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<p><bold>EDIÇÃO ESPECIAL - VOLUME 16</bold></p>
<p><bold>COMPETÊNCIAS E IMPACTOS DO MESTRADO PROFISSIONAL: O CASO DO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO PROFISSIONAL EM SEGURANÇA PÚBLICA DA
UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA</bold></p>
<p><bold>Anderson Souza da Silva</bold></p>
<p>Mestrando em Ciências Sociais/Ciência Política pela Faculdade de
Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal da Bahia -
FFCH/UFBA e licenciado em Ciências Sociais/Sociologia pela mesma
instituição (2019). Durante a graduação fui bolsista do Programa
Institucional de Bolsas de Iniciação Científica - PIBIC/UFBA pelo
projeto &quot;Bases Comunitárias de Segurança, Modelos e Estratégias de
Redução de Riscos Sociais&quot; (2017) e, posteriormente, voluntário,
também pelo PIBIC, do projeto &quot;Ecos do Subsolo: influência e
(in)visibilidade de um pensamento cosmopolita de matriz comunista no
debate com outras esquerdas e com liberais sobre reformismo e democracia
no Brasil&quot; (2019).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Bahia
<bold>Cidade:</bold> Camaçari</p>
<p><bold>E-mail:</bold> progespadm@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
http://orcid.org/0000-0002-7145-4857</p>
<p><bold>Ivone Freire Costa</bold></p>
<p>Doutora em Sociologia econômica (UTL/PT). Professora Titular na UFBA.
Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública - PROGESP
(ADM/UFBA).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Bahia
<bold>Cidade:</bold> Salvador</p>
<p><bold>E-mail:</bold> ivoneco@ufba.br <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0001-6451-3719</p>
<p><bold>Taiala Águilan Nunes dos Santos</bold></p>
<p>Mestranda em Ciências Sociais pela Universidade Federal da Bahia.
Licenciada em Ciências Sociais pela mesma Universidade. Pesquisadora do
Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública - PROGESP e do
Laboratório de Estudos sobre Crime e Sociedade - LASSOS.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Bahia
<bold>Cidade:</bold> Salvador</p>
<p><bold>E-mail:</bold> aguilanufba@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
http://orcid.org/0000-0002-8790-6176</p>
<p><bold>Contribuição de cada autor:</bold> Os autores contribuíram de
forma efetiva na pesquisa e na produção intelectual do artigo, de
maneira responsável e criativa.</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>O artigo discute as competências e os impactos dos mestrados
profissionais em segurança pública a partir dos resultados da avaliação
de egressos da Pós-Graduação Profissional em Segurança Pública da
Universidade Federal da Bahia. Para tanto, adotou-se o modelo de
personalidade parentética, proposto por Alberto Guerreiro Ramos, para
analisar a interação entre a universidade e campo profissional a partir
de ex-alunos, entendidos como pesquisadores práticos. A pesquisa foi
efetuada por meio de questionário de aplicação ampla enviado, por
e-mail, a todos os alunos que concluíram o curso no período de 2013 a
2020. Os resultados, com 40 respondentes, sugerem que estes estão mais
conscientes do papel social de sua profissão, apresentam maior
competência em pensar de forma crítica sua realidade profissional,
analisar o ambiente interno e externo de suas organizações e tomar
decisões com potencial de impacto.  </p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Avaliação de egressos. Impactos do
Mestrado Profissional. Personalidade parentética.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic>COMPETENCIES AND IMPACTS OF THE PROFESSIONAL MASTER'S: THE
CASE OF THE PROFESSIONAL POSTGRADUATE PROGRAM IN PUBLIC SECURITY AT THE
FEDERAL UNIVERSITY OF BAHIA</italic></p>
<p>The article discusses the competences and impacts of professional
master's degrees in public security based on the results of the
evaluation of graduates of the Professional Post-Graduation in Public
Security at the Federal University of Bahia. For this, the parenthetical
personality model, proposed by Alberto Guerreiro Ramos, was adopted to
analyze the interaction between the university and the professional
field through the graduates, understood as practical researchers. The
survey was carried out by means of a broad application questionnaire
sent, by e-mail, to all students who completed the course in the period
from 2013 to 2020. The results, with 40 respondents, suggest that they
are more aware of the social role of their profession, have greater
competence in thinking critically about their professional reality,
analyzing the internal and external environment of their organizations
and making decisions with potential impact.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Graduate’s evaluation. Impacts of the
Professional Master’s. Parenthetical personality.</p>
<p><bold>Data de recebimento:</bold> 26/04/2021 - <bold>Data de
aprovação:</bold> 06/09/2021</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2022.v16.n0.1503</p>
<p><bold>INTRODUÇÃO</bold></p>
<p>O presente artigo aborda o processo de avaliação de egressos dos
programas de pós-graduação profissionais, a partir da análise da
experiência do Mestrado Profissional em Segurança Pública, Justiça e
Cidadania (MPSPJC) do Programa de Pós-Graduação em Segurança Pública
(PROGESP), da Universidade Federal da Bahia (UFBA). O objetivo foi
destacar e interpretar o perfil dos egressos do MPSPJC segundo a
percepção que eles têm sobre sua experiência após o curso, levando em
consideração as competências desenvolvidas e os possíveis impactos
profissionais da formação sobre a sua atuação profissional e a sua vida
pessoal.</p>
<p>A modalidade profissional acompanha a pós-graduação brasileira desde
o início. O sistema nacional de pós-graduação foi definido pelo Parecer
Sucupira – Parecer CFE Nº 977/19652 –, aprovado em 3 de dezembro de
1965, logo depois foi homologado, na vigência da Lei Nº 4.0243, de 1961,
responsável por fixar as diretrizes e bases da educação nacional. Além
do incentivo para o desenvolvimento científico e a formação de
professores para as universidades, o documento chamou atenção para a
necessidade de atender as demandas de qualificação surgidas do processo
de desenvolvimento nacional, com a promoção de uma formação de ponta
para técnicos e profissionais de todos os setores. Desta forma, pode ser
considerado não somente o marco da pós-graduação brasileira, como também
o primeiro dispositivo a tratar oficialmente da modalidade profissional
dentro da pós-graduação.</p>
<p>De lá pra cá, a pós-graduação foi bem sucedida na formação de
professores universitários e na produção de conhecimento científico.
Porém, o sistema definido em 1965 se distanciou da demanda de
qualificação profissional que só ganhou força a partir da década de
1990, quando a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (CAPES), com a Portaria Nº 47, de 17 de outubro de 1995,
retomou a modalidade profissional ao nível dos mestrados.</p>
<p>Na prática, entretanto, só foram aprovadas propostas de mestrados
profissionais no começo dos anos 2000 (BARATA, 2020). Este foi o
contexto em que surgiu o MPSPJC. Aprovado pela CAPES, em 2010, por meio
do parecer APCN Nº 1998/2010, o curso nasceu como uma iniciativa
fortemente interdisciplinar resultante da reunião de esforços de
docentes e pesquisadores da Universidade Federal da Bahia (UFBA),
ligados pelo interesse no estudo de fenômenos da segurança pública e
vindos de diferentes campos de saberes, distintas unidades de ensino,
programas e/ou núcleos de pesquisa. Sua gestão, compartilhada entre a
Escola de Administração (EA/UFBA) e a Faculdade de Direito (FD/UFBA), é
representada pelo PROGESP, que em 2005 foi pioneiro na execução da Rede
Nacional de Altos Estudos em Segurança Pública (RENAESP), com a oferta
de cursos de especialização profissional que serviram de pressuposto
para a recepção do mestrado no corpo do programa.</p>
<p>O MPSPJC divide-se, fundamentalmente, em três linhas de pesquisa e
formação: Políticas e Gestão em Segurança Pública; Direitos Humanos,
Justiça e Cidadania; e Vitimização, Sistema Prisional e Criminalidade. A
primeira linha reúne estudos dedicados à ação e ao papel do Estado na
preservação da ordem pública, em conformidade com o estado democrático
de direito e os preceitos de eficácia e eficiência da ação pública. A
segunda linha, por sua vez, concentra pesquisas em torno da cooperação e
da integração sistêmica entre instituições de segurança pública e
justiça com vistas à construção, efetivação e ampliação da cidadania e
dos direitos humanos. Por fim, a terceira linha, tem a sua atenção
voltada para o estudo dos diferentes atores e aspectos do fenômeno da
criminalidade na sociedade contemporânea.</p>
<p>As linhas se complementam e expressam juntas a compreensão de que a
segurança e a justiça são indissociáveis. No conjunto, elas apontam para
o objetivo de formar profissionais capazes de realizar uma leitura
sistemática das relações entre instituições, segurança, justiça,
direitos, criminalidade e violência. Ou seja, formar quadros
estratégicos preparados para analisar fenômenos criminais e de violência
e identificar elementos básicos das dinâmicas interna e externa das
instituições de segurança, na perspectiva de intervir em prol da
eficiência e eficácia dos serviços prestados.</p>
<p>Tal objetivo de formação é compatível com o ideal dos mestrados
profissionais. Estes cursos atendem à exigência da sociedade atual por
uma formação qualificada que não se restrinja aos domínios da carreira
universitária e contemple setores empresariais e de ensino que
necessitam de um perfil diferente do pesquisador acadêmico (PAIXÃO;
BRUNI, 2013). Nesse sentido, os mestrados profissionais atendem a uma
demanda oriunda do mundo do trabalho e apesar de promoverem uma formação
de tipo profissional estão em paralelo ao conhecimento de natureza
operacional ou funcional, pois não se resumem à oferta de simples curso
de qualificação. Sua finalidade é formar <italic>pesquisadores
práticos</italic>, dotados de habilidades e competências para conhecerem
sistematicamente sua atividade, aperfeiçoá-la ou corrigi-la em seus
defeitos e insuficiências.</p>
<p>A pesquisa dos mestrados profissionais é ligeiramente diferente da
pesquisa dos mestrados acadêmicos. A pesquisa acadêmica orienta-se pela
teorização e é a atividade de teorização que a define como acadêmica
(ANDRÉ, 2017). A parte empírica é indispensável e cumpre um papel de
intermediação entre o conhecimento sistemático já obtido e aquele
alcançado pelas pesquisas então em curso ou conclusas. A parte principal
da atividade científica, porém, é teórica. A teoria permeia todo o
processo de investigação, desde o início, na delimitação da questão de
partida e definição dos métodos e técnicas de investigação, até o fim,
na análise dos dados e na interpretação dos resultados.</p>
<p>Na pesquisa profissional a situação é um pouco diferente. Ela tanto
parte como almeja o universo empírico. Parte dele porque de lá retira
seus problemas, que são problemas reais, relacionados com aspectos de um
setor prático da realidade empírica, reformulados como problemas
científicos que exigem uma solução igualmente prática. Tanto a teoria
como a empiria cumprem um papel intermediário. A empiria cumpre o papel
convencional de evidência, enquanto a teoria funciona como um meio de
elucidação dos problemas práticos, em suas implicações e seus
desdobramentos. A pesquisa move-se dessa maneira em direção à elaboração
e análise de alternativas de intervenção que ao fim da investigação são
prescritas, às margens de qualquer teoria, como soluções
<italic>ad-hoc</italic>. Assim, ela almeja o universo empírico, não no
sentido da compreensão desinteressada, como ocorre na pesquisa
acadêmica, mas de sua alteração, de acordo com determinados valores
institucionais. Desta forma, as pesquisas profissionais podem ser vistas
como pesquisas “engajadas” e é exatamente essa característica que as
definem como pesquisas profissionais não-acadêmicas (ANDRÉ, 2017).</p>
<p>O tipo de conhecimento produzido pelo pesquisador prático certamente
chama a nossa atenção para as diferenças entre o mestrado acadêmico
convencional e o mestrado profissional. Contudo, apesar das diferenças,
ambos os tipos de pesquisa são, antes de mais nada, o aprofundamento do
pensamento crítico alicerçado em conhecimento metodológico. É por essa
razão que a pesquisa profissional localiza-se no mestrado. O mestrado
profissional é mestrado antes de ser profissional, até porque na esfera
profissional já existem muitas opções satisfatórias de qualificação. O
saber pesquisar com rigor, contudo, é exatamente o diferencial oferecido
pelos mestrados profissionais em comparação com outras espécies de
cursos profissionais (STREHLAU, 2020).</p>
<p>O conhecimento obtido pela pesquisa profissional realizada no âmbito
dos mestrados profissionais cria alternativas de solução de problemas
práticos que vão além de simples soluções gerenciais. São alternativas
reflexivas que induzem à prática reflexiva, tornando possível o
aprendizado a partir dos desafios do ambiente de trabalho. As pesquisas
profissionais, dessa maneira, estimulam o desenvolvimento de uma cultura
de aprendizado e de proatividade dentro das organizações, trazendo
abordagens criativas e profícuas para a solução de seus impasses. É
exatamente neste ponto que reside o seu valor.</p>
<p><bold>Metodologia</bold></p>
<p>A avaliação na perspectiva dos egressos foi operacionalizada por meio
de questionários de aplicação ampla, via e-mail, com os alunos que
concluíram o MPSPJC, entre o período de 2013 a 2020. Como afirmam
Dazzani e Lordelo (2012), egressos são sujeitos especialmente
importantes para compreendermos como os programas e as políticas
educacionais se articulam com a sociedade. Neste sentido, a nossa
intenção foi examinar a qualidade da formação oferecida, os efeitos do
curso sobre o desenvolvimento pessoal e profissional e os eventuais
impactos gerados direta e/ou indiretamente pelo mestrado por meio de
seus ex-alunos. Os endereços de e-mails foram obtidos no banco de dados
dos alunos do PROGESP, disponibilizado pela coordenadora do
programa.</p>
<p>O questionário foi enviado a todos os egressos, totalizando 150
indivíduos. Contudo, apenas 40 responderam. No geral, este número pode
ser compreendido pelas dificuldades específicas sofridas pelas pesquisas
de avaliação de egressos no Brasil (DAZZANI; LORDELO, 2012). A cultura
de acompanhamento de egressos pelas universidades ainda é bastante
incipiente, especialmente quando comparada à dos Estados Unidos, onde
pesquisas deste tipo datam de 1930, enquanto no Brasil só vieram ganhar
preponderância a partir de 2006 (NISHIMURA, 2015).</p>
<p>Essa incipiência geral das pesquisas com egressos foi refletida em
nossa pesquisa. Em primeiro lugar, foi difícil localizar os ex-alunos,
pois muitos endereços de e-mail estavam desatualizados. O banco de dados
disponível não foi pensado para o acompanhamento contínuo de egressos e
sim para o acompanhamento deles enquanto alunos do curso, o que nos
criou um obstáculo ao diminuir a extensão do número de potenciais
respondentes. Em segundo lugar, verificou-se a relutância dos egressos
em dispor de tempo e oferecer informações sobre suas vidas. Nem todos os
egressos que receberam o e-mail colaboraram, indisposição que ficou
evidente na resposta de um ex-aluno pedindo aos responsáveis pelo
PROGESP a retirada de seu endereço de e-mail da lista de contatos, fato
que tipificou a natureza dessa segunda dificuldade.</p>
<p>Apesar desses obstáculos, a partir dessa amostra de 40 respondentes,
podemos visualizar os efeitos do programa sobre os egressos por não ter
havido distorções no envio dos questionários. Turma alguma foi
privilegiada em detrimento de outra. Das setes turmas do MPSPJC, de 2013
a 2020, todos os egressos que tínhamos o contato receberam o e-mail com
o questionário e puderam assim dar a sua opinião sobre o programa.
Metaforicamente, estes 40 egressos podem ser vistos como membros de uma
turma “experimental” composta por indivíduos que passaram pelo curso em
diferentes momentos de sua trajetória institucional.</p>
<p>O questionário teve um total de 42 perguntas e foi estruturado de
modo a evidenciar as competências adquiridas pelo egresso ao longo do
curso e a percepção do impacto profissional exercido em suas respectivas
instituições. O instrumento foi composto em grande medida por questões
escalonadas e organizado nos seguintes tópicos: (1) identificação; (2)
formação de competência geral; (3) formação de competências específicas;
(4) funcionamento do curso; (5) desenvolvimento pessoal e profissional;
(6) impacto e caráter inovador da produção intelectual; e por fim um
último tópico dedicado a (7) sugestões.</p>
<p><bold>Competências gerais e personalidade parentética</bold></p>
<p>Dos egressos que responderam ao questionário, há concentração na
faixa etária entre 31 e 50 anos. São majoritariamente graduados em
Direito (67% das respostas), com a maioria permanecendo na instituição
em que estava quando entrou no curso (85%) e atuando nela há mais de 5
anos, sendo que grande parte permanecia na mesma instituição entre 16 e
25 anos (45%).</p>
<p>A origem dos egressos reflete a diversidade institucional que compõe
o sistema de segurança pública. 40% são membros das polícias: 17,5% da
Polícia Militar da Bahia (PMBA); 12,5% da Polícia Civil da Bahia (PCBA);
5% da Polícia Técnica da Bahia (PTBA); e mais 5% da Polícia Federal
(PF). São seguidos por 27,5% de membros do Ministério Público; 15% do
Tribunal de Justiça da Bahia; e demais instituições somando 17,5% do
total de respondentes.</p>
<p>O conceito de competência utilizado neste trabalho consiste numa
interpretação do modelo de “homem parentético” proposto pelo sociólogo
Alberto Guerreiro Ramos (1984). Segundo Ramos, o homem parentético é um
tipo de indivíduo que possui uma consciência crítica altamente
desenvolvida das premissas de valor presentes na vida cotidiana e capaz,
pela imaginação, de pôr em parênteses o imediatismo do fluxo de
trabalho, a fim de examinar o núcleo racional de convenções, hábitos e
costumes assimilados de forma irrefletida dentro das organizações.</p>
<p>Ramos (1984) argumenta em favor do caráter duplo da noção de
racionalidade. Além da clássica racionalidade instrumental, relacionada
com a coordenação entre meios e fins, ele afirma existir um segundo tipo
denominado de racionalidade noética ou substantiva. Ela é definida como
o atributo natural do ser humano que reside na psique (SERVA, 1997) e
que o orienta para a sua autorrealização dentro das diversas esferas da
sociedade. Nesse sentido, o comportamento que ocorre dentro das
organizações é uma manifestação particular da racionalidade noética, a
partir da qual os indivíduos tentam conciliar a busca de autorrealização
com o esforço de dotar o seu trabalho de significado e sentido diante da
sociedade.</p>
<p>Para Ramos (1984) o homem parentético está eticamente comprometido
com valores que conduzem ao primado da razão noética na vida social e
privada. Apesar de depender de expertises técnicas, o conhecimento do
homem parentético é originalmente crítico. Saber fazer algo é
pressuposto indispensável ao exercício crítico no espaço organizacional.
Mas é somente por meio da crítica que são evidenciadas as condições de
possibilidade para a consecução prática, e não apenas retórica, das
finalidades institucionais. Sujeito criativo, que não se perde em
fantasias, crítico, sem ser impertinente, e influente, sem ser
subversivo, o homem parentético não obedece cegamente aos padrões de
desempenho, antes, busca neles o que há de significativo para, com base
nesses significados, influenciar o seu ambiente de trabalho.</p>
<p>Do ponto de vista organizacional, o homem parentético apresenta-se
como um modelo de personalidade interessante de ser estimulado e
desenvolvido, pois contribui para a redução do grau de insulamento
burocrático das organizações, tornando-as mais responsivas. Mas como
estimulá-lo e desenvolvê-lo? A resposta pode ser encontrada no ideal de
formação adotado pelos mestrados profissionais. O homem parentético
corresponde ao ideal do pesquisador prático, isto é, a pesquisa
profissional, tal como discutida anteriormente, é um meio de expressão
desse tipo de personalidade racional e ética.</p>
<p>Neste artigo, quando falamos em competências, estamos nos referindo
ao conjunto de habilidades de um indivíduo parentético no papel de
pesquisador prático. A personalidade parentética divide-se em um nível
geral e outro específico. O nível geral pode ser caracterizado pelos
atributos de consciência do papel social da profissão, criticidade,
analiticidade e engajamento. Para os fins deste artigo, estão
compreendidos no nível específico o domínio de conteúdos relacionados à
segurança pública e à capacidade de manejar procedimentos de pesquisa
empírica e a aplicação prática do conhecimento. O nível específico da
personalidade parentética é então o papel que o indivíduo assume como
pesquisador prático. Ao falarmos em pesquisador prático, portanto,
pressupomos qualidades parentéticas de fundo e competências específicas
de pesquisa, elaboração e uso do conhecimento.</p>
<p>Numa consulta aos portais das instituições parceiras do MPSPJC,
mencionadas anteriormente, verificou-se que todas elas estão
comprometidas com os valores do estado democrático de direito e com a
excelência de seus respectivos serviços (Quadro 1). Ou seja, tais
instituições estão comprometidas com valores socialmente responsivos e
podemos dizer que elas estão atentas ao primado da racionalidade
noética, no mínimo discursivamente.</p>
<p>Quadro 1 – Finalidades Institucionais</p>
<table>
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <thead>
    <tr>
      <th>Instituição</th>
      <th>Missão</th>
      <th>Visão</th>
      <th>Valores</th>
    </tr>
  </thead>
  <tbody>
    <tr>
      <td>Secretaria de Segurança Pública da Bahia</td>
      <td>Preservar a ordem pública e a incolumidade das pessoas e do
      patrimônio.</td>
      <td>Ser reconhecida nacionalmente, até 2025, pela excelência da
      qualidade dos serviços de segurança pública cidadã e pela efetiva
      contribuição para a redução dos índices de criminalidade.</td>
      <td>Servir e proteger; Respeito à vida, à Cidadania e aos Direitos
      Humanos; Honestidade; Integração; Coragem; Aprimoramento técnico
      profissional; Ética; Tradição; Responsabilidade social;
      Tecnicidade.</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Polícia Federal</td>
      <td>Exercer as atribuições de polícia judiciária e administrativa
      da União, a fim de contribuir na manutenção da lei e da ordem,
      preservando o estado democrático de direito.</td>
      <td>Tornar-se referência mundial em Ciência Policial.</td>
      <td>Coragem; Lealdade; Ética e Probidade; Respeito aos Direitos
      Humanos.</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Ministério Público da Bahia</td>
      <td>Defender a sociedade e o regime democrático para a garantia da
      cidadania plena.</td>
      <td>Ser reconhecido como uma instituição de excelência, indutora
      do respeito aos direitos fundamentais e aos interesses
      sociais.</td>
      <td>Compromisso; Dedicação; Determinação; Unidade; Respeito.</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Tribunal de Justiça da Bahia</td>
      <td>Assegurar o acesso à justiça visando a paz social.</td>
      <td>Efetividade na prestação jurisdicional e garantia dos direitos
      de cidadania.</td>
      <td>Acessibilidade; Agilidade; Celeridade; Eficiência; Ética;
      Probidade; Independência; Modernidade; Transparência;
      Responsabilidade socioambiental.</td>
    </tr>
  </tbody>
</table>
<p>Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Em sequência, no Gráfico 1, temos a informação de que a maioria dos
egressos respondentes apresentou plena consciência dos valores de
cidadania sustentados por suas respectivas instituições e das
expectativas sociais em torno de seu papel profissional.</p>
<p>Gráfico 1 – Item: Após o término do curso sinto-me mais consciente do
papel social de minha profissão</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Por sua vez, o Gráfico 2 apontou para o fato de que a maioria dos
egressos respondentes se sente mais preparada para pensar de forma
crítica após a conclusão do curso.</p>
<p>Gráfico 2 – Item: Após o curso houve melhoria em minha capacidade de
pensar de forma crítica</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Atento ao primado da racionalidade substantiva e do predomínio da
ética, o homem parentético tem o privilégio de julgar a organização,
colocando-a em “parênteses” ou em “suspensão”. Nesse sentido,
conscientes do papel social de suas respectivas instituições e munidos
do aumento da capacidade crítica, a maioria dos egressos do MPSPJC
considera relevante a racionalização de métodos e a atualização de
práticas (Gráfico 3) e também a atualização de imagem e valores dentro
de suas instituições (Gráfico 4), visando torná-las mais eficientes,
eficazes e responsivas.</p>
<p>Gráfico 3 – Item: Considero relevante a racionalização de métodos e a
atualização de práticas dentro da minha instituição de trabalho</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Gráfico 4 – Item: Considero relevante uma atualização de imagem e
valores dentro da minha instituição de trabalho</p>
<p>[CHART]Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Para o juízo objetivo das organizações, a analiticidade é requisito
imprescindível. O Gráfico 5 aponta para o fato de que a maioria dos 40
respondentes teve uma expressiva melhoria tanto na capacidade de
analisar situações institucionais, administrativas e operacionais,
integrantes do ambiente interno das organizações, quanto de analisar
cenários políticos e sociais que configuram seu ambiente externo.</p>
<p>Gráfico 5 – Item: Após o curso foi ampliada minha capacidade de
analisar situações institucionais, administrativas e operacionais e
cenários políticos e sociais</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Além do seu valor intrínseco, a analiticidade pode ser considerada
também como um meio indireto de comprovação do aumento de criticidade,
uma vez que o pensamento crítico demanda raciocínios válidos e bem
fundamentados. A razão para melhoria dessa forma de pensar, crítica e
analítica, ter sido questionada, não antes, mas após o curso, está no
fato de que competências mentais não podem ser aprendidas em abstrato e
depois aplicadas a qualquer assunto, pois elas são em grande medida
específicas a determinado domínio do conhecimento (HANSSON, 2019).
Assim, é possível dizer que há um tipo específico de pensamento
científico sobre a segurança pública que pode ser encontrado no perfil
de formação do MPSPJC. A hipótese aqui aventada é a de que esse perfil
encontra-se estruturado de acordo com as linhas de pesquisa do curso.
Nesse sentido, questionou-se aos egressos acerca de sua capacidade de
interpretação de dilemas e perspectivas em torno do conteúdo de cada uma
dessas três linhas (Tabela 1).</p>
<p>Tabela 1– Item: Após o curso foi ampliada a minha capacidade de
interpretação dos dilemas e perspectivas em:</p>
<table>
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <thead>
    <tr>
      <th><bold>Temas</bold></th>
      <th><bold>Concordância plena (%)</bold></th>
      <th><bold>Concordância (%)</bold></th>
      <th><bold>Indiferença (%)</bold></th>
      <th><bold>Discordância (%)</bold></th>
      <th><bold>Discordância plena (%)</bold></th>
    </tr>
  </thead>
  <tbody>
    <tr>
      <td>Democracia e garantia de direitos</td>
      <td>55</td>
      <td>32,5</td>
      <td>12,5</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Criminalidade, violência e métodos de prevenção e
      controle</td>
      <td>60</td>
      <td>35</td>
      <td>5</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Políticas de Segurança Pública</td>
      <td>60</td>
      <td>40</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
  </tbody>
</table>
<p>Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Como pode ser visto na Tabela 1, os egressos avaliam positivamente o
perfil de formação adquirida. A maioria afirma sentir maior domínio de
assuntos específicos da área de segurança pública. Não houve
discordâncias ou indiferenças sobre o aumento da compreensão de dilemas
e perspectivas em torno das políticas públicas de segurança, porém,
observa-se 5% de indiferença em relação às temáticas de criminalidade,
violência e métodos de prevenção; e 12,5% de indiferença no que diz
respeito aos temas relacionados à democracia e à garantia de direitos, o
que chama a atenção para a relativa fragilidade desta última linha
comparada às demais no corpo do MPSPJC.</p>
<p><bold>Competências específicas do papel de pesquisador prático e
impactos no contexto profissional do egresso</bold></p>
<p>Os problemas organizacionais detectados pelo julgamento da
organização podem ser convertidos em objetos de pesquisa profissional
que visa atingir um tipo de conhecimento que capacita a compreensão e a
intervenção numa determinada realidade profissional. É exatamente neste
momento que o indivíduo parentético deixa de ser meramente crítico e
assume o papel de pesquisador prático. Neste ínterim, ele demonstra a
reciprocidade entre competências gerais, para se chegar a uma opinião, e
competências específicas de pesquisa, ambas, de um lado, desenvolvidas,
de outro, adquiridas, durante o processo de formação no mestrado
profissional.</p>
<p>Gráfico 6 – Item: Após o curso houve melhoria em minha capacidade de
utilizar metodologias de trabalho/pesquisa empírica</p>
<p>[CHART]Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>O Gráfico 6 apontou para o fato de que a maioria dos egressos se
sente mais capacitada para pensar e usar metodologias de trabalho e de
pesquisa empírica, o que é requisito fundamental para pesquisas
científicas de qualquer espécie, além de ser o diferencial de formação
oferecido pelos mestrados profissionais.</p>
<p>Já a Tabela 2 traz informações relativas ao impacto profissional do
curso e suas dimensões estão sucessivamente ligadas entre si.</p>
<p>Tabela 2 – Habilidades de engajamento e impacto no contexto
profissional<italic>
</italic></p>
<table>
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <thead>
    <tr>
      <th>Após o curso</th>
      <th>Concordância plena (%)</th>
      <th>Concordância (%)</th>
      <th>Indiferença (%)</th>
      <th>Discordância (%)</th>
      <th>Discordância plena (%)</th>
    </tr>
  </thead>
  <tbody>
    <tr>
      <td>Capacidade de relacionar as temáticas do curso com a realidade
      profissional</td>
      <td>55</td>
      <td>42,5</td>
      <td>2,5</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Influência do conteúdo teórico do curso sobre a atividade
      profissional</td>
      <td>45</td>
      <td>55</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td><p>Aumento na capacidade de interpretação dos dilemas e
      perspectivas em torno da resolução de conflitos no</p>
      <p>ambiente profissional</p></td>
      <td>50</td>
      <td>50</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Aumento na capacidade de tomar decisões e resolver
      problemas</td>
      <td>57,5</td>
      <td>32,5</td>
      <td>10</td>
      <td>-</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Aumento da performance em trabalhos de equipe e elaboração de
      projetos de intervenção: planejamento, organização, comunicação e
      liderança</td>
      <td>50</td>
      <td>42,5</td>
      <td>5</td>
      <td>2,5</td>
      <td>-</td>
    </tr>
  </tbody>
</table>
<p>Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Como pode-se observar, a maioria dos egressos declara ser capaz de
relacionar as temáticas do curso com sua realidade profissional
– somando 97,5% – e afirma que a formação teórica proporcionada pelo
mestrado exerceu influência sobre a sua atividade profissional, não
havendo discordância ou indiferenças. Com isso, nota-se um aumento entre
os respondentes da capacidade de interpretar dilemas e perspectivas em
torno da resolução de conflitos no ambiente profissional: 50% estão de
pleno acordo, enquanto os demais 50% apenas concordam. Uma maior
competência para a tomada de decisões e de resolução de problemas, 90%
de concordância, e por conseguinte um aumento da performance em
trabalhos de equipe e na elaboração de projetos de intervenção,
atingindo 92,5% de concordância.</p>
<p>Acerca da produção intelectual dos egressos, de acordo com o Gráfico
7, grande parte considera que seus respectivos trabalhos finais de
conclusão de curso têm potencial de impacto profissional (28), social
(24), educacional (11), cultural (7) e econômico (5), além de outros
tipos de impactos (4), como ambiental, urbanístico, institucional,
etc.</p>
<p>Gráfico 7 – Item: Meu trabalho final de conclusão de curso, projeto
de intervenção ou dissertação, tem potencial de impacto(s)...<italic>
</italic></p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Também foi afirmado pela maioria dos respondentes ter havido
experiências inovadoras no seu contexto profissional em decorrência das
reflexões e investigações feitas durante o curso (Gráfico 8). Apenas 3
disseram que não, e 9 expressaram alguma dúvida, assinalando a resposta
“talvez”.</p>
<p>Gráfico 8 – Item: Houve experiências inovadoras em seu contexto
profissional a partir das reflexões e investigações feitas durante o
curso?</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Outra maneira de examinar o impacto profissional do curso sobre os
egressos foi questionar sobre sua produção intelectual de natureza
técnica-tecnológica. Usamos a definição de produto técnico-tecnológico
adotada pela CAPES. Ela o define como um “objeto tangível” resultante da
aplicação de conhecimentos científicos ou expertises e usados
diretamente na solução de problemas institucionais e organizacionais
(CAPES, 2019). Podemos perceber uma compatibilidade entre esse conceito
e o resultado esperado da pesquisa profissional, discutida
anteriormente. Tal definição foi incorporada no item do questionário
para que não houvessem confusões em torno do sentido do termo por
aqueles que responderam. Como pode ser visto no Gráfico 9, 14 egressos
respondentes desenvolveram produtos técnicos ou tecnológicos a partir de
seus trabalhos finais ou de projetos científicos, após ou durante o
curso, enquanto a maioria, composta por 26 respondentes, não
desenvolveu.</p>
<p>Gráfico 9 – Item: Foi(ram) desenvolvido(s) produto(s) técnico(s) ou
tecnológico(s) a partir do seu trabalho final, projeto de intervenção ou
dissertação, ou de sua produção científica após ou durante o curso?</p>
<p><italic>
</italic>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021)</p>
<p>No Gráfico 10, por sua vez, observa-se que a maior parte dos egressos
não foi contemplada com a implantação de quaisquer produtos ou serviços
originados de sua produção intelectual, realizada durante ou após o
curso, seja por instituições públicas, privadas ou do terceiro
setor.</p>
<p>Gráfico 10 – Item: Houve implantação, por parte de instituições
públicas, privadas ou do terceiro setor, de algum produto ou serviço
originado da sua produção intelectual realizada durante ou após o
curso?<italic>
</italic></p>
<p>[CHART]Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>As informações dos dados acima demonstram uma melhoria significativa
nas competências gerais da personalidade parentética e nas competências
específicas do pesquisador prático. Entretanto, o conhecimento engajado
substantivado nos produtos técnicos-tecnológicos ainda parece esbarrar
em questões estruturais concernentes às instituições nas quais os
egressos atuam. Conclusão semelhante foi feita por Souza, Ramos e
Pensador (2018) em estudo sobre o perfil dos egressos do Programa de
Pós-Graduação em Segurança Pública, do Instituto de Filosofia e Ciências
Humanas, da Universidade Federal do Pará. Segundo os autores, apesar de
a maioria dos egressos daquela instituição fazer parte de instituições
públicas de segurança do estado, como no caso da UFBA, os efeitos de sua
atuação ainda eram pouco visíveis em razão dos desafios enfrentados pelo
estado na consolidação de projetos efetivos nesta área. Diante dos dados
informados pelo Gráfico 10, podemos atribuir a escassez de incentivos e
oportunidades para a capitalização de recursos intelectuais disponíveis
dentro das instituições de segurança pública como um possível fator que
explica parte desses desafios enfrentados tanto no Pará como na
Bahia.</p>
<p><bold>Impactos no desenvolvimento pessoal e profissional do
egresso</bold></p>
<p>Além do impacto no ambiente de trabalho, a formação do MPSPJC também
afetou o desenvolvimento pessoal e profissional dos egressos (Tabela
3).</p>
<p>Tabela 3 – Impactos pessoais e profissionais<italic>
</italic></p>
<table>
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <col align="left" />
  <thead>
    <tr>
      <th><bold>Após o curso</bold></th>
      <th><bold>Concordância plena (%)</bold></th>
      <th><bold>Concordância (%)</bold></th>
      <th><bold>Indiferença (%)</bold></th>
      <th><bold>Discordância (%)</bold></th>
      <th><bold>Discordância plena (%)</bold></th>
    </tr>
  </thead>
  <tbody>
    <tr>
      <td>Abertura de novas oportunidades profissionais</td>
      <td>35</td>
      <td>30</td>
      <td>25</td>
      <td>7,5</td>
      <td>2,5</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Valorização pessoal e profissional</td>
      <td>42,5</td>
      <td>32,5</td>
      <td>22,5</td>
      <td>-</td>
      <td>2,5</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Maior visibilidade dentro do espaço de trabalho</td>
      <td>47,5</td>
      <td>27,5</td>
      <td>22,5</td>
      <td>2,5</td>
      <td>-</td>
    </tr>
    <tr>
      <td>Renovação ou alteração de valores pessoais e
      profissionais</td>
      <td>52,5</td>
      <td>32,5</td>
      <td>12,5</td>
      <td>2,5</td>
      <td>-</td>
    </tr>
  </tbody>
</table>
<p>Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Desta forma, os dados da Tabela 3 contrastam com a tendência de
avaliação dos quadros anteriores. A maioria dos respondentes continua
mantendo uma avaliação predominantemente positiva sobre o curso, porém,
chama a atenção a percentagem de afirmações de indiferença. O destaque
está nos quesitos Maior visibilidade dentro do espaço de trabalho e
Valorização pessoal e profissional. Em ambos, o grau de indiferença é de
22,5%. Destaque também para o item Abertura de novas oportunidades
profissionais, cujo grau de indiferença esteve em 22% e foi o único em
que houve um grau de discordância relativamente elevado (7,5%).</p>
<p>Gráfico 11 – Autoria em publicações científicas</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>No que diz respeito à relação entre os egressos e o mundo acadêmico,
o Gráfico 11 evidencia que dos 40 respondentes, 23 são autores de
publicações científicas, como artigos em periódicos, livros completos ou
organizados, capítulos de livros e trabalhos completos em anais.
Contudo, 17 deles apenas são autores de suas dissertações. Este dado é
inquietante. Não estando o universo das publicações científicas reduzido
à divulgação de pesquisas acadêmicas, pesquisas profissionais, quando
concluídas, merecem ser publicadas. Mas será que essas pesquisas
continuam sendo realizadas pelos egressos após o curso?</p>
<p>Gráfico 12 – Item: Você está dando continuidade ao seu projeto de
pesquisa, trabalho de conclusão de curso (dissertação ou projeto de
intervenção) ou desenvolvendo algum trabalho acadêmico com tema
relacionado ao curso?</p>
<p>[CHART]
Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>O Gráfico 12 pode responder essa questão. A maioria continua
realizando pesquisas (23), porém, um número considerável de respondentes
(17) deixou o mundo da pesquisa, não dando continuidade nem ao projeto
de sua dissertação, nem desenvolvendo algum trabalho acadêmico com tema
relacionado ao curso.</p>
<p>Gráfico 13 – Item: Após o curso continuei a minha formação
acadêmica/profissional em Instituições do Ensino Superior (IES)<italic>
</italic></p>
<p>[CHART]Fonte: Elaborado pelos autores (2021).</p>
<p>Já o Gráfico 13 aponta para o fato de que a maior parte dos egressos
que responderam ao questionário não continuou a sua formação (25).
Apenas 7 alunos seguiram para o doutorado. 6 fizeram cursos de
especialização e 4 buscaram outra graduação.</p>
<p>As informações acerca do impacto do MPSPJC sobre o desenvolvimento
pessoal e profissional dos egressos indicam a existência de uma tensão
no que diz respeito à autorrealização do indivíduo em seu espaço de
trabalho, reafirmando o que foi trazido no tópico relativo à produção
técnica e tecnológica. Ou seja, mais uma vez, parece estarmos diante de
limitações estruturais das instituições nas quais os egressos exercem a
sua profissão.</p>
<p>Apesar de fugir do escopo deste trabalho, também é possível pensar
que a não continuidade do aperfeiçoamento dos egressos como
pesquisadores pode estar relacionada com a baixa oferta de doutorados
profissionais no Brasil, especialmente na área de segurança pública. O
doutorado é o caminho mais comum após o mestrado e a ausência dessa
oferta pode interromper os planos de carreira do tipo de pesquisador –
prático – discutido ao longo deste artigo. Tal situação revela uma
lacuna entre demandas técnicas e o caminho da universidade, pois o
conhecimento científico é recurso imprescindível para a melhoria dos
serviços de segurança pública. A redução desses <italic>gaps</italic>,
como é de se imaginar, não depende apenas do interesse do pesquisador
(GALINDO, 2020). É necessário mecanismos de mediação e direcionamento de
recursos apropriados para o desenvolvimento de pesquisas engajadas e
inovadoras, não apenas no nível dos mestrados, mas também no nível dos
doutorados e dos cursos de especialização.</p>
<p><bold>Considerações finais</bold></p>
<p>Os resultados sugerem existir uma colaboração profícua entre a
Universidade Federal da Bahia e as instituições de segurança pública do
estado, por meio do MPSPJC. Mostram que os respondentes estão mais
conscientes do papel social de sua profissão, apresentam maior
competência em pensar de forma crítica e em analisar os ambientes
interno e externo de seu contexto profissional. Tais habilidades
estiveram relacionadas com a percepção, por parte dos respondentes, de
que é relevante para suas organizações tanto uma mudança ou renovação de
imagem e valores, quanto a racionalização de seus métodos e suas
práticas, visando a melhoria no desempenho de seus serviços. Os
respondentes também informaram sentir um aumento na compreensão de
dilemas e perspectivas em torno do campo da segurança pública. Tais
características foram consideradas por nós, neste artigo, como dimensões
do conceito de homem parentético, proposto pelo sociólogo Guerreiro
Ramos, e que correspondem às competências mais gerais visadas pela
formação profissional.</p>
<p>Somamos ao modelo de personalidade parentética, o conceito de
pesquisador prático, sustentado como ideal dos mestrados profissionais
no Brasil, e assim encaramos o indivíduo parentético como membro de uma
organização e pesquisador. Noutras palavras, um cientista engajado. Por
essa perspectiva, observou-se um aumento da proficiência metodológica
dos respondentes e uma maior compreensão de sua realidade profissional
proporcionada pelas reflexões e pesquisas desenvolvidas durante o curso.
Isso resultou em uma maior capacidade de tomar decisões e elaborar
projetos de intervenção, gerando experiências inovadoras em seu contexto
profissional.</p>
<p>Entretanto, os resultados confirmaram que a maioria dos respondentes
não desenvolveu produtos de natureza técnico-tecnológica. Apesar disso,
foi expressivo o número daqueles que fizeram, não havendo grande
disparidade. Contudo, a maior parte não conseguiu implantar tais
projetos. Acrescido a isto, mesmo não formando maioria, boa parte dos
respondentes confessou sentir indiferença quanto às oportunidades no
trabalho que poderiam ter sido proporcionadas em razão de sua formação
no MPSPJC, o que nos leva a crer existir limitações para o pesquisador
de tipo prático junto às organizações contempladas neste estudo. Ainda
no campo das limitações, os resultados mostraram que a maioria não
continuou a formação acadêmica-profissional, e um número considerável
não continuou com pesquisas. Assim, apesar da experiência no curso ter
sido avaliada positivamente pelos seus egressos, ainda há desafios
relacionados à exploração das potencialidades que a pós-graduação
profissional pode oferecer, tanto por parte das universidades, como das
instituições de segurança pública.</p>
<p><bold>Referências Bibliográficas</bold></p>
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