/transversalidade das políticas públicas relacionadas
à prevenção do homicídio, com base em Trindade (2019).</p>
<p><bold>A seletividade nos homicídios em Belém</bold></p>
<p>Conforme firmado por Castro (2015), a criminologia da libertação
denuncia a seletividade como característica deslegitimante do sistema
penal, que inicia na criminalização de determinadas condutas pela
atividade legislativa que valora as infrações penais conforme interesses
classistas e vai avançando com a aplicação da função punitiva do Estado
pelas instâncias de controle, que exercitam critérios de escolha dos
sujeitos que serão alvo desse poder punitivo.</p>
<p>Contudo, corroborando com Morais (2016), verifica-se que na dinâmica
do espaço, outros agentes territoriais também passam a exercitar o poder
punitivo, tais como as empresas de segurança, o tráfico de drogas, os
parapoliciais (milícias), os capatazes, etc. Esses atores vão se
apropriar da seletividade para exercer seu poder no território, diante
do qual muitas vezes o sistema penal mostra certa complacência.</p>
<p>Outro aspecto apontado pela criminologia é que o controle social
realizado pelas organizações comunitárias vem sendo enfraquecido,
resultando com ênfase cada vez maior nas ações repressivas das agências
do sistema penal (ZAFFARONI, 2017).</p>
<p>Torna-se aqui fundamental para o desenvolvimento deste estudo
compreender o homicídio não apenas enquanto evento desviante, mas também
como expressão de uma função punitiva, exercida dentro do território
estabelecido nos bairros de Belém/PA. Daí a necessidade de se entender
melhor a dinâmica de distribuição de poderes no território, onde o
Estado também os exerce, porém não os monopoliza.</p>
<p>O processo acelerado de urbanização no Pará, notadamente a partir dos
anos 60, culminou na intensificação da migração inter-regional, fazendo
com que cidades como Marabá, Parauapebas e as da área metropolitana da
capital emergissem como cidades com altos índices de violência e
criminalidade (CHAGAS, 2014). Ainda segundo Chagas, a dinâmica de
acelerado crescimento urbano empurrou populações mais pobres para os
espaços periféricos, acentuando a precariedade de infraestrutura,
moradia e indicadores sociais, o que o levou a analisar a criminalidade
a partir do processo de reprodução do espaço urbano, com destaque para a
periferização.</p>
<p>Considerando essa produção diferenciada do espaço em Belém, para
análise da incidência dos homicídios em 2018, foram selecionados os
bairros: Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, como representantes de
quatro categorias de bairros a partir dos índices de homicídios na série
histórica de 2012 a 2019. Nessa classificação, o bairro Cabanagem
representa o Grupo 1, com os bairros na faixa acima de 200 homicídios na
série histórica. Telégrafo representa o Grupo 2, com os bairros que
registraram de 101 a 200 homicídios. Paracuri representa o Grupo 3, com
os bairros que registraram de 51 a 100 eventos na série. Nazaré
representa o Grupo 4, com os bairros que apresentaram de 11 a 50
eventos. Os bairros com índices inferiores a 11 homicídios na série
foram excluídos da análise por constituírem bairros de distritos do
município de Belém, em virtude da localização geográfica e da baixa
população, e por apresentarem dinâmica muito distinta dos demais.</p>
<p><bold>Tabela 1: Caracterização da incidência de homicídios nos
bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, na série histórica de
2012 a 2019</bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="16%" />
      <col width="14%" />
      <col width="18%" />
      <col width="16%" />
      <col width="19%" />
      <col width="16%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td><bold>Bairros</bold></td>
        <td><bold>População</bold></td>
        <td><p><bold>Faixa de homicídios do Grupo</bold></p>
        <p><bold>2012 a 2019</bold></p></td>
        <td><p><bold>Número de homicídios na série</bold></p>
        <p><bold>2012 a 2019</bold></p></td>
        <td><p><bold>Taxa média de homicídios por 10mil hab.</bold></p>
        <p><bold>2012 a 2019</bold></p></td>
        <td><bold>Número de registros de homicídios 2018</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Cabanagem</bold></td>
        <td>27.781</td>
        <td>Acima de 200</td>
        <td>326</td>
        <td>14,67</td>
        <td>32</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Telégrafo sem Fio</bold></td>
        <td>42.953</td>
        <td>De 101 a 200</td>
        <td>183</td>
        <td>5,33</td>
        <td>20</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Paracuri</bold></td>
        <td>9.934</td>
        <td>De 51 a 100</td>
        <td>70</td>
        <td>8,81</td>
        <td>2</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Nazaré</bold></td>
        <td>20.504</td>
        <td>De 11 a 50</td>
        <td>14</td>
        <td>0,85</td>
        <td>3</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p>Fonte: Elaboração dos autores a partir de dados do IBGE (2010) e da
SIAC (2021) .</p>
<p>A partir dos dados da SIAC de 57 homicídios em 2018, cruzados com
dados da Perícia Científica e da Polícia Civil, verificou-se que os
quatro bairros apresentaram juntos 52 registros, dos quais 26 foram de
jovens na faixa de 18 a 29 anos. Conforme o método de Chagas (2014), o
conceito de aglomerados subnormais, aliado à distribuição dos homicídios
nos bairros, ajuda a compreender alguns aspectos dessa dinâmica em
Belém.</p>
<p>Os aglomerados subnormais (AGSN) são um conceito utilizado pelo
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) desde 1991, o
qual, segundo Borges (2017), busca apresentar uma leitura sobre as
desigualdades no país, especialmente relacionadas à habitação, e
compreendidos como:</p>
<disp-quote>
  <p>Um conjunto constituído de, no mínimo, 51 unidades habitacionais
  (barracos, casas etc.) carentes, em sua maioria de serviços públicos
  essenciais, ocupando ou tendo ocupado, até período recente, terreno de
  propriedade alheia (pública ou particular) e estando dispostas, em
  geral, de forma desordenada e densa. A identificação dos aglomerados
  subnormais deve ser feita com base nos seguintes critérios: a)
  Ocupação ilegal da terra, ou seja, construção em terrenos de
  propriedade alheia (pública ou particular) no momento atual ou em
  período recente (obtenção do título de propriedade do terreno há 10
  anos ou menos); e b) Possuírem pelo menos uma das seguintes
  características: urbanização fora dos padrões vigentes – refletido por
  vias de circulação estreitas e de alinhamento irregular, lotes de
  tamanhos e formas desiguais e construções não regularizadas por órgãos
  públicos; ou precariedade de serviços públicos essenciais (IBGE,
  2011).</p>
</disp-quote>
<p><bold>Figura 1: Mapa da localização dos bairros Cabanagem, Telégrafo,
Paracuri e Nazaré, e seus aglomerados subnormais, 2020</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image1.png" />
<p>Fonte: Elaboração dos Autores (2021), a partir de dados do IBGE
(2010) e do Observatório da Violência GEOCAM (2021).</p>
<p>Na Figura 1, as áreas sombreadas nos mapas mostram os aglomerados
subnormais dos bairros, verificando-se que Cabanagem apresenta sua área
com 100% de AGSN, denotando um perfil de precarização das condições de
vida no bairro. No Telégrafo, com 60% de AGSN, é possível verificar um
importante fenômeno da consolidação do espaço urbano que é o
deslocamento das áreas de AGSN acompanhando a linha de expansão da 1ª
légua territorial de Belém. Paracuri, com 70% de AGSN, também reflete a
precarização das condições do bairro; e Nazaré, sem registro de AGSN,
evidencia um processo de consolidação do espaço urbano mais antigo.</p>
<p><bold>Figura 2: Mapa de localização dos aglomerados subnormais e dos
homicídios nos bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré,
2018</bold></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="png" xlink:href="media/image2.png" />
<p>Fonte: Elaboração dos Autores (2021), a partir de dados do IBGE
(2010); do PCE (2020); da SIAC (2021); e do Observatório da Violência
GEOCAM (2021).</p>
<p>Na Figura 2, as manchas de calor nos mapas representam a concentração
dos homicídios de jovens nos bairros. Verifica-se que no bairro
Cabanagem, que possui 100% de AGSN, todos os homicídios estão em área de
aglomerados. Já no Telégrafo, que possui 60% de AGSN, praticamente todos
os homicídios registrados em 2018 estão em área de aglomerados. No
Paracuri, com 75% de AGSN, não houve identificação precisa da
localização dos homicídios em 2018. No bairro Nazaré, que não possui
registro de AGSN, não houve registro de homicídios na faixa etária de 18
a 29 anos em 2018.</p>
<p>A análise de Chagas (2014) ajuda a perceber que a lógica de ocupação
do espaço em Belém, com a formação de aglomerados subnormais que reúnem
largas zonas de exclusão social, coincidiu com as áreas de concentração
dos maiores índices de homicídios na cidade no período de 2011 a 2013.
Essa conclusão também se verificou na distribuição dos homicídios nos
bairros em 2018, onde Cabanagem, que possui 100% de sua área constituída
por aglomerados subnormais, apresentou as maiores taxas de homicídios na
série histórica, em contraponto a Nazaré, que não registra aglomerados e
apresentou uma das menores taxas de homicídios da capital, sem registros
de vítimas jovens em 2018.</p>
<p>Telégrafo também ilustrou bem a verificação do método, visto que os
homicídios de 2018 apresentaram distribuição quase total dentro das
áreas de aglomerados do bairro.</p>
<p>Paracuri possui uma área de aglomerados quase de 75%, onde foi
localizado seu único homicídio registrado em 2018. O bairro apresentou
índices e comportamento semelhantes aos demais do Grupo 3 e, de 2017
para 2018, apresentou queda de 11 para 2 registros na base da Secretaria
Adjunta de Inteligência e Análise Criminal (SIAC), sendo que apenas um
registro foi confirmado nesta pesquisa, mas não de pessoa jovem (18 a 29
anos).</p>
<p>Borges (2017) defende que as disparidades do mercado imobiliário
intensificam as desigualdades socioespaciais e interferem nas políticas
públicas de habitação. Segundo esse autor, tais políticas públicas
acabam por priorizar o lucro e atendem mais aos interesses do capital
imobiliário privado do que às demandas sociais, o que leva pessoas em
situação de vulnerabilidade econômica e social a se instalarem em áreas
clandestinas, em espaços precários, que vão constituir as “periferias”
das cidades.</p>
<p>Nesse sentido, o processo de periferização, com a formação dessas
grandes zonas de exclusão, obedece a uma lógica de desenvolvimento dos
grandes centros urbanos, que tem por fundamento um sentido econômico de
ocupação do espaço como estratégia de desenvolvimento urbano do
território.</p>
<p>Da mesma forma como identificado na pesquisa de Chagas (2014), os
homicídios em Belém no ano de 2018 se concentraram nas áreas de
aglomerados subnormais nos bairros pesquisados. E é exatamente nesses
espaços organizados segundo a lógica econômica de urbanização da cidade
que as vítimas são encontradas e apresentam perfis socioeconômicos
semelhantes.</p>
<p>Esses fatores não condicionam o comportamento dos moradores nas áreas
periféricas, mas refletem as condições em que vivem. As restrições de
acesso a moradias mais condignas, com melhores condições estruturais e
serviços públicos refletem a menor presença do Estado e favorece o
exercício de outros poderes punitivos territoriais.</p>
<p>Isso poderia explicar a concentração dos homicídios de jovens nesses
bairros, visto que a propensão de condutas desviantes por parte da
juventude, independentemente do local de residência, é mais esperada do
que em adultos, em razão do menor convívio daqueles com o sistema de
regras e instâncias de controle social.</p>
<p>Na base de dados da SIAC sobre os homicídios nos quatro bairros
pesquisados em 2018, 96% dos homicídios de jovens (18 a 29 anos)
apresentaram características de execução, com suspeitos encapuzados, em
grupos pequenos, abordagens rápidas às vítimas, evadindo-se sem subtrair
pertences, etc.</p>
<p>Quanto ao perfil criminal das vítimas de homicídios em Belém,
verificou-se uma sugestiva relação com os antecedentes criminais
positivos em 50% delas (Tabela 2), ressaltando-se que esse percentual,
segundo Vilaça (2016), pode ser subnotificado por limitação operacional
da polícia diante da demanda cotidiana, falha nos atendimentos,
descrença e medo. Assim, a verificação de que 50% das vítimas de
homicídios apresentaram antecedentes positivos permite suscitar que as
mortes, em sua maioria revestida de características de execução, tenham
relação com esse histórico de antecedentes criminais das vítimas,
considerando a estigmatização pelo que praticaram ou pela ameaça
potencial de virem a praticar.</p>
<p>Considerando as características de execução e a potencial relação com
o estigma desviante, os homicídios em Belém podem deixar de representar
apenas um fenômeno violento para expressar uma função punitiva,
perpetrada por meio da seleção de vítimas estigmatizadas (MORAIS, 2016)
e pela ação de um sistema penal subterrâneo, conforme alertava Zaffaroni
(2017).</p>
<p>Por essa análise, mais de 96% dos homicídios havidos de jovens nos
bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré em 2018 apresentam
características de seletividade de suas vítimas, visto que os fatores de
ocupação do espaço urbano, que são forte expressão de uma lógica de
expansão do mercado imobiliário, da exclusão social e da perda do
direito à cidade, contribuem para a concentração de sujeitos
estigmatizados pela atuação das agências do sistema penal em áreas com
menor presença do Estado, dinâmica que confirma o primeiro pressuposto
de orientação da presente análise, qual seja, a presença da seletividade
do sistema penal nos homicídios em Belém/PA, em 2018.</p>
<p><bold>O controle social e o perfil das vítimas de
homicídios</bold></p>
<p>Com base no método de Vilaça (2016), foi realizada a análise dos
perfis das vítimas jovens de homicídios ocorridos em 2018, nos bairros
Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré. Segundo Vilaça (2016), os
antecedentes deveriam corresponder apenas às condenações em 1º grau por
infração penal de mesma natureza. Nada obstante, será aplicado aqui um
critério mais amplo, que abrange também os registros policiais
referentes à prática de infrações penais, ainda que distintas.</p>
<p>O objetivo desse elastecimento atende aos objetivos desta pesquisa em
buscar apreender um pouco da dinâmica social que envolve as vítimas,
visto que os registros policiais passam a efetivar a estigmatização
denunciada pela criminologia crítica, notadamente pela categoria do
<italic>labelling approach</italic>, segundo a qual o indivíduo passa a
ser reconhecido pelas agências do sistema penal a partir de um rótulo
atribuído pelos processos de criminalização.</p>
<p>A população foi constituída por cadáveres de vítimas de homicídio com
idade de 18 (dezoito) a 29 (vinte e nove) anos, submetidos à necropsia
em 2018 no Instituto Médico Legal do Centro de Perícias Científicas
Renato Chaves, constituída de 26 casos de óbitos registrados em
Belém/PA.</p>
<p>Ao analisar os dados socioeconômicos de jovens vítimas de homicídios
nos bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, em 2018, no que se
refere à escolaridade, a Tabela 2 revela que a maioria das vítimas tinha
Ensino Fundamental incompleto, com 57,69% dos registros; seguidas
daquelas que possuíam Ensino Médio completo, com 23,08%; e Ensino Médio
incompleto, com 15,38%.</p>
<p>Vilaça (2016) esclarece que os dados a respeito da escolaridade da
população paraense evidenciam que mais da metade (56,40%) daqueles que
possuíam 25 anos ou mais não concluíram o Ensino Fundamental, enquanto
que apenas 6,20% tinham escolaridade superior completa (IBGE, 2010).</p>
<p>Ao verificar a evolução dos crimes de homicídio na Região
Metropolitana de Belém, entre os anos de 2010 a 2017, Trindade (2019)
constatou que o acúmulo de vulnerabilidades sociais possuía relação
direta com o crime, impactando na qualidade de vida da população, sendo,
portanto, fator de risco que podia influenciar na ocorrência dos
homicídios.</p>
<p>Diante das considerações relativas à escolaridade das vítimas,
depreende-se que educação é um importante instrumento ao estabelecimento
do processo de socialização do indivíduo. Portanto, a limitação ao
acesso e à permanência escolar de um dado sujeito pode ser “um fator
determinante para um defeituoso condicionamento do seu processo de
socialização”, podendo também interferir no seu processo de
desenvolvimento moral e cognitivo (GUIMARÃES; BARAÚNA; SILVA, 2015, p.
185 apud VILAÇA, 2016).</p>
<p><bold>Tabela 2: Percentual de jovens vítimas de homicídios ocorridos
nos bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, no município de
Belém, em 2018, por sexo, raça/cor, estado civil, grau de escolaridade,
bairro de residência, caracterização preliminar do homicídio e
antecedentes criminais</bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="28%" />
      <col width="46%" />
      <col width="26%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td><bold>Variável</bold></td>
        <td><bold>Categoria</bold></td>
        <td><bold>Percentual</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Sexo</td>
        <td>Masculino</td>
        <td>100,00</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Cor/Raça</td>
        <td>Parda</td>
        <td>100,00</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="2">Estado Civil</td>
        <td>Solteiro</td>
        <td>92,31</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>União estável</td>
        <td>7,69</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="4">Grau de Escolaridade</td>
        <td>S.E.</td>
        <td>3,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>E.F.I. (I e II)</td>
        <td>57,69</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>E.M.I.</td>
        <td>15,38</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>E.M.C.</td>
        <td>23,08</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="8">Bairro de Residência</td>
        <td>Cabanagem</td>
        <td>53,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Pedreira</td>
        <td>15,38</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Telégrafo</td>
        <td>11,54</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Sacramenta</td>
        <td>3,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Barreiro</td>
        <td>3,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Coqueiro</td>
        <td>3,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Jaderlândia</td>
        <td>3,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Levilândia</td>
        <td>3,85</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Caracterização preliminar do homicídio</td>
        <td><p>Características de execução</p>
        <p>Violência doméstica</p></td>
        <td><p>96,15</p>
        <p>3,85</p></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Antecedentes criminais</td>
        <td><p>SIM</p>
        <p>NÃO</p></td>
        <td><p>50,00</p>
        <p>50,00</p></td>
      </tr>
      <tr>
        <td colspan="3">Nota: S.E.: Sem Escolaridade; E.F.I.: Ensino
        Fundamental Incompleto; E.M.I.: Ensino Médio Incompleto; E.M.C.:
        Ensino Médio Completo.</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p>Fonte: Elaboração dos autores (2021) a partir de dados do PCE (2020),
da SIAC (2021) e da PCPA (2021).</p>
<p>Na Tabela 2, dos 26 homicídios de jovens nos quatro bairros em 2018,
verifica-se que: 1) 57,69% das vítimas jovens apresentava nível de
escolaridade com Ensino Fundamental e 38,46% apresentava Ensino Médio
completo e incompleto, o que representa que a grande maioria teve
contato com a escola (96,33%), corroborando com as conclusões de Vilaça
(2016) de que considerável percentual das vítimas de homicídio
evidenciou contato mais prolongado com a escola; 2) 96,15% dos registros
apresentam como descrição do fato características de execução, com
suspeitos encapuzados, grupos pequenos, abordagens rápidas, fuga sem
subtrair pertences, etc., o que corrobora com Morais (2016), de que os
homicídios de jovens se apresentam como expressão de uma função
punitiva; e 3) 50% das vítimas apresentaram antecedentes criminais
positivos, sendo os delitos mais recorrentes roubo e envolvimento com
drogas (tráfico e consumo).</p>
<p>Quanto ao perfil socioeconômico dessas vítimas jovens de homicídios
em 2018, os dados corroboram com o perfil identificado por Vilaça
(2016), de predominância do sexo masculino, raça parda, estado civil
solteiro e nível de escolarização fundamental (I e II).</p>
<p>Quanto ao perfil criminal, o resultado de 50% de antecedentes
positivos desta pesquisa coincide com os 52% de Vilaça (2016), cabendo
revisitar a assertiva dessa autora de que os números de antecedentes
registrados podem não traduzir a realidade, visto a subnotificação por
limitação operacional da polícia diante da demanda cotidiana, como
também em razão da falha nos atendimentos, descrença, desinteresse ou
medo.</p>
<p>Assim, a verificação de 50% de antecedentes positivos entre as
vítimas jovens de homicídios, aliada às características e execução
desses eventos em 2018 (96%), permite suscitar uma relação entre as
mortes e o histórico de antecedentes criminais das vítimas, considerando
a estigmatização promovida pelo sistema penal.</p>
<p>Para a criminologia da libertação, a escola tem um importante papel
no controle social preliminar, por promover a “emissão de mensagens que
devem ser aprendidas, às quais se retorna diversas vezes para memorizar”
(CASTRO, 2015, p. 155).</p>
<p>Assim, a maioria das vítimas de homicídios aqui consideradas teve
contato com as estruturas de controle social, escola e sistema prisional
que, segundo Castro (2015), constituem, respectivamente, ambientes de
socialização primária, ao estabelecerem padrões de comportamento para a
adequação aos valores e às normas definidas socialmente, e de
socialização secundária, encarregada da repressão e tratamento das
condutas desviantes.</p>
<p>Tendo em vista que 96% das mortes apresentaram características de
execução sobre considerável percentual de 50% das vítimas com
antecedentes positivos, percentual este que pode ser ainda maior, os
homicídios demostram relação significativa com o perfil criminal das
vítimas. Assim, o processo de socialização preconizado pelo sistema
penal pode ser percebido tanto pelo tradicional efeito de adequação ou
readequação de condutas; mas neste caso, de forma bem particular, como
mecanismo de prevenção dos próprios homicídios desses jovens,
considerando que o histórico criminal parece estar impulsionando as
execuções.</p>
<p>Assim, os dados da escolarização dos 26 jovens vítimas de homicídios
em 2018 com o perfil de antecedentes criminais confirmam o 2º
pressuposto teórico considerado nesta pesquisa: os instrumentos de
controle social não tiveram efetividade em relação aos homicídios em
Belém/PA.</p>
<p>Cabe destacar que Castro (2015) reconhece que essa discussão não se
limita apenas à qualidade do ensino ou às condições materiais da escola
que, segundo ela, são precárias em seu país. A autora ressalta que “a
desnutrição e as condições sociais em geral (estímulo, meio ambiente,
saúde, etc.) determinam diferenças de desenvolvimento mental e de
linguagem e são causa de fracasso e evasão escolar” (CASTRO, 2015, p.
160), reforçando a percepção de Vilaça (2016) e de Chagas (2014) quanto
à necessária análise do fenômeno a partir de elementos socioeconômicos e
estruturais presentes na realidade das vítimas.</p>
<p><bold>As respostas do sistema</bold></p>
<p><bold>As Ações Intersetoriais</bold></p>
<p>Examinando a evolução dos homicídios na Região Metropolitana de Belém
no período de 2000 a 2017, Trindade (2019) traçou o objetivo de
averiguar se havia implementação prática de ações
intersetoriais/transversais por meio dos programas do Plano Plurianual
(PPA) nas áreas de segurança pública, saúde e educação no Pará. A autora
investigou os três últimos ciclos dos Planos Plurianuais (PPAs), de 2008
a 2019 – PPA 2008-2011; PPA 2012-2015; PPA 2016-2019 –, analisando as
diretrizes e estratégias do estado do Pará na saúde, na educação e na
segurança pública, para observar a incorporação da intersetorialidade
nos programas de enfrentamento de homicídios, drogas e evasão escolar no
Ensino Médio, visto que o PPA é um dos principais instrumentos da gestão
das políticas públicas, instituído pela CF de 1988, estabelecendo ações
governamentais por quadriênios (TRINDADE, 2019).</p>
<p>Considerando o objetivo específico desta pesquisa de analisar o
pressuposto da criminologia da libertação de ênfase do sistema penal em
ações repressivas diante dos homicídios em Belém/PA em 2018, procedeu-se
apenas à análise do último ciclo do PPA estudado pela autora (PPA
2016-2019) com recorte em 2018; para fins de ilustração do trabalho de
análise comparativa realizado no referido estudo, foram resumidas as
considerações sobre os programas afeitos ao presente escopo, ao longo
desse último ciclo.</p>
<p><bold>Quadro 1: Avaliação de Programas Plurianuais (PPA-PARÁ) –
Quadriênio 2016-201</bold>9</p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="14%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="13%" />
      <col width="12%" />
      <col width="17%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td colspan="8"><bold>PPA 2016-2019</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>ÁREA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Segurança Pública e Defesa
        Social</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>DIMENSÃO</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Inclusão Social</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>PROGRAMA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Segurança Pública</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>OBJETIVO</bold></td>
        <td colspan="7">Reduzir a violência e a criminalidade</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="2"><bold>Indicadores</bold></td>
        <td colspan="4"><bold>META</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Resultados</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Executores</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Observação</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de Identificação de Autoria de Procedimento (TIAP)
        Homicídio</td>
        <td>24,0 (prevista)/ 26,10 (realizada)</td>
        <td>27,0 (prevista)/ 24,0 (realizada)</td>
        <td>30,0 (prevista)/ 38,0 (realizada)</td>
        <td>33,0 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>Atingiu a metas nos anos de 2016 e 2018</td>
        <td>PC, SUSIPE, DETRAN</td>
        <td>Demais órgãos do SIEDS como a PM e o CBM e não possuem
        indicadores, apenas ações no programa.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>ÁREA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Direitos Humanos</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>DIMENSÃO</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Proteção e Desenvolvimento
        Social</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>PROGRAMA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Cidadania e Direitos Humanos</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>OBJETIVO</bold></td>
        <td colspan="7">Promover os direitos humanos</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="2"><bold>Indicadores</bold></td>
        <td colspan="4"><bold>META</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Resultados</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Executores</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Observação</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Incremento do número de pessoas atendidas em ações de
        cultura de paz</td>
        <td>10,0 (prevista)/ 20,75 (realizada)</td>
        <td>10,0 (prevista)/ -13,0 (realizada)</td>
        <td>10,0 (prevista)/ 38,80 (realizada)</td>
        <td>10,0 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>Atingiu a metas nos anos de 2016 e 2018</td>
        <td>Fundação Pró-Paz, SEJUDH, SUSIPE, PM e PC</td>
        <td>A avaliação destaca a necessidade de ações integradas, maior
        articulação com outras políticas sociais e setoriais e análise
        conjunta deste programa com o de outras áreas.</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p>Continua.</p>
<p><bold>Cont. Quadro 1</bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="14%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="13%" />
      <col width="12%" />
      <col width="17%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td><bold>Indicadores</bold></td>
        <td colspan="4"><bold>META</bold></td>
        <td><bold>Resultados</bold></td>
        <td><bold>Executores</bold></td>
        <td><bold>Observação</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td></td>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
        <td></td>
        <td></td>
        <td></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Índice de Reincidência dos Egressos da Fábrica
        Esperança</td>
        <td><p>1,4</p>
        <p>(prevista)/ 0,49 (realizada)</p></td>
        <td><p>1,3</p>
        <p>(prevista)/ - 1,94 (realizada)</p></td>
        <td><p>1,0</p>
        <p>(prevista)/ 2,19 (realizada)</p></td>
        <td><p>0,5</p>
        <p>(prevista)/ NA (realizada)</p></td>
        <td>Ficou abaixo da meta em 2016 e 2017</td>
        <td rowspan="4">Fundação Pró-Paz, SEJUDH, SUSIPE, PM e PC</td>
        <td rowspan="4">Em 2017 o indicador foi substituído por
        Percentual de Migrantes identificados e atendidos pela REDE, o
        qual não atingiu a meta prevista. Descontinuidade de aferição
        dos indicadores. Somente Pró-Paz, SUSIPE e SEJUDH figuram com
        indicadores, os demais somente com ações.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Percentual de pessoas em situação de tráfico e trabalho
        escravo identificado e atendido na rede</td>
        <td>40,0 (prevista)/ 36,4 (realizada)</td>
        <td><p>60,0 (prevista)/</p>
        <p>-9,5 (realizada)</p></td>
        <td>-</td>
        <td>-</td>
        <td rowspan="3">Abaixo do esperado na Região Guajará</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Percentual de Migrantes identificados e atendidos pela
        rede</td>
        <td>-</td>
        <td>-</td>
        <td>60,0 (prevista)/ 51,85 (realizada)</td>
        <td>80,0 (prevista)/ NA (realizada)</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de Cobertura das Ações de Capacitação dos Profissionais
        da Rede de Atenção aos Usuários de Drogas</td>
        <td>100,0 (prevista)/ 40,0 (realizada)</td>
        <td>Não previsto (prevista)/ 100,0 (realizada)</td>
        <td>Não previsto (prevista)/ 20,0 (realizada)</td>
        <td>Não prevista/ NA (realizada)</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="14%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="13%" />
      <col width="12%" />
      <col width="17%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td><bold>ÁREA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Promoção Social</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>DIMENSÃO</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Educação Básica</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>PROGRAMA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Proteção e Desenvolvimento
        Social</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>OBJETIVO</bold></td>
        <td colspan="7">Fortalecer a implementação de políticas públicas
        voltadas à redução do analfabetismo e à universalização da
        educação infantil em cooperação com os entes federados</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="2"><bold>Indicadores</bold></td>
        <td colspan="4"><bold>META</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Resultados</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Executores</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Observação</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de reprovação do Ensino Fundamental</td>
        <td>21,3 (prevista)/ 14,43 (realizada)</td>
        <td>18,9 (prevista)/ 14,53 (realizada)</td>
        <td>17,7 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>16,6 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>Houve melhoria de desempenho do indicador nos anos de 2016 e
        2017</td>
        <td>SEDUC</td>
        <td>O programa contou com parceria público-privada, para
        atingimento de seu objetivo setorial. 73% dos recursos foram
        aplicados na RMB e 39% das matrículas do estado na RMB.</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p>Continua.</p>
<p><bold>Cont. Quadro 1</bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="14%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="11%" />
      <col width="13%" />
      <col width="12%" />
      <col width="17%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td><bold>Indicadores</bold></td>
        <td colspan="4"><bold>META</bold></td>
        <td><bold>Resultados</bold></td>
        <td><bold>Executores</bold></td>
        <td><bold>Observação</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td></td>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
        <td></td>
        <td></td>
        <td></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de reprovação do Ensino Médio</td>
        <td>53,7 (prevista)/ 15,5 (realizada)</td>
        <td>47,7 (prevista)/ 16,83 (realizada)</td>
        <td>44,07 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td><p>41,7 (prevista)/ NA</p>
        <p>(realizada</p></td>
        <td>Houve melhoria de desempenho do indicador nos anos de 2016 e
        2017</td>
        <td rowspan="3">SEDUC</td>
        <td rowspan="3">O programa contou com parceria público-privada,
        para atingimento de seu objetivo setorial. 73% dos recursos
        foram aplicados na RMB e 39% das matrículas do estado na
        RMB.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de abandono do Ensino Fundamental</td>
        <td><p>7,4</p>
        <p>(prevista)/</p>
        <p>6,8</p>
        <p>(realizada)</p></td>
        <td><p>6,8</p>
        <p>(prevista)/ 4,32 (realizada)</p></td>
        <td><p>6,0</p>
        <p>(prevista)/ NA (realizada)</p></td>
        <td><p>5,6</p>
        <p>(prevista)/ NA (realizada)</p></td>
        <td>Houve melhoria de desempenho do indicador nos anos de 2016 e
        2017</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de abandono no Ensino Médio</td>
        <td>17,9 (prevista)/ 14,1 2 (realizada)</td>
        <td>16,4 (prevista)/ 11,85 (realizada)</td>
        <td>15,1 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>14,3 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>Houve melhoria de desempenho do indicador nos anos de 2016 e
        2017</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>ÁREA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Assistência Social</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>DIMENSÃO</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Desenvolvimento Econômico e Meio
        Ambiente</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>PROGRAMA</bold></td>
        <td colspan="7"><bold>Trabalho, Emprego e Renda</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>OBJETIVO</bold></td>
        <td colspan="7">Fomentar a economia solidária e o
        empreendedorismo</td>
      </tr>
      <tr>
        <td rowspan="2"><bold>Indicadores</bold></td>
        <td colspan="4"><bold>META</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Resultados</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Executores</bold></td>
        <td rowspan="2"><bold>Observação</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Incremento do emprego formal de jovens de 18 a 29 anos</td>
        <td>0,3 (prevista)/ -8,60 (realizada)</td>
        <td>0,5 (prevista)/ 0,91 (realizada)</td>
        <td>0,7 (prevista)/ -4,38 (realizada)</td>
        <td>10,0 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>Alcançou a meta apenas no ano de 2017</td>
        <td>SEASTER</td>
        <td rowspan="3">Jovens são os mais atingidos pelos piores
        índices de desemprego, de evasão escolar, de falta de formação
        profissional, mortes por homicídio, envolvimento com drogas e
        com a criminalidade. Necessário integrar programas e ações
        voltadas à promoção e inserção social dos jovens por meio do
        trabalho.</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Indicadores</bold></td>
        <td><bold>2016</bold></td>
        <td><bold>2017</bold></td>
        <td><bold>2018</bold></td>
        <td><bold>2019</bold></td>
        <td><bold>Resultados</bold></td>
        <td><bold>Executores</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>Taxa de Aproveitamento dos Trabalhadores encaminhados ao
        mercado de trabalho</td>
        <td><p>12</p>
        <p>(prevista)/</p>
        <p>20 (realizada)</p></td>
        <td>17 (prevista)/ 15,9 (realizada)</td>
        <td>22,0 (prevista)/ 12,30 (realizada)</td>
        <td>27,0 (prevista)/ NA (realizada)</td>
        <td>Baixa execução das metas do programa. Somente em 2016
        alcançou a meta</td>
        <td></td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p><bold>Fonte</bold>: Trindade (2019).</p>
<disp-quote>
  <p>Inicialmente, verifica-se que o PPA 2016-2019 (PARÁ, 2016)
  estabeleceu quatro dimensões em programas temáticos, tendo indicadores
  de processo e de resultado. Segundo Trindade (2019), objetivou a
  redução da pobreza e da desigualdade, contudo, esse PPA não adotou as
  políticas transversais enquanto diretriz.</p>
</disp-quote>
<p>Dentro do escopo da pesquisa, de investigar a transversalidade de
políticas públicas relacionadas à evasão escolar no Ensino Médio,
tráfico de drogas e homicídios, políticas que, segundo a metodologia de
Trindade (2019), caracterizariam a intersetorialidade de ações entre as
áreas da educação (redução da evasão escolar no Ensino Médio), da saúde
(combate ao tráfico de drogas – tratamento de dependentes) e da
segurança pública (enfrentamento aos homicídios), foram destacados 4
(quatro) Programas, abrangidos na dimensão Inclusão Social, sendo o da
área da Educação classificado como Promoção Social, o da área de
Segurança Pública como Segurança Pública e Defesa Social, o programa
Cidadania e Direitos Humanos, na Dimensão Proteção e Desenvolvimento
Social, e o programa Trabalho, Emprego e Renda, na Dimensão
Desenvolvimento Econômico e Meio Ambiente. O Programa Cidadania e
Direitos Humanos contemplou ações intersetoriais.</p>
<p>Quanto à análise da dimensão <italic>Proteção e Desenvolvimento
Social</italic>, o programa Cidadania e Direitos Humanos teve quatro
indicadores. Em que pese a previsão de execução pelos órgãos Fundação
Pró-Paz, SEJUDH, SUSIPE, PM e PC, as ações do programa ficaram
praticamente restritas à SEJUDH e às polícias, sem ações do Programa
Pró-Paz. E, pela saúde, o indicador de Taxa de Cobertura de Ações de
Capacitação dos Profissionais da Rede de Atenção aos Usuários de Drogas
não apresentou metas no período de 2017 a 2019, não tendo sido avaliado
o desempenho desse indicador. Trindade (2019) enfatiza que houve a
ampliação da compartimentação de ações, resultando em políticas
fragmentadas, que deveriam ser de mútuo reforço por parte das
secretarias.</p>
<p>Outro aspecto ressaltado por Trindade (2019) foi a falta de definição
de público-alvo na quase totalidade dos objetivos. Essa ausência leva à
deficiência na aferição dos impactos dos resultados pretendidos,
notadamente quando se parte de indicadores claros quanto à
vulnerabilidade da população juvenil na faixa etária de 18 a 29 anos,
conforme reafirmado em vários estudos quanto ao perfil das vítimas de
homicídios (SILVEIRA JÚNIOR, 2013; CHAGAS, 2014; TRINDADE, 2019; entre
outros), apontando a população masculina jovem como predominante na
principal faixa dessa incidência, por exemplo.</p>
<p>Quanto à análise da dimensão <italic>Desenvolvimento Econômico e Meio
Ambiente</italic>, o programa Trabalho, Emprego e Renda, com dois
indicadores, foi executado somente pela SEASTER. O caráter eminentemente
setorial, sem parcerias público-privadas, restringiu a amplitude das
ações, tendo em vista as limitações operacionais da Secretaria, o que
pode ser confirmado pelos resultados alcançados, estando abaixo das
metas em praticamente todo o ciclo do PPA. O que corrobora com as
conclusões de Trindade (2019) de que a ausência de ações intersetoriais
coordenadas nesse programa pode ser a grande razão desses
resultados.</p>
<p>Quanto à análise da dimensão <italic>Segurança Pública e Defesa
Social</italic>, o programa Segurança Pública teve um indicador para o
objeto ora pesquisado, a Taxa de Identificação de Autoria de
Procedimento (TIAP) Homicídio, onde apenas a Polícia Civil apresentou
indicadores, o que contrasta com o propósito de atuação integrada do
Sistema de Segurança Pública e Defesa Social, bem como com as limitações
operacionais da Polícia Judiciária em termos de promover a
resolutividade dos procedimentos relacionados aos homicídios. As ações
deste programa também se mostraram setorizadas, geridas no âmbito de
cada órgão. O Pró-Paz, apesar de responsável pelas ações de superação
das fragilidades sociais relacionadas aos indicadores de violência e
criminalidade, limitou suas ações às instalações de Unidades Integradas
(UIPP), reforçando a perspectiva setorial no âmbito do programa
Segurança Pública.</p>
<p>Quanto à análise da dimensão da <italic>Promoção Social</italic>, o
programa Educação Básica trabalhou quatro indicadores, as Taxas de
Reprovação e Abandono nos Ensinos Fundamental e Médio. Foi um programa
desenvolvido apenas no âmbito da SEDUC, que alcançou as metas de
melhoria apenas nos anos de 2016 e 2017. Na avaliação do programa, houve
a presença de parcerias público-privadas, o que é um fator positivo.
Contudo, também apontou sua concentração na Região Metropolitana de
Belém (73% dos recursos e 39% das matrículas).</p>
<p>Os quatro indicadores refletem o objetivo de redução do analfabetismo
e de universalização da educação infantil em cooperação com os entes
federados. Não obstante, os dados apontados por Vilaça (2016), bem como
os alcançados nesta pesquisa, mostram que, em que pese o acesso das
vítimas de homicídios à escola, verificou-se significativo percentual
destes com antecedentes criminais, o que sugere a necessidade de ações
complementares e coligadas ao acesso à Educação, como ações da Saúde
(combate às drogas) e da Segurança Pública (enfrentamento aos
homicídios), para ajudar a Educação diante dos outros fatores sociais
que influenciam na dinâmica escolar.</p>
<p>Como conclusão, o estudo mostrou que esse ciclo da política pública
no estado do Pará não efetivou a diretriz de transversalidade e
intersetorialidade de políticas públicas e nem mesmo um modelo de gestão
transversal, havendo apenas a utilização equivocada da terminologia no
corpo do planejamento (TRINDADE, 2019).</p>
<p>Outro aspecto destacado pela autora é que os PPAs também não adotaram
intersetorialidade de políticas ou articulação intergovernamental para
fins de descentralização de programas específicos voltados às políticas
públicas de prevenção e repressão ao crime, combate às drogas e evasão
escolar, que prestigiasse uma formatação interagências e que levasse à
atuação multisetorial dos gestores, fato que aliado à deficiência na
metodologia de acompanhamento e avaliação restou por não efetivar os
objetivos colimados de integração de esforços para neutralização dos
fatores sociais que influenciaram nos índices de homicídios na Região
Metropolitana de Belém (TRINDADE, 2019).</p>
<p><bold>A atuação da polícia ostensiva</bold></p>
<p>Para compreender a lógica de atuação do policiamento ostensivo em
relação aos homicídios em Belém, é necessário conhecer as disposições
legais que orientam essa atividade.</p>
<p>Segundo a Constituição Federal (BRASIL, 2019), a polícia ostensiva é
atividade realizada pelas Polícias Militares (art. 144, § 5º), sendo que
nos termos da Lei de Organização Básica da Polícia Militar do Pará,
constitui-se de ações de prevenção e repressão aos ilícitos penais e às
infrações definidas em lei, compreendendo também as ações necessárias ao
pronto restabelecimento da ordem pública em locais ou áreas específicas
em que se presuma ser possível e/ou ocorra perturbação da ordem pública
ou pânico (PARÁ, 2020).</p>
<p>No regulamento de sua organização básica, a Polícia Militar do Pará
atribui a seus comandos de policiamento a responsabilidade pela
manutenção da ordem pública, competindo-lhes a gestão dos recursos e os
esforços policiais na base territorial onde estão situados (PARÁ,
2016).</p>
<p>Segundo a Diretriz Geral de Emprego Operacional Nº 001/2014, que
representa a doutrina operacional da Polícia Militar do Pará, os
comandantes territoriais devem realizar acompanhamento constante dos
fenômenos criminais, atribuindo-lhes, em grau sucessivo, “a
responsabilidade de empreender os esforços em seu nível de competência,
bem como assessorar decisões superiores e, em caso de rompimento da
malha protetora, solicitar apoio ou recobrimento” (PARÁ, 2014, p. 36).
Desta forma, a verificação de elevação na incidência de homicídios nos
bairros é percebida pelas unidades de policiamento ostensivo locais como
sinal para atuação imediata para reestabelecimento da ordem.</p>
<p>A partir do ano de 2007, a Polícia Militar do Pará passou à
utilização do Boletim de Ocorrência Policial Militar (BOPM), instrumento
para registro das ocorrências atendidas pelo policiamento ostensivo. Em
2010, com o objetivo de gerar maior conhecimento sobre a atividade
policial militar em seu contexto de atendimentos diários e melhoria
continuada nos serviços prestados, o BOPM passou a ser denominado de
BAPM (Boletim de Atendimento Policial Militar), consolidando o
entendimento de que o boletim constituía ferramenta para registro de
todos os atendimentos e ações operacionais da Corporação, e não apenas
dos que culminassem em procedimento de polícia judiciária.</p>
<p>Em 2015, foi instituído oficialmente o Boletim de Atendimento
Policial Militar (BAPM), bem como publicado o respectivo Manual de
Preenchimento.</p>
<p>Em 2018, foi publicada a Diretriz de Meritocracia, objetivando o
controle de produtividade e a política de valorização e reconhecimento,
a partir da qual foi estabelecida a mensuração da produtividade policial
militar com base nos BAPMs registrados no Sistema Integrado de Gestão
Policial (SIGPOL). O processo de implantação foi gradual e, no ano de
2017, pode-se extrair os primeiros relatórios auditáveis mais completos
das ações do policiamento ostensivo na capital (PARÁ, 2018).</p>
<p>Neste sentido, foi extraído um relatório 2018 das ações do
policiamento ostensivo nos bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e
Nazaré. Os dois primeiros com as maiores concentrações de homicídios nos
aglomerados subnormais; o terceiro com grande percentual de sua área com
AGSB e ausência de registros de homicídios de jovens; e o quarto sem
AGSB e sem homicídios de jovens registrados em 2018.</p>
<p>A Tabela 3 demonstra o comparativo entre a distribuição das
principais ações do policiamento ostensivo nos bairros Cabanagem,
Telégrafo, Paracuri e Nazaré, no ano de 2018. Os onze tipos de
atendimentos selecionados representam o maior percentual de ações do
policiamento ostensivo, orbitando em torno de 95% do volume total de
ações realizadas nesses bairros no período.</p>
<p><bold>Tabela 3: Principais ações do policiamento ostensivo em 2018,
nos bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, em
Belém/Pará</bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="50%" />
      <col width="15%" />
      <col width="14%" />
      <col width="12%" />
      <col width="10%" />
    </colgroup>
    <tbody>
      <tr>
        <td></td>
        <td colspan="4"><bold>NÚMERO REGISTRADO DE AÇÕES</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>TIPOS DE AÇÕES</bold></td>
        <td><bold>CABANAGEM</bold></td>
        <td><bold>TELÉGRAFO</bold></td>
        <td><bold>PARACURI</bold></td>
        <td><bold>NAZARÉ</bold></td>
      </tr>
      <tr>
        <td>119. SEGURANÇA DE TESTEMUNHAS OU PESSOAS AMEAÇADAS</td>
        <td>22</td>
        <td>1</td>
        <td>0</td>
        <td>0</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>202. AÇÃO PREVENTIVA EM RESTAURANTES, BARES, CASA DE
        CÔMODOS</td>
        <td>2</td>
        <td>12</td>
        <td>0</td>
        <td>0</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>205. AÇÃO PREVENTIVA EM MANIFESTAÇÃO PÚBLICA</td>
        <td>2</td>
        <td>11</td>
        <td>2</td>
        <td>11</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>402. ABORDAGEM DE BICICLETA</td>
        <td>7</td>
        <td>3</td>
        <td>0</td>
        <td>17</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>404. ABORDAGEM DE CARRO</td>
        <td>57</td>
        <td>3</td>
        <td>1</td>
        <td>10</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>406. ABORDAGEM DE MOTO</td>
        <td>166</td>
        <td>6</td>
        <td>0</td>
        <td>19</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>409. ABORDAGEM DE PESSOA</td>
        <td>266</td>
        <td>782</td>
        <td>117</td>
        <td>1.593</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>414. ADVERTÊNCIA</td>
        <td>9</td>
        <td>19</td>
        <td>37</td>
        <td>21</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>417. BUSCA SEM ÊXITO DE SUSPEITO</td>
        <td>102</td>
        <td>401</td>
        <td>40</td>
        <td>392</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>602. FLAGRANTE DE CRIME OU CONTRAVENÇÃO</td>
        <td>5</td>
        <td>15</td>
        <td>0</td>
        <td>2</td>
      </tr>
      <tr>
        <td>603. RECAPTURA DE FORAGIDO</td>
        <td>2</td>
        <td>13</td>
        <td>0</td>
        <td>2</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Total Principais Ações</bold></td>
        <td>640</td>
        <td>1.266</td>
        <td>197</td>
        <td>2.067</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Total Geral Ações 2018</bold></td>
        <td>703</td>
        <td>1.412</td>
        <td>202</td>
        <td>2.132</td>
      </tr>
      <tr>
        <td><bold>Percentual (%)</bold></td>
        <td>91,04</td>
        <td>89,66</td>
        <td>97,52</td>
        <td>96,95</td>
      </tr>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p><bold>Fonte</bold>: Elaboração dos autores a partir do SIGPOL-PMPA
(2021).</p>
<p>Inicialmente, ressalta-se que a utilização do SIGPOL passou por
estágios de apropriação pelos efetivos das unidades policiais, sendo que
o tempo de consolidação da prática de registro dos atendimentos no
sistema foi diferente em cada unidade de policiamento. Desta forma,
mostrou-se mais prudente que as análises fossem feitas comparando os
percentuais de registros dentro de cada bairro, na mesma unidade
policial, sem comparar, neste primeiro momento, os volumes de registros
entre unidades distintas, a fim de evitar interpretações baseadas em
práticas de registros diferentes entre elas.</p>
<p>A partir dessas premissas, verifica-se que em todos os bairros de
estudo, as ações que concentram o maior esforço das unidades de polícia
ostensiva foram: abordagens (em especial a pessoas, mas também a
bicicletas, motos e veículos), buscas de suspeitos, flagrantes de crime
ou contravenção e recaptura de foragidos, alcançando 90% das ações de
polícia ostensiva nesses bairros em 2018, enfatizando ações de
enfrentamento a infratores, em detrimento a outros tipos de ações
preventivas. O que leva à conclusão de que as práticas adotadas por essa
instância potencializam embates com a população, com maior uso da força
pela instância policial, sobrecarregando-a e reduzindo a amplitude de
controle por outros meios, como pelo engajamento social, preconizado
pela criminologia crítica (ZAFFARONI, 2017).</p>
<p>Além disso e não obstante os esforços da polícia ostensiva, suas
ações têm clara limitação ao lidar com o problema dos homicídios,
evidenciando a necessidade de uma eficiente abordagem intersetorial
diante de suas causas. Foi nesse sentido que, ao abordar o tema da
política de segurança pública, Rua (2014 <italic>apud</italic> TRINDADE,
2019) destacou que esta envolve aspectos sociais, econômicos, culturais,
carecendo de um tratamento baseado na integração dos esforços de
educação, saúde, trabalho, assistência social, para não se limitar-se à
repressão.</p>
<p>Nesse sentido, a deficiente articulação nas ações interagências a
partir dos Planos Plurianuais do Pará, compreendendo o período de 2018,
demonstra reflexos na recorrente ênfase em medidas de repressão ao
delito na atuação do Estado em relação ao homicídio em Belém, o que se
faz verificar pelos maiores esforços do policiamento ostensivo nos
bairros Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, restando por confirmar
o terceiro pressuposto analisado da criminologia da libertação.</p>
<p><bold>CONCLUSÕES</bold></p>
<p>Visando responder qual a influência das agências do sistema penal na
dinâmica dos homicídios de jovens em Belém no ano de 2018, segundo a
criminologia da libertação, a presente pesquisa estabeleceu uma
metodologia estruturada a partir de três estudos desenvolvidos acerca da
análise do homicídio em Belém/PA; são eles: <italic>Geografia, Segurança
Pública e a Cartografia dos Homicídios na Região Metropolitana de
Belém</italic> (CHAGAS, 2014); <italic>Vitimização por Homicídio: Perfil
Socioeconômico e Criminal das Vítimas</italic> (VILAÇA, 2016); e
<italic>Homicídios na Região Metropolitana de Belém: práticas para
contenção e vulnerabilidades</italic> (TRINDADE, 2019).</p>
<p>Cada pesquisa utilizou métodos específicos para atingir seus próprios
objetivos, sendo que essas metodologias foram correlacionadas e serviram
de base para a verificação de três pressupostos estruturantes da
hipótese desta pesquisa, de que o funcionamento do sistema penal
favoreceu os homicídios de jovens em Belém em 2018, em razão de
características apontadas pela criminologia da libertação: 1) de
seletividade, 2) falha no controle social, e 3) ênfase em medidas
repressivas.</p>
<p>As pesquisas fundantes e os pressupostos criminológicos foram assim
relacionados: o método de Chagas (2014), utilizado na análise do
pressuposto da seletividade; a metodologia de Vilaça (2016), na análise
do pressuposto de falha no controle social; e a metodologia de Trindade
(2019), na análise do pressuposto de ênfase em medidas repressivas.</p>
<p>Importa, assim, ressaltar que o cerne das análises não contemplou as
causas sociais dos homicídios em Belém/Pará, mas o recorte teórico de
análise sobre a influência que a atuação do sistema penal exerce sobre o
fenômeno.</p>
<p>Os resultados apontaram que dos 52 homicídios, 26 (50%) tiveram
vítimas jovens (18 a 29 anos), com 100% desses eventos dentro das áreas
de aglomerados subnormais; 65,39% das vítimas eram residentes nos
bairros pesquisados; 57,69% desses jovens possuíam Ensino Fundamental
incompleto; 23,08% tinham Ensino Médio completo; e 15,38%, com Ensino
Médio incompleto.</p>
<p>Outra importante verificação foi que dos 26 homicídios de jovens nos
quatro bairros em 2018, 25 (96,15%) apresentaram características de
execução, com suspeitos encapuzados, grupos pequenos, abordagens
rápidas, fuga sem subtrair pertences, etc., denotando o exercício de
função punitiva nesses homicídios, e suscitando práticas de uma dimensão
subterrânea do sistema penal, conforme alerta Zaffaroni (2017).</p>
<p>Verificou-se ainda que o ciclo do PPA 2016-2019 (recorte 2018) não
efetivou a diretriz de transversalidade e intersetorialidade de
políticas públicas de segurança e nem mesmo um modelo de gestão
transversal, para fins de descentralização de programas específicos
voltados às políticas públicas de prevenção e repressão ao crime,
combate às drogas e evasão escolar, que prestigiasse uma formatação
interagências e que levasse à atuação multisetorial dos gestores, tanto
no planejamento quanto no acompanhamento e na avaliação dessas
estratégias, resultando em esforços paralelos no enfrentamento dos
fatores sociais relacionados aos índices de homicídios no estado.</p>
<p>Quanto ao pressuposto da seletividade em relação às 26 vítimas
jovens, utilizando a metodologia de Chagas (2014) foi possível
relacionar os homicídios às áreas de aglomerados subnormais nos bairros.
A análise cartográfica possibilitou ainda conhecer melhor as variáveis
ligadas ao conceito, revelando condições socioeconômicas que favorecem
que as áreas dos aglomerados se tornem palco da expressão de múltiplos
poderes punitivos territoriais; os poderes de “p” minúsculos de
Raffestin (1993).</p>
<p>Ao discorrer sobre esses poderes (“p”), Raffestin reflete que eles
passam a configurar as relações no território. Nesse sentido, Morais
(2016) ressalta que os grupos responsáveis pelos homicídios atuam sempre
na função punitiva, corroborando que, na dinâmica do espaço, outros
agentes territoriais, além do sistema penal (pela instância polícia),
passam a exercer esse poder, tais como parapoliciais (milícias),
paramilitares, capatazes, grupos de extermínio, esquadrões da morte, bem
como a segurança privada, o tráfico de drogas, etc. Esses atores
territoriais também se apropriam da mesma seletividade para exercer seu
poder punitivo, contando muitas vezes com a omissão de agentes do
próprio Estado.</p>
<p>Assim, uma conclusão importante para compreender a seletividade nas
práticas de homicídio em Belém/PA é considerá-la enquanto expressão do
poder punitivo dentro do território estabelecido nos bairros de Belém,
exercido por múltiplos atores, mas a partir de uma mesma lógica
criticada do sistema penal, que adota áreas de precárias condições
socioeconômicas como palco prioritário para o exercício do poder
punitivo. Essa verificação confirma a presença do pressuposto da
criminologia da libertação de <italic>seletividade</italic> em relação
aos alvos da ação punitiva, evidenciado no perfil socioeconômico e
criminal das vítimas de homicídios em Belém/Pará em 2018, conforme o 1º
objetivo específico desta pesquisa.</p>
<p>Observando os dados referentes à escolarização das 26 vítimas jovens
de homicídios nos bairros pesquisados de Belém em 2018, verificou-se que
a maioria teve contato mais duradouro com a escola (96,33%); bem como
pelo percentual de antecedentes criminais (50%) identificados nesta
pesquisa, verifica-se a ocorrência de contato com estruturas de controle
social, mas que estas não puderam coadunar as condutas às normas e aos
valores estabelecidos, levando a confirmação do pressuposto da
criminologia da libertação de <italic>falha dos mecanismos de controle
social</italic> para as vítimas de homicídios em Belém/PA em 2018,
conforme o 2º objetivo específico desta pesquisa.</p>
<p>Quanto ao pressuposto de ênfase em medidas repressivas, o estudo
realizado por Trindade (2019) sobre a intersetorialidade e a
transversalidade das políticas públicas no estado do Pará,
materializadas em programas no âmbito dos Planos Plurianuais, voltadas à
contenção dos homicídios, ao combate às drogas e à redução da evasão
escolar no ensino médio, mostra que quanto aos homicídios, os programas
foram essencialmente setoriais, mostrando a ausência de integração de
esforços entre as áreas da saúde, da educação e da segurança pública no
PPA 2016-2019 (recorte 2018).</p>
<p>Em relação à redução dos homicídios, o indicador adotado de “Taxa de
Identificação de Autoria de Procedimento (TIAP) Homicídio” restringiu-se
às ações de identificação pelos procedimentos da Polícia Civil, da
SUSIPE e do DETRAN, onde apenas a primeira apresentou os indicadores,
denotando a natureza setorial da política pública diante dos homicídios
em Belém/PA no período. Quanto à evasão escolar, as ações ficaram
praticamente restritas ao âmbito da SEDUC e os resultados evidenciaram a
carência de coordenação intersetorial nas ações. Já no caso do combate
às drogas, a análise apontou deficiência na definição de público-alvo e
na definição das metas para o período.</p>
<p>Outro importante aspecto complementar nesta análise foi quanto à
forma de atuação do sistema penal por meio de uma de suas agências da
instância policial, a polícia ostensiva.</p>
<p>Por meio da identificação dos tipos de ações realizadas pela polícia
ostensiva registradas no SIGPOL foi possível verificar que nos bairros
Cabanagem, Telégrafo, Paracuri e Nazaré, no ano de 2018, as ações
priorizam as abordagens (em especial a pessoas, mas também a bicicletas,
motos e veículos), as buscas de suspeitos, os flagrantes de crime ou
contravenção e a recaptura de foragidos; alcançando 90% das ações de
polícia ostensiva nesses bairros em 2018. Este resultado mostra a ênfase
em ações de enfrentamento a infratores, em detrimento a outros tipos de
ações preventivas, corroborando com os indicativos de Trindade (2019)
sobre a ausência de articulação nas ações intersetoriais para o
enfrentamento do homicídio.</p>
<p>As práticas adotadas por essa instância policial potencializam
embates com a população, com maior uso da força, levando a sua
sobrecarga e reduzindo a amplitude de controle por outros meios, como
pelo engajamento social. Nesse particular, Zaffaroni (2017) reflete que
a dinâmica de controle social realizada pelo sistema penal não produz
resultados esperados e acaba enfraquecendo o controle exercido pelas
organizações comunitárias, o que leva a uma ênfase cada vez maior das
ações repressivas por parte do Estado para conter as condutas desviantes
que busca inibir, o que confirma o pressuposto de ênfase em medidas
repressivas diante dos homicídios em Belém/PA em 2018.</p>
<p>Neste sentido, a deficiente articulação nas ações interagências a
partir das políticas públicas de segurança demonstrou seus reflexos
também na forma de atuação da polícia ostensiva nos bairros,
potencializando a <italic>ênfase em medidas de repressão ao
delito</italic> na atuação do Estado em relação ao homicídio em
Belém/PA, o que confirma também esse pressuposto da criminologia da
libertação, conforme o 3º objetivo específico desta pesquisa.</p>
<p>Tais conclusões apontam para a confirmação da hipótese desta pesquisa
de que, mesmo não sendo causa, o funcionamento do sistema penal
favoreceu os homicídios de jovens em Belém/Pará, em 2018, em razão das
características apontadas pela criminologia da libertação: de
seletividade, falha no controle social e ênfase em medidas
repressivas.</p>
<p><bold>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</bold></p>
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https://leonardoaaaguiar.jusbrasil.com.br/artigos/324816043/dogmatica-juridico-penal-politica-criminal-e-criminologia.
Acesso em: 4 jun. 2020.</p>
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penal para além da (des)ilusão. Rio de Janeiro: Revan, 2012.</p>
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sobre os índices de homicídios no bairro do PAAR em
Ananindeua-PA. <italic>In</italic>: CARDOZO, E. L. (Org.). <bold>A
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<p>BRASIL. <bold>Constituição da República Federativa do Brasil</bold>.
Promulgada em 05 de outubro de 1988. Atualizada até a Emenda
Constitucional nº 104, de 04 de Dezembro de 2019. Brasília: Senado,
2019.</p>
<p>CASTRO, L. A. criminologia da libertação. <bold>Pensamento
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2015.</p>
<p>CHAGAS, C. A. N. Geografia, segurança pública e a cartografia dos
homicídios na Região Metropolitana de Belém. <bold>Boletim Amazônico de
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(GEOCAM) da faculdade de Geografia da Universidade do Estado do
Pará</bold>, 2021.</p>
<p>IBGE – INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA.
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<p>MORAIS, R. F. <bold>O extermínio da juventude popular no
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(Mestrado em Direito) – Instituto de Ciências Jurídicas, Universidade
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<p>PARÁ. Governo do Estado do Pará. Secretaria de Estado de Segurança
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<p>PARÁ. Governo do Estado do Pará. Secretaria de Estado de Segurança
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001/2015 – PM/3 – de 8 de maio de 2015 – EMG/PMPA</bold>. Institui o
Boletim de Atendimento Policial Militar – BAPM no âmbito da PMPA e
define procedimentos e responsabilidades quanto ao seu preenchimento.
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<p>PARÁ. Governo do Estado. Secretaria de Estado de Segurança Pública e
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<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://bancodeleis.alepa.pa.gov.br:8080/arquivos/lei053_2006_39755.pdf">Regulamenta
a Lei Complementar Nº 053, de 7 de fevereiro de 2006, alterada pela Lei
Complementar Nº 093, de 15 de janeiro de 2014, que dispõe sobre a
organização básica da Polícia Militar do Estado do Pará, e dá outras
providências. Belém/PA, 2016.</ext-link></p>
<p>PARÁ. Governo do Estado do Pará. Secretaria de Estado de Segurança
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06/2018 – Estado Maior Geral PM/7</bold>. Estabelece o controle de
produtividade e a política de valorização e reconhecimento, visando a
motivação dos policiais militares que atuam na área operacional da
Polícia Militar do Pará. Belém/PA: Boletim Geral n. 056, 2018.</p>
<p>PARÁ. Governo do Estado do Pará. Secretaria de Estado de Segurança
Pública e Defesa Social. Polícia Militar do Pará. <bold>Lei Complementar
Nº 053, de 7 de fevereiro de 2006</bold>. Com as alterações da redação
dada pela Lei Complementar N° 126, de 13 de janeiro de 2020.
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="http://bancodeleis.alepa.pa.gov.br:8080/arquivos/lei053_2006_39755.pdf">Dispõe
sobre a organização básica e fixa o efetivo da Polícia Militar do Pará –
PMPA, e dá outras providências. Belém/PA, 2020.</ext-link></p>
<p>PARÁ. <bold>Lei n° 8.335, de 29 de dezembro de 2015</bold>. Publicado
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<p>PC/PARÁ: <bold>banco de dados da Polícia Civil do Pará</bold>,
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<p>RAFFESTIN, Claude; DO PODER, <bold>Por Uma Geografia</bold>. Tradução
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<p>SILVEIRA JUNIOR, R. S. <bold>Homicídio em Marabá</bold>: a
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<p>SIAC/PARÁ: <bold>banco de dados da Secretaria Adjunta de Inteligência
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<p>TRINDADE, E. A. R. A. <bold>Homicídios na Região Metropolitana de
Belém</bold>: práticas para contenção e vulnerabilidades. Dissertação
(Mestrado em Segurança Pública) – Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, Universidade Federal do Pará, Belém/PA, 2019.</p>
<p>VILAÇA, I. F. T. <bold>Vitimização por Homicídio</bold>: Perfil
Socioeconômico e Criminal das Vítimas. Dissertação (Mestrado em
Segurança Pública) – Instituto de Ciências Jurídicas, Universidade
Federal do Pará, Belém/PA, 2016.</p>
<p>ZAFFARONI, E. R. <bold>Em busca das penas perdidas</bold>: a perda de
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<p>ZAFFARONI, E. R.; BATISTA, N.; ALAGIA, A.; SLOKAR, A. <bold>Direito
penal brasileiro</bold>: teoria geral do direito penal. 4 ed. v. 1. Rio
de Janeiro: Revan, 2011.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>O presente artigo constitui resultado parcial de
    projeto de pesquisa desenvolvido pelo autor Jorge Luiz Aragão Silva,
    sob a orientação do coautor Marcus Alan de Melo Gomes, no Mestrado
    em Segurança Pública do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da
    Universidade Federal do Pará, e foi concluído em 17/03/2021 com a
    aprovação da Dissertação intitulada <italic>Homicídios de Jovens e o
    Sistema Penal em Belém-Pará: cartografia criminológica para Polícia
    Ostensiva</italic>. Assim, alguns dados e argumentos desenvolvidos
    neste trabalho constam também da referida dissertação.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>This article is a partial result of a research
    project developed by author Jorge Luiz Aragão Silva, under the
    guidance of co-author Marcus Alan de Melo Gomes, in the Master's
    degree in Public Security of the Institute of Philosophy and Human
    Sciences of the Federal University of Pará, which was concluded on
    03/17/2021 with the approval of the dissertation entitled
    <italic>Homicides of Young People and the Criminal System in
    Belém-Pará: criminological cartography for Ostensive
    Police</italic>. Thus, some data and arguments developed in this
    work are also included in this dissertation.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
