<?xml version="1.0" encoding="utf-8" ?>
<!DOCTYPE article PUBLIC "-//NLM//DTD JATS (Z39.96) Journal Archiving and Interchange DTD v1.2 20190208//EN"
                  "JATS-archivearticle1.dtd">
<article xmlns:mml="http://www.w3.org/1998/Math/MathML" xmlns:xlink="http://www.w3.org/1999/xlink" dtd-version="1.2" article-type="other">
<front>
<journal-meta>
<journal-id></journal-id>
<journal-title-group>
</journal-title-group>
<issn></issn>
<publisher>
<publisher-name></publisher-name>
</publisher>
</journal-meta>
<article-meta>
</article-meta>
</front>
<body>
<p><bold>SERIAM OS FUTUROS POLICIAIS MILITARES SUJEITOS LIMINARES? UMA
CRÍTICA À ABORDAGEM PROCESSUALISTA NOS ESTUDOS SOBRE FORMAÇÃO E
IDENTIDADE POLICIAL</bold></p>
<p><bold>Eduardo de Oliveira Rodrigues</bold></p>
<p>Doutor em Antropologia pela Universidade Federal Fluminense. Tem
mestrado em Geografia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e
graduação em geografia também pela UFRJ. É professor efetivo de
geografia da Educação Básica, Técnica e Tecnológica do Colégio Pedro II.
É pesquisador do Laboratório de Estudos sobre Conflitos, Cidadania e
Segurança Pública (Laesp) da UFF, vinculado ao Instituto de Estudos
Comparados em Administração de Conflitos (INCT-InEAC) da UFF.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio de Janeiro
<bold>Cidade:</bold> Rio de Janeiro</p>
<p><bold>Email:</bold> eorodrigues@gmail.com <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0001-9246-6462</p>
<p><bold>Resumo</bold></p>
<p>Entre os estudos interessados no processo de formação dos
profissionais de segurança pública no Brasil, é comum o diagnóstico
sobre a influência que as escolas de formação e a prática policial
possuem na construção da identidade policial. Neste universo, é inegável
a importância assumida pela análise processual turneriana, dada a
tendência em compreender os futuros policiais enquanto sujeitos
liminares, cuja identidade profissional seria moldada, fundamentalmente,
pelas escolas de formação e pelo saber prático das ruas. Apoiado em
dados etnográficos construídos junto a candidatos à carreira de policial
militar no Rio de Janeiro, sugiro que muito mais do que criar novas
identidades, os espaços de formação e prática contribuem no sentido de
reorganizar e complexificar representações e modelos simbólicos que, de
certa forma, já estão presentes nos possíveis futuros policiais. A
entrada na polícia marcaria muito mais uma continuidade do que uma
ruptura com a vida civil prévia dos candidatos.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Formação policial; Identidade policial;
Liminaridade; Representações sociais; Polícia Militar.</p>
<p><bold>WOULD FUTURE COPS BE LIMINOIDS? A CRITICAL ESSAY OF PROCESSUAL
SYMBOLIC ANALYSIS IN STUDIES ON POLICE EDUCATION AND POLICE IDENTITY IN
BRAZIL</bold></p>
<p><bold>Abstract</bold></p>
<p>A common approach among studies of police education in Brazil relates
the influence of police academy and police street culture on police
identity. In view of such perspective, the importance of Victor Turner’s
processual analysis is undeniable, given the tendency to understand
future policemen as liminoids, whose professional identity would be
shaped, fundamentally, by police training academies and by police
practical knowledge gained in the streets. Supported by ethnographic
research with candidates who wants to join the military police in Rio de
Janeiro, this paper suggests that far more than creating new identities,
the spaces of training and police practice may reorganize and reinforce
social representations and symbolic models that already shape, to some
degree, the possible future cops. Joining the military police would be
much more continuity than rupture with the candidates's previous
civilian life.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Police education. Police identity. Liminoid.
Social representations. Military Police.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 18/04/2021 – <bold>Data de
Aprovação:</bold> 17/09/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2023.v17.n1.1484</p>
<p><bold>PALAVRAS INICIAIS: A FORMAÇÃO POLICIAL ENQUANTO
PROBLEMA</bold></p>
<p>Entre os estudos interessados no processo de formação dos
profissionais de segurança pública no Brasil, é lugar comum o
diagnóstico sobre a enorme influência que as escolas de formação e a
prática do cotidiano policial possuem na construção da identidade
profissional dos agentes. Em relação às polícias militares, tal debate
ganha maior densidade através de dois problemas correlatos identificados
por inúmeros trabalhos. Em primeiro lugar, pela entrada na corporação
marcar uma ruptura com a vida pretérita dos policiais quanto ao seu
“passado civil” (BRITO; PEREIRA, 1996; MUNIZ, 1999; ALBUQUERQUE; MACHADO
2001; 2003; SÁ, 2002; STORANI, 2006; SILVA, 2011; entre outros), como
também, de maneira igualmente importante, pelo caminho de
profissionalização dos agentes ser pavimentado através da transmissão de
saberes práticos adquiridos fora da sala de aula, isto é, pelo chamado
“currículo oculto” das polícias (CARUSO; PATRÍCIO; PINTO, 2010).</p>
<p>Essas formas de saber, cujo conteúdo não passa necessariamente pela
regulamentação dos regimentos internos e currículos formativos das
corporações, atuam de maneira direta não somente sobre a construção da
própria identidade profissional dos policiais, como também naquilo que
Reuss-Ianni e Ianni (1983) e Muniz (1999) chamam de “cultura policial
das ruas”. Em certo sentido, tais diagnósticos procuraram ressaltar,
como identificam Pires e Albernaz (2019), uma espécie de tensionamento
entre saberes organizados de maneira binária em pares estruturais, como
“teoria X prática”, “caserna X rua”, “praças X oficiais” ou ainda o
mundo “civil X militar”, no que toca a formação policial e a identidade
profissional dos PMs brasileiros. Tais binarismos aparecem enquanto
chave de leitura importante na explicação de uma série de problemas das
nossas polícias militares, em especial na dificuldade de se empregar
mudanças mais profundas nas práticas cotidianas dos agentes. Esses
diagnósticos ganharam importância ainda maior, sobretudo, após a
redemocratização de 1985, dada as continuidades presentes nos aparatos
repressivos do Estado em relação ao período da ditadura civil-militar
brasileira (SILVA, 1990; PINHEIRO, 1991; BATISTA, 1997; ZAVERUCHA,
1998).</p>
<p>O caso da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) é
emblemático neste sentido. Embora, desde o período da redemocratização,
o cenário da segurança pública fluminense tenha oscilado num movimento
errático de alternância entre políticas, ora mais próximas do respeito
relativo aos direitos humanos, ora marcadas pela filosofia militarista e
discricionária (SOARES; SENTO-SÉ, 2000, p. 4), as altas taxas de
letalidade e mortalidade policial no estado persistem tanto na sua
Região Metropolitana (RMRJ), em geral, porém mais especificamente nos
bairros cariocas cujas favelas são predominantemente territorializadas
pelo tráfico varejista de drogas ilícitas (RODRIGUES, 2021). Dados do
Instituto de Segurança Pública (ISP) analisados por Misse <italic>et
al.</italic> (2013) apontam que, no período entre 2001 e 2011, mais de
dez mil pessoas foram assassinadas no Rio de Janeiro pela polícia. Nos
anos entre 2015 e 2019, o estado fluminense acompanhou a tendência geral
de agravamento da letalidade policial no Brasil, com o número de mortes
saltando de 645 (ano 2015) para 1.810 (ano 2019) – um aumento de 180,6%
no período (FBSP, 2016; 2020)<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>. Na
leitura de Ramos (2016), embora as últimas três décadas tenham
experimentado algumas políticas públicas capazes de mudar
conjunturalmente o panorama da segurança no estado, elas não foram
suficientes, todavia, para mitigar os problemas ligados à brutalidade e
à corrupção das práticas policiais em longo prazo. Para a autora, a
própria polícia e as políticas de segurança pública seriam os principais
elementos para explicar a variação da intensidade criminal no Rio de
Janeiro ao longo do tempo.</p>
<p>Diante do referido quadro, a formação dos profissionais de segurança
pública é considerada componente fundamental de uma possível “reforma
das polícias” em prol da garantia de um Estado de Direito. Como
argumenta Poncioni (2005; 2012), o cenário de “crise” das últimas
décadas criou certo consenso entre estudiosos da área, formuladores de
políticas públicas, algumas autoridades de governo e parte dos próprios
policiais, sobre a necessidade de maior profissionalização dos agentes,
em especial pela necessidade de melhoramento do seu desempenho na
condução da ordem e da segurança no Brasil contemporâneo. Por outro
lado, como alerta Kant de Lima (2003, p. 73), os potenciais riscos dessa
abordagem dizem respeito ao raciocínio por vezes errôneo de relacionar o
baixo desempenho dos policiais com o despreparo oriundo da má formação
recebida nas escolas. Sendo este o principal problema, bastaria então,
segundo esta lógica, oferecer uma formação de melhor qualidade aos
policiais para que o cenário de “crise” possa ser, em grande medida,
superado.</p>
<p>No caso do Rio de Janeiro, trabalhos como os de Filho (2003),
Poncioni (2005), Riccio e Basílio (2006), Cortes e Mazzurana (2015) e
Costa (2015) apontam, a título de exemplo, algumas rupturas e
continuidades que os currículos dos oficiais e das praças da PMERJ
sofreram ao longo das últimas décadas. A partir de 2011, na esteira do
processo de “pacificação” de favelas, uma série de reformas procurou
adequar melhor o currículo principalmente dos soldados às demandas
sociais e às competências contidas na Matriz Curricular Nacional (MCN).
O objetivo básico das mudanças tratava não somente da ampliação das
disciplinas de direitos humanos, como também do redirecionamento das
disciplinas do Direito para uma perspectiva mais garantista e menos
formalista, em termos legais (CORTES; MAZZURANA, 2015, p. 8).</p>
<p>A potencialidade dessas iniciativas esbarra, todavia, num outro
problema apontado novamente por Kant de Lima (2003, p. 76-77), que diz
respeito ao próprio ideário da segurança pública no Brasil se atrelar a
diferentes tradições culturais presentes em nossa sociedade. Para o
autor, outro desafio da formação policial é também o de formar policiais
que já estão “formados” anteriormente à entrada na polícia, ou seja, de
desconstruir paradigmas de pensamento e ação que não enxergam todos os
cidadãos enquanto sujeitos de direitos. Tal elemento me parece de suma
importância, uma vez que essas tradições culturais agem também na
conformação das diferentes representações sociais que todos nós temos
sobre as forças de segurança. Falo em especial sobre as representações
dos possíveis futuros policiais, ou seja, das pessoas comuns que se
interessam pela carreira policial antes de qualquer contato prévio com a
corporação.</p>
<p>Nesse sentido, o presente artigo objetiva refletir acerca da
construção do “ser policial” através de um olhar distinto sobre o
problema. Não pretendo partir do estudo das polícias quanto ao seu papel
considerado lapidar na conformação da identidade profissional dos
agentes, mas sim sobre os indivíduos que se propõem a ingressar na
carreira antes de serem formalmente policiais. Entre os anos de
2019-2020, por conta da minha pesquisa de doutoramento, acompanhei por
14 meses parte da vida de alguns sujeitos interessados em ingressar na
PMERJ. Não estou a falar de um grupo de recrutas, isto é, futuros praças
que já se encontram matriculados nas escolas de formação da polícia, mas
sim de jovens que ainda não tiveram qualquer contato formal com a
corporação. Trata-se de simples candidatos – homens e mulheres comuns
com idade entre 18 e 30 anos – que por algum motivo desejam se tornar
policiais. A partir da minha inserção num “cursinho” preparatório para o
concurso de “soldado PM”, pude interagir com os possíveis futuros
policiais no cotidiano da sala de aula, nas conversas em grupos de
<italic>Whatsapp</italic> e, principalmente, em outros espaços de lazer,
trabalho e estudo dos candidatos.</p>
<disp-quote>
  <p>Por conta da minha atuação profissional enquanto professor de
  geografia da rede básica de ensino e doutorando em antropologia, meu
  papel no campo foi o de uma espécie de monitor “informal” das
  disciplinas de ciências humanas constituintes do
  concurso<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>. Em cada turma de
  preparatório “soldado PM” que acompanhei, eram oferecidas aulas com
  duração de três horas, realizadas de duas a três vezes por semana,
  durante um período de, no mínimo, três meses consecutivos. Geralmente,
  os candidatos que se transformaram nos meus principais interlocutores
  permaneceram no curso por um período de tempo mais longo. Do ponto de
  vista metodológico, a primeira parte do campo foi assim toda conduzida
  presencialmente junto aos candidatos no cotidiano do “cursinho”. No
  intervalo das aulas, tirei dúvidas de dezenas de candidatos, resolvi
  centenas de questões de prova, montei listas de exercícios, indiquei
  matérias de jornal, filmes e séries de TV sobre possíveis temas de
  redação, consegui organizar, algumas vezes, grupos de estudos, entre
  outras atividades. No caso dos candidatos com os quais desenvolvi
  relações de maior confiança, o campo se desenvolveu, num segundo
  momento, em outros espaços importantes das suas vidas, como bares,
  padarias, restaurantes, <italic>shopping centers</italic>, festas,
  jogos de futebol, praias, bordéis, seus locais de trabalho e, algumas
  vezes, suas residências. Logo, este artigo toma como base apenas
  pequena parte dos dados que foram construídos no âmbito do meu
  trabalho de campo, que se desenvolveu dentro de uma perspectiva
  multissituada voltada para “seguir as histórias” (MARCUS, 1995, p.
  106) que me foram contadas por esses possíveis futuros policiais.</p>
</disp-quote>
<p>Pelos limites do texto, minha proposta é então empreender um
exercício compreensivo do processo de construção do “ser policial” a
partir de algumas representações sociais (MOSCOVICI, 1988; 2003; ABRIC,
1993) nativas acerca da carreira na Polícia Militar. O artigo objetiva
demonstrar como alguns valores, imagens e representações que os
candidatos trazem, eventualmente, anterior ao seu estado liminar
enquanto neófitos da PMERJ, mostram muito mais continuidades do que
rupturas entre seu “passado civil” e o horizonte semântico policial
militar. Enquanto ponto de partida deste exercício, proponho uma breve
revisão crítica sobre algumas leituras importantes no campo da formação
policial que procuram compreender os futuros PMs enquanto andarilhos
ainda a transitar pelas aleias da liminaridade.</p>
<p><bold>SER POLICIAL: VOCAÇÃO OU PRAGMATISMO ENTRE SUJEITOS
LIMINARES?</bold></p>
<p>Acredito que qualquer boa investigação acadêmica comece a partir de
uma dúvida relevante. Ao menos para mim, a escolha pelo ofício de PM
sempre me intrigou, ainda mais em uma cidade como o Rio de Janeiro. Pela
profissão ser geralmente considerada um emprego de alto risco e baixo
prestígio social, era difícil compreender ao certo o que levava uma
pessoa a querer entrar para a PMERJ. Sob diferentes perspectivas,
trabalhos interessados no processo de construção social da identidade
policial (MUNIZ, 1999; PONCIONI, 2004; SOARES; MUSUMECI, 2005; ALBERNAZ,
2009; SILVA, 2011; entre outros) tangenciaram essa questão. Geralmente,
duas explicações aparecem enquanto justificativa para a escolha
profissional segundo a leitura dos próprios policiais. Em primeiro
lugar, o sentido <italic>vocacional</italic> da profissão como inscrito
em Weber (2000), ligado a uma dimensão secular da habilidade/aptidão em
realizar determinada tarefa, ou mesmo uma dimensão religiosa, que
tornaria a escolha em ser policial num designo sagrado, quase como o
atendimento a um “chamado” para alguns (ALBERNAZ, 2009; 2010). De
maneira igualmente importante, a escolha pela polícia poderia levar em
conta também razões de ordem <italic>pragmática</italic>, alimentadas,
em grande medida, por motivos ligados à situação de desemprego
generalizado no país, o salário razoável pago por uma qualificação de
Ensino Médio, a estabilidade profissional garantida por um emprego
público, o pagamento da aposentadoria integral, etc.</p>
<p>Seja pelo princípio da vocação ou do pragmatismo, fato é que as
polícias militares (e as Forças Armadas [FAs] de modo geral) exercem
papel importante enquanto instituições de ascensão social para os
segmentos mais humildes da sociedade brasileira. Trabalhos como os de
Bretas (1997) e Holloway (1997) nos mostram que a atividade laboral na
polícia, desde sua origem, sempre foi muito mais atrativa para
trabalhadores pobres e negros alforriados do que para os segmentos
médios e as elites. Na leitura de Sansone (2002, p. 518), a PMERJ em
particular consegue de maneira muito clara interligar marcadores de
classe e raça nas suas fileiras, se constituindo enquanto veículo de
ascensão social importante também para os afro-brasileiros viventes no
Rio de Janeiro. Não é à toa que o perfil da maior parte da tropa – isto
é, aquele formado por soldados, cabos e sargentos – seja facilmente
identificável enquanto majoritariamente masculino, não branco e de
escolaridade de nível Médio e Fundamental (MINAYO; SOUZA; CONSTANTINO,
2008, p. 67-73.). Não seria exagero especular, neste sentido, que mais
do que qualquer outra instituição pública no estado do Rio de Janeiro, a
PMERJ talvez seja aquela com o maior número absoluto de negros e pessoas
de origem mais pobre nos seus quadros, em especial no “círculo das
praças”.</p>
<p>Tal perfil é encontrado de maneira muito clara entre os candidatos ao
cargo de “soldado PM”. A maior parte deles é formada por homens jovens
com menos de 30 anos, não brancos, de escolaridade de nível Médio e
moradores de periferias pobres e favelas do Rio de Janeiro. Os próprios
cursos preparatórios voltados para o concurso da PMERJ se localizam, em
grande medida, em bairros da capital e em municípios da RMRJ com este
perfil. Quando consegui a autorização para acompanhar as aulas num
desses “cursinhos”, optei, por sugestão do diretor pedagógico da rede de
preparatórios, por uma unidade localizada em um bairro do subúrbio
carioca<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>. A recomendação foi feita
por dois motivos: não só porque lá havia mais turmas e maiores
possibilidades de observação das aulas, como também pelo perfil do
candidato suburbano, segundo o diretor, ser mais “adequado” para a minha
pesquisa. Percebendo minha curiosidade, ele me explicou que, na unidade
do centro do Rio, os candidatos não queriam de fato a carreira de PM,
mas eram apenas “concurseiros” (MAIA, 2019, p. 119), ou seja, candidatos
que se dedicavam sistematicamente a se tornar funcionários públicos,
inscrevendo-se em vários concursos e frequentando vários cursos
preparatórios até a aprovação. Segundo o diretor pedagógico: “o
candidato da PMERJ aqui no centro é <italic>nutella.</italic> Lá no
subúrbio não, lá você vai encontrar o candidato
<italic>raiz</italic>”<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>. Pouco
tempo após o início do campo, compreendi perfeitamente sua
observação.</p>
<p>Neste cenário, a escolha pela carreira policial é tributária de
trajetórias de vida não tão distantes assim do horizonte da PMERJ. A
maior parte dos candidatos com os quais convivi eram jovens oriundos das
patentes baixas das FAs, trabalhadores atuantes na área da “segurança
patrimonial”, ou mesmo pessoas que possuíam na proximidade com PMs
reformados e da ativa um elemento importante para sua escolha
profissional. Algumas vezes, até mesmo indivíduos cuja história de vida
é atravessada por diferentes atividades criminais se candidatam a uma
carreira na PMERJ – a exemplo de ex-assaltantes, ex-varejistas de drogas
e, principalmente, milicianos.</p>
<p>Mesmo compreendidos dentro de um horizonte simbólico relativamente
comum – afinal, todos eles almejam a carreira de PM no Rio de Janeiro –
a história de cada candidato revela, por vezes, interesses muito
díspares para a entrada na polícia. Sob a fina camada de pragmatismo e
vocação que enverniza o discurso nativo, repousam motivações das mais
variadas que envolvem pessoas, instituições e lugares que, no caso do
meu trabalho, se espraiam por todo o subúrbio carioca. Tais interesses,
é importante perceber, parecem funcionar enquanto catalisadores de uma
série de relações de afinidade estabelecidas entre estes sujeitos antes
mesmo da entrada na corporação. Como exercício de ilustração, vale a
pena relembrar as vezes em que pude observar como alguns candidatos
evangélicos sempre se sentavam juntos. Eles procuravam ir às aulas e de
lá voltar diretamente para casa, sem jamais “esticar” a convivência com
outros candidatos nos bares próximos ao “cursinho”. Por outro lado,
aqueles que tinham alguma passagem pelas FAs também procuravam formar
grupos, muitas vezes pela própria convivência cotidiana (ou pretérita)
em algum quartel da caserna. Enquanto militares, suas visões negativas
sobre os candidatos civis ficavam muito evidentes em algumas ocasiões –
sobretudo nas conversas onde a rusticidade exigida pela vida militar era
tomada enquanto vantagem na futura vida na
PMERJ<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref>. Havia ainda as esposas e
namoradas de PMs, sempre muito bem alinhadas e absolutamente reservadas
(com raras exceções) no trato com outros candidatos homens. Ao final de
cada aula, o caminho delas era sempre da sala de aula para o banco do
carona de algum dos carros – na maioria das vezes,
<italic>sedans</italic> com os vidros “filmados” – que as aguardavam na
porta do curso. Por fim, outro perfil comum era o de candidatos
geralmente muito jovens, cuja afinidade maior se dava pelos regimes da
<italic>curtição</italic> (SILVA, 2019) em bares, festas, “peladas” de
final de semana e bordéis. O “cursinho” era mais um desses espaços de
potencial confraternização, embora alguns tomassem o momento das aulas
como etapa fundamental na sua preparação para o concurso.</p>
<p>A entrada na polícia poderia sugerir, com efeito, a inserção dos
candidatos numa espécie de “sociedade” se evocarmos a ideia de estrutura
social defendida por Radcliffe-Brown (1973). Neste caso, ela implica a
adoção de um conjunto de regras (formais e, sobretudo, informais) que
orientariam as relações sociais entre os futuros policiais nas suas
diferentes funções exercidas na corporação. Os candidatos têm clareza
quanto a esta potencial pluralidade e o próprio caráter heterogêneo da
PMERJ sob a perspectiva das funções na polícia. Boa parte das suas
expectativas é construída inclusive sobre as possibilidades de ocupação
diferenciada desses espaços. Existem sujeitos desejosos em ser policiais
para “dar tiro e prender vagabundo”. Outros já enxergam a entrada na
polícia como forma de “conseguir dinheiro rápido”. Há ainda aqueles que
querem entrar na PMERJ para “ter estabilidade pra tentar outro
concurso”, ou mesmo, no caso de muitos egressos das FAs, para “dar
continuidade à vida de quartel”. São muitas as motivações e várias delas
aparecem entrelaçadas. No entanto, uma representação muito comum acerca
da PM por parte dos meus interlocutores – e que eu já havia escutado da
boca de policiais em outras ocasiões – é que não obstante sua
pluralidade, a PM funciona como uma “grande família” a acolher todos os
seus irmãos em farda. Valores como o “companheirismo” e a “camaradagem”
entre a tropa – que são comuns também em outras forças militares, a
exemplo do Exército (CASTRO, 2004) – sustentam a representação de
harmonia construída sobre a corporação.</p>
<p>Contudo, se pensada nos termos sublinhados por Strathern (2017), tal
leitura pode sugerir uma visão reificadora da ideia de sociedade ao
balizá-la pela sua relativa autonomia e identidade em relação à ideia de
indivíduo. Para a autora, se as pessoas de “carne e sangue” são o objeto
central do interesse antropológico, elas não devem ser pensadas enquanto
entidades individuais em contraposição à sociedade, mas sim através de
uma perspectiva relacional, ou seja, que conceba as relações como algo
primário e intrínseco à existência humana (STRATHERN, 2017, p. 199).
Quero chamar atenção, em outras palavras, que, embora as polícias
militares possam ser lidas enquanto instituições totalizantes (GOFFMAN,
1987), a construção social do “ser policial” é um processo dotado de
inúmeros tensionamentos e distensões. Ele se realiza em diferentes
contextos de ações sociais que não se manifestam, é importante dizer de
antemão, externamente à constituição das pessoas em outros espaços para
além da própria polícia.</p>
<p>Tradicionalmente, uma referência muito cara a boa parte das análises
sobre formação policial e construção da identidade PM é a ideia de
<italic>processo</italic>. Mesmo em diferentes contextos de pesquisa, a
explicação sociológica para um jovem tornar-se policial comumente parte
da dialética entre “estrutura X antiestrutura” (TURNER, 2008; 2013), ou
seja, ela é tributária dos “ritos de passagem” (VAN GENNEP, 1978) que
animam toda a trajetória deste sujeito a partir do momento de entrada na
polícia. O indivíduo liminar, para Turner (2013), encontra-se entre dois
mundos distintos. Ele ocupa uma posição particular num espaço/tempo onde
as estruturas sociais estão em relativa suspensão. Tal indivíduo, que
assume o papel de neófito num dado “ritual de passagem”, é um indivíduo
que se desnuda dos valores que o conformavam no seu estado pretérito.
Pela temporária suspensão dos constrangimentos da estrutura, o momento
da liminaridade permite ao neófito estabelecer relações de
<italic>communitas</italic> (TURNER, 2013) com outros sujeitos que
partilham com ele o mesmo ritual. A fase liminar assume importância
central dentro da proposição turneriana, uma vez que é justamente neste
momento que os interesses e as atitudes dos grupos e indivíduos se
encontram em mais clara oposição. Após o período liminar, o indivíduo
pode se reinserir novamente na estrutura, mas agora numa posição
distinta daquela anterior ao processo ritual.</p>
<disp-quote>
  <p>Tal enfoque em questão – que chamarei de “processualista” pelo
  aporte teórico fundamental que a <italic>análise processual</italic>
  turneriana fornece a essas leituras – permite que as mudanças sociais
  que reformatam os sujeitos possam ser mais bem percebidas e
  analisadas. Esta perspectiva tende a assumir o neófito enquanto um ser
  que, ao transitar pelas aleias da liminaridade, torna-se uma “página
  em branco”, ou seja, “uma tabula rasa, uma lousa em branco, na qual se
  inscreve o conhecimento e a sabedoria do grupo” (TURNER, 2013, p.
  104). O papel dos rituais seria o de não somente desencarnar a
  condição anterior dos sujeitos – tornando-os, portanto, seres mais
  amorfos, carentes de peculiaridades capazes de fornecer a cada um
  deles certa individualidade – como também prepará-los para outro
  momento das suas vidas através do forjamento de uma nova identidade.
  Uma passagem do trabalho seminal de Muniz (1999) sintetiza muito bem
  como a perspectiva processualista foi incorporada enquanto referencial
  teórico nos estudos sobre formação policial e identidade profissional
  dos PMs:</p>
  <p>A construção dessa <italic>nova identidade</italic>, cujo
  <italic>momento zero</italic> é ritualizado, por exemplo, no
  recebimento de um outro nome, o “nome de escala”, se dá no
  <italic>ingresso</italic> para as escolas e academias – o primeiro e,
  sobretudo no caso do oficialato, o principal estágio de
  <italic>introjeção e da aceitação de uma visão de mundo</italic>,
  propositadamente concebida como distinta das contingências, das
  intempéries e da imprevisibilidade a que estariam expostos os atores
  sociais para além dos muros seguros dos quartéis. Fazendo uso de um
  jargão antropológico, o período passado nas escolas constitui-se em um
  <italic>rito de passagem</italic> estendido e reencenado em cada etapa
  do percurso profissional: na aquisição de uma graduação mais elevada,
  no alcance de uma posição de comando, no rodízio entre as atividades
  de policiamento, etc. Assim como nas experiências de afastamentos
  vivenciados por certas trajetórias religiosas, a carreira policial
  militar parece reforçar a necessidade de uma marcada
  <italic>descontinuidade</italic> com o chamado mundo civil. (MUNIZ,
  1999, p. 100-101, grifos meus).</p>
</disp-quote>
<p>No âmbito da academia brasileira, outros autores procuraram aderir,
de maneira mais ou menos intensa, a essa mesma perspectiva nas últimas
décadas. Pioneiramente, o trabalho de Brito e Pereira (1996) analisou a
socialização organizacional de soldados PMs a partir dos rituais que
iniciam os recrutas na cultura militar. Já os artigos de Albuquerque e
Machado (2001; 2003) mostraram como o “trote” e as dinâmicas de
“imersão” em instruções militares ritualizam a passagem do mundo civil
para o mundo militar entre aspirantes na PM baiana. Ainda no âmbito do
oficialato, Sá (2002) e Silva (2011) descreveram, respectivamente no
âmbito das PMs cearense e fluminense, a ritualização do cotidiano na
academia e seu papel na conformação da identidade policial dos oficiais.
No trabalho de Storani (2006), o “Curso de Operações Especiais” (COE) é
também percebido através dos rituais que criam e reafirmam a identidade
dos policiais do “Batalhão de Operações Especiais” (BOPE) no Rio de
Janeiro. Mais recentemente, França e Gomes (2015) ressaltaram a
“pedagogia do sofrimento” presente em diferentes rituais forjadores da
identidade policial militar, assim como Pires e Albernaz (2019)
descreveram as dimensões rituais das formas escolarizadas e não
escolarizadas de saber para oficiais e praças da PMERJ.</p>
<p>Diante de todos esses trabalhos, é inegável a importância que a
perspectiva processualista assumiu nos estudos sobre formação e
identidade policial no Brasil. Todavia, longe de negar ou mesmo se opor
a todos os diagnósticos feitos até aqui, meu trabalho procura trazer um
olhar que complementa tal problemática ao iluminar outras dimensões da
conformação do “ser policial”. Parto, neste sentido, de uma perspectiva
semelhante àquela inscrita em Guedes (1997), no tocante ao deslocamento
do papel dos rituais no processo de conformação da identidade
profissional dos sujeitos. Em seu trabalho, a autora procurou se
distanciar de situações “rigorosamente marcadas pelo grupo em que [os
rituais] ocorrem com abundância de símbolos e uma padronização bastante
fechada do comportamento” (GUEDES, 1997, p. 36). Seguindo esta pista,
meu interesse foi perceber como alguns símbolos importantes ligados ao
universo da PMERJ podem ser consumidos a partir das interações
cotidianas entre esses sujeitos fora daquilo que se considera
estritamente como “a polícia”. Se pensado dentro da seara dos estudos
sobre formação policial supracitados, meu trabalho procura, assim,
contribuir com essa literatura ao apontar possíveis limites quanto ao
<italic>lócus</italic> tradicionalmente apontado como de criação e
operacionalização do “ser policial”.</p>
<disp-quote>
  <p>A convivência prolongada com meus interlocutores me permitiu pensar
  esses jovens não enquanto sujeitos meramente liminares que “por si
  mesmos são barro ou pó, simples matéria, cuja forma lhes é impressa
  pela sociedade” (TURNER, 2013 p. 104). De maneira distinta, meus
  interlocutores são encarados enquanto <italic>agentes</italic> no
  sentido empregado por Ortner (2007, p. 46), ou seja, “atores
  culturalmente variáveis (e não universais) e subjetivamente complexos
  (e não predominantemente racionalistas e interessados em si mesmos)”.
  Eles são dotados, portanto, de toda uma subjetividade prévia à entrada
  na polícia, que é capaz de fomentar ações de adesão e/ou resistência
  aos constrangimentos e/ou desembaraços impostos pelas estruturas
  sociais que sustentam a corporação. Falo não somente do aspecto da
  transmissão de conhecimentos formais nas escolas de formação, como
  também da futura socialização dos policiais nas diferentes funções
  compreendidas pelo policiamento ostensivo das ruas de uma cidade como
  o Rio de Janeiro.</p>
</disp-quote>
<p>Para demonstrar empiricamente meu argumento, sugiro recortar
analiticamente parte desse universo a partir de uma história,
compartilhada num grupo de <italic>Whatsapp</italic> dos candidatos,
sobre um policial solitário que, perdido dentro de uma favela no
subúrbio carioca, enfrenta dezenas de criminosos contando apenas,
segundo ele, “como sua arma e a ajuda de Deus”. Naquele espaço virtual,
criado pelos candidatos fundamentalmente para a troca de informações
sobre o concurso, algumas vezes eram compartilhados também outros
conteúdos, como fotos, vídeos e áudios produzidos por PMs no exercício
da sua atividade cotidiana. Em sua grande maioria, esses materiais
versavam acerca das mortes, prisões, perseguições e apreensões de drogas
e armas efetuadas pelas diferentes guarnições, companhias e batalhões
que conformam a PMERJ. Eles chegavam ao grupo por parte considerável dos
candidatos ser parente, amigo(a), namorado(a), vizinho(a) ou ao menos
“conhecido(a)” de PMs, e por isso mesmo compartilhar certo nível de
proximidade com eles, a ponto de acessar, mesmo com alguns limites,
conteúdos mais restritos ao universo policial. Quando isso acontecia, o
grupo, por vezes, se transformava numa espécie de espaço de trocas
simbólicas entre os candidatos sobre suas representações e expectativas
acerca da carreira policial. O grupo iniciava ou complementava muitas
das conversas ocorridas nos intervalos das aulas semanais no “cursinho”,
bem como em outros espaços onde convivi com os
candidatos<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>. Sendo assim, vejamos
como se desenrolou a referida história e como se deu a interação dos
candidatos com ela.</p>
<p><bold>A HISTÓRIA DO SARGENTO PEIXOTO: ALGUMAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
ACERCA DO “SER POLICIAL” NO SUBÚRBIO CARIOCA</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Num sábado qualquer de 2020, durante a pandemia da COVID-19, o
  sargento Peixoto deveria pegar uma importante via expressa para chegar
  ao trabalho no centro da cidade do Rio de Janeiro. Homem negro, de
  origem muito humilde, ele nasceu na Paraíba, mas foi militar do
  Exército até 2007 na capital fluminense, quando conseguiu passar no
  concurso da PMERJ e realizar seu sonho de “ser polícia”. Há 13 anos
  ele é praça da corporação, tendo iniciado sua carreira quando estava
  próximo dos 30 anos de idade. Ao longo de todo esse tempo, o sargento
  fora um ilustre desconhecido do grande público e dos próprios
  candidatos matriculados no “cursinho” com os quais convivi. Aquela
  manhã, todavia, marcaria uma mudança definitiva na sua vida. Ele não
  sabia que aquelas últimas horas da sua folga o levariam ao encontro de
  um episódio que, em pouco tempo, transformaria Peixoto numa
  celebridade momentânea dentro do universo policial militar
  carioca.</p>
  <p>Logo cedo, o sargento saiu para comprar uma nova placa eletrônica
  para o computador de um dos filhos. Peixoto saiu de casa naquela manhã
  à paisana, com a farda dobrada no porta-malas do carro. Sua cédula de
  identidade funcional da PMERJ estava guardada na carteira, enquanto a
  pistola .40 ficava embaixo do banco, onde ela sempre repousava quando
  o proprietário da arma precisava se deslocar de carro. Ele tinha a
  indicação de uma assistência técnica não tão distante da sua casa, e
  seu plano era ir de lá direto para o serviço, uma vez que sua
  apresentação estava marcada para antes da hora do almoço. Embora tenha
  conseguido chegar ao local indicado sem maiores problemas, ele não
  conhecia muito bem o caminho dali para o centro. Como qualquer outra
  pessoa, Peixoto ligou um “aplicativo” de navegação no celular e seguiu
  as orientações da rota para acessar a via expressa que o levaria ao
  trabalho em menos de meia hora. O sargento percorreu várias ruas e
  estradas daquela parte do subúrbio, tangenciando “pracinhas” e
  atravessando passagens subterrâneas que levavam ao lado de lá daqueles
  bairros cortados pela linha do trem. Em pouco tempo ele acreditava
  poder estar chegando ao seu destino.</p>
  <p>Para acessar a via expressa que levaria Peixoto até o centro, o
  aplicativo indicou uma manobra final à direita, que desembocava numa
  avenida comprida, de pistas estreitas, construída a partir da
  canalização de um rio. Cada margem comportava uma única pista simples
  – espremida entre o leito fluvial assoreado e as casas – que não
  permitia a passagem de mais de um carro por vez. Peixoto logo percebeu
  algumas “barricadas” improvisadas ao longo da pista que dificultavam
  ainda mais a circulação de veículos. Este era um sinal perigoso, muito
  comum em territórios de grupos armados ligados ao tráfico varejista de
  drogas no Rio de Janeiro. A suspeita logo se confirmou quando o
  policial avistou um grupo de quatro traficantes armados de fuzil não
  mais do que a vinte metros de distância. Percebendo a aproximação do
  veículo, os homens ordenaram que ele parasse. O sargento diminuiu a
  velocidade enquanto conduzia o volante com apenas uma das mãos. A
  outra empunhava sua pistola, já destravada, numa posição fora do
  ângulo de visão de quem estivesse fora do carro. Peixoto sabia que se
  não agisse de antemão, com a iniciativa do primeiro tiro, seria morto.
  O problema não era apenas morrer, mas “morrer na covardia” como, volta
  e meia, acontecia com policiais capturados em circunstâncias
  semelhantes. Naquela situação, não haveria maneira possível para
  poupar sua vida. “Se é pra cair, vou cair atirando” – ele pensou.</p>
  <p>O policial então abriu fogo contra os quatro homens, derrubando um
  deles mortalmente, enquanto era alvejado pelos outros três com tiros
  de fuzil e pistola. Uma fuga espetacular iniciou-se pelas ruas e
  vielas daquela favela onde ele entrara por engano. Desesperado, ele
  logo se viu cercado por dezenas de traficantes numa casa onde
  conseguira abrigo após abandonar seu carro. Por quase uma hora, ele
  resistiu tendo em mãos apenas sua pistola e o fuzil subtraído de outro
  traficante que ele matara quando o homem tentou invadir a casa. Seu
  resgate, acionado através de mensagens enviadas para colegas por
  <italic>Whatsapp</italic>, mobilizou quase uma centena de policiais
  lotados em diferentes batalhões do subúrbio – além do “Batalhão de
  Choque” (BPCHq) e do “Batalhão de Policiamento de Vias Expressas”
  (BPVE). Por conta da “operação” levada a cabo pela polícia, as vias de
  acesso à região ficaram fechadas por mais de uma hora. Somente com a
  chegada de veículos blindados os policiais conseguiram chegar até o
  sargento. Embora exausto, Peixoto saiu ileso do confronto rumo ao
  repentino estrelato, dada a repercussão do caso nas redes sociais e na
  grande imprensa nos dias seguintes.  </p>
</disp-quote>
<p>A história de Peixoto foi escolhida por sintetizar uma série de
representações sociais dos candidatos acerca da carreira policial. Logo
após o áudio com sua história ser compartilhado, diversas mensagens e
arquivos de áudio, vídeo e imagens inundaram o grupo. Os candidatos
rapidamente passaram a comentar o ocorrido, sendo que, em alguns casos,
as mídias compartilhadas retratavam a própria história sob outros
ângulos: não só a partir das fotos tiradas pelos PMs que foram ao
auxílio do sargento, como também por vídeos gravados pelos motoristas e
transeuntes que testemunharam toda a ação das ruas próximas ao local.
Isto era um indicativo de que a história havia chegado ao conhecimento
dos candidatos por diferentes caminhos, provavelmente pela sua inserção
em outros grupos de <italic>Whatsapp</italic> e por seus contatos
pessoais. Grosso modo, a maior parte do conteúdo era composta de
pequenos vídeos da movimentação tática e do tiroteio envolvendo os
policiais e, principalmente, das fotos dos corpos dos dois criminosos
mortos por Peixoto. A admiração pela saga do sargento era unânime: “mano
do céu, esse maluco merece uma medalha do governador!”; ou ainda: “o
cara sozinho enfrentou um exército de vagabundos… Isso é polícia pra
caralho!”. Já outros candidatos falavam que Peixoto era o “sargento
Rambo” ou ainda o “John Wick” da PMERJ – referências diretas a
personagens de filmes e séries de ação. Na leitura dos meus
interlocutores, não só a performance destemida do policial perante o
perigo, como também o enfrentamento direto ao inimigo encarnado na
figura dos varejistas de drogas, faziam do episódio a representação
superlativa do que seria o “ser policial” para eles.</p>
<p>Como argumenta Oliveira (1999, p. 191), falar de representações
sociais é falar da maneira como os diversos atores assimilam, elaboram e
difundem conhecimentos sobre determinada realidade em comum. A função
fundamental das representações sociais, para Moscovici (1988), é o
desenvolvimento de formas compartilhadas de compreensão do mundo. Elas
objetivam tornar o não-familiar em familiar ou mesmo explicar o
funcionamento de algo que ainda não é tão claro. Elas dizem respeito a
um repertório comum de interpretações, explicações e procedimentos
construídos socialmente que orientam os sujeitos em suas vidas
cotidianas (MOSCOVICI, 2003, p. 210). Nessa mesma direção, Abric (1993,
p. 75-77) sugere compreender analiticamente as representações sociais a
partir da articulação de dois sistemas: um central e outro periférico.
Segundo o autor, o sistema central é delimitado pelos valores sociais
coletivos responsáveis pela sustentação de uma dada representação. Ele
possui caráter fortemente <italic>normativo</italic>, que age não só
sobre o estabelecimento de consensos entre membros de um determinado
grupo, como também na capacidade de reprodução e continuidade desta
mesma representação. Por outro lado, de maneira complementar, o sistema
periférico possui um caráter mais <italic>funcional</italic>, que
objetiva dar concretude ao sistema central num determinado contexto.
Sendo muito mais flexível e mutável, ele exerce a função de imprimir
certa modulação individual à representação, permitindo, com efeito, que
os valores que compõem seu “núcleo-duro” sejam conjugados com os valores
pessoais de cada sujeito.</p>
<p>Na história em questão, a <italic>bravura –</italic> considerada
valor lapidar na construção identitária das polícias brasileiras (MUNIZ,
1999; KANT DE LIMA, 2003; PONCIONI, 2004; SOARES, 2019; entre outros) e
em outras partes do mundo (BITTNER, 2003; REINER, 2004; MONET, 2006;
FAULL, 2018; entre outros) – apareceu também enquanto valor fundamental
do sistema central das representações dos candidatos. Para eles, somente
sujeitos que não têm medo dos riscos envolvidos nas atividades ligadas
ao cotidiano policial podem ser PMs. Todas as mensagens e mídias
compartilhadas no grupo evidenciavam o posicionamento central deste
elemento – muito embora ele tenha sido expresso pelos meus
interlocutores de maneira diferente em outros contextos. Por conta dos
limites do artigo, chamo atenção para um tema relevante ao longo do meu
trabalho de campo e que revela a articulação sistêmica
“centro-periferia” no tocante às representações sociais sintetizadas
pela história de Peixoto. Falo sobre a relação entre as representações
de bravura através do uso de armas de fogo pelos possíveis futuros
policiais, em especial nos seus momentos de folga.</p>
<p>É lugar comum entre eles a afirmação de que, quando forem PMs, andar
armado é a única forma de proteger a sua própria vida e a da sua
família. Na leitura nativa, pela atividade policial ser uma atividade
fundamentalmente operativa, isto é, que compreende atividades como
perseguições a criminosos, tiroteios, prisões, apreensões, entre outras
coisas, o policial acaba tendo enorme visibilidade pública ao patrulhar
ruas e favelas. Por conta disto, ele está sujeito a sofrer toda sorte de
violência – em especial quando está fora de serviço, longe da proteção
oferecida pela própria corporação. De modo geral, meus interlocutores,
mesmo antes da entrada na polícia, tendem a reproduzir o discurso do
“faro policial” (ALBERNAZ, 2015) na conformação das suas suspeições na
futura maneira de praticar o policiamento ostensivo cotidiano. Se, para
eles, a prática nas ruas ajuda no desenvolvimento de técnicas para
identificar possíveis criminosos, eles acreditam também que esses mesmos
criminosos possuem outro “faro” capaz de revelar sua identidade enquanto
policiais. Como me confessou uma vez um candidato: “Vagabundo sente
cheiro de polícia de longe. É o tipo de cabelo, o cordão de ouro, o
‘relojão’ da Invicta (marca de relógios), o jeito de andar, de falar…
Não tem jeito, não tem como esconder que tu é PM de vagabundo”.</p>
<p>Diante desse cenário de ameaça potencial permanente, é compreensível
que os candidatos se identifiquem com repertórios de ação como aquele
mobilizado por Peixoto. Em certa ocasião, pude testemunhar três jovens
debaterem qual seria o melhor local para guardar sua futura pistola no
automóvel quando estivessem fora do horário de serviço. O único consenso
entre eles era sobre a necessidade de tê-la sempre em mãos a ponto de
garantirem suas próprias seguranças. Entre deixá-la sob o banco, entre
as pernas ou em algum compartimento do painel do carro, um dos
candidatos chegou a afirmar, em tom jocoso, que iria investir na compra
de um automóvel com câmbio automático para conseguir dirigir “apenas com
uma mão”, uma vez que, assim, poderia dirigir e atirar ao mesmo
tempo.</p>
<p>Outra vez, ao conversar com outros dois candidatos sobre o caso de um
PM morto durante uma abordagem a suspeitos (G1, 2019), um deles avaliou
medidas para minimizar os riscos envolvidos na profissão. O candidato –
então um cabo do Exército desejoso de entrar para a PMERJ – havia
participado de algumas manobras militares no contexto da “intervenção
federal” na segurança pública fluminense em 2018. Na maior parte das
vezes, sua função fora tanto dar apoio tático ao “cerco” de favelas para
a incursão da polícia como também participar de <italic>blitz</italic>
para averiguar veículos suspeitos nas ruas. Após essas experiências,
percebendo de perto o quão perigoso é o cotidiano policial carioca em
sua opinião, ele estava ainda mais convencido de que “PM no Rio de
Janeiro não pode andar desarmado”, sendo a compra de uma arma a primeira
coisa a se fazer quando alguém entra para a polícia. Sua visão foi mais
bem explicada através da elaboração periférica de outra representação
também sintetizada pela história de Peixoto. Enquanto possível futuro
policial, seu maior medo era ser reconhecido, estar desarmado e ser
levado para algum morro para morrer “na covardia”. Na visão do
candidato, “na dúvida, melhor morrer rápido, de maneira digna, matando
uns três comigo”.</p>
<p>Além dessas representações, no mesmo dia do compartilhamento do
áudio, apenas algumas horas depois do cerco ao sargento, um
desdobramento da história de Peixoto reforçou o referido vínculo entre a
bravura e a defesa precoce do porte de armas por parte dos candidatos.
Por conta da resolução de uma questão de Língua Portuguesa, o assunto se
encaminhou para a necessidade dos candidatos em manterem o foco nos
estudos mesmo num sábado à noite. Dois deles compartilharam fotos de sua
mesa de estudos naquele momento, sendo que, uma das imagens chamou a
atenção de todos no grupo, por conta da conjugação cuidadosa de objetos
que, ao menos para mim, pareciam até então incompatíveis:</p>
<p><bold>Imagem 1 – Quando a caneta vira arma: a mesa de estudos de um
candidato à carreira
policial</bold><xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref></p>
<graphic mimetype="image" mime-subtype="jpeg" xlink:href="media/image1.jpeg" />
<p>Fonte: Arquivo do autor.</p>
<disp-quote>
  <p>De maneira muito clara, a foto reforça a presença das armas como
  elemento importante para os candidatos até mesmo nas representações
  sociais construídas acerca do seu ambiente de estudos. Embora não seja
  policial nem sequer recruta, o candidato em questão é um simples jovem
  que usou parte de suas economias no financiamento de uma pistola
  calibre 9 milímetros para uso pessoal. Ao lado da arma, encontram-se
  dois carregadores e uma caixa de munições, bem como outros artefatos
  que marcam uma possível continuidade simbólica entre os elementos
  constituintes da imagem. Eles estão dispostos em conjunto com seu
  caderno, sua caneta, seu <italic>notebook</italic> e a apostila
  preparatória que identifica o concurso de soldado da PMERJ. O nó que
  entrelaça simbolicamente todos os objetos torna-se ainda mais evidente
  pela mensagem enviada logo abaixo da foto postada: “só falta a
  funcional” – em referência direta à carteira de identificação
  funcional que todo PM possui.</p>
</disp-quote>
<p>Num tom de descontração e admiração, os outros jovens obrigaram o
dono da pistola a compartilhar a foto do registro da arma “só pro povo
não achar que é fria”, afinal, trata-se de possíveis futuros agentes da
lei. Ademais, o desenrolar da conversa nada teve a ver com dúvidas
acerca dos conteúdos de Língua Portuguesa, mas sim com a troca de
informações sobre onde comprar legalmente uma arma de fogo, os limites
da compra de munição, a burocracia para conseguir a posse e, claro, como
tudo isso mudou após as medidas de flexibilização da legislação
armamentista brasileira adotada pelo governo Jair Bolsonaro. O dono da
arma foi enfático sobre isto: “mano, só deu pra comprar isso aí por
causa do Bolsonaro. Temos que agradecer ao nosso presidente!”.</p>
<p>Retornando a Moscovici (2003, p. 208), este pequeno exercício nos
mostra como as representações sociais não devem ser encaradas apenas
enquanto réplicas ou mesmo reflexos do mundo. Elas são formadas através
de influências específicas e negociações no curso de conversações
orientadas para modelos simbólicos, imagens e valores compartilhados
socialmente. Neste processo, as pessoas adquirem um repertório comum de
interpretações, explicações, regras e procedimentos que articulam
dimensões normativas e funcionais das representações sociais (ABRIC,
2003). O caso dos meus interlocutores não é diferente. Se considerarmos
que tal repertório pode ser aplicado também à vida cotidiana, suas
representações funcionam enquanto mecanismo prévio de navegação social
dentro de uma possível carreira na polícia militar fluminense.</p>
<p>No entanto, aquilo que os candidatos “assimilam, elaboram e difundem”
sobre tal universo não esgota sua totalidade. Do ponto de vista nativo,
quando certas narrativas sobre o trabalho da polícia são destacadas em
detrimento de outras, essas representações evocam igualmente o que está
ausente desse mundo (MOSCOVICI, 2003, p. 212). O fato delas geralmente
orbitarem em torno das funções mais operativas das polícias não é algo
banal. Nos termos tratados por Abric (2003), esta tendência acaba por
fazer da bravura um valor fundamental do sistema central destas
representações, sendo ela modulada individualmente e distintivamente de
acordo com cada contexto social vivido. Dito de maneira um pouco mais
clara, as modulações da bravura pelo sistema periférico das
representações dos candidatos podem ser percebidas quando eles falam em
dirigir com apenas uma das mãos para empunhar a pistola com a outra,
pela certeza em andarem armados para protegerem suas próprias vidas, ou
ainda em comprarem uma arma antes de sequer realizarem o concurso da
Polícia Militar. Logo, tudo isso não parece encontrar explicação
plausível se insistirmos em considerar tais sujeitos enquanto criaturas
liminares cuja identidade policial é moldada, apenas, pelas escolas de
formação e pelo saber prático adquirido nas ruas.</p>
<p>Como vimos, a perspectiva turneriana compreende o neófito enquanto
ser que, ao atingir seu estado liminar, torna-se uma “página em branco”
pronta para receber o conhecimento e a sabedoria de um determinado grupo
(TURNER, 2013). A perda da sua individualidade e a possibilidade de
inscrever em seus “corações e mentes” uma nova identidade social seria
tributária de processos que encontram nos altares do saber prático e
teórico das polícias os seus principais espaços de ritualização.
Contudo, a análise das representações sociais dos candidatos mostra que
uma série de elementos identitários presentes nesses jovens já faz
alusão, em grande medida, a algumas idiossincrasias do universo
simbólico das polícias no Brasil e, particularmente, do Rio de Janeiro.
Trata-se de gramáticas morais que lhes permitem compreender o mundo de
maneira semelhante, e que são embasadas, por sua vez, em valores comuns
aceca de temas como “política”, “família”, “religião”, “direitos
humanos”, “armas”, “sexualidade”, etc. Essas visões, é importante dizer,
não se encontram tão distantes assim das visões hegemônicas de mundo
afeitas ao universo policial, como demonstram diferentes trabalhos sobre
as polícias no Brasil e em outras partes do mundo (MUNIZ, 1999;
PONCIONI, 2004; SOARES, 2019; BITTNER, 2003; MONET, 2006; FAULL, 2018;
entre tantos outros).</p>
<disp-quote>
  <p>No caso do meu trabalho, a proximidade cotidiana prolongada com
  dezenas de candidatos permite afirmar que esses elementos começam a
  ser construídos pelas representações mais gerais acerca da polícia
  presentes na grande mídia, em filmes, novelas, seriados, jogos
  eletrônicos, etc. Mas essas representações fazem igualmente alusão,
  sobretudo, às narrativas que emergem do contato prévio que esses
  sujeitos têm com familiares, amigos, (ex)colegas de trabalho,
  conhecidos e vizinhos que já são PMs atuantes no Rio de Janeiro em
  diferentes funções do policiamento. Nos termos trabalhados por Kant de
  Lima (2019, p. 123), a PMERJ já está relativamente enredada nas
  <italic>malhas</italic> pessoais e profissionais de boa parte dos
  candidatos, que na minha pesquisa encontram-se territorializadas
  localmente nas ruas, esquinas e favelas do subúrbio carioca.</p>
  <p>Essa proximidade foi inclusive ressaltada na fala da grande maioria
  dos professores do “cursinho” onde realizei parte do meu campo. Um
  desses interlocutores – um professor que trabalha com candidatos ao
  concurso da PMERJ desde 2008 – sintetiza bem a percepção presente na
  leitura geral dos docentes: “o cara que vai tentar a prova pra PM já
  é, de certa forma, PM. Ele já tem jeito de PM, a ‘mente’ de PM. Só
  falta pra ele a farda e a arma”. Mesmo tratando-se de uma fala talvez
  exagerada, dada a importância do papel institucional da corporação na
  conformação da identidade policial, o fato deste diagnóstico aparecer
  na fala de diferentes profissionais que há muitos anos lidam com esse
  perfil de jovens não pode ser tomado como algo gratuito. A escolha
  pela carreira policial, neste sentido, não é algo absolutamente
  aleatório.</p>
</disp-quote>
<p><bold>CONSIDERAÇÕES FINAIS</bold></p>
<p>O presente artigo objetivou empreender um exercício compreensivo do
processo de construção do “ser policial” a partir de um olhar diferente
sobre o problema. Minha abordagem não partiu do estudo
institucional/organizacional das polícias quanto ao seu papel
considerado lapidar na conformação da identidade profissional dos
agentes, mas sim a partir dos indivíduos que se propõem a ingressar na
carreira antes de qualquer contato formal com a corporação. Apoiado em
dados etnográficos construídos junto a diferentes candidatos, procurei
demonstrar parcialmente como estes sujeitos são dotados de toda uma
subjetividade prévia à entrada na PMERJ, que não permite compreendê-los,
portanto, enquanto sujeitos meramente liminares. Ressalto o caráter
parcial dos resultados uma vez que, pelos limites do artigo, só pude
explorar, nas páginas anteriores, pequena parte dos dados produzidos
através da análise dos sistemas central e periférico de algumas
representações sociais dos meus interlocutores na relação entre bravura
e uso das armas de fogo.</p>
<disp-quote>
  <p>Tomado em conjunto com outros resultados preliminares da minha tese
  (RODRIGUES, 2020; 2021a; 2022), minhas conclusões reforçam o argumento
  de que muito mais do que criar novas identidades, os espaços de
  formação e prática talvez atuem no sentido de reorganizar ou
  complexificar modelos simbólicos, imagens e valores que, de certa
  forma, já estão presentes nos possíveis futuros policiais. A entrada
  na Polícia Militar marcaria, com efeito, muito mais uma continuidade
  do que uma ruptura com a vida civil prévia dos candidatos, muito
  embora os rituais presentes durante todo o percurso formativo e
  profissional dos futuros policiais também atuem na conformação da sua
  identidade.</p>
  <p>Todavia, é importante ressaltar que minha pesquisa traz igualmente
  uma série de limites, uma vez que ela se inscreve num recorte empírico
  muito específico. Além de trabalhar com candidatos interessados em
  ingressar particularmente na PMERJ, meus interlocutores são, em sua
  grande maioria, pessoas cujo cotidiano se desenvolve na região
  suburbana da capital fluminense, sendo inclusive o subúrbio carioca o
  lugar onde eles almejam preferencialmente trabalhar enquanto possíveis
  policiais (RODRIGUES, 2021a). A abordagem original do trabalho carece,
  portanto, de estudos complementares que utilizem outras metodologias
  voltadas para a compreensão desta dimensão da construção da identidade
  policial. Da mesma forma, é necessário também investir em análises e
  problemáticas de pesquisa em outros recortes empíricos, isto é, que se
  desenvolvam não somente junto a candidatos inscritos em outras partes
  do Rio de Janeiro, como também, e principalmente, em outros estados da
  Federação – dada a heterogeneidade das corporações PMs pelo
  Brasil<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>.</p>
  <p>Não obstante, além de um olhar complementar aos trabalhos já
  realizados sobre a identidade profissional dos PMs, este artigo talvez
  contribua com outras duas questões correlatas sobre a formação
  policial. Em primeiro lugar, a leitura das representações sociais dos
  candidatos relativiza as críticas sintetizadas pelo trabalho de
  Waddington (1999), no tocante ao potencial heurístico da chamada
  “cultura cantineira”. Segundo o autor, a “cultura cantineira” é um
  mecanismo importante de reprodução da “cultura policial” em geral. Ela
  diz respeito à cultura oral que os policiais produzem sobre o seu
  próprio trabalho, muitas vezes através de narrativas que consagram
  imagéticas pautadas pelo senso de missão policial, pelo desejo por
  ação e aventura, pelo enfrentamento ao perigo, pelo uso da violência,
  entre outras coisas. Pela “cultura cantineira” não ter muita relação
  com o que os policiais geralmente fazem nas ruas, o autor questiona
  uma suposta relação causal entre ela e as práticas dos agentes,
  ressaltando muito mais o papel situacional da rotina de trabalho do
  que a “cultura policial” na explicação das suas práticas (WADDINGTON,
  1999, p. 302).</p>
</disp-quote>
<p>Apesar da crítica à causalidade ser certeira (dada, inclusive, como
mostra o autor, pela impossibilidade de homogeneização da “cultura
policial”), a “cultura cantineira” – considerada enquanto um conjunto de
representações sociais – oferece pistas importantes na compreensão das
visões de mundo dos policiais e na conformação de possíveis repertórios
da ação policial que estão intimamente ligados à escolha profissional
dos meus interlocutores. Não me parece fazer muito sentido, assim,
tratar tais representações enquanto uma ideia “equivocada”, “falsa” ou
mesmo “ideológica” sobre o que seria o “verdadeiro trabalho da polícia”.
Os valores que animam tais representações não só constituem o universo
simbólico dos policiais e, até certo ponto, dos próprios candidatos à
carreira policial, como também são elementos que podem orientar (e não
determinar, de maneira causal) a agência desses mesmos sujeitos. Como
lembra novamente Moscovici (1988, p. 217, tradução minha): “a sociedade
está constantemente produzindo novas representações que motivam a ação e
dão sentido às interações humanas que florescem dos problemas do
cotidiano”. Pouco importa, neste sentido, o estatuto de verdade ou não
das representações sociais.</p>
<p>Em segundo lugar, ao procurar relativizar o enfoque processualista
sobre a formação e a construção da identidade profissional dos PMs,
penso nos limites que boa parte das propostas de “reformas das polícias”
trazem consigo, ao minimizarem não só a capacidade de agência (e
resistência) dos policiais a este processo como também, em sentido mais
amplo, a adesão ativa do conjunto da maior parte da sociedade a ele. Em
concordância com as críticas de Kant de Lima (2003) e Machado da Silva
(2010), a defesa de uma espécie de domesticação da atividade policial
através de intervenções de natureza técnico-administrativa ou jurídica,
por um lado, como também pela punição dos agentes responsáveis por
desvio de conduta, por outro, não enxerga que os próprios policiais são
fruto de uma perspectiva coletivamente construída sobre o que seria
desejável em termos de manutenção da ordem e da própria concepção da
segurança pública. Com efeito, elementos tão criticados no que se
convencionou chamar “cultura policial” (SHEARING, 1981; REUSS-IANNI;
IANNI, 1983; MUNIZ, 1999; BITTNER, 2003; REINER, 2004; PONCIONI, 2004;
entre outros) não me parecem inscritos apenas nas próprias polícias e
nos seus respectivos espaços de formação e prática nos quartéis e nas
ruas.</p>
<p>Como demonstra o trabalho de Zacharias (1995, p. 20), a escolha pela
polícia parece atrair sujeitos de determinados tipos psicológicos que
enxergam a carreira policial como forma de expressão de certos valores
simbólicos e visões de mundo. Tal escolha deriva, em parte, da imagem
profissional que a própria polícia tem perante a comunidade onde está
inserida. Em grande medida, os candidatos à carreira policial são
oriundos de periferias pobres e favelas, isto é, espaços onde a polícia
tende a agir com muito mais truculência, violência e arbitrariedade. O
campo fértil deixado por estas práticas para a construção das
representações sociais sobre a polícia é muito relevante, e me parece
evidente que elas impactam também nas motivações desses sujeitos em
quererem se tornar policiais.</p>
<disp-quote>
  <p>No caso específico da PMERJ, os elementos da sua cultura
  institucional que mais se buscam “reformar”, como a brutalização, a
  corrupção, o militarismo, a impunidade, a falta de controle interno e
  externo sobre o trabalho dos policiais, entre outros, parecem ser
  precisamente aqueles que atraem uma parcela considerável dos jovens
  para ingressarem nas fileiras da corporação a cada novo concurso. Com
  efeito, este artigo reforça o alerta feito por Lopes, Ribeiro e
  Tordoro (2016) sobre a necessidade de se pensar não apenas na suposta
  eficácia dos cursos e treinamentos voltados para a formação policial,
  mas, igualmente, nos processos de recrutamento e seleção dos
  candidatos, uma vez que, num futuro próximo e aparentemente distante,
  serão esses jovens os policiais a patrulharem o cotidiano das ruas por
  todo o Brasil. Se pudesse sintetizar minhas conclusões em breves
  palavras, poderia organizá-las nos seguintes termos: para a grande
  maioria dos meus interlocutores, as polícias militares brasileiras não
  lhes parecem, de forma alguma, viver qualquer tipo de crise.</p>
</disp-quote>
<p><bold>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</bold></p>
<p>ABRIC, J. C. Central System, Peripheral System: their Functions and
Roles in the Dynamics of Social Representations. <bold>Papers on Social
Representations – Textes sur Représentations Sociales</bold>,
(1021-5573), v. 2, n. 2, 1993, p. 75-78.</p>
<p>ALBERNAZ, E. <bold>“Deus e o Diabo na terra do sol”</bold>: visões de
espaço público, ética profissional e moral religiosa entre policiais
militares evangélicos do Rio de Janeiro. Dissertação (Mestrado em
Antropologia Social) –Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de
Janeiro, 2009.</p>
<p>ALBERNAZ, E. Na fronteira entre o bem e o mal: ética profissional e
moral religiosa entre policiais militares evangélicos cariocas.
<bold>Caderno CRH</bold>, v. 23, n. 60, 2010, p. 525-539.</p>
<p>ALBERNAZ, E. Sobre legitimidade, produtividade e imprevisibilidade:
seletividade policial e a reprodução da ordem social no plano de uma
certa “política do cotidiano”. <bold>Confluências: Revista
Interdisciplinar de Sociologia e Direito</bold>, v.17, 2015, p.
109-122.</p>
<p>ALBUQUERQUE, C. L.; MACHADO, E. P. Sob o signo de Marte:
modernização, ensino e ritos da instituição policial militar.
<bold>Sociologias</bold>, ano 3, no 5, 2001, p.214-237.</p>
<p>ALBUQUERQUE, C. L.; MACHADO, E. P. O batizado dos recrutas: trote,
socialização acadêmica e resistência ao novo ensino policial brasileiro.
<bold>Capítulo Criminológico</bold>, v. 31, n. 2, 2003, p. 101-127.</p>
<p>BARBOSA, A. R. Um abraço para todos os amigos: algumas considerações
sobre o tráfico de drogas no Rio de Janeiro. Niterói: UFF, 1998.</p>
<p>BATISTA, N. A violência do estado e os aparelhos policiais.
<bold>Discursos Sediciosos</bold> (Rio de Janeiro), v. 4, 1997, p.
145-154.</p>
<p>BITTNER, E. <bold>Aspectos do Trabalho Policial</bold>. São Paulo:
Edusp, 2003.</p>
<p>BRETAS, M. <bold>Ordem na Cidade</bold>. O exercício cotidiano da
autoridade policial no Rio de Janeiro: 1907-1930. 1 ed. Rio de Janeiro:
Rocco, 1997.</p>
<p>BRITO, M. J.; PEREIRA, V. G. Socialização organizacional: a iniciação
na cultura militar. <bold>Revista de Administração Pública</bold>, v.
30, n. 4, 1996, p. 138-165.</p>
<p>CARUSO, H.; PATRÍCIO, L.; PINTO, N. M. Da escola de formação à
prática profissional: um estudo comparativo sobre a formação de praças e
oficiais da PMERJ. <italic>In</italic>: SENAP, ANPOCS. <bold>Segurança,
justiça e cidadania</bold>: pesquisas aplicadas em segurança pública.
Brasília/DF: Senasp; Anpocs, ano II, n. 4, p. 101-118, 2010.</p>
<p>CASTRO, Celso. O espírito militar: um antropólogo na caserna. 2ª ed.
revista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2004. </p>
<p>CORTES, V. A.; MAZZURANA, L. Atualização curricular do CFSd:
contribuições para a gestão educacional na área da segurança pública.
<bold>Cadernos de Segurança Pública</bold>, ano 7, n. 6. Rio de Janeiro:
Instituto de Segurança Pública, 2015.</p>
<p>COSTA, C. E. O. Direitos Humanos: uma avaliação da disciplina no
Curso de Formação dos Oficiais da PMERJ. <bold>Cadernos de Segurança
Pública</bold>, ano 7, n. 6. Rio de Janeiro: Instituto de Segurança
Pública, 2015.</p>
<p>FAULL, A. <bold>Police Work and Identity</bold>: A South African
Ethnography. Abingdon: Routledge, 2018.</p>
<p>FBSP – FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. <bold>10º Anuário
Brasileiro de Segurança Pública</bold>. São Paulo: FBSP, 2016.
Disponível em:
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf"><underline>https://forumseguranca.org.br/storage/10_anuario_site_18-11-2016-retificado.pdf</underline></ext-link>.
Acesso em 28/12/2021.</p>
<p>FBSP – FÓRUM BRASILEIRO DE SEGURANÇA PÚBLICA. <bold>14º Anuário
Brasileiro de Segurança Pública</bold>. São Paulo: FBSP, 2020.
Disponível em:
https://forumseguranca.org.br/wp-content/uploads/2021/02/anuario-2020-final-100221.pdf.
Acesso em 28/12/2021.</p>
<p>FILHO, W. A. <bold>Ordem Pública ou Ordem Unida?</bold> Uma análise
do curso de formação de soldados da Polícia Militar em composição com a
política de segurança pública do governo do Estado do Rio de Janeiro:
Possíveis dissonâncias. Niterói: EDUFF, 2003.</p>
<p>FOLHA DIRIGIDA. ‘Todo ano faremos concurso para 2 mil policiais’, diz
Witzel sobre PM. <bold>Folha Dirigida</bold>, Rio de Janeiro, 7 jan.
2019. Disponível em:
https://folhadirigida.com.br/concursos/noticias/pm-rj/todo-ano-faremos-concurso-para-dois-mil-policiais-diz-witzel.
Acesso em: 28 dez. 2020.</p>
<p>FRANÇA, Fábio Gomes e GOMES, Janaína Letícia de Farias. “Se não
aguentar, corra!”: Um estudo sobre a pedagogia do sofrimento em um curso
policial militar. <bold>Rev. bras. segur. pública.</bold> São Paulo v.
9, n. 2, 205, p. 142-159.</p>
<p>G1. PM é morto ao tentar prender assaltantes em Benfica, Zona Norte
do Rio; é o 44º este ano. <bold>G1</bold>, Rio de Janeiro, 21 set. 2019.
Disponível em:
<ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/09/21/pm-e-morto-quando-tentava-prender-assaltantes-em-benfica-zona-norte-do-rio.ghtml"><underline>https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2019/09/21/pm-e-morto-quando-tentava-prender-assaltantes-em-benfica-zona-norte-do-rio.ghtml</underline></ext-link>.
Acesso em 06/08/2021.</p>
<p>GOFFMAN, E. <bold>Manicômios, prisões e conventos</bold>. São Paulo:
Perspectiva, 1987.</p>
<p>GRILLO, C. C. <bold>Coisas da vida no crime</bold>: Tráfico e roubo
em favelas cariocas. Tese (Doutorado em Ciências Humanas) – Instituto de
Filosofia e Ciências Sociais, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Rio de Janeiro, 2013.</p>
<p>GUEDES, Simoni Lahud. <bold>Jogo de Corpo:</bold> um estudo de
construção social de trabalhadores. Niterói: Ed. UFF, 1997.</p>
<p>GUIMARÃES, R. S.; DAVIES, F. A. Alegorias e deslocamentos do
“subúrbio carioca” nos estudos das Ciências Sociais (1970-2010).
<bold>Sociologia &amp; Antropologia</bold>, v. 8, n. 2, 2018, p.
457-482.</p>
<p>HOLLOWAY, T. H. <bold>Polícia no Rio de Janeiro</bold>. Rio de
Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1997.</p>
<p>KANT DE LIMA, R. Direitos Civis, Estado de Direito e ‘Cultura
Policial’: A Formação Policial em Questão. <bold>Revista Brasileira de
Ciências Criminais</bold>, ano 11, n. 41, 2003, p. 241-256.</p>
<p>KANT DE LIMA, R. <bold>A polícia na cidade do Rio de Janeiro</bold>:
seus dilemas e paradoxos. 3 ed. rev. Rio de Janeiro: Forense, 2019.</p>
<p>LEITÃO, D. K.; GOMES, L. G. Etnografia em ambientes digitais:
perambulações, acompanhamentos e imersões. <bold>Revista
Antropolítica</bold>, n 42, 2017, p. 41-65.</p>
<p>LOPES, C. S.; RIBEIRO, E. A.; TORDORO, M. A. Direitos Humanos e
Cultura Policial na Polícia Militar do Estado do Paraná.
<bold>Sociologias</bold>, ano 18, n. 41, 2016, p. 320-353.</p>
<p>MACHADO DA SILVA, L. A. Violência urbana, segurança pública e favelas
– o caso do Rio de Janeiro atual. <bold>Caderno CRH</bold>, v. 23, p.
283-300, 2010.</p>
<p>MAIA, B. <bold>Sujeitos de estado</bold>: Aprendizado e tradição de
conhecimento na preparação de concursos públicos da burocracia fiscal.
Tese (Doutorado em Antropologia) – Universidade Federal Fluminense,
Niterói, 2019.</p>
<p>MARCUS, G. E. Ethnography in/of the World System. The emergence of
multi-sited ethnography. <bold>Annual Review of Anthropology</bold>, n.
24, 1995, p. 95-117.</p>
<p>MINAYO, M. C. S.; SOUZA, E. R.; CONSTANTINO, P. (Orgs.). <bold>Missão
prevenir e proteger</bold>: condições de vida, trabalho e saúde dos
policiais militares do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz,
2008.</p>
<p>MISSE, Michel; GRILLO, Carolina Cristoph; TEXEIRA, Celso Pinheiro;
NERI, Natasha Elbas. <bold>Quando a polícia mata:</bold> homicídios por
“autos de resistência” no Rio de Janeiro (2001-2011). Rio de Janeiro:
NECVU, BOOKLINK, 2013.</p>
<p>MONET, J. C. <bold>Polícias e Sociedades na Europa</bold>. São Paulo:
Edusp, 2006.</p>
<p>MOSCOVICI, S. Notes towards a description of Social Representations.
<bold>European Journal of Social Psychology</bold>, v. 18, 1988, p.
211-250.</p>
<p>MOSCOVICI, S. A história e a atualidade das representações sociais.
<italic>In</italic>: MOSCOVICI, S. <bold>Representações sociais</bold>:
investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003, p.
167-214.</p>
<p>MUNIZ, J. O. <bold>Ser policial é, sobretudo, uma razão de
ser</bold>: cultura e cotidiano da Polícia Militar do Estado do Rio de
Janeiro. Tese (Doutorado em Ciência Política) – Instituto Universitário
de Pesquisas do Rio de Janeiro, Universidade Cândido Mendes, Rio de
Janeiro, 1999.</p>
<p>OLIVEIRA, M. Representação social e simbolismo: os novos rumos da
imaginação na sociologia brasileira. <bold>Revista de ciências
humanas.</bold> Curitiba: Editora da UFPR, n.7/8, 1999, p.173-193.</p>
<p>ORTNER, S. Poder e projetos: reflexões sobre a agência.
<italic>In</italic>: ORTNER, S. <bold>Conferências e diálogos</bold>:
saberes e práticas antropológicas. 25ª Reunião Brasileira de
Antropologia, Goiânia, 2006. Blumenau: Nova Letra, 2007, p. 45-80.</p>
<p>PINHEIRO, P. S. Autoritarismo e transição. <bold>Revista USP</bold>,
n. 9, 1991, p. 45-56.</p>
<p>PIRES, L.; ALBERNAZ, E. <bold>A teoria na prática é outra
coisa</bold>: formas escolarizadas e não escolarizadas na construção da
identidade policial. Mimeo, 2019.</p>
<p>PONCIONI, P. <bold>Tornar-se Policial</bold>: a construção da
identidade profissional policial no estado do Rio de Janeiro. Tese
(Doutorado em Sociologia) – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.</p>
<p>PONCIONI, P. O modelo policial profissional e a formação profissional
do futuro policial nas academias de polícia do Estado do Rio de Janeiro.
<bold>Sociedade e Estado</bold>, v. 20, n. 3, 2005, p. 585-610.</p>
<p>PONCIONI, P. Políticas Públicas para a educação policial no Brasil:
propostas e realizações. <bold>Estudos Sociológicos</bold>, v.17, n. 33,
p. 315-331, 2012.</p>
<p>RADCLIFFE-BROWN, A. R. <bold>Estrutura e função na sociedade
primitiva</bold>. Petrópolis: Vozes, 1973.</p>
<p>RAMOS, S. <bold>Violência e polícia</bold>: três décadas de políticas
de segurança no Rio de Janeiro. Boletim Segurança e Cidadania, n. 21,
mar. 2016.</p>
<p>REINER, R. <bold>A Política da Polícia</bold>. São Paulo: Edusp,
2004.</p>
<p>REUSS-IANNI, E.; IANNI, F. Street Cops and Management Cops: The two
Cultures of Policing. <italic>In</italic>: PUNCH, M. (Org.).
<bold>Control in the police organization</bold>. Cambridge: MIT Press,
1983, p. 251-274.</p>
<p>RICCIO, Vicente; BASILIO, Marcio Pereira. <bold>As diretrizes
curriculares da secretaria nacional de segurança pública (SENASP) para a
formação policial:</bold> a polícia militar do Rio de Janeiro e a sua
adequação às ações federais. Guatemala. XI congreso internacional del
CLAD sobre la reforma del Estado y de la administración pública,
2006.</p>
<p>RODRIGUES, E. O. Necropolítica: uma pequena ressalva crítica à luz
das lógicas do “arrego”. <bold>Dilemas: Revista de Estudos de Conflito e
Controle Social</bold><italic>,</italic> v.14, n.1, 2021, p.189-218.</p>
<p>RODRIGUES, E. O. O problema da escala: diálogos entre antropologia e
geografia no Subúrbio Carioca. <bold>Anais do VIII Seminário
Internacional do Ineac</bold>. 7-18 jun. 2021a [remoto], (no prelo).</p>
<p>RODRIGUES, E. O. Feitiços da rua: os diferentes tempos dos
ilegalismos e seus usos a partir da descrição de um “esquema” de
transporte complementar no subúrbio carioca. <bold>Revista
Antropolítica</bold><italic>,</italic> n. 53, 2021b.</p>
<p>Rodrigues, E. O. “E o fuzil, tu vende pra quem?”: Os diferentes
significados da corrupção entre candidatos à carreira de policial
militar no Rio de Janeiro. <bold>Revista De Antropologia</bold>, 65(3),
2022.</p>
<p>SÁ, L. D. <bold>Os Filhos do Estado</bold>. Rio de Janeiro: Relume
Dumará, 2002.</p>
<p>SANSONE, L. Fugindo para a Força: Cultura Corporativista e “Cor” na
Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. <bold>Estudos
Afro-Asiáticos</bold>, ano 24, n. 3, 2002, p. 513-532.</p>
<p>SHEARING, C. Subterranean Processes in the Maintenance of Power: An
Examination of the Mechanisms Coordinating Police Action. <bold>Canadian
Review of Sociology</bold>, v. 18, n. 3, 1981, p. 283-298.</p>
<p>SILVA, G. B. <bold>“Quantos ainda vão morrer eu não sei”</bold>: o
regime do arbítrio, curtição, morte e a vida em um lugar chamado de
favela. Tese (Doutorado em Ciências Sociais e Jurídicas) – Faculdade de
Direito, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2019.</p>
<p>SILVA, J. <bold>Controle da Criminalidade e Segurança Pública na Nova
Ordem Constitucional</bold>. Rio de Janeiro: Forense, 1990.</p>
<p>SILVA, R. R. <bold>Entre a caserna e a rua</bold>: o dilema do
“Pato”. Uma análise antropológica da instituição policial militar a
partir da Academia de Polícia Militar D. João VI. Niterói: Editora da
UFF, 2011.</p>
<p>SOARES, L. E. <bold>Desmilitarizar</bold>: segurança pública e
direitos humanos. São Paulo: Boitempo, 2019.</p>
<p>SOARES, L. E.; SENTO-SÉ, J. T. Estado e segurança pública no Rio de
Janeiro: dilemas de um aprendizado difícil. <italic>In</italic>:
MUSUMECI, L. (Coord.). <bold>Segurança Pública no Rio de Janeiro</bold>:
Políticas, instituições e inovações. Relatório final do projeto “Reforma
do Estado e proteção social: Os setores de saúde e segurança no Rio de
Janeiro”, subprojeto Segurança pública. Rio de Janeiro: Instituto de
Economia da UFRJ, jan. 2000, p. 1-30. Disponível em:
https://www.ucamcesec.com.br/wp-content/uploads/2011/06/01-Estado-e-seguran%C3%A7a-p%C3%Bablica-no-Rio-de-Janeiro.pdf.
Acesso em: 15 set. 2020.</p>
<p>SOARES, M. B.; MUSUMECI, L. <bold>Mulheres policiais</bold>: presença
feminina na Polícia Militar do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:
Civilização Brasileira, 2005.</p>
<p>STORANI, P. <bold>Vitória sobre a morte</bold>: a glória prometida. O
“rito de passagem” na construção da identidade dos operações especiais
do BOPE/PMERJ. Dissertação (Mestrado em Antropologia Social) –
Universidade Federal Fluminense, Rio de Janeiro, 2006.</p>
<p>STRATHERN, M. O conceito de sociedade está teoricamente obsoleto?.
<italic>In</italic>: STRATHERN, M. <bold>O efeito etnográfico e outros
ensaios</bold>. Coleção Argonautas. São Paulo: Ubu Editora, 2017, p.
191-200.</p>
<p>TURNER, V. Dramas sociais e metáforas rituais. TURNER, V.
<italic>In</italic>: <bold>Dramas, campos e metáforas</bold>: ação
simbólica na sociedade humana. Tradução de Fabiano de Morais. Niterói:
Editora da Universidade Federal Fluminense, 2008, p. 19-54.</p>
<p>TURNER, V. <bold>O processo ritual</bold>: estrutura e antiestrutura.
Petrópolis: Vozes, 2013.</p>
<p>VAN GENNEP, A. <bold>Os ritos de passagem</bold>. Petrópolis: Vozes,
1978.</p>
<p>WADDINGTON, P. A. J. Police (Canteen) sub-culture: an appreciation.
<bold>The British Journal of Criminology</bold>, v. 39, n. 2, 1999, p.
287-309.</p>
<p>WEBER, M. <bold>Economia e Sociedade</bold>. Brasília: Editora
Universidade de Brasília, 2000.</p>
<p>ZACHARIAS, J. J. M. <bold>Tipos psicológicos Junguianos e escolha
profissional</bold>: uma investigação com policiais militares da Cidade
de São Paulo. São Paulo: Vetor, 1995.</p>
<p>ZAVERUCHA, J. A Constituição brasileira de 1988 e seu legado
autoritário: formalizando a democracia, mas retirando sua essência.
<italic>In</italic>: ZAVERUCHA, J. <bold>Democracia e instituições
políticas brasileiras no final do século XX</bold>. Recife: Bagaço,
1998, p. 113-147.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>A secretaria de segurança pública fluminense só
    divulga os dados agregados de “mortes por intervenção policial”, não
    sendo possível, portanto, mensurar separadamente a letalidade de
    cada força no estado. No entanto, sendo as polícias militares
    responsáveis pelo policiamento ostensivo, é de supor que, assim como
    em outras Unidades da Federação (UFs), a grande maioria das “mortes
    por intervenção policial” no Rio de Janeiro seja de responsabilidade
    da Polícia Militar. Em todo caso, mesmo não sendo possível a
    desagregação dos dados, a análise dos números nos permite inferir
    como a PMERJ é, ao mesmo tempo, a força policial que mais mata e
    mais morre no Brasil. Só para o ano de 2019, aproximadamente 30% (o
    maior número do país) de todas as “mortes violentas intencionais” no
    Rio de Janeiro foram causadas pelas polícias (FBSP, 2020, p. 84). A
    taxa de letalidade policial no estado é a segunda maior entre todas
    as UFs, com um índice superior a três vezes a média nacional (FBSP,
    2020, p. 88). Por outro lado, no tocante à vitimização policial, não
    obstante a queda de aproximadamente 51% observada durante o período
    entre 2015-2019 (FBSP, 2016; 2020), a PMERJ continua a ter, de
    longe, o maior número absoluto de PMs mortos entre todas as polícias
    militares brasileiras. Novamente entre 2015-2019, 354 agentes foram
    mortos no Rio de Janeiro (29,9% do total brasileiro), sendo que,
    deste valor, 111 foram mortos em serviço (36,5% dos números totais
    no país).</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>Nos últimos dois concursos para “soldado” (2010 e
    2014), a PMERJ exigiu dos candidatos conhecimentos nas seguintes
    disciplinas: língua portuguesa instrumental, redação, história,
    geografia, sociologia, legislação de trânsito, direitos humanos e
    informática. Meu lugar de fala enquanto professor me permitiu, até
    certo ponto, construir algumas pontes iniciais de contato com meus
    interlocutores – muito embora eu não tenha assumido este papel
    formal diante da turma, uma vez que a direção do “cursinho” onde
    realizei meu trabalho me permitiu, apenas, assistir as aulas. Todas
    as atividades pedagógicas que realizei junto aos candidatos foram
    realizadas fora dos horários das disciplinas regulares.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <label>3</label><p>Tomo o subúrbio carioca na sua acepção mais
    consensual: um conjunto de bairros pobres, localizado nas regiões
    periféricas do Rio de Janeiro, atravessados pelas linhas de trem e
    simbolicamente distantes do que seria o “centro” da capital
    fluminense. Para uma revisão bibliográfica sobre a polissemia de
    significados da região suburbana carioca, ver Guimarães e Davies
    (2018).</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <label>4</label><p>“Raiz” e “Nutella” são adjetivos de uso comum que
    se popularizaram a partir de <italic>memes</italic> de internet. Os
    adjetivos servem para designar, respectivamente, pessoas que fazem
    coisas de um jeito “antigo”, “tradicional” e “rústico”, em
    contraposição ao jeito “moderno”, “delicado” e “sofisticado” de
    agir. Na fala do meu interlocutor, um “candidato raiz” é alguém mais
    ligado aos valores tradicionais das representações sobre o universo
    policial, enquanto um “candidato nutella” seria um sujeito mais
    afastado dessas mesmas representações. Neste diapasão, um “policial
    raiz” seria o policial “operativo” que evoca as representações da
    polícia enquanto instituição “em guerra contra o crime”. Já o
    “policial nutella”, pelo contrário, seria um agente responsável, a
    título de exemplo, pelo “policiamento comunitário” de um determinado
    bairro residencial da cidade. Para outros exemplos de
    <italic>memes</italic> que evocam as duas categorias, ver:
    https://www.dicionariopopular.com/raiz-x-nutella/. Acesso em: 9 jun.
    2021.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <label>5</label><p>Trata-se do estigma comumente reproduzido entre
    militares sobre a figura do “paisano”, visto enquanto sujeito
    “impuro” que se insere estruturalmente em contraposição aos valores
    positivos do universo do militarismo. Para uma síntese de valores
    derivados da contraposição paisano X militar, ver a tabela elaborada
    por Castro (2004, p. 44).</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <label>6</label><p>A partir de março de 2020, a pandemia da COVID-19
    me obrigou a pensar um tipo diferente de observação. Já tendo
    estabelecido minhas redes de contato através da interação presencial
    com os candidatos, o restante do campo foi todo feito de maneira
    remota, pela observação das redes sociais nativas. Eventualmente,
    tirei algumas dúvidas sobre os conteúdos das disciplinas ao longo da
    pandemia, quando aproveitava a oportunidade para me atualizar sobre
    o que meus interlocutores estavam a fazer da vida. Mas na maior
    parte do tempo, procurei realizar, nos moldes metodológicos
    sugeridos por Leitão e Gomes (2017), o
    <italic>acompanhamento</italic> dos grupos de
    <italic>Whatsapp</italic> onde eu estava inserido. Neste processo,
    tomei notas daquilo que julgava pertinente para a problemática do
    trabalho através do salvamento de arquivos audiovisuais que eram do
    meu interesse, bem como de <italic>prints</italic> de conversas
    entre os candidatos. Como ficará claro ao longo do texto, todos os
    dados produzidos a partir deste material preservaram a identidade
    desses jovens. Os seis meses de observação virtual permitiram
    amadurecer melhor algumas questões da pesquisa, que no âmbito do
    presente artigo se remetem às representações sociais que os
    candidatos fazem sobre a carreira policial militar.</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <label>7</label><p>Imagem compartilhada em grupo de
    <italic>Whatsapp</italic> em 17 out. 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <label>8</label><p>Ainda dentro de uma perspectiva multissituada
    (MARCUS, 1995), outra ideia que surgiu ao longo da tese foi “seguir
    os candidatos” após sua possível entrada na corporação e perceber os
    impactos da formação policial sobre suas visões de mundo. Todavia, o
    período de realização do campo não compreendeu a abertura de um novo
    concurso para a PMERJ, principalmente pela conjugação de fatores
    como a crise fiscal em que se encontra o estado fluminense, a
    pandemia da COVID-19 e o impeachment do ex-governador Wilson Witzel.
    Enquanto governador, ele inclusive prometera abrir anualmente
    concursos para a corporação a partir de 2019 (FOLHA DIRIGIDA, 2019).
    Mas todos esses “imponderáveis da vida real” de que fala Malinowski
    talvez não impeçam, com efeito, que esse ainda seja um possível
    desdobramento da pesquisa em um futuro próximo.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
