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<p><bold>Da baixada à zona sul: caminhos da violência política de raça
no Rio de Janeiro</bold></p>
<p><bold>Igor Novaes
Lins</bold><xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref><xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref><xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref></p>
<p>Doutorando em Ciência Política pela Universidade de Brasília (UnB),
mestre e graduado em Ciência Política pela mesma instituição. Bolsista
da Capes e pesquisador do Instituto Igarapé. Estuda a interação entre
Estado, política e crime organizado na América Latina. Tem interesse nas
áreas de segurança pública, relações raciais, violência política,
política subnacional, geografia eleitoral.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Distrito Federal
<bold>Cidade:</bold> Brasília</p>
<p><bold>Email:</bold> igornovaeslins@gmail.com <bold>Orcid:</bold>
https://orcid.org/0000-0003-0510-8355</p>
<p><bold>Resumo</bold></p>
<p>A pesquisa busca entender o impacto da violência política e da
violência urbana na participação política de ativistas negros no estado
do Rio de Janeiro, bem como o entrelaçamento dessas maneiras de
violência racial. Foram feitas entrevistas semiestruturadas com 11
militantes de organizações políticas e movimentos sociais. O texto
aborda o papel do Estado para aprofundar as desigualdades políticas
através do uso da violência como forma de dominação. A partir do
material empírico, conclui-se que a violência nos territórios é um
desestímulo para o associativismo negro porque cria um significado
coletivo para a população negra e, por essa razão, se expressa de
maneira tão explícita e fisicamente violenta. Existe um esforço de
grupos milicianos e de policiais para silenciar os militantes através do
uso do medo como ferramenta para a construção do sentido de ser
militante.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Violência Racial. Violência Política.
Violência Urbana. Ativismo Negro. Milícias.</p>
<p><bold>From the ‘baixada’ up to the ‘south zone’: paths of political
race violence in Rio de Janeiro</bold></p>
<p><bold>Abstract</bold></p>
<p>The research seeks to understand the impact of political violence and
urban violence on the political participation of black activists in the
state of Rio de Janeiro, as well as the intertwining of these forms of
racial violence. Semi-structured interviews were conducted with 11
activists from political organizations and social movements. The text
addresses the role of the state in deepening political inequalities by
violence as a form of domination. From the empirical material, it is
concluded that violence in the territories is a disincentive for black
associativism because it creates a collective meaning for the black
population and, for this reason, is expressed in such an explicit and
physically violent way. There is an effort by milicias groups and police
officers to silence militants using fear as a tool for the construction
of a sense of being a militant.</p>
<p><bold>Keywords</bold>: Racial Violence. Political Violence. Urban
Violence. Black Activism; Milícias.</p>
<p><bold>Data de Recebimento:</bold> 14/05/2021 – <bold>Data de
Aprovação:</bold> 24/08/2022</p>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2023.v17.n1.1532</p>
<p><bold>Apresentação</bold></p>
<p>De qual maneira as formas de violência moldam o ativismo
negro?<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref> A questão norteadora do
desenvolvimento desta pesquisa revela o objetivo de entender o impacto
cotidiano da violência na participação política de lideranças e
militantes do movimento negro do estado do Rio de Janeiro. O artigo
explora de que maneira o contexto de violência urbana se traduz em
formas de cerceamento da atividade política e aborda as principais
formas de violência política vivenciadas pelos militantes negros.</p>
<p>O texto relaciona as formas de violência urbana e violência política
por meio da análise empírica. O intuito não é fazer uma revisão
sistemática da literatura, mas articular conceitos analíticos, sobretudo
ancorado na teoria crítica e nos achados da sociologia da violência, com
observação empírica. A ideia é decodificar a violência racial,
expressada na violência política e na violência urbana, nas práticas
políticas e nas instituições informais. Além disso, faço reflexões sobre
o papel da militarização dos territórios, ocupados por forças de
segurança e milícias, na violência política e no desenvolvimento de
atividades políticas comunitárias.</p>
<p>Nesse sentido, a violência urbana é uma representação coletiva que
envolve dois eixos centrais em um contexto de sociabilidade urbana, a
física e a patrimonial. Luiz Antonio Machado da Silva (2004) aponta que
ela é responsável por romper com o esperado enquanto normalidade
cotidiana. Portanto, filio-me ao entendimento do autor no qual a
violência urbana é um mapa das complexas relações sociais que expressam
uma ordem social e, por consequência, adiciona mais uma camada de
organização das relações sociais.</p>
<p>A violência urbana, entendida classicamente como assaltos, roubos,
tiroteios, sequestros, linchamentos e outros, é incorporada às relações
sociais e à ordem institucional e legal das grandes cidades. Não são
somente comportamentos isolados, mas assimilados à ordem social do local
onde operam. A violência urbana então pode ser caracterizada por um
complexo de práticas articuladas e hierarquizadas numa ordem social, e
não somente um comportamento individual e localizado (SILVA, 2004).</p>
<p>O Estado incorpora o complexo de práticas articuladas e
hierarquizadas da violência racial às suas políticas, o que define a
lógica de tratamento das forças repressivas com camadas específicas da
sociedade. Consequentemente, a violência urbana organiza o papel dos
ativistas na medida em que não distribui igualmente aqueles que serão
vitimizados pela repressão estatal ou pelas organizações do crime
organizado. Quando pensado em um contexto de atividade política local,
mais em específico nas periferias do Rio de Janeiro, onde existe a
presença de uma série de atores armados, a violência urbana e a
violência política, apesar de não serem equivalentes, interagem
frequentemente.</p>
<p>São escassos os estudos sobre violência política racial. A ausência
de uma conceituação clara do termo e a produção precisa dos estudos
feministas na área, levou-me a adotar a conceituação de violência
política de gênero das cientistas políticas Flávia Biroli e Danusa
Marques (2022). As autoras entendem a violência de gênero na política
como um conjunto de retaliações à participação das mulheres na política.
O alvo são as mulheres, e frequentemente pessoas LGBTQIA+, devido ao seu
gênero ou à sua orientação sexual, e não por fazerem parte de
determinado grupo político ou espectro ideológico.</p>
<p>A violência política, no caso das mulheres e de negros, apesar de
suas especificidades, evidencia a violência que grupos marginalizados
sofrem em outros âmbitos (BIROLI; MARQUES, 2022). Por esse motivo,
durante a pesquisa empírica, apareceu fortemente a violência urbana e a
violência política como fatores interligados de cerceamento da atividade
política dos ativistas negros. É correto afirmar que as formas de
violência urbana com carácter racial, sobretudo a violência policial,
emergem com significados políticos. A violência urbana, física ou
patrimonial, surge como <italic>formas</italic> de violência política às
pessoas negras. É importante retomar o que Biroli e Marques (2022)
apresentam como as três dimensões sobre a violência política nesse
sentido:</p>
<disp-quote>
  <p>A violência política poderia ter motivos de gênero (quando define
  suas vítimas primordialmente com o objetivo de manter o poder político
  nas mãos dos homens com perfil hegemônico, afetando mulheres e também
  homens GBTQ+). Ela também pode ter formas generificadas (se dá de modo
  que mobiliza papéis e convenções de gênero). Por fim, seu impacto pode
  ser de gênero (incidindo em como a narrativa sobre a própria violência
  se estabelece, assim como influenciando as próprias mulheres e pessoas
  LGBTQ+ em sua decisão de participar, reforçando sua exclusão na medida
  em que o custo de participar se amplia). (BIROLI; MARQUES, 2022, p.
  10-11).</p>
</disp-quote>
<p>Conforme explicado acima, aqui não é empreendido um esforço de
conceituação da violência política e urbana, menos ainda de como os
conceitos interagem entre si, uma lacuna que precisa ser preenchida pela
literatura e é uma das imperfeições deste trabalho. A proposta é
evidenciar que a interação entre violência e política não é novidade em
si, apesar da emergência da violência política. No campo sociológico,
faço um diálogo com os estudos nos quais centralizam o poder da
violência em remontar padrões sociais a partir da estigmatização de
mulheres, pobres, LGBTQIA+ e pessoas racializadas.</p>
<p>A violência do racismo estrutural é incorporada às próprias
instituições, principalmente do Estado, que farão o seu controle e a
fundamentarão a partir das desigualdades sociais e da dominação de um
grupo sobre outro. É importante pensar a violência, seja política ou
urbana, como forma de impor um posicionamento diferenciado nas esferas
de poder e nas instâncias de distribuição econômica para os grupos
marginalizados. Em um contexto de urbanização e segregação territorial
nas grandes cidades, é usada com o pretexto de segurança à sociedade e
controle de comportamentos “desviantes”. Com um alvo claro: as regiões
periféricas das cidades, os mais pobres e os negros.</p>
<p>Pessoas negras são as mais atingidas pela violência, seja porque são
maioria nas regiões mais reprimidas pelo Estado ou por seus corpos serem
imbuídos de um estereótipo de criminoso forjado pelo racismo estrutural.
A famosa crítica ao sistema de justiça apresentada por Michelle
Alexandre (2018) é o que sustenta essa afirmação; a autora diz que o uso
da raça como fator explícito de discriminação deixou de ser aceitável,
portanto, os estereótipos raciais passaram a ser ligados ao vocabulário
do sistema de justiça criminal, como “criminoso”, “bandido” e
“meliante”, em nome de uma falsa neutralidade racial do próprio racismo.
Um glossário estratégico e de orientação racista.</p>
<p>Nos territórios urbanos marginalizados e imiscuídos de pessoas
ligadas ao imaginário racista do sistema de justiça, o Estado utiliza a
fachada do combate às economias criminais como método de controle da
população. No entanto, isso não é recebido pacificamente; os movimentos
sociais, e no caso da violência o Movimento Negro Unificado (MNU) e
organizações adjacentes, fazem uma contínua contestação desse modelo de
segurança pública baseado na repressão aos desviantes (pobres, negros e
militantes). Isso acontece após o reestabelecimento da democracia em
1988, especialmente no momento de inserção dos movimentos sociais na
política institucional (FELTRAN, 2010). São justamente esses os atores
de interesse desta pesquisa.</p>
<p>O antropólogo Gabriel Feltran (2010), ao observar a agência de
militantes periféricos de São Paulo no campo da segurança pública e dos
direitos humanos, denota que os movimentos sociais atuam para fazer a
mediação política entre a população e as instituições estatais. O
argumento de Feltran (2010) pode ser assistido no MNU. Desde o início
dos anos 80, a organização indica a necessidade de reformulação da
segurança pública e seu papel na subjugação da população negra. Fizeram
isso, parcialmente, se inserindo à burocracia ao ocuparem cargos de
confiança no governo federal. Um exemplo foi pautar a criação da
Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial no primeiro
mandato do governo Lula, em 2003 (RIOS, 2008).</p>
<p>O MNU percebeu que era também necessário questionar a democracia
representativa, dado o quadro de sub-representação. Era preciso estar lá
para mudar as coisas. O crescimento populacional acentuado nas
periferias e a mudança do perfil dos moradores intensificaram os
questionamentos quanto à capacidade dos políticos representarem a
totalidade dos brasileiros e fazerem políticas públicas que levassem as
desigualdades sociais e raciais em consideração. Uma população mais
escolarizada e com acesso a bens de consumo passou a exigir mais do
sistema político.</p>
<p>Essa proeminência de organização e o crescimento da agenda não são
recebidos pacificamente. Grupos conservadores e ligados às forças
policiais agem para o silenciamento de ativistas no Brasil, tanto com
militantes organizados quanto com representantes eleitos. Marielle
Franco, ex-vereadora do Rio de Janeiro, é o caso com maior proeminência
nesse sentido. Ela foi vítima da violência política – da repressão e
criminalização de ativistas negras e de movimentos sociais – com
<italic>forma</italic> de violência urbana e racial, haja vista que foi
baleada por grupos ligados às milícias fluminenses.</p>
<p>A história de ativistas perseguidas não é nova. O ciclo de
perseguição se alimenta nas políticas de segurança pública mantidas pelo
Estado. Como a história que Feltran (2010) narra sobre Valdênia Paulino,
militante dos direitos humanos na Zona Leste de São Paulo. Moradora de
Sapopemba, ela ganhou notoriedade ao denunciar violações de direitos por
parte do crime organizado e da violência policial na região. A história
não terminou da pior forma, mas Valdênia teve que se exilar do país e
viver sob permanente proteção da Secretaria de Direitos Humanos após
sucessivas ameaças de policiais e organizações criminosas. Antes do
exílio, a ativista sofreu dois episódios de violência sexual em
retaliação às denúncias de crianças e adolescentes recrutadas pelo crime
organizado – um caso de violência política com <italic>forma</italic> de
gênero (FELTRAN, 2010).</p>
<p>A violência pode ser lida a partir de números, sobretudo os casos de
violência urbana, mas nos casos de violência política, apesar da
existência de alguns indicadores, boa parte do que acontece só é
possível saber a partir dos relatos de quem de fato viveu. Por essa
razão, a metodologia de pesquisa escolhida é qualitativa, a partir da
realização de entrevistas semiestruturadas com ativistas do estado do
Rio de Janeiro. O recorte escolhido foi de pessoas negras que militam em
regiões periféricas, assim, 11 ativistas de movimentos sociais e
partidos políticos participaram das entrevistas no ano de 2020. As
identidades dos entrevistados são ocultadas ao máximo possível no
decorrer do artigo por se tratar de um tema sensível.</p>
<p>O Rio de Janeiro foi o estado selecionado como recorte geográfico da
pesquisa por dois motivos. O primeiro, por conta do ecoar da expressão
política de Marielle Franco, que engrenou uma base de mulheres pretas
faveladas na política formal e nos movimentos sociais. O segundo, pela
existência de movimento da “necropolítica” que tem como alvo lideranças
negras de esquerda por parte de organizações criminosas e agentes da
segurança pública, sobretudo milicianos.</p>
<p>O Rio de Janeiro não é o único estado onde se presencia casos de
violência política, mas chama atenção pela complexidade de atores com
poder de fogo, como as milícias, as facções, o jogo do bicho e os
agentes das forças repressivas do Estado (as polícias). Nesse sentido,
José Cláudio Souza Alves (2020), através de seu trabalho sociológico e
historiográfico, ilustra o método de violência política no Estado que,
basicamente, consiste na atividade de grupos de extermínio e milicianos.
Hoje, diferentemente dos grupos de extermínio e dos matadores de
aluguel, os milicianos têm o interesse direto na política e executam
adversários locais para efetivar seus próprios interesses e não
necessariamente os de empresários ou autoridades. A intenção é construir
um novo ambiente político. O que se distingue dos atores que terceirizam
a violência para veto dos grupos sociais rivais ou subordinados,
conhecido na literatura por “pistolagem”. Existe uma ação positiva, no
sentido de querer gerir o processo político.</p>
<p>Uma das principais estratégias dos grupos armados nos casos de
violência política, que será aprofundada no decorrer da argumentação, é
o uso do “medo” como instrumento político. O medo é um conceito
sociológico usado de diversos modos. Na sociologia da violência, o
“medo” (medo do crime) é ligado a uma rede de significados no debate
público e se configura como um problema social à medida que altera o
comportamento e a rotina das pessoas, principalmente em ambientes
urbanos (DORAN; BURGESS, 2012). No caso desta pesquisa, a diferença é
que o medo é relacionado a ameaças reais e objetivas dos atores armados
direcionadas aos ativistas. O “medo do crime” não é compatível com a
realidade material no entendimento hegemônico da disciplina. Entretanto,
em ambos os casos, o medo é usado por agentes políticos com a finalidade
de ter ganhos políticos, seja através do apoio para políticas públicas
mais punitivista ou para o fechamento do espaço cívico. O medo do crime
emerge de maneira discursiva para instituir um campo de medo e para
criação de significados da ação política para populações inteiras, como
os negros (LINS; FERREIRA, 2022).</p>
<p><bold>Conflito, violência e opressão: contornos do racismo
estrutural</bold></p>
<p>O conflito é parte constitutiva da política. O próprio funcionamento
da sociedade e dos sistemas sociais, que refletem o modo de se fazer
política, está relacionado ao conflito, afirma Lewis Coser (1964). Georg
Simmel (1983), uma das principais inspirações do pensamento de Coser,
argumenta que a sociedade é justamente o produto das interações sociais
divergentes do sistema social e da política.</p>
<p>Contudo, a existência dos conflitos não implica em convivência
pacífica. E, por essa razão, é perigoso para a estabilidade estatal a
existência de fragmentação e a radicalização das disputas no interior da
sociedade. A coesão social ou a organicidade nas relações de
solidariedade são terrenos mais férteis para a aceitação do antagonismo
sem aniquilação de oponentes ou implosão da estabilidade estatal
(SIMMEL, 1983). Não há uma transformação em si da sociedade, mas os
conflitos são reduzidos em razão da coesão social.</p>
<p>O conflito pode ou não gerar competição e, em decorrência, ações de
violência. Simmel (1983) frisa que a competição não significa eliminar
ou prejudicar o adversário. À diferença do conflito, a competição é
usada para alcançar algo, não é um fim em si. Assim, ela pode não ser
uma medição direta de forças. Grupos e indivíduos competem sem usar a
força contra seu adversário, por essa razão, a recompensa e a
necessidade de acirramento das disputas são o que de fato vão ditar a
necessidade do emprego da violência. Nos casos de a vitória beneficiar
um grupo em detrimento de outro, isto é, gerar desigualdades profundas
de poder, o resultado pode ser o aniquilamento do adversário. Isso
observa-se nitidamente nas dinâmicas de colonialismo nas américas. A
esfera da disputa é tensionada pela possibilidade de eliminação violenta
do “inimigo” e sua sujeição contínua.</p>
<p>Lewis Coser (1964) enxerga uma pré-disposição do comportamento humano
ao conflito. Ele pode ser acompanhado ou não de violência. Os conflitos
por legitimidade, por exemplo, estão associados a sentimentos de
hostilidade produzidos pela distribuição desigual de direitos e
privilégios na sociedade. Em resumo, para o sociólogo, a violência tem a
ver com assimetrias de poder na sociedade e as maneiras do seu uso para
dominação de grupos com a finalidade de assentamento dos conflitos.</p>
<p>As instituições representam o mecanismo de regulação da hostilidade
na sociedade. Na prática, isso significa dizer que as instituições
estatais não só monopolizam o uso da violência nos conflitos, como
servem para minimizar seus efeitos e preservar a ordem do sistema
político-social capitalista. Aqui está o ponto central trazido por Coser
(1964) para a argumentação: ao canalizar a hostilidade e monopolizar a
violência, as instituições podem causar disfunções para o sistema
social, para alguns atores ou grupos específicos, e podem reproduzir os
conflitos sociais e étnicos existentes na própria sociedade.</p>
<p>O resultado disso é a repressão estatal. A existência de instituições
de justiça reguladoras do conflito e da sua expressão (a violência),
além de aumentar a rigidez das estruturas sociais, incorre na
perseguição de grupos sociais específicos, como a população negra e
indígena nas sociedades americanas – já que não é possível esperar que o
Estado seja neutro na regulação dos conflitos; pelo contrário, o Estado
é reprodutor dos interesses<xref ref-type="fn" rid="fn5">5</xref> dos
que ocupam posições dentro de sua estrutura. As reivindicações
antagônicas não são permitidas, por isso os grupos mais fortes usam o
Estado para perseguir seus rivais a partir do momento em que ocupam
posições de poder dentro da estrutura estatal.</p>
<p>Dessa maneira, não é descabido pensar que as instituições, e a
própria noção de justiça construída nas sociedades capitalistas, são
permeadas pela dominação e pela opressão de grupos subalternos, conforme
argumenta Iris Young (1990) em <italic>Justice and the politics of
difference</italic>. De acordo com a teórica, a justiça diz respeito às
condições institucionais para o exercício de capacidades individuais e
coletivas e, assim sendo, a opressão, fruto do processo de injustiça
sistemática promovida pelas instituições, afeta os pensamentos, as
necessidades e os sentimentos, isto é, as várias esferas da experiência
humana.</p>
<p>Por essa razão, a existência de instituições de justiça não significa
a anulação dos efeitos das assimetrias sociais produzidas pelo conflito
e radicalizadas pela violência. A mudança promovida pelas instituições é
de colocar parâmetros para o uso da violência. Pierre Dardot <italic>et
al.</italic> (2021) explicam que a política, a lei e as instituições são
capazes de acomodar o uso da violência. É inclusive por meio da lei que
se reprime e criminaliza as formas de resistência de grupos
marginalizados.</p>
<p>A opressão, seja ela institucional ou individual, é uma prática das
sociedades liberais contemporâneas. Ela impõe a desvantagem e a
injustiça através de um “poder tirano” de grupos dominantes presentes
nas instituições. Nem sempre é intencional, visto que é sistêmica e
estrutural, mas se reflete em hábitos, normas e instituições (YOUNG,
1990). O caso de dominação racial branca é justamente o reflexo da
estrutura social racista que permeia todas as esferas da vida. A partir
dessa intepretação, o racismo não pode ser descolado de projetos
políticos, das condições históricas, sociais e econômicas específicas.
Ele se reflete nas macroestruturas, nas instituições e na vida
cotidiana, vai além da subjugação racial nas relações individuais.
Portanto, é razoável afirmar que o racismo estrutural é o processo
sistemático e histórico de discriminação, que é engendrado nas esferas
privadas e públicas (ALMEIDA, 2019).</p>
<p>Iris Young (1990) afirma que a marginalização é a forma mais violenta
da opressão. Grupos sociais são excluídos da participação na vida
social, privados materialmente e até exterminados, nos casos mais
radicais, que não são pouco comuns. A marginalização envolve a privação
dos espaços institucionais. Por comportamentos desviantes ou
supostamente por improdutividade econômica, as pessoas consideradas
inaptas para a vida em sociedade são restritas a algum tipo de
confinamento social. Não são vistas no convívio social, são invisíveis.
A prisão, a título de exemplo, foi destinada como local para sujeição
das pessoas negras nas américas, como relatado por Angela Davis (2019)
em <italic>Estarão as prisões obsoletas?</italic>.</p>
<p>As instituições operam baseadas na dinâmica racial sistêmica presente
na sociedade. O racismo estrutural é normalizado, mas também moldado e
transformado pelas instituições a partir da reprodução dos conflitos
sociais por controle e dominação (ALMEIDA, 2019). As pessoas brancas
asseguram sua hegemonia institucional por meio da violência e da
produção de consensos sobre a dominação. Eles estabelecem critérios
institucionais discriminatórios, segundo Almeida (2019), que impedem o
reconhecimento das assimetrias raciais, naturalizando-as. As políticas
criadas reforçam a discriminação racial.</p>
<p>Anos antes, na mesma direção, Frantz Fanon (1968) indica o papel das
instituições burguesas para manutenção da ordem política e econômica
racial nas sociedades pós-coloniais. As forças policiais, por exemplo,
já eram apontadas pelo autor como interlocutoras da violência entre o
mundo colonial e o terceiro mundo. A violência garante a imobilidade dos
colonizados em uma nova dinâmica de relacionamento global.</p>
<p>Instituições não só incorporam os padrões sociais raciais, como
produzem novos. O imperialismo cultural me parece um desses casos. Ele
cria significados políticos para grupos raciais específicos com o
objetivo de efetivar a dominação política. A régua da branquitude é
usada para inferiorizar e construir diferenças a partir de expressões
culturais e de identidade. O imperialismo cultural é dual: marca os
oprimidos com estereótipos enquanto inviabiliza suas existências.
Estereótipos são construídos para descaracterizar os oprimidos como
indivíduos. Só o homem branco pode ter sua individualidade aceita e
respeitada (YOUNG, 1990). O ápice do identitarismo racial branco.</p>
<p>Frantz Fanon (1968) já apontava o dualismo construído pela
colonização e pelo colonialismo. Para ele, o mundo colonial é
maniqueísta: colono é do bem e colonizado é do mal. O colonizado não tem
valores, tem uma estética do mal. Logo, o imaginário colonial
animaliza-o. A estética e a simbologia são essenciais para a construção
do imaginário colonial e a subjugação de grupos não brancos (LINS;
FERREIRA, 2022). Fanon alega que os valores morais criam uma atmosfera
de diferenciação e amenização da expressão claramente violenta da vida
colonial.</p>
<p>Mas qual a reação das instituições para quem desafia a ordem
capitalista e pós-colonial? A violência. A violência é uma opressão
legitimada por um ambiente estrutural de opressão contra grupos
marginalizados. Ela é refletida nas instituições políticas e sociais a
partir do momento que corpos ocupam espaços a eles não destinados. Sejam
espaços de poder ou de direitos sociais.</p>
<p>A violência é sistêmica e é o mais forte dos fenômenos da injustiça
social; destina-se a grupos pelo fato destes existirem. Mas ela não se
dá naturalmente, conforme apresentam Franz Fanon (1968), Iris Young
(1990) e Silvio Almeida (2019), mas é produto dos inúmeros significados
produzidos pela estrutura capitalista ocidental e antinegro. É
alimentada e alimenta as instituições.</p>
<p>Young (1990) divide dois tipos de violência com alvo racial. A
genérica, onde não existe razão clara, mas é produto dos significados
racistas. E a violência coercitiva, que mais interessa aqui. Ela tem o
objetivo de manter o poder de grupos dominantes, isto é, faz parte de um
projeto institucional dos brancos para o povo negro e indígena, no caso
brasileiro. Às vezes, a motivação é exercer, reafirmar e manter o poder
de dominação entre os mais vulneráveis. Os dominados que tentam desafiar
o imperialismo cultural e afirmar sua subjetividade, ressignificar seu
local na sociedade, são vítimas da violência. Isto é visto de modo claro
na política – e será desenvolvido mais à frente.</p>
<p><bold>Ativismos, identidade racial e representação: o não lugar do
negro</bold></p>
<p>Antes de passar ao objetivo central do texto, gostaria de apresentar
um breve panorama da discussão da identidade, por entender que, ao se
falar de raça, uma discussão sobre identidade auxilia a fundamentar a
análise. A violência, analisada adiante, se baseia na violência política
racial a partir da identidade negra, e de ativistas em alguns casos.
Além disso, é preciso notar que o movimento negro trabalha ativamente
para mudar o quadro político-racial no Brasil no campo da violência,
sendo o principal ator minoritário a atuar no assunto.</p>
<p>Negros são sujeitos políticos e, apesar de não serem retratados
devidamente pela literatura como tal, Clóvis Moura (1981) aponta que,
durante o período de ocupação colonial, era possível enxergar um elevado
grau de organização política das pessoas negras. Em sentido parecido,
atualmente, na tentativa de devolver o suporte que a comunidade das
favelas oferecera para pessoas e de mudar a realidade concentra, existe
(e existiu) um movimento forte de organização política no interior
desses territórios. Levando em consideração, é claro, que as formas de
organização e resistência política vão além das instituições
formais.</p>
<p>A branquitude reagiu para limitar a cidadania das pessoas negras. Uma
das estratégias foi o projeto pós-abolicionista de tentativa de
embranquecimento populacional. O resultado dessa política foi a
miscigenação da população brasileira, diz Florestan Fernandes (2008).
Ainda que a estrutura tenha se mantido configurada de tal modo a excluir
os egressos do regime colonial<xref ref-type="fn" rid="fn6">6</xref>,
criou-se uma falsa noção de igualdade racial e neutralidade racial da
sociedade e do Estado.</p>
<p>A miscigenação foi um dos instrumentos para dissipar as organizações
políticas e sociais de negros no país. O mito da democracia racial
atenuou parte da capacidade de resistência no tocante aos novos
problemas do negro, de acordo com a historiadora Emília Viotti da Costa
(2007). Criou-se uma falsa ideia de igualdade racial no momento
pós-abolição, como se o capitalismo tivesse assimilado todos igualmente
nas bases produtivas e nas esferas políticas do modelo de sociedade não
mais dependente da metrópole.</p>
<p>A miscigenação dificultou a formação da identidade dessa “nova”
população negra. Ela foi um dos maiores obstáculos para a articulação
política, em contraste com o crescimento contínuo dos quilombos no
passado. Por outro lado, o mito da democracia racial também foi um
aglutinador contemporâneo de luta para o movimento negro ao capilarizar
sua organização e unir os militantes a partir de uma pauta única e
basilar<xref ref-type="fn" rid="fn7">7</xref> (COSTA, 2007), do
entendimento contemporâneo do Movimento Negro Unificado em reconhecer
pardos e pretos como componentes do grupo racial “negros”.</p>
<p>Nas entrevistas realizadas, a “falta” de identidade aparece como
fator latente para organização. Oriundo do movimento estudantil, um dos
ativistas contou que só se descobriu negro na universidade. “Na
periferia, ser negro é ser retinto”, disse ele, quando perguntei sobre
sua trajetória de militância. Foi atribuída às políticas de ações
afirmativas nas universidades um papel central para esse
processo<xref ref-type="fn" rid="fn8">8</xref>. Isso é explicado porque
as cotas raciais assumem que o poder público está pensando as
assimetrias raciais enquanto política pública. É reconhecido enquanto
problema de Estado. Há um estímulo para os indivíduos neste limbo, do
não lugar racial, se posicionarem.</p>
<p>Antes da criação das cotas raciais, as cotas sociais foi um artifício
retórico de “desassistir” o debate racial. A intenção aqui não é
dissociar o debate de raça e
classe<xref ref-type="fn" rid="fn9">9</xref>, mas é inegável que uma
parcela de políticos e “intelectuais” utilizaram a existência das cotas
sociais para deslegitimar as cotas raciais no debate público. O primeiro
dos entrevistados foi quem levantou esse debate, de acordo com ele: “por
não entender a história do surgimento das favelas e do próprio país, o
Estado brasileiro criou para a população uma dicotomia entre racial e
social”<xref ref-type="fn" rid="fn10">10</xref>.</p>
<p>Para além das políticas públicas, na esfera representativa, os
referenciais políticos são motores para o reconhecimento do negro
enquanto sujeito político. Ainda que justificassem a falta de
referenciais na política, a maior parte dos entrevistados citou figuras
da política institucional como suas inspirações para se organizar. O
primeiro nome lembrado foi o da deputada federal Benedita da Silva (PT).
Primeira senadora negra do Brasil, uma das lideranças lembrou que a
deputada “foi o princípio de tudo em termos de mulher na política”.
“Sempre foi o maior exemplo, é a maior referência”,
completou<xref ref-type="fn" rid="fn11">11</xref>. Outro nome citado por
todos os entrevistados foi o da vereadora Marielle Franco (PSOL).
Ativista da CUFA, o entrevistado lembrou que “Marielle foi uma das
parlamentares que melhor nos representou sob todos os aspectos e pontos
de vista desse quadro <italic>sui
generis</italic>”<xref ref-type="fn" rid="fn12">12</xref>.</p>
<p>Certamente, a vereadora foi um dos maiores referenciais políticos
contemporâneos para os povos marginalizados. E o motor da participação
de gente que conseguiu se ver através da proeminência de Franco no
debate público. A liderança da Frente Favela Brasil frisou que “quando
começa pipocar Marielle e Dani Monteiro, mulheres que frequentavam os
mesmos lugares que eu, falando sobre política, isso me motivou à
militância, a me colocar de maneira mais exata”.</p>
<p>Além de uma grande referência, Franco se tornou um marco na história
política do Rio de Janeiro. Embora seu nome tenha alcançado todo o
Brasil, a vereadora transformou, particularmente, o curso político do
Rio de Janeiro. “Perder a Marielle Franco foi um balanço, rompe um
ciclo, mas abre um mar de opções”, diz uma das
entrevistadas<xref ref-type="fn" rid="fn13">13</xref>. O assassinato de
Marielle não mudou as estruturas políticas do Estado, porém apresentou a
política como espaço a ser disputado pelas pessoas de periferia e a
violência urbana e política como debate de primeira ordem. Ela não só
foi uma figura política, hoje representa uma ideia de ativismo político
negro e das formas de resistência à repressão.</p>
<p><bold>Contornos da violência e a necropolítica: o papel do
Estado</bold></p>
<p>A violência é um problema duplo para os militantes negros das
periferias do Rio de Janeiro. Primeiramente, porque suas vidas estão
ameaçadas enquanto pessoas negras, rotineiramente vitimadas pela
letalidade policial e pelos numerosos homicídios. Dos 5.956 homens
assassinados no Rio de Janeiro, em 2019, 4.650 eram pretos ou pardos, de
acordo com o Atlas da Violência de
2020<xref ref-type="fn" rid="fn14">14</xref>. Por outro lado, porque são
vozes dissonantes do pacto da branquitude e da dominação de classe
promovida pelas elites políticas e econômicas no Brasil. Os donos do
poder definem quem tem o direito de viver. Portanto, estão sujeitas às
formas de repressão do Estado as pessoas negras (violência urbana) e as
iniciativas de silenciamento de ativistas dos direitos humanos e
ativistas negros (violência política).</p>
<p>Achille Mbembe (2016), filósofo e cientista político, explica que a
própria divisão entre grupos e subgrupos na sociedade, fundamentada numa
acepção de pessoas feita pelo poder estatal, é uma expressão do racismo.
Portanto, a dominação de um grupo sobre o outro sustenta o exercício de
poder político. É a práxis política das sociedades ocidentais. É o
método de atuação e perpetuação do Estado e das elites políticas e
econômicas. A atuação do Estado moderno foi justamente baseada na
constituição da soberania e fundada na morte como método de operação da
política, disserta Mbembe (2016).</p>
<p>A necropolítica é constituída pela assimilação do massacre violento
com a burocracia estatal. A necropolítica é quem define aqueles que
devem morrer em nome da conservação dos moldes dos Estados nacionais:
marca quem são os inimigos da nação, dentro e fora dela. Essa visão,
antiestrangeira (xenófoba), que vê o outro como atentado à sua
existência, é uma das características constituintes da soberania moderna
colonial. A vida das pessoas é subjugada ao poder da morte, isto é, a
morte é o critério da prática política.</p>
<p>Identificado o alvo, a necropolítica usa de tecnologias de poder para
assassinar os seus inimigos. Negros, pobres e favelados são lidos como a
classe perigosa no caso brasileiro. A doutrina de Segurança Nacional
aliada à militarização da segurança pública no Rio de Janeiro, usada
para combater inimigos internos (inimigos da nação, conforme Mbembe), é
utilizada para a criminalização e o controle de pessoas e territórios. O
extermínio é construído como política de segurança (RIBEIRO; DIAS;
CARVARLHO, 2008).</p>
<p>Às 6 horas do dia 20 de abril de 2020, começava uma operação policial
no Complexo do Lins, me contou um ativista. Em seu
depoimento<xref ref-type="fn" rid="fn15">15</xref>, o jovem apontou como
a atividade é rotineira na vida dos moradores das periferias. De acordo
com os dados do Fogo Cruzado, laboratório digital de registro dos dados
sobre a incidência de violência no estado do Rio de Janeiro, existem
dois registros em veículos de
notícias<xref ref-type="fn" rid="fn16">16</xref> que convergem com o
testemunho.</p>
<p>Apesar da pandemia da COVID-19, a Polícia Militar realizou uma
operação contra o tráfico de
drogas<xref ref-type="fn" rid="fn17">17</xref> em territórios da capital
fluminense. O livre exercício da cidadania e da vida social é
comprometido pelo pretexto de combate ao crime organizado. Os moradores
têm seus direitos básicos cerceados pelas forças policiais, no sentido
social e no político, além da tutela relativa ao direito de locomoção
imposta pelo tráfico.</p>
<p>Em termos de ação política, a situação ficou mais problemática após a
instalação das Unidades de Política Pacificadora (UPPs): “é desafiador
fazer uma ação contra a violência policial, porque no caso do Lins ainda
existe uma UPP ativa”<xref ref-type="fn" rid="fn18">18</xref>, confirma
o entrevistado. É perceptível que a vigilância é rotineira no interior
das favelas, ainda mais naquelas onde se tem uma unidade da Polícia
Militar. A possiblidade de participação política e a construção
sistêmica de redes de resistência à violência policial são limitadas. Em
outra ocasião, ouvi que: “muitas vezes, você deixa de fazer [política]
na sua localidade e vai fazer
fora”<xref ref-type="fn" rid="fn19">19</xref> por essa razão.</p>
<p>O policiamento ostensivo militariza a vida das pessoas. Transfere-se
as resoluções comunitárias de conflito, muitas vezes baseadas em regras
estabelecidas pelo crime para mitigar a violência interpessoal, para a
polícia. No entanto, os policiais não têm como objetivo, competência ou
treinamento formas alternativas à violência militarizada.</p>
<p>É uma ilustração do vigilantismo na América Latina. Por meio de uma
fachada de controle da criminalidade, os territórios são militarizados
para controlar os grupos sociais demandantes de alterações substanciais
no sistema. O vigilantismo, alerta Martha Huggins (1992), serve para
controlar grupos cívicos que ameaçam a ordem. Está ligado às heranças
autoritárias do Estado capitalista brasileiro.</p>
<p>Luiz Eduardo Soares (2019) diz que a arquitetura institucional da
segurança pública brasileira não foi alterada pela redemocratização. A
divisão das polícias, por exemplo, se manteve parecida com o modelo
institucional da ditadura cívico-empresarial-militar. A Polícia Militar
faz o policiamento ostensivo, distante do papel investigativo da Polícia
Civil e de maneiras alternativas de resolução dos crimes; ou de
cooperação com a comunidade.</p>
<p>Em vez de promover a proteção dos direitos humanos e da cidadania, as
políticas de segurança pública cumprem a missão autoritária de
encarcerar jovens negros, criminalizar a pobreza e defender o Estado
nacional contra ameaças internas: ativistas e movimentos sociais.
Similarmente à sua função no período de recessão democrática de
1964<xref ref-type="fn" rid="fn20">20</xref> (SOARES, 2019).</p>
<p>É necessária a ação repressiva policial contra a sociedade para
garantir a lealdade interna ao capitalismo internacional. Todas as
iniciativas que desafiem o sistema político devem ser reprimidas por
essa ótica. Revoltas nacionais ou o reformismo radical são encarados
como desafios para o crescimento econômico pelas elites estrangeiras que
investem no país. O vigilantismo é central por permitir a segurança aos
negócios do capital estrangeiro (HUGGINS, 1992).</p>
<p>Nem sempre os casos são de violência policial física explícita. Um
dos militantes conta que agora o “policial passa na frente da tua casa
te ameaçando diariamente, meio que te dando uma enquadrada”. Antes, a
polícia tinha que subir o morro para atuar. Hoje, eles já estão lá, seja
por meio das UPPs como pelas milícias, e gerenciam a vida comunitária e
as próprias formas de participação política:</p>
<disp-quote>
  <p>Tem um líder comunitário que a esposa dele tinha uma lojinha onde
  ela fazia unhas e a polícia parava a viatura na porta fechando o
  acesso à loja, fizeram isso até ela desistir da loja dela. Ou seja,
  tem um impacto também na economia, é uma afronta o que eles fazem com
  a gente porque eles sabem que a gente está discutindo segurança
  pública, que a gente sabe que aquilo que eles fazem de errado precisa
  ser repudiado [...] se a gente mostra os policiais que estão fazendo
  algum tipo de violação dos direitos humanos, a gente fica exposto
  porque o Estado não está lá para nos garantir. Porque o único braço do
  Estado que chega lá é a polícia. (Entrevista com liderança do Complexo
  do Lins, 20 de abril de 2020).</p>
</disp-quote>
<p>As histórias de violência política, viabilizada pelas configurações
da urbanização militarizada do estado do Rio de Janeiro e do quadro de
violência local, se multiplicam. Embasada na tipologia organizada por
Biroli e Marques (2022), a <italic>motivação</italic> é a participação
política do líder comunitário, a <italic>forma</italic> é da violência
urbana (que afeta mais acentuadamente a população negra), por envolver
atores do quadro estatal de repressão, e o <italic>impacto</italic> é
racial, ao passo que cria uma narrativa construída pela violência para
outros líderes negros e inflaciona o custo de participação política
local.</p>
<p>O policiamento e a disciplina fundamentam a dominação do Estado sobre
os corpos racializados. A vida é militarizada sob a justificativa de
“generalização da insegurança”. Os territórios têm uma dominação
absoluta através da necropolítica, resultando em vigilância, controle,
separação e reclusão. O “necroterror” é também uma prática dos Estados
nacionais colonizados, conforme o genocídio praticado por Israel contra
o povo palestino (MBEMBE, 2016).</p>
<p><bold>A construção dos significados do ativismo negro</bold></p>
<p>Para delimitar a diferença de atuação entre o tráfico e as milícias,
bem como seu impacto nas formas de participação, recorri a Gabriel
Feltran (2010); ele explica que onde o tráfico funciona como tribunal é
observável o crescimento da violência interpessoal com o objetivo de
dominação dos territórios. Entretanto, existe um nível de
previsibilidade dos acontecimentos e das normas. A responsabilidade
policial é mais forte com os gestores públicos do que com a população
periférica. Os representantes chancelam e demandam um comportamento
ostensivo (FELTRAN, 2010).</p>
<p>Pesquisas apontam para a demanda das organizações criminosas de
reduzir a violência dentro dos territórios e adotar métodos pacíficos de
resolução de conflitos. Segundo Feltran (2018), o Primeiro Comando da
Capital (PCC) adota a paz como princípio nas suas relações. O PCC agiu,
deliberadamente, para reduzir a violência nos presídios e nas conexões
criminosas. A partir de um código de conduta, os autodenominados
“irmãos” resolvem os conflitos pacificamente, em toda a cadeia que
envolva o crime, inclusas suas famílias e os territórios de periferias
em São Paulo. Os conflitos são trazidos para intermediação de um
terceiro para atenuar as mortes e resolver via diálogo, na medida do
possível.</p>
<p>O tráfico está interessado em fazer o controle do território para não
ser surpreendido por gangues rivais ou por operações policiais, tanto de
modo geográfico quanto em termos normativos nas comunidades. Diferente
de grupos milicianos, não existe uma interação estruturada com
autoridades políticas para prever, por exemplo, operações policiais e
investidas da inteligência da polícia civil.</p>
<p>O tráfico controla uma parte das iniciativas da sociedade civil, mas
detém pouca interferência nas eleições e quase nenhum poder de ditar a
formulação de políticas públicas. O crime organizado depende de suas
próprias ferramentas de inteligência para assegurar a continuidade
econômica criminal local.
‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬Por
outro lado, ‬‬‬‬‬‬‬‬os milicianos conseguem ter interferência mais
direta na política do Rio de Janeiro. Eles são agentes políticos.
Controlam, hegemonicamente, os grupos cívicos e mobilizaram atores
armados – a exemplo, em Rio das Pedras, berço das milícias, a gestão da
associação de moradores. Eles administram diretamente as eleições e têm
alto poder de influência nas políticas públicas locais. Boa parte disso
publicamente (ARIAS, 2013; LINS, 2022).‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬‬</p>
<p>Após alguma repressão, notadamente decorrente da CPI das Milícias, os
processos passaram a ser mais discretos e clandestinos, mas ainda com o
necessário apoio do Estado. O reconhecimento da milícia como crime
organizado por parte da mídia e das autoridades determinou moralmente
inaceitável o relacionamento público entre políticos e milicianos. Há de
se lembrar, em 2008, que políticos foram presos e caçados em uma ação
coordenada entre as forças policiais, a Assembleia Legislativa do Rio de
Janeiro e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE).</p>
<p>Bruno Paes Manso (2020), em <italic>A república das
milícias</italic>, diz que a Associação de Moradores e Amigos de Rio das
Pedras foi protagonista em usar a segurança privada como forma de renda
extra para policiais de folga e servir como fachada institucional para
os agentes. As milícias, após a ofensiva dos deputados estaduais,
investiram em novas ideias para atuação clandestina e institucional de
modo ainda mais estruturado.</p>
<p>Rio das Pedras foi espelho em vários sentidos. O modelo de governança
do crime da região foi usado como espelho para atuação de milicianos em
bairros vizinhos para eliminação de traficantes e domínio de moradores,
sobretudo daqueles com comportamentos desviantes: ativistas políticos,
usuários de drogas etc. As milícias foram construídas a partir de um
argumento de ordem resultante da repressão, argumenta Paes Manso (2020).
Todos aqueles lidos como <italic>outsiders</italic>, criminosos ou não,
entram na mira desses grupos.</p>
<p>O Estado migrou a violência formal contra opositores e agentes
subversivos para as milícias. Em nome da lei, da ordem e da segurança,
grupos paramilitares, com integrantes das forças policiais de folga,
assassinam pessoas fora de conformidade com seu programa político. Com
uma visão ultradireitista, as milícias executam opositores do regime
local e alimentam o vigilantismo (HUGGINS, 1992).</p>
<p>Nas regiões com baixa presença do Estado e sem políticas sociais de
redução das desigualdades sociais, os grupos armados assumem a gestão
das áreas e atuam como agente estatal. Eles não se abstêm dos
relacionamentos com autoridades, mas usa-os como legitimadores da sua
presença na política formal: ocupando cargos públicos por indicação ou
pela via eleitoral (ARIAS, 2013).</p>
<p>Os milicianos controlam o próprio espaço político e econômico nas
regiões dominadas, me conta uma liderança preta da
capital<xref ref-type="fn" rid="fn21">21</xref>. Eles centralizam e
burocratizam a repressão e o controle interno. A literatura
especializada no tema já apontava seu envolvimento em todas as
atividades econômicas das favelas ocupadas (MANSO, 2020; ARIAS,
2013).</p>
<p>O modelo de urbanização do Rio de Janeiro em si, baseado na segurança
pública, tanto pavimentou o caminho para a proliferação desses grupos
justiceiros como foi influenciado por eles. O sucesso da milícia vem do
conhecimento dos policiais das dinâmicas de cada território antes usado
pelo tráfico; somado às redes ilícitas mantidas anteriormente com
criminosos locais; e sua infiltração alargada nos processos eleitorais
do estado (SILVA; FERNANDES; BRAGA, 2008; LINS, 2022).</p>
<p>As milícias têm origem, justamente, na polícia “mineira”. Elas eram
remuneradas para defender comerciantes locais de assaltos. O conceito de
polícia mineira vem de policiais que garimpavam criminosos com alto
faturamento com a intenção de usurpar seus lucros ou se inserir nas
redes de economia criminal (MANSO, 2020). Tinham um conhecimento
profundo das relações criminosas das regiões para identificarem
oportunidades de lucro.</p>
<p>A polícia “mineira” foi remunerada para defender um açougueiro de
assaltos em Rio das Pedras, favela situada na Zona Norte do Rio de
Janeiro. Foi onde tudo começou. O grupo espancava e matava assaltantes
da região, segundo relatos de moradores. Até que se profissionalizou e
começou a atuar no setor imobiliário, o que possibilitou a organização
de ocupações ilegais e o controle da urbanização ilegal feita nas
regiões periféricas da cidade (SILVA; FERNANDES; BRAGA, 2008).</p>
<p>Uma das razões do triunfo das milícias é justamente seu envolvimento
com o Estado. A partir de uma revisitação do relatório da CPI das
Milícias, onde foi apontada uma profunda relação com candidatos e
legisladores eleitos, a conclusão inicial atribuiu às milícias um
caráter de projeto político que explica sua expansão no Rio de Janeiro.
Em outra ocasião, através de um estudo quantitativo sobre o sucesso
eleitoral das milícias e sua geografia eleitoral, apresentei sua lógica
de atuação eleitoral na cidade do Rio de Janeiro e conclui que os grupos
conseguem ter sucesso eleitoral nos bairros em que têm influência e
controle territorial direto (LINS, 2022).</p>
<p>Os territórios urbanos com controle de organizações criminosas são
microespaços de ordem política à parte do Estado Democrático de Direito.
Em função disso, muitas das lideranças vão buscar espaço para militância
fora de sua área de domicílio. As regiões dominadas pelo crime impõem
aos líderes que participem politicamente, sobretudo, na Zona Sul, e
dificulta a vida daqueles que resistem para fazer política nessas
localidades, nos bairros menos seguros da cidade ou em outros
municípios. Segundo Arias (2013), quanto mais as organizações criminosas
conseguem centralizar o poder sob seus líderes, mais controlam as
atividades políticas. Nesse sentido, um entrevistado conta:</p>
<disp-quote>
  <p>Sempre foi uma preocupação, aqui tem milícia. Sou uma das poucas
  pessoas daqui que milita, então, é mais fácil militar no centro do
  Rio, do que na sua cidade. Você se sente mais seguro no local em que
  não é reconhecido, em que você é só mais uma pessoa e não no local que
  você tem nome e endereço. Isso pega de vez em quando. [...]. Eu fui
  candidato em 2016 e isso pegou muito, especialmente por militar com
  temas de direitos humanos. (Entrevista com liderança do PSOL, 23 de
  abril de 2020).</p>
</disp-quote>
<p>Os riscos nos territórios são ainda maiores quando não se pertence a
eles. Fica perceptível que é preciso observar as linguagens sociais de
cada região. O perigo é com milícias e com o tráfico, mas também com as
forças policiais. Por esse motivo, as lideranças comunitárias têm um
papel fundamental na organização da política estadual, pois são elas que
abrem um canal de diálogo no interior dos territórios e que estão
fazendo a política na ponta. São capazes de narrar, com fidelidade, as
demandas desses grupos. Uma delas contou-me que:</p>
<disp-quote>
  <p>Esse caminho é perigoso, quem compra essa briga de militar, ainda
  mais depois de Marielle, toma muito cuidado. Eu gostaria muito de ter
  mais liberdade para falar, para fazer, mas não há. Deve-se fazer tudo
  com muito cuidado e muito respeito aos códigos que cada território tem
  [...] cada território tem seu código, se você não souber o código,
  você não adentra. (Entrevista com liderança do PSOL, 23 de abril de
  2020).</p>
</disp-quote>
<p>Todos os entrevistados afirmaram sentir medo de militar em
determinadas regiões do Estado. Nesse sentido, outro testemunho, com o
teor similar ao anterior, reforça a necessidade de locomoção nos
territórios para estar menos suscetível às formas de violência política
impostas principalmente pelos policiais:</p>
<disp-quote>
  <p>Se a gente mostra os policiais que estão fazendo algum tipo de
  violação dos direitos humanos, a gente fica exposto porque o Estado
  não está lá para nos garantir. Porque o único braço do Estado que
  chega lá é a polícia. O risco é de um policial colocar uma droga no
  teu bolso e dizer que tu tá traficando. (Entrevista com liderança do
  Complexo do Lins, 20 de abril de 2020).</p>
</disp-quote>
<p>A morte de Franco cumpriu o papel de criar o ambiente de impedimento
do livre exercício da cidadania. Um líder da Baixada
Fluminense,<xref ref-type="fn" rid="fn22">22</xref> ao lembrar da morte
de Marielle Franco, disse: “no dia que a Mari morreu foi um dos piores
dias que eu já tive, deu medo”. Provoquei-o, perguntando qual a
novidade, afinal a região tem altos índices de mortes de jovens negros e
eu estava entrevistando um. Ele me disse que sentia a proximidade.
Sente, ainda hoje, a vigilância em todos os locais. Sente a
possibilidade real de ser o próximo, com o agravante de ter ambições
eleitorais em uma região dominada pelo “crime estatal”.</p>
<p>O tráfico, de um lado, tem o intuito de minar as posições subversivas
ocasionadoras da perda de controle territorial; por outro, as milícias
objetivam atenuar as iniciativas que ameacem seu controle político
local. A morte de Marielle desnudou a violência contra as lideranças,
mas não é uma novidade em si. A ideia foi passar um recado a outros
nomes:</p>
<disp-quote>
  <p>Estou nesse exato momento, conversando com você, na sala da minha
  casa, preocupado com a minha janela aberta. E isso é o tempo todo,
  principalmente depois do que aconteceu com ela [Marielle]. Passou a
  ter uma cara, esse cabelo te entrega, esse brinco te entrega, o jeito
  de você andar pode te entregar. (Entrevista com liderança da Frente
  Favela Brasil, 20 de abril de 2020).</p>
</disp-quote>
<p>O militante me recebeu com ânimo e esteve sempre disposto a responder
todas as questões com a máxima riqueza de detalhes. Mas a preocupação
com a janela foi real. Depois da entrevista, via mensagem no
<italic>WhatsApp</italic>, o entrevistado explicou que: “onde moro agora
é área de milicianos, por isso o cuidado com a janela”. Na mensagem
seguinte, lembrou que: “eles têm candidato próprio, por isso tive receio
de me candidatar nessas eleições”, ainda que tivesse se organizado para
candidatar-se para a legislatura municipal, como afirmou na
entrevista<xref ref-type="fn" rid="fn23">23</xref>.</p>
<p>Da morte da ex-vereadora à vitória do presidente Jair Bolsonaro, a
violência política é tensionada publicamente. Essa foi a nova roupagem
ganhada: a publicidade. São duas intenções. Primeiramente, evitar que as
lideranças continuem seu trabalho plenamente, conforme contou-me uma
professora que teve uma prova retuitada, na época, pelo deputado federal
e pré-candidato Bolsonaro:</p>
<disp-quote>
  <p>A gente começa receber ameaça. Em 2016, eu tive uma prova retuitada
  no Twitter do Bolsonaro, né, que falava de gênero e desconstruía a
  ideia de gênero, e ele repostou essa prova no Twitter dele, foi algo
  muito complicado na minha vida, tive minha cabeça a prêmio. E eu
  comecei a perceber que o fascismo não estava de bobeira no Brasil. A
  gente começa a receber recados na escola pública onde a gente
  trabalha. (Entrevista com liderança do PSOL e candidata a vereadora,
  23 de setembro de 2020),</p>
</disp-quote>
<p>Em segundo lugar, como explícito no relato, a partir desse ambiente
de hostilidade, a finalidade é legitimar outros atores a se colocarem no
debate público contra essas lideranças. Ao fazer um debate sobre
transexualidade com Indiararae
Siqueira<xref ref-type="fn" rid="fn24">24</xref>, um grupo de pais e
professores procuraram o Ministério Público para denunciar a professora
da rede pública estadual em uma outra ocasião.</p>
<p>Outra entrevistada me contou ser perseguida no trabalho após se
juntar às manifestações contra o presidente Jair Bolsonaro e por justiça
por Marielle Franco.<xref ref-type="fn" rid="fn25">25</xref> Em 2018,
era estagiária de um órgão público na área administrativa. O chefe,
servidor público e abertamente conservador, pediu seu desligamento. Ela
me disse que o caso não era inédito, outros alunos da sua universidade
foram perseguidos no trabalho e no próprio campus pelo seu engajamento.
Não era raro pessoas obrigadas a trocarem de turno e curso por medo de
violência institucional ou até mesmo física. Moradora da Baixada
Fluminense, ela citou o medo de ser uma ativista e o impacto no seu
cotidiano:</p>
<disp-quote>
  <p>Medo faz parte de mim como militante. Minha mãe ficou com muito
  medo de eu pôr minha cara, de aparecer em vídeo, de estar na rua,
  porque aqui no Rio a gente é rodeado pela PM e pela milícia. Querendo,
  ou não, é a mesma coisa. Eles estão sempre atrás da gente. Aqui no Rio
  é um eterno caça às bruxas e os bruxos somos nós. (Entrevista com
  militante do PSTU, 12 de outubro de 2020).</p>
</disp-quote>
<p>Uma professora da rede municipal relatou algo parecido ao apoiar a
ocupação das escolas em 2016, contra a reforma do Ensino Médio e a PEC
do Teto de Gastos: “minha paz
acabou”<xref ref-type="fn" rid="fn26">26</xref>. Encontram-se, aqui, o
projeto conservador e miliciano, como produtores desse ambiente de
insegurança política. O medo opera como construção do significado de ser
ativista. Perpassa a vida dos militantes de modo transversal. Como diz
Alba Zaluar (2019), o medo compromete a disposição para a luta política
e cria “danos subjetivos” maiores, muitas vezes, do que físicos.</p>
<p>As lideranças se mostram disponíveis para a luta à medida em que a
violência se acirra, mas agora estão apostando em maneiras alternativas
para atenuarem suas exposições políticas. Com destaque para aquelas
envolvidas diretamente com a pauta de segurança pública no Rio de
Janeiro. O conteúdo político é suavizado com uma “cara” de projeto
social, focado em assistência social e cultural aos moradores.</p>
<p>Desde os anos 90, como estratégia à militarização da cidade, os
militantes utilizam o ativismo social e cultural no lugar do ativismo
político tradicional. Simone Gomes (2020), a partir de sua etnografia
urbana da militância cultural na Zona Oeste, região com presença de
milicianos, argumenta que temas relacionados às organizações criminosas
e à segurança pública são evitados.</p>
<p>Em São Paulo, o quadro é semelhante. A fachada de projeto social
“ameniza” a ameaça ao trabalho do Centro de Defesa de Crianças e
Adolescentes (Cedeca), encabeçado pela ativista Valdênia, a quem fiz
referência na introdução do texto. A instituição, além de acolhimento
aos adolescentes e às crianças marginalizadas, fazia um trabalho de
denúncia do aliciamento de jovens com o crime organizado e da
displicência dos governos com a situação dos garotos da região (FELTRAN,
2010).</p>
<p>O Centro de Direitos Humanos de Sapopemba (CDHS) foi criado como
braço político do Cedeca após a inscrição do mesmo em uma rede política
de denúncias da atuação das organizações criminosas e da letalidade
policial. A iniciativa, além de ampliar a passagem dos ativistas com a
política institucional, foi uma estratégia de conservação do trabalho de
assistência social do Cedeca, ameaçado pelo crime (FELTRAN, 2010).</p>
<p>Ao que parece, a estratégia do movimento negro de utilizar o ativismo
cultural não amenizou as perseguições aos ativistas e tornou seu projeto
de fato mais seguro, mas serviu para agregar pessoas em torno da
construção de um ideário contínuo e não apenas reativo ao quadro de
violência.</p>
<p><bold>Considerações conclusivas</bold></p>
<p>A política, como sinal de civilidade perante os conflitos
democráticos, baniu a violência da das esferas políticas institucionais.
Existiu, em certa medida e em relação a grupos socialmente
privilegiados, um apreço pelos meios dialógicos de fazer política. Quer
dizer que se estendeu a toda população? Não. Parcelas da sociedade
continuaram sem ter o direito aos meios institucionais e os espaços
informais de participação política continuam fortemente involucrados em
contextos violentos. E, pior, desconsiderou-se o papel da violência na
qualidade democrática, na participação política e nos direitos dessas
populações.</p>
<p>Qualquer análise da democracia brasileira deve sublinhar que a
liberdade de expressão e de associação de uma parcela numerosa da
sociedade é permeada por uma ameaça constante do crime organizado e
pelas políticas de repressão estatal. Nesse sentido, a população negra
vive à margem do Estado Democrático de Direito quando se fala de direito
à cidadania.</p>
<p>É evidente que o carácter racial da violência política e urbana
aparece nas interpretações dos entrevistados sobre a política de
segurança pública do Rio de Janeiro. Ela é analisada, pelos ativistas,
por uma dimensão especificamente racial. Todos relacionaram as ameaças,
as violências e o medo com o fato do seu local na hierarquia racial. Mas
também pelo espaço da coletividade periférica nas cidades do estado do
Rio de Janeiro. Territórios inteiros são alvos da violência.</p>
<p>É difícil situar os limites da violência política e da violência
urbana. Os ativistas negros têm esse impacto de maneira múltipla em sua
vida. Ele ultrapassa a esfera política, e reflete diretamente em outros
espaços da vida privada por meio da violência simbólico, como no âmbito
profissional. Foi possível perceber as instâncias de violência em seus
territórios, tradicionalmente marginalizados, não descoladas das demais
áreas do cotidiano quando se é negro e militante. Principalmente, em um
contexto de relação intima do crime com as esferas estatais e
iminentemente políticas.</p>
<p>A <italic>motivação</italic>, a <italic>forma</italic> e o
<italic>impacto</italic> da violência política de raça são articulados
entre as formas de expressão da violência urbana, institucional e
política. A violência política de raça tem o objetivo de criar
significado coletivo para as demais lideranças e, por isso, se expressa
de maneira tão explícita e fisicamente violenta. O medo produzido por
essa violência política prejudica a disposição para o engajamento
político, para a entrada de novas lideranças no ambiente político e cria
danos subjetivos e materiais.</p>
<p>Não menos importante, lembro que o recorte de pesquisa foi o estado
do Rio de Janeiro. Mas ele não é uma massa monolítica de violência e
política. As conformações de cada cidade, região e território são
particulares. Qualquer conclusão é parcial aqui. Os municípios da
Baixada Fluminense vivem um processo mais intenso de violência política
e acirramento de grupos milicianos contra lideranças, por exemplo. Eles
demonstram a necessidade de recortes serem feitos futuramente, mas que
tenham em mente a necessidade do anonimato e o cumprimento estreito da
ética de pesquisa. O monitoramento dos casos de violência política com
carácter racional também é uma das tarefas de pesquisas futuras, pois
não existe sistematização e acúmulo de literatura sobre a temática.</p>
<p>A categoria de violência política não pode servir como forma de
hierarquização das violências. Não só as violências de tipo estritamente
político são nocivas à democracia e resultam em cerceamento da
cidadania. Como exposto pela experiência dos ativistas, outros tipos de
violência se confluem e convertem em violência política ao criarem
significados para a participação de pessoas negras na política, advindos
das instituições do Estado, em boa parte dos casos supracitados, e das
formas típicas de violência urbana que ocorrem nos momentos triviais da
vida dessa população.</p>
<p><bold>Referências Bibliográficas</bold></p>
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Acesso em: 27 dez. 2020.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>Doutorando, mestre e graduado em Ciência Política
    pela Universidade de Brasília (IPOL/UnB). Pesquisador do Núcleo de
    Pesquisa Flora Tristán: representações, conflitos e direitos e do
    Instituto Igarapé. País: Brasil. Estado: Distrito Federal. Cidade:
    Brasília. E-mail: igornovaeslins@gmail.com. ORCID:
    https://orcid.org/0000-0003-0510-8355.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>O presente trabalho foi realizado com apoio da
    Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior – Brasil
    (CAPES) – Código de Financiamento 001.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <label>3</label><p>Agradeço aos cuidadosos comentários e à revisão
    do Prof. Dr. Arthur Trindade Maranhão Costa (SOL/UnB), da Profa.
    Dra. Danusa Marques (IPOL/UnB) e dos meus amigos Luiz Ferreira,
    Thalys Freire e João Victor Ferreira.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <label>4</label><p>Empreguei “ativistas” e “militantes” como termos
    sinônimas no decorrer do texto.</p>
  </fn>
  <fn id="fn5">
    <label>5</label><p>O Estado é fonte de disputas internas, mesmo
    entre os grupos hegemônicos. Por isso, grandes interesses são
    compartilhados, como a manutenção da ordem, ainda que a contradição
    seja constante. Nas palavras de Claus Offe (1984), a existência do
    Estado em uma sociedade capitalista implica a existência de um
    Estado capitalista, apesar dos entreves de imposição dos interesses
    do capital em certas circunstâncias políticas. Além disso, grupos
    oprimidos conseguiram, mais recentemente, fazer política
    contestatória dentro do próprio Estado. Essa é uma grande discussão
    da literatura de movimentos sociais e participação política que não
    desenvolverei por limitação de espaço.</p>
  </fn>
  <fn id="fn6">
    <label>6</label><p>A sociedade capitalista substituiu os obstáculos
    para inserção do negro na nova ordem social. Não existia
    possibilidade de locomoção entre as classes sociais (FERNANDES,
    2008).</p>
  </fn>
  <fn id="fn7">
    <label>7</label><p>O Dia da Consciência Negra é um dos exemplos mais
    apropriados, criado nos anos 1970.</p>
  </fn>
  <fn id="fn8">
    <label>8</label><p>Entrevista com liderança do PSOL, 23 de abril de
    2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn9">
    <label>9</label><p>O capitalismo brasileiro se estrutura a partir da
    exploração racial. São questões conexas.</p>
  </fn>
  <fn id="fn10">
    <label>10</label><p>Entrevista com ativista da Central Única das
    Favelas – CUFA, 15 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn11">
    <label>11</label><p>Entrevista com liderança da Frente Favela
    Brasil, 20 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn12">
    <label>12</label><p>Entrevista com ativista da Central Única das
    Favelas – CUFA, 15 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn13">
    <label>13</label><p>Entrevista com liderança da Frente Favela
    Brasil, 20 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn14">
    <label>14</label><p>Atlas da Violência 2020, disponível em:
    https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/. Acesso em: 17 out.
    2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn15">
    <label>15</label><p>Entrevista com liderança do Complexo do Lins, 20
    de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn16">
    <label>16</label><p>A API do Fogo Cruzado está disponível em:
    https://api.fogocruzado.org.br/ocurrences. Acesso em: 10 ago.
    2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn17">
    <label>17</label><p>A política de drogas é a justificativa usada
    para o uso da repressão como controle da parcela mais pobre da
    cidade localizada nas favelas. Serve como flagelo para as violações
    dos direitos humanos (RIBEIRO; DIAS; CARVALHO, 2008, p. 8).</p>
  </fn>
  <fn id="fn18">
    <label>18</label><p>Entrevista com liderança do Complexo do Lins, 20
    de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn19">
    <label>19</label><p>Entrevista com liderança da Frente Favela
    Brasil, 20 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn20">
    <label>20</label><p>O militarismo da polícia certamente é um
    problema. Mas a raiz do problema é mais profunda: tanto em relação
    ao aparato da Justiça criminal quanto ao da legislação penal. Todo
    um sistema funciona para controlar, prender e matar. Por hora,
    resoluções reformistas não têm apresentado efetividade na mudança
    desse quadro.</p>
  </fn>
  <fn id="fn21">
    <label>21</label><p>Entrevista com liderança da Frente Favela
    Brasil, 20 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn22">
    <label>22</label><p>Entrevista com liderança do PSOL, 23 de abril de
    2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn23">
    <label>23</label><p>Entrevista com liderança da Frente Favela
    Brasil, 20 de abril de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn24">
    <label>24</label><p>Pessoa trans, com notória atuação pelos direitos
    dos LGBTQIA+. Fundou a CasaNem – casa de acolhimento para LGBTQIA+
    em situação de vulnerabilidade social. Hoje é “candidate a
    vereadore” pelo Partido dos Trabalhadores.</p>
  </fn>
  <fn id="fn25">
    <label>25</label><p>Entrevista com militante do PSTU, 12 de outubro
    de 2020.</p>
  </fn>
  <fn id="fn26">
    <label>26</label><p>Entrevista com educadora popular e ativista do
    Movimento Negro Evangélico, 13 de outubro de 2020.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
