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<p><bold>EDIÇÃO ESPECIAL - VOLUME 16</bold></p>
<p><bold>REAFIRMANDO IDENTIDADES: DEMANDA POR RECONHECIMENTO E
“RESPEITO” NO CURSO DE FORMAÇÃO PROFISSIONAL DOS AGENTES DA GUARDA CIVIL
MUNICIPAL DE NITERÓI</bold></p>
<p><bold>Carlos Eduardo Pereira Viana</bold></p>
<p>Bacharel em Ciências Sociais (UFF). Mestre e Doutorando em
Antropologia pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia na
Universidade Federal Fluminense (PPGA/UFF). É pesquisador do Grupo de
Pesquisas em Antropologia do Direito e Moralidades – (GEPADIM/NUFEP/UFF)
e do Instituto de Estudos em Administração Institucional de Conflitos
(INCT-InEAC).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio de Janeiro
<bold>Cidade:</bold> Rio de Janeiro</p>
<p><bold>E-mail:</bold> carlosviana@id.uff.br <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/ 0000-0002-1777-3515</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>O presente trabalho analisa o debate sobre a implementação do
armamento letal na Guarda Civil Municipal de Niterói (GCM) adotando uma
etnografia construída a partir do acompanhamento da aplicação do curso
de formação profissional aos agentes. Durante o curso, permeado de
militarismo, os alunos são submetidos à prática constante da ordem unida
e, por fim, à rotina de patrulha, introduzindo-os à “prática da rua”. O
contato com esses hábitos faz surgir nos agentes o anseio pelo uso de
armas letais, vendo-as como fator determinante na sua identidade,
especialmente para os desvincular de uma imagem inferiorizada, apelidada
de “guardinhas”. Nesse sentido, busca-se explorar os pontos de
interseção entre o processo de militarização da Guarda Municipal Civil
de Niterói e a busca de seus agentes pelo “respeito” da população, tendo
por base seu processo de formação e suas demandas pela implementação do
armamento como discursos a serem analisados.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Guarda Civil Municipal. Segurança
pública. Militarização. Armas letais. Formação profissional da GCM.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic>REAFFIRMING IDENTITIES: DEMANDS FOR RECOGNITION AND
&quot;RESPECT&quot; IN THE PROFESSIONAL TRAINING COURSE OF THE AGENTS OF
THE MUNICIPAL CIVIL GUARD OF NITERÓI</italic></p>
<p>This paper analyzes the debate about the implementation of lethal
weapons in the Municipal Civil Guard of Niterói (GCM) adopting an
ethnography built from the monitoring of the application of the
professional training course to the agents. During the course, permeated
by militarism, the agents are submitted to the constant practice of the
united order and, finally, to the patrol routine, introducing them to
the &quot;street practice&quot;. The contact with these habits makes
arise in the agents the longing for the use of lethal weapons, seeing
them as a determining factor in their identity, especially to unlink
them from an inferior image, known as &quot;little guards&quot;. In this
sense, this study seeks to explore the intersection points between the
militarization process of the Municipal Civil Guard of Niterói and the
search of its agents for the &quot;respect&quot; of the population,
based on their training process and their demands for the implementation
of weapons as discourses to be analyzed.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Municipal Civil Guard. Public security.
Militarization. Lethal weapons. Professional training course of GCM.</p>
<p></p>
<p><bold>Data de recebimento:</bold> 12/04/2021 - <bold>Data de
aprovação:</bold> 17/09/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v16.n0.1480</p>
<sec id="introdução">
  <title>Introdução</title>
  <p>Quando se estabeleceu contato com os primeiros interlocutores na
  Guarda Civil Municipal (GCM)<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> de
  Niterói, em 2014, durante a realização do Curso de Formação
  Profissional de novos agentes, suas falas indicavam que uma das
  questões fundamentais para a compreensão da instituição se relacionava
  com a organização interna e a distribuição de poder sob o aspecto da
  influência política, questão que regia de forma direta o <italic>modus
  operandi</italic> dos agentes. Esta distribuição de poder, orientada a
  partir do poder executivo e/ou legislativo municipal, ditava o que a
  GCM teria como foco em sua lógica operacional: o controle do tráfego
  da cidade e a repressão ao comércio ambulante.</p>
  <p>A função da GCM na segurança pública municipal e, em outro momento,
  estadual, não esteve definida de forma contínua em quase ou nenhum
  momento de sua história, e isto refletiria em muito na construção de
  sua identidade institucional e na de seus agentes. Como resultado, em
  contato com essa estrutura sem definição aparente, os agentes iam se
  adaptando aos diferentes modelos de como pensar e de como agir que
  fossem surgindo.</p>
  <p>Em decorrência dessa estrutura, ou da falta dela, permitiu-se o
  surgimento de duas principais perspectivas que alocam a atuação da GCM
  em diferentes frontes na política pública de segurança. A primeira
  aponta a instituição como atuante a nível estadual, aproximando-a de
  corporações policiais presentes nesse mesmo nicho, como a Polícia
  Militar; enquanto a segunda já a direciona para uma atuação com mais
  ênfase na estrutura política municipal, em conjunto aos poderes
  executivo e legislativo. Em meio a este campo de indefinição, os
  agentes são levados a buscar, por outras formas, maneiras de demarcar
  sua identidade e o que realmente representam no palco da segurança
  pública.</p>
  <p>“Respeito” e busca por identidade</p>
  <p>Dando seguimento às promessas da Prefeitura da cidade e com o
  auxílio de uma conjuntura nacional
  favorável<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>, a discussão sobre a
  possibilidade de armamento da Guarda Civil Municipal de Niterói ganhou
  maior projeção e protagonismo nas reivindicações dos agentes com a
  publicação do Estatuto Geral das Guardas Municipais em 2014. Porém,
  mesmo antes do inédito diploma legal, o debate já era relevante e
  recorrente dentro da Guarda, uma informação que pôde ser confirmada a
  partir de diversos relatos e falas presenciadas e registradas no
  decorrer da pesquisa desenvolvida na instituição. Nesse sentido,
  destaco a primeira entrevista que fiz quando tive a oportunidade de
  ter uma extensa conversa com um antigo mestre de artes marciais que,
  além de profissional de educação física, também era agente da
  Guarda.</p>
  <p>Conversamos por volta de uma hora, sem questionário fechado ou
  estruturado, sem maiores provocações nas perguntas e respostas, munido
  apenas do interesse em dialogar com o agente, não com o mestre. O
  primeiro ponto abordado foi o armamento. Mesmo sem indagações ou
  direcionamentos sobre um possível uso de armas de fogo, o desejo pelo
  armamento apareceu de forma espontânea na fala do agente. Aparecia
  quando ele falava sobre o “respeito da população para com os agentes”.
  Aparecia quando ele citava situações em que, em sua percepção, levavam
  “grande risco” à sua vida e a de terceiros. E aparecia muito quando
  ele falava sobre a sua vida privada, descrevendo até mesmo uma
  tentativa de roubo da qual foi vítima quando ainda era quadro da
  Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ).</p>
  <p>Com longas experiências em mais de um segmento da segurança
  pública, o leque de relatos e situações vividas por ele e por colegas
  é vasto. Tendo mais de 10 anos completos na GCM, meu interlocutor teve
  uma passagem pelo Exército que durou 4 anos e meio e foi quadro da
  PMERJ por 5 anos, até ser exonerado. Essa experiência o permite traçar
  paralelos e comparações entre as instituições, apresentando críticas à
  estrutura de comando da Guarda que dialogavam com uma noção de
  companheirismo no uso da farda e na busca pelo respeito da população,
  mas que de alguma forma focava o debate, principalmente sobre a
  Guarda, para a relação dos agentes com o uso da arma. Em uma de suas
  falas, o agente estabeleceu uma comparação direta entre a estrutura de
  comando da Guarda e a da PMERJ, deixando claro que a troca de práticas
  entre essas instituições não era, segundo ele, algo necessariamente
  bom para os agentes, tal como relatado:</p>
  <disp-quote>
    <p>Na Guarda a gente vê um companheirismo maior. É um quartel só,
    uma instituição só. Então as pessoas se conhecem mais. Dentro da
    PMERJ é uma coisa muito grande, né. São vários batalhões. É uma
    coisa assim mais família na Guarda, você consegue se conhecer
    melhor. Na PMERJ por muitas vezes você é transferido. Mas na Guarda
    é muito mais fácil você ter um elo com um companheiro de farda. Mas
    a nível de chefia também é muito pior. Muito pior! Porque geralmente
    um comandante quando vem pra comandar a Guarda vem com um aspecto
    militar, já vem com comando militar e a guarda não é uma instituição
    militar. É uma instituição paramilitar conhecida como uma
    instituição civil também. Tanto que o nome é Guarda Civil Municipal.
    Então é bem diferente da PMERJ, né. O modo de se tratar com o
    guarda. Eu tomei uma punição quando entrei na Guarda porque não bati
    continência pra um dos comandantes da Guarda. Na época era o Coronel
    P., ele veio do BOPE. Não tem nada no Estatuto que você tem que
    bater continência pra um comandante da Guarda. Não é militar. É uma
    instituição civil. Tomei uma punição de 15 dias no salário. Entrei
    na justiça, mas a Prefeitura não acatou. Como os coronéis são
    ditadores, os guardas trabalham com medo. Ele dá uma punição. Se o
    município não acatar, ele entra com outras penalidades até o
    município acatar. E assim a gente é punido no salário. Além disso,
    ele manda os guardas fazerem operações que os guardas sabem que não
    eram pra serem feitas e como o guarda tem que defender o pão na sua
    mesa e não pode ficar perdendo salário por punição, os guardas vão e
    fazem. Por isso que eu acho que o Guarda tem que comandar o Guarda.
    O PMERJ tem que comandar o PMERJ. O bombeiro tem que comandar o
    bombeiro. Cada um no seu quadrado. Porque ele vai saber o que ele
    sofreu desde lá de baixo. O guarda sofre muito com o comando da
    PMERJ. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI, 2014).</p>
  </disp-quote>
  <p>Como primeiro ponto, chama especial atenção à menção do “medo” no
  diálogo, como sendo um fator negativo da influência militar na atuação
  dos guardas. Isso porque a ideia do “medo” é acionada pelos guardas
  como justificativa para suas demandas pelo armamento, mas, ao mesmo
  tempo, é rechaçada na afirmação “Aqui não tem guardinha! Aqui tem
  Guarda Municipal!”, mostrando-os como agentes de bravura, que não têm
  medo. Essa frase, recorrente nos discursos, transparece o “pensar”
  sobre o que um agente da Guarda é, na ótica dos próprios agentes, ou
  estaria na busca de ser. Vê-se, com isso, que a construção de uma
  identidade mais militar ou mais civil não exclui ou se contradiz com a
  expectativa dos agentes pelo porte de arma, que é facilmente
  enquadrada pelos agentes em qualquer das categorias apresentadas, a
  depender da identidade que buscam externalizar.</p>
  <p>A questão da demanda pelo armamento aparecia não só nas falas deste
  agente em específico, mas também nas dos demais que tive contato.
  Aliado a isso, suas falas transpareciam a necessidade de uma renovação
  no olhar de como a população enxergava os guardas. Na visão deles,
  essa “nova” construção tem como elemento central o imagético popular,
  levando-os a buscar alcançar uma conceituação que é reiteradamente
  expressa através da categoria de “respeito”. Nesse sentido, o
  armamento dos agentes e o incremento na ostensividade de sua presença
  no dia a dia da cidade mostram-se como os mais fortes argumentos
  quando da construção de uma imagem “respeitável”. E, justamente nessa
  seara, é que os guardas se percebiam disputando um “lugar no sol”
  (VERÍSSIMO, 2009) com outras instituições, como os fiscais de
  posturas, mas principalmente com os policiais militares.</p>
  <p>Nesse aspecto, observa-se o surgimento de uma importante questão,
  trazendo à tona uma antiga disputa entre as forças, que parece poder
  se intensificar com o projeto de renovação da Guarda. Pautado
  principalmente na questão do armamento, objetivando dar protagonismo à
  Guarda na estrutura e na lógica de segurança pública do município, o
  projeto acaba por abrir, na prática, lugar para importantes conflitos
  de espaço e atribuições com a Polícia Militar, como se nota no relato
  do agente:</p>
  <disp-quote>
    <p>Existe uma rixa não declarada entre a Guarda e a PMERJ, porque
    eles notam que a Guarda tá tomando um pouco o espaço da segurança
    pública, então eles entendem como se estivessem dividindo o espaço.
    Agora fizeram uma guarita dividida entre a PMERJ e a Guarda na praia
    de Icaraí. E isso até mesmo pros comandantes da PMERJ e o comandante
    da Guarda aceitar, foi uma briga danada. Mas o Prefeito graças a
    Deus leu o Estatuto, porque até então ele não sabia da nova regra e
    parece que está se prontificando a investir na segurança. [...] Toda
    polícia tem o seu quadrado. Cada um vai mandar ou proteger aquilo
    que tá determinado por lei, ou seja, a PMERJ vai trabalhar mais
    ostensivamente, mais direto no combate ao tráfico. A Guarda vai
    ficar direto voltada para o combate do bairro, mais voltado pro
    município. A PMERJ mais voltada pro tráfico. Não que a Guarda não vá
    combater o tráfico, porque agora é atribuição do guarda também.
    (AGENTE DA GCM DE NITERÓI, 2014).</p>
  </disp-quote>
  <p>Nessa interpretação, pode-se notar que os investimentos, as
  propostas e promessas feitas não se voltavam apenas a melhorar a
  segurança pública da cidade, mas revelam, em verdade, uma disputa pelo
  protagonismo dessa melhoria, com quais recursos, com quais atribuições
  e em que espaços. Para a Guarda, no contexto de meu trabalho de campo,
  essa tensão era expressa no conflito sobre quem deveria estar armado
  na patrulha da cidade e o porquê dessa escolha.</p>
  <p>Um segundo ponto a ser destacado, ainda da primeira conversa, se
  apresenta como um dos principais problemas deste artigo: a
  interpretação dos guardas sobre a noção de “respeito”. Para meu antigo
  mestre, essa noção, presente recorrentemente em muitas outras
  conversas e situações, se relacionava diretamente com as críticas que
  traçava ao comando militar. Para ele, os agentes não seriam
  “respeitados” em decorrência das equivocadas instruções que receberiam
  por parte do comando e, consequentemente, pela postura que acabavam
  reproduzindo na rua quando entravam em conflito com os camelôs, por
  exemplo. A partir dessa argumentação é possível se evidenciar,
  novamente, a disputa com outras instituições, abaixo relatada:</p>
  <disp-quote>
    <p>O que acontece é que a população tá acostumada a ver o guarda
    combatendo com o camelô. Isso não é atributo do guarda. Isso é
    atributo do fiscal da Prefeitura. Isso é questão até mesmo do
    Prefeito não conhecer a lei orgânica que tramita dentro da
    Prefeitura, e saber de segurança pública, ele mistura um pouco as
    coisas. O guarda vai pra fiscalização, onde não deveria ir. O guarda
    na verdade está para proteger a vida, que é o bem do cidadão.
    Proteger o povo niteroiense. Aí quando chega um novo comandante da
    PMERJ que entra a discórdia. Quando o guarda tem que ir pra rua
    proteger um bem ou a vida, ele vai pra pirataria, vai pra
    fiscalização. Coisa que é atributo fiscal da Prefeitura. O guarda
    tem que coibir o crime e trabalhar em prol da vida. Armamento é uma
    questão total de necessidade. Você botar um guarda, hoje em dia com
    o nível de crime que a gente tá vivendo, com um cassetete e uma
    algema na rua, você vira um palhaço. É melhor botar o guarda pra
    trabalhar no circo do que na rua. Porque a violência é muito grande,
    toda hora acontece delitos, e tudo que a população mais precisa
    hoje, além de saúde, é da segurança pública. É uma questão de
    necessidade. Até pra segurança do próprio guarda. Tanto em serviço
    quanto fora. Acontece muito em serviço. Quando o guarda vai fazer um
    tipo de ocorrência como um furto, ele até apanha. Em segundo lugar
    entra o respeito, se um cara se depara com um guarda armado, ele vai
    analisar o fato e ter um respeito maior. Aqui na GCM de Niterói eu
    vejo que é uma total necessidade, porque eu vejo os guardas num
    total desespero de ir pra rua sem uma arma. Até uma situação que eu
    presenciei assim que entrei, a gente foi fazer uma apreensão e um
    dos guardas entrou em colapso. Não aguentou a situação. E depois de
    uma semana ele tinha pedido a exoneração dele. A gente entrou em
    conflito, num conflito corpo a corpo. E talvez nessa situação se a
    gente estivesse armado, nem teria acontecido o conflito corpo a
    corpo. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI, 2014).</p>
  </disp-quote>
  <p>A fala do agente permite insistir, por um lado, na existência de
  evidente disputa em torno das atribuições da Guarda e das outras
  instituições, como a PMERJ e os fiscais. Essa disputa e essa
  indefinição por competências parecem levar, em um raciocínio direto, à
  postulação da “necessidade” da arma como forma de desempenhar as
  funções atribuídas de modo não só eficiente, mas também “seguro”. De
  outro lado, atenta para o fato de que a arma não é vista apenas como
  uma “necessidade” e como um fator de “segurança”, mas sim como
  decisivo instrumento ou meio de transparecer “respeito”, evitando que
  os agentes possam ficar na rua e “virar um palhaço”.</p>
  <p>Cabe destacar que, neste ponto em especial, o agente não fez
  nenhuma referência à falta de capacitação por ele mencionada em outros
  momentos da conversa. Sua fala, quando tratando especificamente do
  “respeito” da população e até mesmo o “respeito” dos criminosos com
  relação aos guardas, foi majoritariamente focada na importância do
  armamento.</p>
</sec>
<sec id="o-curso-de-formação-profissional-e-o-contato-com-a-demanda-por-armas-de-fogo">
  <title>O Curso de Formação Profissional e o contato com a demanda por
  armas de fogo</title>
  <p>Passados alguns anos desta entrevista, a linha de raciocínio
  desenvolvida e os argumentos utilizados pelo agente me chamaram a
  atenção, à época, em razão da experiência de ter trabalhado no
  acompanhamento da formação dos agentes da mesma Guarda que meu
  interlocutor fez parte. Em minha etnografia no Curso de Formação
  Profissional (CFP)<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, faz-se o
  relato sobre o desinteresse dos agentes e da própria instituição com
  relação à formação dos agentes vinculada à academia. Uma das questões
  mais evidentes e problemáticas, discutida reiteradas vezes durante as
  aulas acompanhadas no período da pesquisa, pautava-se na oposição
  entre “teoria” e “prática” apresentada pelos guardas. Essa resistência
  era sempre trazida como um dos primeiros argumentos construídos com o
  objetivo de deslegitimar o conhecimento dos professores e
  pesquisadores que lecionavam disciplinas no curso.</p>
  <p>A intransigência era tanta que, em determinado momento do curso, a
  discussão se apresentou como uma barreira declarada e difícil de ser
  quebrada. Situação similar foi relatada por Robson Rodrigues da Silva
  (2011), em que os policiais militares da Academia de Polícia Militar
  D. João VI classificaram a sala de aula do curso como uma “ilha da
  fantasia”, na demonstração de total desprezo pelo saber teórico que
  não representava o saber da “prática”, este sim obtido por meio do
  contato com os seus “iguais” no dia a dia. Na presente pesquisa, os
  “iguais” seriam os agentes da própria Guarda ou de outras instituições
  de segurança pública e o que valeria, de fato, em suas formações e no
  momento da ação seria a teoria com base na prática aprendida na rua,
  que eles identificavam simplesmente como sendo “a prática”.</p>
  <p>Considerando questões já escritas para o caso da Polícia Militar,
  Kant de Lima (2009a;2009b) definiu essa problemática como um conflito
  entre teorias. Segundo essa linha de raciocínio, os guardas tinham a
  expectativa de que o aprendizado tivesse por alvo uma teoria que
  representasse a prática deles, reproduzindo o autoritarismo, os
  filtros informais, a repressão, a posição de comando e outras práticas
  já institucionalmente naturalizadas. O problema é que a UFF, como
  representante da academia nesse contexto de aplicação do CFP, levou
  para a sala de aula uma teoria que, na visão deles, não seria
  legítima, eis que não representavam as práticas e os símbolos
  presentes no modelo atual de segurança pública, disseminado e aplicado
  enquanto um projeto que entende a guerra e o conflito como ferramentas
  de combate à criminalidade.</p>
  <p>Nesse sentido, é curioso contrastar o acúmulo de pesquisas e
  trabalhos sobre as Guardas Municipais pelo país que retratam a
  percepção dos guardas sobre uma suposta falta de diálogo da academia
  com eles. Ao mesmo tempo em que o conhecimento “teórico” trazido pela
  academia era alvo de desprezo e de indiferença pelos agentes, era
  também alvo de reclamação e de cobrança, responsabilizando-se a mesma
  academia pela ausência de interesse em diálogo com as Guardas.</p>
  <p>Sob esta ótica, de forma concomitante ao trabalho de campo pude ter
  contato com pesquisas de colegas que desenvolviam estudos sobre
  Guardas Municipais em outros municípios do Estado do Rio de Janeiro,
  inclusive incluindo pesquisas de agentes no âmbito da academia
  enquanto estudantes de Graduação e Pós-Graduação.</p>
  <p>Em conjunto a esta série de pesquisas que se desenvolviam ao mesmo
  tempo que a minha, também foi fundamental o diálogo com importantes
  trabalhos como os de Kátia Sento Sé Mello (2011) e de Marcos Veríssimo
  (2009). O trabalho de Katia Mello (2011) descreve e analisa a sua
  experiência com a Guarda Municipal de Niterói no início dos anos 2000,
  em uma situação similar com a que eu encontraria no futuro: em um
  curso de formação desenvolvido pelo Núcleo Fluminense de Estudos e
  Pesquisas (NUFEP/UFF) para os agentes da instituição. Da mesma forma o
  trabalho de Marcos Veríssimo (2009), em uma etnografia na qual ele
  mesmo se insere como participante, a partir de sua experiência como
  agente da Guarda Municipal do Rio de Janeiro, desenvolvendo um
  trabalho interessante sobre a administração de conflitos no dia a dia
  das ruas cariocas tendo os agentes da Guarda como mediadores e atores
  importantes nesse processo.</p>
  <p>Outro relevante trabalho para esta pesquisa foi à coletânea
  organizada pelos professores Michel Misse e Marcos Luiz Bretas
  <italic>et al</italic>. (2010), que fizeram um levantamento dos
  diferentes projetos de funcionamento com base nos marcos legais,
  definidores de suas atribuições, e tendo por referência a percepção
  dos atores envolvidos quanto às ações efetivas, aos processos de
  treinamento e recrutamento, à relação com a Polícia Militar e ao uso
  ou não de arma de fogo. Com a mesma importância, cita-se a coletânea
  organizada por Ana Paula Mendes de Miranda, Joelma de Souza Azevedo e
  Talitha Mirian do Amaral Rocha (2014), que coloca em debate a questão
  da segurança e das políticas públicas ao mesmo tempo em que oferece
  uma proposta de um modo de se fazer pesquisa e de se construir uma
  antropologia sobre as políticas públicas.</p>
  <p>A menção a esses trabalhos é relevante ao se notar que, na visão
  dos guardas, quando o curso “teórico” faz uso de comparações, por
  exemplo, entre pesquisas empíricas realizadas em outras instituições e
  outros países, por professores/pesquisadores que não faziam parte de
  nenhuma instituição de segurança pública, não se está trazendo algo
  “digno” de sua atenção ou de seus ouvidos, pois aquelas informações de
  nada valeriam para eles. Apesar disto, é fácil notar, como acima
  demonstrado, a relevância da existência de uma vasta literatura
  baseada em pesquisas especificamente com Guardas Municipais pelo país,
  incluindo o trabalho de Katia Mello com a própria GCM de Niterói, que
  permitem diversas vezes fundamentar argumentos apresentados pelos
  professores durante as aulas.</p>
  <p>O problema acima apresentado, assim como o formulado por Kant de
  Lima (2009b), se demonstrou como um importante ponto para a análise
  dos fatos observados, à época, durante o Curso de Formação
  Profissional (CFP). Agora retorna, na presente pesquisa, de forma
  analítica no processo de compreensão da principal demanda dos agentes
  da Guarda, qual seja, o armamento. Busca-se, dessa maneira,
  compreender a razão pela qual os agentes direcionam suas
  justificativas sobre a “falta de respeito” por parte da população, e
  também dos criminosos, para a questão da falta de uma arma em
  punho.</p>
  <p>Em dado momento do curso, os guardas que incialmente se disseram
  prontos para servir, agir e, segundo os próprios, mudar o perfil da
  Guarda, se encontravam dispersos nas aulas e sem demonstrar qualquer
  interesse pelos temas propostos. Essa dicotomia ficou evidente quando
  os agentes problematizaram a existência de certa distinção entre as
  aulas gerenciadas pela Guarda, e as aulas gerenciadas pela UFF,
  situação que foi notada pelo corpo acadêmico com o passar dos dias e
  com a disparidade entre o empenho dos guardas em cada um desses dois
  tipos de aula. Enquanto na aula da Guarda via-se em sala a curiosidade
  e a atenção dos agentes, nas aulas da UFF poucos demonstravam
  interesse. Nessas últimas, notava-se que alguns alunos apenas
  intervinham para discutir a questão da teoria <italic>versus</italic>
  prática, defendendo sempre que um professor não teria a legitimidade
  para apresentar realidades relatadas através de pesquisas, realidades
  que não envolvessem algum tipo de prática, como se vê:</p>
  <disp-quote>
    <p>Aquela professora é muito boa, a aula tava rendendo bem, deu para
    ver que a pesquisa dela foi muito séria e que ela realmente se
    empenhou. Mas quando perguntamos pra ela quanto tempo de prática ela
    tinha a resposta foi que não tinha nenhum tipo de prática e que tudo
    que estava expondo era fruto da pesquisa que ela fez. Não deu! Como
    que botam uma professora pra ensinar a gente sobre uma coisa prática
    sendo que ela nunca trabalhou com isso e nem foi da polícia? (AGENTE
    DA GCM DE NITERÓI, 2015).</p>
  </disp-quote>
  <p>Era notório que os guardas esperavam e ansiavam por aulas mais
  voltadas para a rotina de conflitos, e não por aulas de mediação,
  característica da proposta que os professores do Instituto de Estudos
  Comparados em Administração de Conflitos (InEAC/UFF) colocavam à mesa.
  Nesse sentido, a teoria ensinada pelos professores posicionava os
  agentes como mediadores, e não como personagens no conflito. No
  entanto, o que os guardas esperavam aprender não eram formas de
  evitá-lo ou mediá-lo, mas sim maneiras de atuar e dar fim aos
  conflitos pelo intermédio do uso da força e da autoridade, o que nesse
  espaço de formação poderia ser aprendido nas aulas de defesa pessoal,
  de patrulhamento e de imobilização.</p>
  <p>“<italic>Essa aula aqui a gente não vai usar pra nada! A gente
  tinha que tá tendo aula de defesa pessoal, isso que vamos usar na
  rua!</italic>”. Esta talvez tenha sido uma das frases recordistas de
  repetição pelos guardas. Demonstrava claramente que o que eles queriam
  era estar na rua, “mediando” conflitos da maneira que eles acreditavam
  ser a mais correta e eficaz, ou seja, aquela proporcionada pelos
  ensinamentos passados na sua formação e no treinamento, frutos do
  contato físico com o conflito. Permite-se, dessa observação,
  estabelecer uma conexão entre a postura apresentada pelos agentes
  durante os processos de formação, a forma como eles interpretavam suas
  identidades institucionais e a necessidade da arma para o exercício de
  suas funções com plenitude. Exatamente por isso que, quando
  articulavam de forma direta o armamento com a questão do “respeito”,
  estabeleciam uma ligação entre os três tópicos, como se estes fossem
  argumentos complementares. Nesse ponto, retomando a fala de meu antigo
  mestre, parece que ele queria destacar que existia um problema na
  formação dos agentes, como acima retratado, mas um problema ínfimo
  quando comparado com a questão de não possuírem uma arma em suas
  cinturas. Para meus interlocutores, as armas falam por si só.</p>
  <p>Como já retratado, a discussão sobre a possibilidade de armamento
  da Guarda Civil Municipal de Niterói ganhou protagonismo com a
  publicação do Estatuto Geral das Guardas Municipais em 2014. Com a
  proximidade das eleições, dois anos após, a promessa eleitoral de
  armamento da instituição surgiu, um aspecto que merece destaque.
  Apesar de serem vários os possíveis objetos de uma promessa eleitoral
  para os agentes da Guarda, o <italic>lobby</italic> mais forte foi
  realizado em torno da questão do armamento. Isso porque, em que pese
  às denúncias públicas feitas pelos próprios agentes quanto aos
  problemas de estrutura da instituição, sinalizando a precariedade na
  formação e nas condições de trabalho, sejam elas de estrutura, sejam
  de direitos trabalhistas, a mobilização maior se restringiu ao porte
  da arma.</p>
  <p>A defesa do <italic>lobby</italic> armamentista foi alvo de
  conversa com um dos meus principais interlocutores dentro da Guarda.
  Um agente que, desde o início do curso, se mostrou disposto a
  colaborar com a pesquisa e que, por muitas vezes, direcionou o olhar
  pesquisador para questões que ele achava interessantes de serem
  analisadas e estudadas, questões que influenciavam até mesmo a forma
  como outros agentes agiam e que, a partir de então, passaram a
  orientar nossas conversas.</p>
  <p>Seguindo a dica de Evans-Pritchard
  (2005)<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> de se deixar interessar
  por aquilo que interessa aos nossos interlocutores, e não aquilo que
  nós achamos relevante previamente, buscou-se olhar e, de certa forma,
  mudar a percepção sobre a importância que os agentes davam ao
  armamento. Assim, permitindo aos agentes falar livremente sobre aquilo
  que era importante para eles; dois assuntos apareceram com maior
  relevância: um referido ao “descaso” apresentado por uma parcela dos
  novos agentes com o curso que estava sendo aplicado, principalmente
  pelos chamados “concurseiros” e, o outro referia-se à necessidade de
  ter o armamento para enfrentar “perigos” que eles imaginavam que
  poderiam encontrar na rua.</p>
  <p>Como se pôde notar, na hierarquia de assuntos relevantes para os
  agentes, as questões voltadas para a identidade da instituição e seu
  armamento tinham grande destaque, deixando de priorizar, por exemplo,
  aspectos relacionados à estrutura da instituição que, em expectativas
  pessoais, ocuparia um lugar importante. A razão dessa expectativa era
  um retrato do que se via nas ruas, de encontrar viaturas que, por
  vezes, estavam enguiçadas por falta de manutenção ou de combustível,
  além de outros problemas que ocorriam dentro do centro de operações e
  na distribuição das tarefas, que foram relatados pelos próprios
  agentes.</p>
  <p>Até mesmo as cabines compartilhadas com a Polícia Militar, que
  deveriam servir como abrigos estratégicos, foram encontrando
  dificuldades que denunciavam o perigo da falta de manutenção e a
  necessidade de melhorias nos equipamentos da Guarda. No entanto, o
  discurso dos guardas partia de uma perspectiva que minimizava as
  questões de estrutura, tratando-as como pontos que poderiam ser
  resolvidos facilmente. Essa afirmação pode ser observada na fala de um
  dos agentes, enquanto enumerava as medidas que estariam sendo
  trabalhadas pelo comando da Guarda junto à Prefeitura da cidade para a
  implementação mais rápida de melhorias:</p>
  <disp-quote>
    <p>Tá vindo com um quartel novo no Barreto. Pelo que tá previsto vai
    ter um centro de treinamento, um centro de triagem, um centro de
    tiro. A Prefeitura tá pretendendo adotar o armamento. Até agora a
    gente não ouviu o Prefeito falar nada. A gente viu a maquete com o
    <italic>stand</italic> de tiro. Até porque é aquilo que o Estatuto
    diz, as guardas municipais dentro da Prefeitura tem até dois anos
    pra se enquadrar no Estatuto. Se dentro desse tempo ela não se
    enquadrar, ela vai perder até mesmo o investimento federal e
    correndo o risco de tomar multa, né. Por não cumprir a lei. Por não
    cumprir o nosso Estatuto. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI, 2015).</p>
  </disp-quote>
  <p>Essa fala deixa evidenciar que, mesmo reconhecendo a precariedade
  nas estruturas, a questão do armamento se faz preponderantemente
  presente, dando ênfase inclusive a parte do projeto que prevê a
  instalação de equipamentos e infraestrutura para o tiro, como o centro
  de tiro e o <italic>stand</italic> de tiro. Visitando o áudio da
  primeira entrevista e o contrastando com registros</p>
  <p>de conversas em cadernos de campo construídos ao longo de quatro
  anos de pesquisa, nota-se</p>
  <p>quase que o mesmo comentário em todos os diálogos registrados. A
  questão que fica é: porque, diante de tantas defasagens, os agentes
  não construíram uma pauta sobre melhorias na estrutura da Guarda
  <italic>per se</italic>, sem a necessária relação e priorização da
  questão do armamento como um elemento fundamental?</p>
  <p>Não foi possível encontrar uma resposta objetiva para este
  questionamento, mas, a partir dos relatos dos agentes sobre o processo
  de formação por eles cursado e, posteriormente, com o aprendizado
  advindo da “prática” das ruas, fica mais fácil compreender que a
  estrutura da Guarda era uma questão importante, mas menos importante
  do que a implementação do armamento. As falas destacavam que um dos
  principais saldos positivos dessa medida seria não apenas uma
  automática melhoria na estrutura, mas o ganho do “respeito” da
  população. Isso porque, na lógica apresentada pelos agentes, uma
  Guarda “respeitada” seria uma Guarda que possuísse força política para
  buscar melhorias nos equipamentos, no plano de carreira dos agentes e
  nos treinamentos. O direito à posse da arma se apresentava como um
  primeiro passo: a arma traria o “respeito” da população e o “respeito”
  daria força política à Guarda para reivindicar melhorias.</p>
  <p>Quanto ao aspecto dos treinamentos, é válido destacar que a
  referência feita por meu interlocutor seguiu a defesa do armamento,
  adotando a linha de raciocínio de uma capacitação voltada para
  aprender sobre o uso das armas e para lidar com as “situações
  extremas” que a rua apresenta, na forma abaixo relatada:</p>
  <disp-quote>
    <p>A minha capacitação eu tive que correr por fora, porque a Guarda
    não tem esse investimento em capacitação até a presente data. Eu
    sempre fiz cursos, dentro das artes marciais, fora das artes
    marciais, na área militar, cursos de segurança, cursos de segurança
    progressiva. Pagos do meu bolso. Até curso da SWAT. Cursos caros que
    tive que tirar do meu bolso. Tive que correr por fora pra me tornar
    um guarda bom. Continuar atualizado na segurança pública, atualizado
    em lei porque também tenho que correr por fora porque a guarda não
    dá instrução. [...] Eu acho que no nível que tá hoje a Guarda,
    qualquer curso que chegue vai ser bem recebido. Qualquer cursinho de
    adestramento de cão, um curso de <italic>taser</italic>, um curso de
    defesa pessoal. Qualquer curso que chegue até o guarda vai ser de
    bom grado, porque a Prefeitura não fornece. (AGENTE DA GCM DE
    NITERÓI, 2014).</p>
  </disp-quote>
  <p>A ênfase dada ao “treinamento” e à necessidade de capacitação está
  voltada para uma melhor atuação dos guardas na área da segurança
  pública, focando prioritariamente no uso de armas dos mais diferentes
  tipos; ambas as vertentes, a militar e a jurídica, foram destacadas
  por Kant de Lima <italic>et al</italic>. (2012) como sendo dominantes
  na formação policial no Brasil. E essa formação, focada na prática, no
  treinamento, no adestramento, é a que, na visão do interlocutor,
  tornaria um agente em um “bom guarda”.</p>
  <p>É também possível notar, pela fala desse agente, que a demanda por
  esse tipo de capacitação é tratada com descaso pela gestão municipal,
  deixando muito a desejar com relação a essa formação “prática”. Nesse
  ponto, o agente entrevistado se encontra em uma complexa dualidade: ao
  mesmo tempo em que culpa a ausência de estrutura da Guarda pelo não
  fornecimento de treinamento interno, também se vê impossibilitado de
  buscar cursos à parte para suprir a defasagem, uma vez que os salários
  praticados inviabilizam esta prática, como ele mesmo retrata:</p>
  <disp-quote>
    <p>É uma prática dos guardas já fazer bicos. O guarda sai do plantão
    às vezes cansado e vai pegar uma segurança de mais de 12 horas,
    geralmente uma segurança de rua, de farmácia, posto de gasolina.
    Isso aí o guarda já faz de longa data. Os outros guardas até
    procuram fazer curso, mas como o salário é muito limitado, então
    fica difícil. Se o guarda não tiver um outro por fora... É que eu já
    trabalho com luta há muitos anos, então eu tenho o meu “por fora” e
    tenho o da Guarda. Então o que eu consigo fazer é com o meu recurso
    que tenho de fora. Se eu dependesse da instituição eu não teria
    feito nenhum curso. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI, 2014).</p>
  </disp-quote>
  <p>Em se tratando do curso de formação, a leitura desse agente sobre a
  razão de sua realização era clara: o curso só estava acontecendo por
  conta do planejamento para a implementação do armamento letal. E o
  raciocínio prossegue, pois, uma vez a Guarda estando armada, o poder
  executivo municipal se veria obrigado e forçado a realizar
  investimentos de forma continuada na capacitação dos agentes, o que
  elevaria o padrão da instituição.</p>
  <p>Dessa maneira, a combinação entre armamento letal, “respeito” da
  população e protagonismo político e institucional da Guarda era
  apresentada em uma dimensão única, capaz de viabilizar o crescimento
  da instituição e permitir a conquista de um papel relevante dentro da
  lógica de planejamento da segurança pública municipal. Direcionar
  todos os esforços políticos e sociais para a implementação do
  armamento seria, então, uma maneira de elevar a Guarda e seus agentes,
  tudo incluso em um único pacote para promover o desenvolvimento da
  instituição.</p>
  <p>Reanalisando a citação acima transcrita sob outra ótica, pôde-se
  perceber que a demanda pelo armamento também deixa evidenciar uma
  outra vertente da falta de estrutura, que tem como consequência a
  adoção de práticas não necessariamente legais, como a realização de
  “bicos”<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>, muito comum entre os
  agentes. Esses dois aspectos, quais sejam, a falta de estrutura e a
  adesão à informalidade, parecem caminhar de forma conjunta, deixando
  transparecer que a esfera institucional é, de forma similar, permeada
  por interesses pessoais e políticos dos atores da Guarda e do campo da
  segurança pública e social da cidade.</p>
  <p>Com base nessa última afirmação, é possível observar surgirem duas
  interessantes narrativas com distintas interpretações. Uma primeira
  justifica a realização dos “bicos” como uma consequência dos baixos
  salários recebidos pelos agentes. Esse fator os leva a complementarem
  suas rendas prestando atividades outras que possam ajudar a pagar suas
  contas, ou até mesmo cursos de capacitação externos, o que, como
  consequência, impede que eles exerçam suas funções com dedicação
  exclusiva, levando à precarização do serviço prestado.</p>
  <p>Já uma segunda interpretação revela que a tão desejada demanda pelo
  armamento dos agentes possa ser uma verdadeira forma de potencializar
  seus ganhos com os “bicos”, que, como disse o interlocutor, acontecem
  de “longa data”. Se sem a posse de armas letais os agentes já
  desempenham papéis outros, especialmente aqueles voltados ao
  desempenho de atividades ligadas à segurança privada, com a
  implementação do armamento suas possibilidades de trabalho externo
  seriam potencializadas, expandindo-se para concorrer com um mercado já
  estabelecido e protagonizado por praças da Polícia Militar.</p>
</sec>
<sec id="a-esperança-e-o-não">
  <title>A esperança e o “não”</title>
  <p>O caminho que se busca traçar neste artigo descreve como a demanda
  e o debate acerca do armamento da Guarda foi evoluindo ao longo do
  período da pesquisa e, especialmente, como esse aspecto reflete na
  construção da identidade sobre o que seria “ser um guarda”. Como
  mencionado no início do texto, o debate parece se iniciar com uma
  elevação nas expectativas dos guardas a partir do momento em que foi
  apresentado o projeto de investimentos na Guarda e na sua estrutura em
  2013. Depois, com a publicação do Estatuto das Guardas em 2014 e a
  posterior mobilização para a discussão do tema em um movimento
  organizado pelos próprios guardas. Por fim, ocorreram os debates
  legislativos e as consultas públicas que se passaram tanto em Niterói
  quanto no Rio de Janeiro já em
  2017<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. Em todas essas instâncias
  as demandas pelo “respeito” da população e pelo reconhecimento
  político e social da importância do trabalho da Guarda estiveram
  presentes.</p>
  <p>Em 2014, como mencionado, as expectativas dos guardas em torno da
  obtenção de reconhecimento<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref> eram
  altas, e pairavam principalmente sobre o fato de a instituição trilhar
  os caminhos certos para alcançar o objetivo de se armar e, com isso,
  alcançar uma mudança de nível. Ao prometer a construção de uma nova
  sede, a chamada de novos agentes para o quadro da Guarda e a aplicação
  de um Curso de Formação Profissional, a gestão municipal dava sinais
  de empenho e de reconhecimento do papel da instituição. Para muitos
  dos guardas com os quais se conversou, o próximo e quase natural passo
  seria, pouco a pouco, armar os agentes e os colocar nas ruas de forma
  ativa e coordenada. Na visão deles, a população poderia servir como
  “<italic>o melhor termômetro da eficácia da medida</italic>”. Aqui, a
  noção de “respeito” aparece e se fortalece como consequência da adoção
  das medidas anteriores, representando um produto do reconhecimento
  dado pela Prefeitura ao protagonismo da Guarda.</p>
  <p>Essa aura de otimismo foi notada nas falas que seguiram durante
  todo o processo de “evolução”, principalmente na formação dos novos
  agentes, que serviriam como um combustível extra. A ideia era que os
  novos agentes fossem entendidos pela população como um importante
  esforço da Guarda, tornando-a mais técnica e mais capacitada por
  contar com uma formação chancelada por uma universidade, a UFF,
  carregando, assim, uma credibilidade mais sólida. Nessa linha de
  raciocínio, a imagem da “nova Guarda” conseguiria se vincular de forma
  mais enraizada à noção de pertencimento ao segmento da segurança
  pública, e não propriamente ao ordenamento urbano, afastando-a da
  visão criticada tanto por setores sociais, quanto pelos próprios
  guardas, de que “<italic>a principal função da Guarda é mexer com
  camelô</italic>”.</p>
  <p>Esse último entendimento, que era extraído pela população do que se
  observava da atuação dos guardas na rua, ou seja, um atuar em
  constante conflito com os chamados camelôs, causava grande incômodo
  nos agentes, principalmente os recém egressos. Esses, pelo fato de
  possuírem ensino superior completo em sua maioria, eram considerados
  “mais técnicos” e estariam dispostos a serem mais ativos no
  patrulhamento de proximidade. Essa ambição era mais um passo em prol
  do objetivo armamentista, pois possuía a intenção de modificar aquele
  incômodo imaginário da população sobre os guardas e, a partir disto,
  conquistar respeito, influência e poder político.</p>
  <p>O curioso é que passados quatro anos da formação destes novos
  agentes, muitos deles, que se mantiveram como interlocutores deste
  trabalho desde o início, manifestaram a perda da vontade de
  “<italic>transformar a Guarda em uma ‘nova Guarda’</italic>”. Alguns
  culpavam a questão de o armamento ter sido mais complexa do que
  supostamente deveria ser; outros culpavam aqueles colegas que viam na
  instituição apenas uma escada para outros concursos públicos; e outros
  atribuíam essa responsabilidade à Prefeitura, em razão das promessas
  que foram feitas, mas que não foram concretizadas por problemas
  financeiros e/ou políticos, como se vê:</p>
  <disp-quote>
    <p>O [Prefeito] é o único cara nesses anos todos que olhou pra
    Guarda, então a maioria tá com ele. Mas muitos guardas se sentiram
    traídos com essa questão da consulta [pública]. Muitos ficam nessa
    de que ele não cumpriu o que falou em campanha. Ele já tinha falado
    que ia armar e depois mandou essa da consulta popular. Então isso
    deixou os guardas muito tristes, desapontados. (AGENTE DA GCM DE
    NITERÓI, 2018).</p>
  </disp-quote>
  <p>O ressentimento<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref> com o
  Prefeito aparece em muitas das falas, quase que todas as vezes
  acompanhado de uma ponderação sobre o quanto de ganhos a sua gestão
  levou para a Guarda. Novos agentes, novos uniformes, curso de
  formação, nova sede e promessas de transformar a Guarda na
  protagonista que eles acham que ela deveria ser. Essas promessas podem
  ser entendidas, seguindo a proposta de Carla Teixeira (2000), como uma
  ação política que supõe a contração de uma dívida que, não sendo
  cumprida, corre o risco de ser vivida como “traição”. E ocorreu
  exatamente como argumenta Cardoso de Oliveira (2002, p. 115), “o
  sentimento de ressentimento está associado às demandas que fazemos aos
  outros em relação a nós mesmos”.</p>
  <p>A questão é que tais promessas, por mais que tenham sido cumpridas
  em algum grau, nem sempre corresponderam no ritmo e no tempo que as
  expectativas criadas pelos guardas desejavam. Essa decepção, expressa
  na fala do agente com a palavra “<italic>traição</italic>”, se deu
  especificamente sobre o ponto do armamento, questão que era tida como
  elemento-chave no entendimento dos agentes. Como já exposto, o direito
  à posse da arma se apresentava como um primeiro passo: a arma traria o
  “respeito” da população e o “respeito” daria força política à Guarda
  para reivindicar melhorias.</p>
  <p>Já era claro, a esta altura, que o “avanço” que os agentes buscavam
  para a Guarda nem sempre se correlacionava com um plano de carreira
  mais bem estruturado, com o fortalecimento institucional com sua
  corregedoria e controladoria, novos equipamentos ou treinamentos. Para
  os meus interlocutores, a noção de “avanço” estava intrinsecamente
  relacionada à implementação imediata do armamento letal, questão muito
  mais relevante do que qualquer melhoria na estrutura da Guarda como um
  todo.</p>
  <p>Esse é um grande ponto de destaque. A clara percepção da existência
  de uma hierarquia de importância entre os temas foi observada, de
  forma expressa e evidente, em diversas conversas, entrevistas, aulas e
  em operações acompanhadas ao longo da pesquisa, como a
  <italic>Operação Verão</italic> e a <italic>Operação Papai
  Noel</italic>. Poucas foram as vezes que, em um contexto de
  questionamentos sobre o que deveria mudar ou ser melhorado na Guarda,
  foram apresentadas questões burocráticas, técnicas ou estruturais como
  prioritárias na lista de desejos dos agentes. A questão sobre a
  estrutura apareceu de forma destacada apenas em um momento, quando um
  guarda, ao falar sobre as promessas que não foram cumpridas, mencionou
  o <italic>stand</italic> de tiros, de forma semelhante ao que me foi
  relatado ano atrás pelo meu mestre, ao afirmar que “<italic>a Guarda
  perdeu muito o gosto pelo serviço, ele</italic> [o Prefeito]
  <italic>tava injetando novas coisas, dando esperança pra instituição
  que ia fazer e acontecer, mas isso</italic> [consulta pública]
  <italic>foi um balde de água fria. Tava tudo encaminhado: coletes,
  armas, stand de tiros. Tudo!</italic>”.</p>
  <p>De uma forma geral, a questão da arma encabeçava a lista de
  prioridade, que também era composta por menções pontuais sobre a falta
  material de equipamentos, mas também, e mais relevante para este
  trabalho, sobre a “falta de respeito” da população em relação à Guarda
  enquanto instituição, e com os agentes enquanto operadores e
  mediadores dos conflitos na segurança
  pública<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>. Permite-se, então, a
  defesa de uma ligação direta entre esses fatores. A “falta de
  respeito” se conecta com a falta do armamento porque, para eles, a
  população não “respeita” o trabalho de guardas que não estão
  armados.</p>
  <p>Isso porque, na visão dos guardas, eles nunca são procurados para
  agir em situações que eles afirmam que poderiam agir, segundo suas
  atribuições. Em suas leituras, a não procura pela população se vincula
  à ausência de armas (letais) em seus cintos, impedindo a atuação em
  situações que, por exemplo, requereriam o uso do armamento como
  garantia de segurança e efetividade na intervenção. As observações
  rotineiras revelam uma procura majoritária da população para a
  resolução de questões que, na percepção deles, os diminuem enquanto
  agentes, comprometendo sua identidade profissional e questionando suas
  posições enquanto “agentes da lei”, ou “agentes de segurança
  pública”.</p>
  <p>A união de todos os fatores acima expostos é o que, na visão dos
  agentes, se apresenta como a “falta de respeito” que a população
  demonstra com relação aos agentes. A “falta de respeito” decorre do
  fato de se sentirem tratados como “guardinhas”, de serem procurados
  “apenas” para dar informações sobre linhas de ônibus, localização de
  endereços ou para resolver questões de trânsito. A grande mudança
  desse imagético da população constituía, sem dúvidas, uma das grandes
  expectativas dos guardas que, com as promessas feitas pelo Prefeito,
  seria fácil e brevemente alcançada.</p>
  <p>Nesta linha de raciocínio, a incansável busca pelo “respeito” da
  população se transforma em uma demanda cada vez mais significativa
  para os agentes por envolver um anseio tido como fundamental: o
  processo de construção e afirmação de uma identidade profissional e
  institucional. Esse processo envolve não só a definição das
  competências legalmente a eles atribuídas e as funções a serem por
  eles desempenhadas, mas também o tratamento que a população deveria
  lhes oferecer ou deferir. Em outras palavras, a perspectiva da
  compreensão do como “de fato atuam” e do que “de fato são”. Em resumo,
  aquilo que está em jogo nas queixas colocadas pelos agentes parece se
  constituir, em certa medida, de uma “demanda por reconhecimento” em
  termos do seu <italic>status</italic> ou posição social (CARDOSO DE
  OLIVEIRA, 2004).</p>
  <p>Nesse sentido, é de se compreender que as promessas feitas pelo
  Prefeito elevaram em muito as expectativas dos agentes no atingimento
  de um novo <italic>status</italic> social. Diante da não concretização
  do compromisso, tornou-se fácil observar o desânimo que atingiu os
  agentes, mas essa frustração também deixa revelar alguns interessantes
  aspectos sobre a importância que foi depositada no processo de
  discussão do armamento. Segundo o comentário trazido por um
  interlocutor, os novos agentes, de certa maneira, teriam entendido que
  seus trabalhos só seriam completos e respeitados após a implementação
  do porte de armas letais. Ante o não atendimento da requisição, os
  agentes se viram tomados por uma sensação de derrota, que deu espaço
  para o surgimento de sentimentos de desapego com a “vontade de
  trabalhar”, e afastando a vontade de serem o mais produtivo possível
  em suas jornadas:</p>
  <disp-quote>
    <p>Uns trabalham bem, outros não. Fui trabalhar um tempo atrás no
    centro de Niterói e tá tudo jogado por lá. Eu via um guarda numa
    ponta e camelô do lado. Na minha época eu não fazia isso não, não
    podia ter na minha calçada! Teve que ir a corregedoria pra rua junto
    com o Inspetor Geral pra fazer ronda, até os guardas antigos
    reclamam de alguns novatos da turma de 2014. Eles são muito frouxos.
    Tem uns que são bons de serviço pra cacete, cai dentro e trabalha
    mesmo. Mas tem outros que só querem moleza. Se acham antigões,
    querem fazer o que os antigos fazem. Tem muito guarda novo tomando
    porrada da corregedoria por conta desse corpo mole, essa postura
    incorreta. Tem guarda dessa turma nova que conseguiu ter mais Ficha
    de Resposta Disciplinar (FRD) do que eu em mais de 10 anos como
    Guarda, apenas em três anos de instituição no probatório. Esses
    guardas estão em processo de exoneração. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI,
    2019).</p>
  </disp-quote>
  <p>A análise dessa fala permite inferir a existência de dois grupos
  distintos: um que é composto pelos agentes que, outrora esperançosos,
  viram um Prefeito que “deu mole” e que “traiu” expectativas e
  promessas; e um segundo que, em retaliação ao “não”, ou seja, diante
  da negativa quanto à implementação do armamento, fizeram “corpo mole”,
  reagindo de acordo com as suas frustrações e desapontamentos com um
  processo que iria, em suas visões, valorizar e reconhecer sua
  identidade e seu papel na segurança pública.</p>
</sec>
<sec id="section">
  <title></title>
</sec>
<sec id="crescer-reafirmando-uma-identidade">
  <title>“Crescer” reafirmando uma identidade</title>
  <p>Como ficou retratado, as expectativas dos agentes em torno da
  questão do armamento sofreram constantes vaivéns. Após as promessas
  feitas pelo Prefeito, no caso da Guarda de Niterói, a decepção
  política maior veio da realização de uma consulta pública,
  determinante nesse processo. Em outubro de 2017, a população
  niteroiense se posicionou majoritariamente contra à implementação do
  armamento letal à GCM<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>, decisão
  que acabou impondo um dramático fim aos anseios dos agentes.</p>
  <p>Neste ponto, esquecidas as expectativas do ano de 2014, com a
  edição do Estatuto da Guarda, e desfeitas as promessas eleitorais de
  2016, o quadro que se via no final do ano 2017 era de total
  frustração, permeada por inúmeros ressentimentos. Mas, das promessas
  feitas, aquelas que envolviam a renovação da instituição e as
  melhorias na estrutura da Guarda de certa forma ocorreram, com a
  inauguração de uma nova e equipada sede para os agentes. No entanto,
  nem mesmo esse aspecto foi suficiente para a melhoria dos ânimos. A
  perspectiva dos agentes estava intrinsecamente pautada no argumento de
  que o armamento seria o início de uma guinada na questão do “respeito”
  da instituição e no ganho de poder político.</p>
  <p>Reconhecendo, pelos menos à época, a improvável reversibilidade do
  quadro e digerindo o fato de que a Guarda não seria uma instituição
  armada, foi possível se observar uma mudança do discurso institucional
  no campo político, agora voltada para o retorno da valorização da
  estrutura e das condições de trabalho. Assim explica um guarda em uma
  conversa tida no ano de 2019:</p>
  <disp-quote>
    <p>Tá rolando problema? Tá! Pra caralho, muita coisa! Essa estrutura
    nova é muito bonita por fora, por dentro você tem que ver: várias
    infiltrações, rachaduras, uma piscina que forma quando chove porque
    o forro é ruim. Todas as salas têm ar-condicionado, 98% não
    funcionam. Foi entregue com muito problema. A estrutura por fora
    parece ser excelente, terreno bom, mas por dentro é muito ruim. O
    que tem menos problema é a sede da SEOP [Secretaria de Ordem
    Pública], porque eles que ficam com o dinheiro e esquecem da Guarda.
    A Prefeitura não repassa, a SEOP não repassa. Várias viaturas
    baixadas. Enquanto houver policial militar comandando a gente vai
    ter esse problema aqui, não querem que a gente cresça. Então tem
    problemas estruturais por conta da falta de investimentos. (AGENTE
    DA GCM DE NITERÓI, 2019).</p>
  </disp-quote>
  <p>A fala do agente expõe claramente o choque entre a expectativa
  apresentada em 2014 e a realidade material e simbólica do que foi
  construído e posto em operação até 2019. Com o sonho do armamento
  reprovado, os guardas viram, na realidade, que o cuidado e a atenção
  com a instituição ficaram de lado. Sem armamento e sem estrutura,
  viram sua situação ainda mais agravada com a valorização da parceria
  entre a Prefeitura e o Governo do Estado. Isso porque, quando da
  realização de uma operação conjunta entre os níveis municipal e
  estadual, sentiram que o papel que seria exercido supostamente pela
  Guarda em posse de armas letais, foi transferido e rearranjado para a
  estrutura da Polícia Militar.</p>
  <p>Com o olhar voltado novamente para a valorização da Guarda em si,
  os agentes deixaram transparecer um estado de ânimo que traz à tona o
  conflito geral de interesses existente tanto com a Polícia Militar,
  quanto com a Secretaria de Ordem Pública. Em particular, destaca-se a
  histórica prática de nomeações de ex-militares e militares da reserva
  como secretários de ordem pública da cidade de Niterói e no comando da
  Guarda. Por essa razão, a crítica feita pelo agente atribui a essa
  disputa não só a possível falta de investimento, mas, ainda mais, a
  impossibilidade da Guarda se tornar protagonista – “crescer” – e ser
  reconhecida, pois sempre se encontra sob os cuidados de representantes
  externos, quais sejam, da Polícia Militar.</p>
  <p>Refletindo-se sobre a posição desses militares como comandantes e
  dos agentes da guarda como comandados, encontra-se verossimilhança no
  que esclarece Taylor (2000, p. 241-254) sobre a “preocupação moderna
  com a identidade e o reconhecimento”. Nesse sentido, para que alguns
  tenham honra, é essencial que nem todos a tenham, dando origem, assim,
  a uma “política da diferença”, repleta de “discriminações e de recusas
  que produzem cidadanias de segunda classe”, ou, no caso, agentes de
  segunda classe, sem respeito, sem força política e, principalmente
  neste contexto, sem armas.</p>
  <p>As questões dessa política da diferença, bem como toda a
  preocupação com a identidade e o reconhecimento dos guardas se adensam
  quando se analisa a forma como foi conduzido o processo de discussão
  sobre o armamento na gestão municipal, resumindo-se a uma consulta
  pública. A forma simplória de coletar a opinião da população foi um
  fator que desagradou em muito os agentes. Segundo suas falas, a
  consulta contribuiu para que as coisas não saíssem da forma que vinha
  sendo planejada por eles desde 2014, como se pode notar:</p>
  <disp-quote>
    <p>Uma consulta popular você não é obrigado a sair de casa pra
    votar, já num plebiscito sim. Então começamos a lutar pra que fosse
    um plebiscito, mas não aconteceu. [..] O pensamento dos guardas,
    mais de 90 %, porque tem guarda que não quer que arme, achou isso
    tudo uma grande palhaçada. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI, 2018).</p>
  </disp-quote>
  <p>Novamente se vê surgir a alusão à imagem do “palhaço” ou, no caso,
  uma “palhaçada”. Por fim, esses pontos parecem refletir um sentimento
  recorrente: os agentes se sentem burlados e “não respeitados” em
  relação às suas demandas e expectativas. E, cada vez que uma
  expectativa se frutava, muitas vezes os agentes eram vistos tentando
  se amoldar às movimentações políticas do Prefeito e sua equipe,
  tentando se fazer presentes e obter êxito em novas demandas.</p>
</sec>
<sec id="considerações-finais">
  <title>Considerações finais</title>
  <p>Quando em 2014, os agentes estavam sendo alimentados pela ideia de
  que o Prefeito iria, a qualquer momento, autorizar oficialmente o
  início das operações com o armamento letal pela Guarda, a expectativa
  era impulsionada ato após ato da Prefeitura, que era vista realizando
  a compra de armas e encaminhado pedidos de licenciamento para a
  Polícia Federal, instituição responsável pelos registros do armamento
  e pela autorização dos agentes para uso.</p>
  <p>Apesar de todos os sinais dados, o problema encontrado, como foi
  explicado pelos agentes, residia no fato de que o Prefeito teve “medo”
  de assumir a responsabilidade pelo armamento. Em outras palavras, teve
  medo de se tornar alvo quando chamado a assumir eventuais
  intercorrências decorrentes de atuações indevidas por parte dos
  guardas. É o que se vê:</p>
  <disp-quote>
    <p>Ele [o Prefeito] deu mole. Ele chegou a fazer 30 guardas fazerem
    curso de tiros. Eles deram mais tiros que soldado da PMERJ no
    recrutamento. Um soldado da PMERJ dá menos de 100 tiros, os guardas
    deram mais de 300. Inicialmente esses 30 guardas iriam pra rua
    iniciar o serviço armado, e mais tarde mais guardas fariam a
    qualificação. Isso foi antes da votação. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI,
    2018).</p>
  </disp-quote>
  <p>“<italic>O</italic> [nome do Prefeito] <italic>deu mole</italic>”;
  “<italic>O</italic> [nome do Prefeito] <italic>teve medo</italic>”.
  Estas foram frases ouvidas repetidas vezes após a negativa da
  população. Na visão dos guardas, a implementação do armamento não
  deveria ter seguido nenhum tipo de consulta à população, afinal,
  “<italic>estava tudo lá preto no branco no Estatuto</italic>”. De tudo
  o que foi exposto, a leitura do processo que melhor sintetiza essa
  percepção foi apresentada por um agente enquanto se conversava sobre o
  histórico de enfrentamentos com os camelôs pela cidade. Em especial,
  sobre a repercussão negativa que esses conflitos geravam na imagem que
  a população tinha dos guardas:</p>
  <disp-quote>
    <p>Esse negócio do armamento foi uma foda mal dada, porque ia fazer
    a Guarda focar mais na segurança, aí falaram “não, guarda é maluco!
    Vai querer intimidar camelô!”, isso já acontece tem muito tempo.
    Sabe quem mais tá fazendo apreensão na rua? É a SEOP, vire e mexe
    eles vêm com um carro com caçamba de apreensão. Tão fazendo mais
    apreensão do que os guardas faziam antigamente. O armamento não era
    pra intimidar ambulante, era pra focar mais na segurança, no
    patrulhamento preventivo, porque não é nem ostensivo, é preventivo.
    Muitas vezes uma pessoa chega no guarda e fala que foi assaltada,
    que o cara tava com uma arma, e o que a gente vai fazer com
    cassetete e <italic>taser</italic>? E aí? Como que trabalha desse
    jeito? A gente poderia atuar mais se tivesse condição de trabalho, a
    arma seria um ponto nesse sentido. (AGENTE DA GCM DE NITERÓI,
    2018).</p>
  </disp-quote>
  <p>Essa fala tem a capacidade de resumir alguns aspectos tratados
  neste artigo. Primeiro, por transparecer as disputas entre a Guarda e
  outras instituições em termos de atuação e de identidade. Nesse caso
  em específico, a tensão é representada pela SEOP, mas isso pode ser
  constatado em relação à PMERJ. Segundo, por evidenciar a percepção de
  uma indefinição nas funções e nas atribuições que deveriam ser
  exercidas pela Guarda, fator que parece repercutir negativamente na
  afirmação da identidade institucional e que reflete em práticas
  reproduzidas desde a formação dos agentes. A ausência de definição
  abre espaço para o anseio pela atuação pura e simples no âmbito da
  “segurança pública”, permitindo que seja entendida apenas nos seus
  aspectos repressivos, em contraste com uma realidade que os joga para
  outras tarefas não tão desejadas.</p>
  <p>Terceiro e, por último, por ratificar, reafirmar e reiterar que a
  plena atuação desejada pelos guardas encontra como principal obstáculo
  a ausência do direito ao porte das armas. A frustração se intensifica
  quando se faz a possível correlação de que a negativa estaria
  sustentada no “mau uso” que os agentes fariam da arma. Em contraponto,
  eles defendem que a atuação com o armamento letal seria mais
  eficiente<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref> e, dessa forma,
  capaz de gerar a tão desejada ruptura com o histórico de confrontos
  com camelôs. Essa desvinculação da imagem influenciaria positivamente
  na percepção da população sobre a importância da Guarda e da atuação
  de seus agentes, de maneira a possibilitar a recuperação, ou o
  estabelecimento, do respeito e da admiração perdidos, ou, ainda, a
  serem conquistados.</p>
  <p>Em linhas gerais, tomando a análise de Goffman sobre o estigma
  (1980), pode-se destacar que a busca dos agentes pela ruptura com sua
  imagem tem por base a forma como eles próprios lidam com as pré-noções
  negativas da população, pré-noções decorrentes do histórico material e
  simbólico de suas interações com os guardas e suas formas de agir.
  Expõe-se, assim, que a identidade social virtual dos agentes apresenta
  características que os aproximam de suas identidades reais, o que faz
  com que, segundo a percepção deles, a reputação da Guarda seja
  desacreditada e que a “falta de respeito” de parte da população seja
  tão arduamente sentida.</p>
  <p>A “falta de respeito’, desse modo, apresenta-se como símbolo da
  ausência de definição de uma identidade da Guarda, seja no plano da
  estrutura formal propriamente dita, seja a partir de suas práticas
  militarizadas conduzidas por outras instituições, seja no plano mais
  subjetivo da afirmação e da busca por um reconhecimento social,
  político e profissional. De certa forma, o guarda, quando afirma que
  “<italic>não é guardinha</italic>”, que “<italic>cai pra
  frente</italic>” e que “necessita” de uma arma letal para “agir como
  se deve agir”, está buscando a reafirmação de sua identidade. O que o
  guarda quer, afinal, é ultrapassar a barreira do descrédito, é, ao fim
  e ao cabo, “<italic>ser visto como um guarda deveria ser
  visto</italic>”.</p>
  <p>Nota-se, no entanto, que esse discurso apresentado pelos agentes
  distorce as teorias ensinadas em sala de aula durante o Curso de
  Formação Profissional, em especial aquelas ministradas sob a
  responsabilidade da Universidade. Isso porque a metodologia utilizada
  na construção dessas aulas foi elaborada justamente a partir das
  demandas apresentadas pela própria GCM e pela Prefeitura da cidade de
  Niterói, o que, de certa forma, demonstraria uma tentativa na produção
  de um conhecimento prático e teórico seguindo o ideal de uma Guarda
  mais comunitária, ou, ao menos, mais próxima da população. Por essa
  razão, as aulas buscaram esclarecer as atribuições que a lei designa
  para a instituição e para os seus agentes, mas, de maneira cabulosa,
  os guardas confundem os limites da função de fiscalização, estendendo
  sua atuação para a possibilidade de policiamento ostensivo equiparável
  ao dos agentes da Polícia Militar.</p>
  <p>Neste sentido, a “grande questão” da Guarda Civil Municipal de
  Niterói até poderia se relacionar com as suas confusas e opacas
  atribuições, porém, em verdade, o que se visualiza ao longo do
  desenvolvimento deste trabalho é que a incerteza quanto às funções dos
  agentes serve como uma “carta na manga” para os que pensam a GCM como
  uma instituição policial, e não como um órgão de apoio ao ordenamento
  público das cidades. Dessa monta, a falta de protocolos e a falta de
  clareza sobre o “onde”, “como” e “por que” agir possibilita que seus
  representantes pautem discussões como a descrita neste artigo sobre o
  uso de armas letais, ao tempo que menosprezam a produção teórica que
  lhes fora apresentada.</p>
  <p>A consequência da leitura das atribuições dos guardas nas
  entrelinhas permite observar que uma instituição civil, ao se
  militarizar tanto informalmente na rotina de trabalho de seus agentes,
  quanto formalmente durante a aplicação de um curso de formação, acaba
  se mostrando em uma posição desprestigiada e confusa para todos os
  envolvidos, sejam eles munícipes, sejam os próprios agentes, sejam,
  ainda, as demais instituições que compõem o ordenamento e a segurança
  pública.</p>
  <p>Sinaliza-se, por todo o exposto, que o desprezo demonstrado pelos
  agentes com a teoria ensinada em sala de aula reforça o imaginário do
  conflito, do embate e, não por acaso, do militarismo. A teoria, apesar
  de não ser produto de pesquisadores necessariamente atuantes como
  agentes da segurança pública, é fruto de observação prática e busca
  aclarar para os guardas o seu papel no ordenamento, o que os aproxima,
  como já dito, de uma atuação mais comunitária, ou, ao menos, mais
  próxima da população. No entanto, munidos de seus discursos
  militarizados e armamentistas, os agentes parecem insistir em
  contrariar as convenções mais atuais sobre o que é, de fato, uma
  instituição de segurança pública eficaz e produtiva, ou, no caso da
  Guarda Civil Municipal de Niterói, do que seria uma instituição do
  ordenamento público da cidade.</p>
</sec>
<sec id="referências-bibliográficas">
  <title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
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  e estratégias do espaço público carioca. Dissertação (Mestrado em
  Antropologia) – Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2009.</p>
</sec>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <p>A partir deste ponto, será utilizada GCM como abreviação para
    Guarda Civil Municipal de Niterói.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <p>Cabe o destaque para mudanças significativas ocorridas nas
    conjunturas política e social, elementos que estabeleceram a emersão
    da discussão pública sobre políticas armamentistas, tendo a disputa
    eleitoral pela presidência da República do Brasil no ano de 2018
    como um dos principais palcos para o debate. Desde as jornadas
    ocorridas em junho de 2013, a conjuntura política brasileira sofreu
    grandes mudanças, que tiveram seu marco com a crescente mobilização
    de um grupo autoidentificado como “suprapartidário”, que tomou as
    ruas após as eleições de 2014. No entanto, apesar da defesa desse
    discurso, com o tempo se observou que, após cada manifestação, os
    movimentos direcionavam-se à polarização do público em diversos
    temas, como por exemplo, a pauta que se ocuparia do tema “muito mais
    do que os 20 centavos”, em referência ao aumento na tarifa do
    transporte público, que foram o estopim para a ocupação das ruas
    (PIRES, 2013).</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <p>O curso teve como base sua edição anterior, organizada em
    parceria do mesmo tipo entre o Núcleo Fluminense de Estudos e
    Pesquisas da Universidade Federal Fluminense (NUFEP/UFF) e a
    Prefeitura do Município de Niterói, realizado nos anos de 2002 e
    2003. Esse mesmo curso também acabou sendo utilizado como base para
    que o Ministério da Justiça e a Secretaria Nacional de Segurança
    Pública desenvolvessem uma matriz curricular nacional voltada para a
    formação dos agentes das Guardas Municipais pelo país, valorizando a
    relevância do projeto e o seu pioneirismo ao tratar do assunto. As
    aulas eram ministradas em parte por pesquisadores do INCT-InEAC/UFF
    e professores convidados de outras universidades, e por agentes da
    Guarda Civil Municipal, policiais militares e funcionários ligados à
    Prefeitura de Niterói.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <p>Em <italic>Algumas reminiscências e reflexões sobre o trabalho de
    campo</italic>, Evans-Pritchard sugere que “o antropólogo deve
    seguir aquilo que encontra na sociedade que escolhe estudar”, e
    exemplifica: “Eu não tinha interesse por bruxaria quando fui para o
    país zande, mas os Azande tinham e assim tive que me deixar guiar
    por eles”. (2005, p. 244-245).</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <p>Os bicos são atividades realizadas por aqueles que buscam um
    renda extra de forma pontual, sem objetivar a construção de uma
    carreira. Os trabalhos feitos por meio dos “bicos” são geralmente de
    curta duração e com pagamento imediato, antes ou após a prestação do
    serviço, o que faz com que muitas pessoas busquem complementação de
    renda nesse tipo de atividade.</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <p>Como mencionado anteriormente, a conjuntura política contribuiu
    para que o tema fosse colocado sob as luzes do debate público,
    conseguindo ser discutido em vários âmbitos da sociedade, seja na
    academia, em eventos da sociedade civil organizada ou em ambientes
    institucionais da política municipal.</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <p>“A exigência de reconhecimento assume nesses casos caráter de
    urgência dados os supostos vínculos entre reconhecimento e
    identidade, em que ‘identidade’ designa algo como uma compreensão de
    quem somos, de nossas características definitórias fundamentais como
    seres humanos” (TAYLOR, 2000, p. 241) – neste caso, “definitórias
    fundamentais” como agentes de segurança pública.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <p>Compreendendo “ressentimento” a partir da definição oferecida por
    Strawson: &quot;Consideremos, então, ocasiões de ressentimento:
    situações em que uma pessoa é ofendida ou ferida pela ação de outra
    e em que – na ausência de considerações especiais – a pessoa
    ofendida poderia naturalmente ou normalmente sentir
    ressentimento&quot;. (STRAWSON, 1962, p. 8, tradução nossa).</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <p>Importante destacar que a “falta de respeito” por parte da
    população difere da noção de “desrespeito” que tive contato quando
    em conversas com camelôs, onde o insulto moral seria vivido no
    choque entre os agentes da Guarda e os comerciantes.</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <p>Na consulta, a população votou contra o armamento da Guarda Civil
    Municipal em 45 pontos de votação espalhados pelo município. A
    adesão foi considerada, por vários canais de comunicação, muito
    baixa, pois apenas 18.990 dos 371.736 eleitores possíveis do
    município se movimentaram para dar seu voto, ou seja, 5,1% do total
    de eleitores. A proposta foi rejeitada por 13.478 dos niteroienses
    que foram às urnas. Somente 5.480 participantes da consulta pública
    votaram a favor da proposta, enquanto 32 pessoas votaram branco ou
    nulo. Representando assim, respectivamente, margens de 70,1% contra
    28,9% da população (APURAÇÃO, 2017).</p>
  </fn>
  <fn id="fn11">
    <p>Compreendendo a noção de eficiência enquanto a ampliação da
    capacidade de pronto emprego em um conjunto maior de ambientes
    passíveis da atuação dos agentes por conta da ampliação de seus
    instrumentos de coerção e uso da força.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
