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<p><bold><italic>O</italic> RAPPORT <italic>COMO TÉCNICA PARA OBTENÇÃO
DE INFORMAÇÕES EM ENTREVISTAS INVESTIGATIVAS</italic></bold></p>
<p><bold>Denis Victor Lino de Sousa</bold></p>
<p>Doutorando em Psicologia Cognitiva na Universidade Federal de
Pernambuco, Mestre em Investigative and Forensic Psychology pela
University of Liverpool, Graduado em Psicologia pela Universidade
Estadual da Paraíba (UEPB). Pesquisador orientador no grupo CogJus
(IMED). Pesquisador em Psicologia Investigativa com artigos e livros
publicados.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Paraíba
<bold>Cidade:</bold> Campina Grande</p>
<p><bold>Email:</bold> denisvictorlino@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0001-9185-0817</p>
<p> </p>
<p><bold>Mônica Bernardes</bold></p>
<p>Graduada em Psicologia pela Atitus Educação - Passo Fundo/RS.
Mestranda em Psicologia pelo Programa de Pós-Graduação em Psicologia da
Atitus Educação, com bolsa CAPES. Participa do Laboratório de Ensino e
Pesquisa em Cognição e Justiça (CogJus). Desenvolve pesquisas na área de
Psicologia do Testemunho.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio Grande do Sul
<bold>Cidade:</bold> Passo Fundo</p>
<p><bold>Email:</bold> monicabernardes02@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0001-7240-1434</p>
<p><bold>William Weber Cecconello</bold></p>
<p>Doutor em Psicologia (PUCRS - University of Portsmouth-UK),
Coordenador do Laboratório de Ensino e Pesquisa em Cognição e Justiça
(Cogjus), Professor de Psicologia (Atitus educação) e Psicólogo
Jurídico.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Rio Grande do Sul
<bold>Cidade:</bold> Passo Fundo</p>
<p><bold>Email:</bold> william.cecconello@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
http://orcid.org/0000-0001-6890-2076</p>
<p><bold>Natália Sierota dos Santos</bold></p>
<p>Psicóloga (CRP 07/38515 RS). Trabalha atualmente com Psicologia
Clínica e está se especializando em Terapia do Esquema. Ex-bolsista de
iniciação científica no Laboratório de Ensino e Pesquisa em Cognição e
Justiça (CogJus). Participou do desenvolvimento de pesquisas, produções
acadêmicas e treinamentos, nas áreas de Psicologia Forense.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> São Paulo
<bold>Cidade:</bold> São Paulo</p>
<p><bold>Email:</bold> sierota.nati@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-8251-3963</p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold></p>
<p>Todos contribuíram com a pesquisa, a escrita e a revisão do
artigo.</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>Em uma investigação criminal, as oitivas de vítimas, testemunhas e
suspeitos possuem papel central na elucidação do caso. Estudos empíricos
das últimas décadas apontam que estabelecer o <italic>rapport</italic>,
um relacionamento positivo e livre de julgamento entre entrevistado e
entrevistador, é uma técnica que aumenta a quantidade e a qualidade das
informações coletadas de vítimas, testemunhas e suspeitos. Neste artigo,
apresentamos uma revisão do estado da arte da literatura científica no
que tange à utilização do <italic>rapport</italic> no contexto
investigativo. São apresentados os diferentes componentes do
<italic>rapport</italic> (atenção mútua, positividade e coordenação),
para então discutir, por meio de evidências de estudos empíricos, como a
entrevista com testemunhas, vítimas e suspeitos pode ser mais efetiva.
Por fim, é exposto como o <italic>rapport</italic> é utilizado nos
principais protocolos internacionais de entrevistas investigativas,
assim como recomendações para aplicação na prática policial
brasileira.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Entrevista. Polícia Judiciária.
Psicologia Forense. <italic>Rapport</italic>.</p>
<p> </p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic><bold>RAPPORT AS AN EFFECTIVE TECHNIQUE TO GATHER INFORMATION
IN INVESTIGATIVE INTERVIEWING</bold></italic></p>
<p><italic>In a criminal investigation, investigative interviewing
victims, witnesses and suspects play a central role in finding the
perpetrator. Establishing rapport, a positive and judgment-free
relationship between interviewee and interviewer, is one of the
techniques with proven effectiveness in improving the quantity and
quality of information collected. However, there are no studies in
Brazilian Portuguese on the topic or which evidence supports the use of
rapport in the investigative context, a gap that this article intends to
fill using a narrative review. The definition of rapport and how it can
be established are presented, followed by the main evidence and
advantages of using this technique in investigative interviews with
witnesses, victims and suspects. Finally, it explains how rapport is
used in the main international investigative interviewing protocols, as
well as the recommendations to apply it in Brazilian police
practice.</italic></p>
<p><italic><bold>Keywords</bold>: Interview. Civil Police. Forensic
Psychology. Rapport.</italic></p>
<disp-quote>
  <p><bold>Data de Recebimento:</bold> 29/08/2021 – <bold>Data de
  Aprovação:</bold> 16/02/2022</p>
  <p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2023.v17.n2.1584</p>
</disp-quote>
<p><bold>Introdução</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Em uma investigação criminal, a entrevista
  investigativa<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref> de vítimas,
  testemunhas e suspeitos possui um papel central. O depoimento das
  testemunhas é considerado importante pela grande maioria dos
  operadores do Direito, incluindo policiais civis, juízes, defensores e
  promotores (MJ; IPEA, 2015). De maneira semelhante, a confissão é
  considerada como a “rainha das provas” de um processo investigativo
  criminal, cuja obtenção necessariamente perpassa uma entrevista com o
  suspeito (MOSCATELLI, 2020). Entretanto, a quantidade e a qualidade de
  informações obtidas de entrevistados e a possibilidade de um suspeito
  confessar depende da relação entrevistador-entrevistado (ALISON
  <italic>et al.</italic>, 2021). </p>
  <p>Consideremos o exemplo fictício de Guilherme, um indivíduo que foi
  chamado a prestar depoimento pois testemunhou um sequestro. É provável
  que ele tenha informações relevantes à investigação
  (<italic>e.g.</italic>, viu uma tatuagem do sequestrador e o modelo do
  carro), porém ele pode não as relatar por acreditar que a polícia já
  sabe ou até mesmo por medo de acabar se tornando um suspeito do crime
  por saber muitas informações do fato. Assim, o papel do entrevistador
  é não apenas direcionar perguntas a Guilherme, mas criar um clima
  favorável para que este relato ocorra de forma produtiva. A melhor
  maneira de facilitar a construção deste clima é por meio do
  estabelecimento do <italic>rapport</italic> – termo de origem francesa
  (<italic>rapporter</italic>) que significa “criar uma relação”, que se
  refere a um relacionamento positivo, pautado no respeito e na atenção
  mútua.</p>
  <p>O termo <italic>rapport</italic> é pouco conhecido por pessoas que
  não estejam envolvidas com seu estudo e sua aplicação prática, contudo
  ele está presente em nossas relações cotidianas. Quando nos sentimos
  bem ao conversar com nossos amigos e sentimos que podemos falar sobre
  qualquer coisa que seremos ouvidos e acolhidos, significa dizer que
  ali há um <italic>rapport</italic> bem estabelecido. Um vendedor que
  busca conhecer melhor as necessidades de clientes para vender um
  produto, que escuta sem interromper e apresenta-se como alguém
  genuinamente disposto a ajudar, está buscando construir
  <italic>rapport</italic>. De maneira semelhante, um advogado
  utiliza-se de <italic>rapport</italic> ao conversar com seus clientes
  para deixá-los à vontade e para que eles possam relatar o fato sob
  apreciação jurídica da maneira mais completa possível, e sem medo de
  represálias ou julgamento. </p>
  <p>Como observado, o <italic>rapport</italic> ajuda a criar laços e
  construir relacionamentos entre as pessoas, sendo considerado uma
  habilidade social. Habilidades sociais são comportamentos
  desenvolvidos para se conectar e interagir com outras pessoas, tais
  como iniciar e manter conversas, colocar-se no lugar do outro e
  expressar opiniões de forma respeitosa. Habilidades sociais podem ser
  aprendidas e treinadas, assim, o <italic>rapport</italic> enquanto
  habilidade social pode ser aprimorado para ser utilizado em contextos
  profissionais, com objetivo estratégico de construir relacionamentos e
  facilitar a cooperação. Dessa forma, o estudo e a utilização do
  <italic>rapport</italic> se estendeu a contextos profissionais (DEL
  PRETTE; DEL PRETTE, 2017; GABBERT <italic>et al.</italic>, 2021). </p>
  <p>Na Psicologia Clínica, o <italic>rapport</italic> é utilizado na
  entrevista para estabelecer uma relação harmônica e empática com o
  paciente, também chamada de aliança terapêutica (HORVATH <italic>et
  al.</italic>, 2011). Foi nesta área que se vislumbrou a necessidade de
  serem conduzidos estudos sobre a relevância do vínculo entre terapeuta
  e paciente. Tais estudos verificaram que, quando terapeutas adotavam
  uma postura de acolhimento e aceitação, o paciente sentia-se
  confortável, compreendido, e confiava no profissional, facilitando
  resultados positivos no tratamento (HORVATH <italic>et al.</italic>,
  2011; LEACH, 2005). Assim, ao longo do tempo, foi sendo consolidada na
  Psicologia a necessidade de estabelecer o <italic>rapport</italic>
  como forma de facilitar um processo de entrevista ou um processo
  psicoterapêutico. Recentemente, o uso do <italic>rapport</italic>
  enquanto fator influenciador de uma boa entrevista vem sendo aplicado
  no contexto investigativo. O <italic>rapport</italic> vem ganhando
  cada vez mais reconhecimento da comunidade científica acerca de sua
  eficácia na coleta de informações em Entrevistas Investigativas (HIG,
  2016; ALISON <italic>et al.</italic>, 2021).</p>
  <p>Existem diferentes teorias que tentam conceituar e definir o que é
  o <italic>rapport</italic> e como ele pode ser estabelecido, a exemplo
  dos modelos de Spencer-Oatey (2008), baseado na <italic>Politeness
  Theory</italic>, e de George Coan (1984), oriundo de estudos de
  consumidores. No presente artigo, utilizaremos como modelo teórico a
  Teoria Tripartida de Tickle-Degnen e Rosenthal (1990), devido à sua
  ampla utilização na literatura referente à entrevista investigativa
  (VALLANO; COMPO, 2015). Esta teoria compreende o
  <italic>rapport</italic> como um conjunto de comportamentos verbais e
  não-verbais, dividindo-os em três componentes: atenção mútua,
  positividade e coordenação (TICKLE-DEGNEN; ROSENTHAL, 1990).</p>
  <p>A atenção mútua é entendida como interação que possui envolvimento
  compartilhado e comum interesse rumo ao objetivo da entrevista.
  Conversar com uma pessoa que está digitando uma mensagem no celular
  pode ser desconfortável e desencorajar a continuação do diálogo, uma
  vez que uma das pessoas envolvidas na comunicação não está despendendo
  toda a sua atenção para a conversa. Para que a comunicação flua, é
  importante que os envolvidos estejam atentos aos objetivos do outro e
  aos conteúdos mencionados na conversa. Em uma interação onde o
  <italic>rapport</italic> está estabelecido, é possível verificar este
  componente em algumas atitudes, como confirmar alguma fala do relato e
  confirmar que está acompanhando o relato (<italic>e.g.</italic>,
  “sim”, “entendi”, “e o que aconteceu depois?”), ou fazer uso de
  paráfrase (repetir o que foi dito pelo entrevistado com suas próprias
  palavras, para demonstrar que compreendeu o que aconteceu.</p>
  <p>Relatar um fato para uma pessoa que pode julgá-lo ou achar seu
  comportamento errado pode criar um clima negativo e de desprazer, o
  que tende a levar indivíduos a reterem informações. A teoria
  tripartida prevê que um ambiente neutro ou de positividade tende a
  facilitar a comunicação. Como entrevistas investigativas envolvem
  depoimentos sobre crimes, a positividade pode ser um desafio, uma vez
  que o tópico central a ser relatado é um conteúdo difícil. O elemento
  positividade não significa manter uma comunicação alegre ou evitar
  tópicos difíceis, mas criar um ambiente acolhedor e empático para com
  a pessoa entrevistada. Em uma entrevista, este componente pode ser
  identificado em comportamentos como evitar julgamentos morais, ser
  respeitoso com as opiniões e visões de mundo do entrevistado,
  referir-se ao entrevistado pelo nome, entre outros.</p>
  <p>Mesmo com a atenção mútua e com um ambiente sem julgamentos, a
  comunicação pode ser dificultada se acreditamos que a outra pessoa não
  é capaz de entender o que queremos falar. Assim, o terceiro elemento
  do <italic>rapport</italic>, a coordenação, é reconhecida como
  fluência na interação e compreensão compartilhada sobre o processo
  investigativo. Este componente está presente quando tanto o
  entrevistado quanto o entrevistador estão “na mesma página”, ou seja,
  ambos compreendem os objetivos daquela interação. Na prática,
  verifica-se coordenação quando há concordância entre entrevistado e
  entrevistador (“é exatamente isso que eu quis dizer”), e estes
  compreendem seus papéis durante o depoimento (“me chamo [nome] e estou
  aqui para ouvir o que você tem a relatar sobre o fato que você
  testemunhou”) (COLLINS; CARTHY, 2019; TICKLE-DEGNEN; ROSENTHAL,
  1990).</p>
  <p>Visando tornar os comportamentos do <italic>rapport</italic> mais
  visíveis, a Tabela 1 indica comportamentos e atitudes na entrevista,
  relacionados a cada um dos três componentes.</p>
</disp-quote>
<p>Inserir Tabela 1</p>
<disp-quote>
  <p>Os componentes teóricos que compõem o <italic>rapport</italic> já
  são utilizados na prática em diversos países, como a Inglaterra, a
  Noruega e a Austrália, levando a uma prática baseada em direitos
  humanos e robustas evidências científicas de estudos empíricos
  (<italic>e.g.</italic>, análises de entrevistas reais com vítimas de
  estupro, suspeitos de terrorismo, etc.) (ALISON; ALISON, 2017;
  BAKER-ECK; BULL; WALSH, 2021; COLLINS; CARTHY, 2019;
  GOODMAN-DELAHUNTY; MARTSCHUK; DHAMI, 2014; HOLMBERG; CHRISTIANSON,
  2002). Na entrevista com testemunhas e vítimas, o estabelecimento do
  <italic>rapport</italic> é capaz de reduzir a ansiedade, deixando as
  pessoas mais confortáveis e diminuindo a carga cognitiva (nível de
  utilização de recursos psicológicos, como memória, atenção, percepção,
  representação de conhecimento e raciocínio). Logo, o entrevistado é
  capaz de dedicar mais recursos cognitivos para lembrar-se e relatar o
  fato vivenciado (KIECKHAEFER; VALLANO; COMPO, 2014). No interrogatório
  de suspeitos, o <italic>rapport</italic> é relacionado com maior
  engajamento do entrevistado (o suspeito fala mais, fornecendo mais
  informações) e com uma maior probabilidade de extrair informações
  relevantes para a investigação ou até a confissão (ALISON <italic>et
  al.</italic>, 2021).  </p>
  <p>Quando presente, o <italic>rapport</italic> impacta na redução do
  estresse e da ansiedade, assim os entrevistados conseguem expressar
  tanto discordância quanto assentimento com mais facilidade, o que
  torna a correção e o acréscimo de detalhes e informações algo mais
  natural a ser feito. Em outras palavras, ao estabelecer o
  <italic>rapport</italic>, o entrevistado se sente mais à vontade e
  confiante em falar sobre tópicos sensíveis e corrigir seu relato ou as
  impressões do entrevistador quando necessário. No decorrer do
  interrogatório, quando a confiança entre entrevistado e entrevistador
  é firmada por meio do <italic>rapport</italic>, o envolvimento de
  ambas as partes aumenta, fortificando a cooperação e a atenção mútua,
  o que agrega na coleta de informações e na diminuição de possíveis
  vieses no âmbito da entrevista investigativa (TICKLE-DEGNEN;
  ROSENTHAL, 1990). </p>
  <p>Com a construção de um relacionamento pautado no
  <italic>rapport</italic>, o entrevistador torna-se mais humano, mais
  próximo do entrevistado, desfazendo a concepção de que o clima de
  entrevista deve ser de tensão. Os entrevistados são capazes de
  desfazer a ideia de que a interação entre entrevistador-entrevistado
  deve ser unilateral (ideia de que o policial detém o poder e
  determinará o que será dito e feito durante a entrevista). Logo, a
  tensão que antes estava instaurada, devido ao fato de ir até a polícia
  dar depoimento sem saber o que esperar, é reduzida. O entrevistado
  passa a perceber a situação não como algo a ser temido, mas como um
  momento em que sua participação é significativa e terá impacto em uma
  investigação criminal e na sociedade (BEDI; DAVIS; WILLIAMS, 2005;
  COLLINS; MILLER, 1994; VALLANO; COMPO, 2011).</p>
  <p>Dessa forma, entrevistas sem o uso de <italic>rapport</italic>, as
  quais iniciam-se de forma abrupta (<italic>e.g.</italic> indo direto
  às perguntas do crime), sem investimento na construção de vínculo,
  pode levar o entrevistado a sentir-se retraído, sem confiança para
  falar tudo o que sabe. Assim, a ausência do <italic>rapport</italic>
  pode resultar em baixa cooperação e em um relato pobre de detalhes, ou
  até mesmo em nenhum relato, caso o entrevistado use de seu direito ao
  silêncio. Logo, o entrevistador perde informações valiosas que
  poderiam surgir durante toda a entrevista, caso houvesse a manutenção
  de uma relação positiva. Ainda, o entrevistador deixa de obter a
  contribuição do entrevistado em futuras oitivas. Uma entrevista
  escassa em informações pode prejudicar o andamento de toda uma
  investigação, uma vez que o entrevistado possa possuir elementos que
  possam esclarecer outras evidências ou dar indícios de explicações
  alternativas para o caso (KIECKHAEFER; VALLANO; COMPO, 2014; VALLANO;
  COMPO, 2011).</p>
  <p>Ainda que a literatura de técnicas de entrevista investigativa
  tenha uma origem antiga, ela permanece incipiente em língua
  portuguesa, dificultando que profissionais e pesquisadores brasileiros
  tenham acesso a materiais acerca das evidências científicas que pautam
  as melhoras práticas para oitivas e interrogatórios. Estudos com
  policiais brasileiros apontam a defasagem entre as recomendações
  científicas e as práticas de oitiva de vítimas, testemunhas ou nos
  interrogatórios de suspeitos (<italic>e.g.</italic>, utilizar
  perguntas fechadas, apressar o relato e confrontar suspeitos) (ABREU,
  2019; MJ; IPEA, 2015). Ademais, os estudos atuais específicos acerca
  do treinamento e uso de <italic>rapport</italic> por policiais
  brasileiros são escassos e baseados em autorrelatos
  (<italic>e.g.</italic>, o que os policiais relatam fazer), ao invés de
  análises de entrevistas reais (<italic>e.g.</italic>, análise de
  oitivas e interrogatórios gravados, verificando o que os policiais
  realmente fazem e qual o resultado obtido).</p>
  <p>Este artigo parte da importância do <italic>rapport</italic> nas
  entrevistas investigativas, da falta de dados sobre o uso desta
  técnica nos interrogatórios no Brasil, bem como da ausência de estudos
  em língua portuguesa sobre o tema. Por meio de uma revisão narrativa
  (ROTHER, 2007), apresentamos uma síntese de resultados de estudos
  empíricos de diferentes países (<italic>e.g.</italic>, análises de
  oitivas e interrogatórios reais gravados e analisados), com o intuito
  de oferecer um material baseado em evidências, a fim de demonstrarmos
  a eficácia do uso do <italic>rapport</italic> em entrevistas
  investigativas no Brasil. Dessa forma, inicialmente são apresentadas
  as evidências científicas da potencialização do
  <italic>rapport</italic> em entrevistas investigativas com testemunhas
  e vítimas, e também com suspeitos. Em seguida, é feito um levantamento
  dos principais protocolos de entrevistas investigativas utilizados no
  mundo ocidental, apresentando como estes compreendem e aplicam o
  <italic>rapport</italic>. Ao final do artigo, são apontadas
  recomendações acerca de como o <italic>rapport</italic> pode ser
  aplicado nas investigações brasileiras.</p>
</disp-quote>
<p><bold><italic>Rapport</italic> com vítimas e testemunhas</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Vivenciar um crime, seja enquanto vítima ou testemunha, é uma
  situação estressante. Por este motivo, é provável que a memória sobre
  um crime sofrido ou presenciado esteja prejudicada ou que a
  vítima/testemunha tenha dificuldade em falar sobre o que foi
  vivenciado. Estes fatores podem refletir numa Entrevista
  Investigativa, dificultando a coleta de informações relevantes para
  uma investigação. A criação de um ambiente confortável, acolhedor e de
  confiança é fundamental para facilitar a rememoração e a fala de
  vítimas e testemunhas<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>. </p>
  <p>Vítimas podem experimentar diferentes reações após a vivência de um
  crime, tais como medo e ansiedade. Estas reações podem afetar a forma
  com que as memórias relativas ao evento são armazenadas. Por exemplo,
  uma vítima de assalto pode ter dificuldade em recordar detalhes da
  cena ou do rosto do assaltante quando aquele manteve uma arma apontada
  para seu rosto durante o ato. A arma é um estímulo que pode fazer com
  que a atenção da vítima se volte completamente a ela, devido ao risco
  iminente de morte. A vítima tende a deixar de focar em outros detalhes
  do ambiente neste momento estressor, por exemplo, no rosto do
  criminoso. Este fenômeno é conhecido como <italic>weapon
  focus</italic>, traduzido como “efeito de foco da atenção na arma”
  (KRAMER; BUCKHOUT; EUGENIO, 1990; FAWCETT <italic>et al.</italic>,
  2013). O estresse e o medo vividos no momento de um crime podem
  dificultar processos cognitivos como a atenção e a codificação dos
  detalhes na memória (DEFFENBACHER <italic>et al.</italic>, 2004; WOLF,
  2017). </p>
  <p>A memória ativada durante uma entrevista investigativa é chamada de
  memória episódica, que se refere às lembranças que uma pessoa possui
  de uma experiência vivida, por exemplo, um assalto. Neste tipo de
  memória são contidas características do lugar, das pessoas presentes e
  das emoções associadas. A memória episódica de uma experiência é como
  uma viagem no tempo. Quando a vítima se lembra do assalto, é como se
  estivesse revivendo-o, sentindo novamente o medo e a tensão daquele
  momento, como a sensação da arma apontada para seu rosto (TULVING,
  1993). Dessa forma, recordar de um evento que gerou emoções negativas
  pode ser estressante e causar ansiedade, demandado esforço cognitivo
  da vítima e podendo acarretar dificuldade de fornecer um relato
  detalhado sobre o crime no momento da entrevista investigativa
  (DERAKSHAN; EYSENCK, 2009; KIECKHAEFER; VALLANO; COMPO, 2014).</p>
  <p>Estudos mostram que a construção do <italic>rapport</italic>
  auxilia na recordação da memória original do evento, resultando em
  relatos precisos, se comparados às entrevistas sem seu uso
  (KIECKHAEFER; VALLANO; COMPO, 2014; RISAN; BINDER; MILNE, 2018). A
  criação de um clima de respeito, atenção e empatia através do
  <italic>rapport</italic> proporciona conforto, permitindo que a
  recordação do evento seja menos estressante para a vítima. Com este
  clima estabelecido pelo entrevistador, a vítima se sente mais
  confortável e capaz de se lembrar dos detalhes do evento; assim,
  dispõe de mais recursos cognitivos (como memória, atenção e motivação)
  do que se estivesse nervosa.</p>
  <p>O uso do <italic>rapport</italic> pode auxiliar para que
  entrevistas resultem em maior quantidade de informações fidedignas.
  Por exemplo, Vallano e Compo (2011) investigaram se as técnicas
  verbais de construção do <italic>rapport</italic> melhoram a precisão
  do relato de vítimas e diminuem a chance de relatarem informações
  falsas. Os participantes assistiram a um vídeo de furto encenado,
  sendo que alguns receberam informações falsas sobre o furto
  (<italic>e.g.</italic>, a vítima segurava um copo de café) no
  relatório policial fornecido após o vídeo. Posteriormente, os
  participantes foram entrevistados pelos pesquisadores, sendo que em
  algumas entrevistas o <italic>rapport</italic> foi estabelecido e em
  outras não foi. Os resultados indicam que, mesmo diante de informações
  falsas, quando o <italic>rapport</italic> estava presente, os
  participantes foram capazes de se lembrar de mais informações
  verdadeiras. Ademais, os participantes foram capazes de lembrar de
  mais detalhes devido ao <italic>rapport</italic> ser acompanhado de
  perguntas abertas, as quais permitem a recordação livre, sem
  interferência do entrevistador (<italic>e.g.</italic>, “conte-me mais
  sobre o furto”). Pesquisas anteriores já vinham demonstrando como a
  construção do <italic>rapport</italic> melhora a qualidade geral dos
  relatos de vítimas (COLLINS; LINCOLN; FRANK, 2002).</p>
  <p>Além de reduzir a ansiedade de vítimas, a construção do
  <italic>rapport</italic> também favorece o fluxo de informação na
  entrevista. Quando o entrevistador demonstra ouvir a vítima com
  atenção, demonstra interesse por sua fala e dá ênfase à sua
  importância na entrevista, o entrevistado se sente motivado a cooperar
  e fornecer informações, passando a compreender seu papel ativo na
  entrevista. Isto pode ser identificado com facilidade na nossa vida
  cotidiana: quando estamos relatando um fato que nos ocorreu e
  percebemos que o ouvinte não demonstra interesse, nossa motivação para
  continuar contando sobre aquela situação diminui. Logo, passamos a
  relatar o fato com menos detalhes, não porque não nos recordamos, mas
  porque não há interesse do ouvinte na nossa fala.</p>
  <p>Pessoas tendem a proteger informações sensíveis e as revelam para
  quem confiam e quando se sentem aceitas (VENETIS <italic>et
  al.</italic>, 2012). Vítimas podem deixar de cooperar com o
  entrevistador por diversos motivos: não se sentirem à vontade com o
  entrevistador, acreditarem que a revelação afetará sua relação com
  familiares e amigos ou por imaginarem que nem tudo o que aconteceu é
  relevante para a investigação. Dessa forma, o entrevistador que
  demonstra empatia pela situação, salientando que a vítima está em um
  ambiente seguro e sem julgamentos, pode incentivar uma vítima que
  sente receio diante de um policial desconhecido a sentir-se mais
  confortável e motivada a cooperar com a entrevista. Por estes motivos,
  o uso do <italic>rapport</italic> tem sido recomendado para
  transformar vítimas não-cooperativas em cooperativas</p>
  <p>Retomando o exemplo da Introdução deste artigo, podemos verificar
  como o <italic>rapport</italic> pode ajudar no caso relatado.
  Guilherme, enquanto testemunha, estava muito nervoso e ansioso, sem
  saber como aquela situação se desenrolaria: “O que será que vão
  perguntar?”; “E se eu contar o que sei, vou sofrer retaliação dos
  culpados?”; “Será que vão acreditar em mim?”. Logo no início da
  entrevista investigativa, Guilherme foi informado dos motivos pelos
  quais ele havia sido convocado a prestar depoimento. Clarificou-se o
  que era esperado dele naquele momento e como ele poderia contribuir
  com a investigação ao oferecer o máximo de informações que tivesse
  sobre o sequestro. A partir de então, algumas das perguntas que
  causavam ansiedade em Guilherme são respondidas e ele se sente mais
  confortável e confiante em prestar seu depoimento, esforçando-se para
  lembrar de detalhes que julga relevantes para ajudar os
  investigadores. Ao longo do seu depoimento, o entrevistador tem o
  cuidado de manter sua atenção no relato da testemunha, sem
  interrompê-la e deixando claro que está atento à sua fala, ao manter
  contato visual e usar encorajadores não-verbais (“hmm”, “uhum”, etc.).
  Além disso, até mesmo quando Guilherme traz informações de sua visão
  de mundo que o entrevistador não concorda, este não julga, nem reage
  de maneira negativa ou agressiva, mantendo um ambiente de cordialidade
  e respeito. A construção do <italic>rapport</italic> com Guilherme
  contribuiu para que ele se sentisse menos ansioso e disposto a
  participar da entrevista, tornando-se uma testemunha cooperativa. </p>
</disp-quote>
<p><bold><italic>Rapport</italic> com suspeitos</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Apesar de entrevistas investigativas com vítimas serem desafiadoras
  e demandarem um entrevistador habilidoso para extrair um relato
  completo e confiável, entrevistas com suspeitos apresentam desafios
  adicionais. Vítimas geralmente são cooperativas, enquanto os suspeitos
  tendem a não cooperar com a investigação. Uma vítima, ao denunciar um
  crime, espera a sua elucidação, busca contribuir com as forças
  policiais para que o culpado seja encontrado e devidamente punido. As
  testemunhas, mesmo que nem sempre venham a se beneficiar diretamente
  com a solução do crime, geralmente são cooperativas, pois não estão
  sob suspeita e esperam melhorar a segurança e fazer justiça através de
  sua contribuição. Por outro lado, suspeitos tendem a ser
  não-cooperativos, tendo em vista que sua participação na entrevista e
  a revelação de informações importantes pode levar à sua prisão. A
  partir disso, são levantados questionamentos sobre a validade de
  utilizar uma abordagem baseada no <italic>rapport</italic> em uma
  entrevista com suspeitos.</p>
  <p>Durante muitos anos, a ideia de estabelecer uma relação positiva e
  respeitosa com o suspeito, como meio de ajudar na coleta de
  informações e até obter uma confissão, foi desconsiderada enquanto
  opção viável. O método Reid, um dos modelos mais difundidos para
  interrogar um suspeito, tem a proposta de conseguir extrair confissões
  e verificar a veracidade das declarações dos suspeitos (INBAU
  <italic>et al.</italic>, 2013). Entretanto, esta abordagem vem
  sofrendo críticas nas últimas décadas por dois motivos principais.
  Primeiramente, ela utiliza práticas consideradas abusivas e
  coercitivas, fazendo uso de blefe e manipulação psicológica para
  “quebrar” o suspeito, ou seja, destruir suas barreiras psicológicas e
  fazê-lo sentir como se não houvesse outra saída viável além da
  confissão (MOSCATELLI, 2020). O segundo motivo é a quantidade de
  evidências que demonstram como a utilização da abordagem coercitiva
  pode levar a falsas confissões e falhas no processo judicial, onde
  inocentes são erroneamente julgados, enquanto os reais culpados não
  são punidos (KASSIN <italic>et al.</italic>, 2010).</p>
  <p>Em contexto semelhante, a história mostra como o uso de tortura, em
  detrimento de uma abordagem baseada no <italic>rapport</italic> e
  respeito aos direitos humanos do suspeito, foi a principal metodologia
  utilizada na tentativa de extrair informações de suspeitos de alto
  valor, como no caso de terroristas (ALISON; ALISON, 2017). Diversos
  exemplos podem ser encontrados na literatura, por exemplo, de como os
  suspeitos de envolvimento com o ataque terrorista de 9/11 foram
  tratados na tentativa de extrair informações sobre novos ataques,
  localização de células terroristas, etc. A prática de interrogatório
  com esses suspeitos foi baseada na utilização de “técnicas avançadas
  de interrogatório” (<italic>Enhanced Interrogation
  Techniques</italic>, no original em inglês), que nada mais é do que a
  prática de tortura física e psicológica (O’MARA, 2015). É comum
  encontrar relatos, de até poucos anos atrás, do uso de humilhação
  sexual, privação de comida e sono, submissão a temperaturas extremas e
  afogamento, entre outras práticas, para interrogar suspeitos de alto
  valor.</p>
  <p>A formulação dessas práticas baseia-se em pressupostos teóricos da
  Psicologia e das Ciências Comportamentais, como o conceito de
  Desamparo Aprendido, cuja ideia é que humanos, ao serem submetidos a
  estímulos estressantes repetidas vezes, cedem ao perceber que a
  situação está fora de seu controle. Porém, quando testada a sua
  eficácia, percebe-se que utilizar tortura e métodos agressivos é mais
  prejudicial que benéfico aos objetivos do interrogatório. Verifica-se
  que poucas informações são extraídas dos suspeitos; ademais, a
  confiabilidade delas é questionável, visto que os sujeitos torturados
  fornecem qualquer tipo de dado e até mesmo falsas confissões para
  reduzir, atrasar ou acabar com o sofrimento que lhes é causado. Na
  prática, o que se constata é uma represália internacional pelo dano
  excessivo e pela desconsideração dos direitos dos suspeitos, enquanto
  isso não ajuda no avanço de investigações ou na prevenção de novos
  atos criminosos (ALISON <italic>et al.</italic>, 2021).</p>
  <p>Atualmente, no contexto de entrevistas investigativas com
  suspeitos, protocolos e práticas pautadas no <italic>rapport</italic>
  e adversas ao uso de tortura são as mais recomendadas como capazes de
  extrair informações relevantes e aumentar a probabilidade de
  confissões. Apesar de um interrogatório com suspeito ser guiado por um
  relacionamento positivo e respeitoso contradizer o imaginário social
  de um interrogatório pautado no confronto, os experimentos dessas duas
  práticas mostram como o uso do <italic>rapport</italic> pode ser uma
  ferramenta estratégica para alcançar resultados melhores. Uma pesquisa
  realizada pela <italic>High-Value Detainee Interrogation
  Group</italic> (HIG), entidade que reúne as três principais estruturas
  de investigação dos Estados Unidos, verificou que as evidências
  científicas apontam para a superioridade do uso do
  <italic>rapport</italic> na entrevista com suspeitos, tanto em
  pesquisas laboratoriais quanto nas de campo (HIG, 2016). Os estudos
  que avaliam o uso de <italic>rapport</italic> em entrevistas com
  suspeitos indicam que, nessas circunstâncias, há um maior número de
  informações coletadas (i.e., os suspeitos falam mais); estas
  informações têm maior usabilidade ou relevância investigativa, e os
  suspeitos são mais propensos a se comunicarem com o entrevistador
  (i.e., eles optam por se engajar e responder as perguntas propostas)
  (ALISON <italic>et al.</italic>, 2021). Além disso, os próprios
  suspeitos consideram entrevistas baseadas na ética e no
  <italic>rapport</italic> como mais propensas a levá-los a colaborar
  com a investigação e fornecer informações relevantes
  (GOODMAN-DELAHUNTY; MARTSCHUK; DHAMI, 2014).</p>
  <p>Ainda que o senso comum preconize que uma postura agressiva com o
  suspeito tenda a ser mais produtiva que o <italic>rapport</italic>, as
  evidências científicas demonstram o contrário. Até o momento, ainda
  não temos dados do Brasil, uma vez que não há um treinamento padrão em
  técnicas de entrevista ou uma padronização de gravação de oitivas e
  interrogatórios, o que dificulta a análise de casos reais. As
  evidências das vantagens do uso de <italic>rapport</italic> em
  entrevistas investigativas com suspeitos advêm de pesquisas
  desenvolvidas através de diversas metodologias e amostragens
  diferentes. Em especial, podemos citar o Reino Unido, precursor do
  treinamento de técnicas não coercitivas de interrogatório de
  suspeitos, que tem sido foco de análise de estudos empíricos.</p>
  <p>Collins e Carthy (2019) analisaram a aplicação do modelo teórico de
  <italic>rapport</italic> de Tickle‐Degnen e Rosenthal (1990) na
  entrevista com suspeitos de crimes sexuais contra crianças cometidos
  pela internet. Os autores analisaram 82 transcrições de
  interrogatórios de crimes reais no Reino Unido e verificaram que
  quanto mais frequente o uso da “atenção mútua” e da “coordenação” no
  interrogatório com o suspeito, mais informações relevantes para a
  investigação foram obtidas. Os resultados empíricos demonstram que
  interrogatórios com maior uso dos componentes do
  <italic>rapport</italic> são mais exitosos em obter relatos que possam
  ajudar a compreender detalhes sobre: vítimas e outras pessoas
  envolvidas; ações criminosas realizadas; sites onde as imagens ilegais
  foram armazenadas; particularidades temporais sobre quando os crimes
  foram cometidos, entre outros.</p>
  <p>Em outra pesquisa científica, Baker-Eck, Bull e Walsh (2021)
  verificam o efeito do uso de empatia por parte do entrevistador com
  suspeitos de alta periculosidade por crimes sexuais. Comportamentos de
  <italic>rapport</italic> (escuta ativa, prestar atenção e estimular o
  relato do interrogado, postura acolhedora, entre outros) foram
  analisados em 19 gravações de áudio e vídeo de entrevistas conduzidas
  por policiais no Reino Unido. Os resultados mostram que o suspeito é
  mais cooperativo quando mais componentes de <italic>rapport</italic>
  estão presentes. Entretanto, as análises verificam que entrevistadores
  que apresentaram uma postura mais conflitiva resultaram em menor
  cooperação do suspeito e menor número de informações relevantes à
  investigação. Os autores sugerem tratar suspeitos com respeito,
  compreensão e sem julgamento, pois isto resulta em um ambiente menos
  estressante e conflitivo, permitindo que os suspeitos cooperem e
  forneçam informações relevantes.</p>
</disp-quote>
<p>A importância do <italic>rapport</italic> para obter informações
relevantes e aumentar a probabilidade de suspeitos confessarem é algo
compartilhado pelas evidências científicas que analisam as entrevistas
de maneira objetiva, mas também pela percepção dos entrevistadores. Ao
realizar entrevistas com policiais treinados em técnicas de Entrevista
Investigativa responsáveis pelo contato e pela manutenção de informantes
humanos, verificou-se que o <italic>rapport</italic> é apontado como
essencial, especialmente para extrair informações (NUNAN <italic>et
al.</italic>, 2020). Esta percepção é corroborada por policiais
responsáveis por entrevistas investigativas com suspeitos e vítimas
(VALLANO <italic>et al.</italic>, 2015) e no contexto específico de
entrevistas com suspeitos com transtornos mentais (OXBURGH <italic>et
al.</italic>, 2016). É importante frisar que o <italic>rapport</italic>,
para atingir sua eficácia desejada com suspeitos, não pode ser
simplesmente desenvolvido no início da entrevista e esquecido em seu
decorrer. É necessário que o entrevistador mantenha o
<italic>rapport</italic> com o suspeito ao longo da entrevista para
obter resultados positivos (WALSH; BULL, 2012).</p>
<disp-quote>
  <p>Outras pesquisas avaliam o efeito do <italic>rapport</italic> a
  partir da percepção dos entrevistados. Em um estudo onde foram
  entrevistadas 64 pessoas (34 entrevistadores e 30 indivíduos
  condenados por crimes de terrorismo) de cinco países (Austrália,
  Indonésia, Filipinas, Sri Lanka e Noruega), verificou-se que o uso de
  um interrogatório que construía <italic>rapport</italic> e tinha uma
  postura de respeito para com o interrogado teve quatro vezes mais
  chances de chegar a confissões ou admissões de culpa
  (GOODMAN-DELAHUNTY; MARTSCHUK; DHAMI, 2014). Na Suécia, o estudo de
  Holmberg e Christianson (2002), com 43 homicidas e 40 indivíduos
  condenados por crimes sexuais, obteve conclusões semelhantes. Quando o
  interrogatório foi conduzido com a construção de
  <italic>rapport</italic>, demonstração de empatia e personalização da
  entrevista, os suspeitos foram três vezes mais prováveis de confessar
  quando comparados aos interrogatórios que eram agressivos, impacientes
  e indiferentes ao interrogado.</p>
  <p>Uma prática bastante significativa no âmbito da aplicação do
  <italic>rapport</italic> com suspeitos se deu recentemente com o
  desenvolvimento do ORBIT (<italic>Observing Rapport-Based
  Interpersonal Techniques</italic>). Pode-se considerar o ORBIT como um
  modelo teórico-prático de como estabelecer e manter
  <italic>rapport</italic> de maneira eficaz ao longo de uma Entrevista
  Investigativa. Ele foi inicialmente desenvolvido a partir da análise
  de mais de 280 horas de gravações de entrevistas com detentos
  considerados mais complicados (terroristas) e, atualmente, conta com o
  estudo minucioso de mais de 2.000 horas de gravações de entrevistas
  com suspeitos e vítimas (ALISON <italic>et al.</italic>, 2013; ALISON
  <italic>et al.</italic>, 2021). Diante desse enorme banco de dados de
  casos reais (considerado o maior na atualidade para pesquisa sobre
  entrevistas investigativas) e da abordagem científica utilizada
  (embasamento teórico e testagem empírica), o ORBIT se destaca em sua
  proposta de como conduzir uma entrevista investigativa. De fato, a
  utilização deste modelo é defendida pelo HIG e ele é ensinado nos
  módulos de treinamento mais avançados para entrevistadores
  investigativos do Reino Unido (ALISON <italic>et al.</italic>,
  2021).</p>
  <p>A base teórica do ORBIT alicerça-se, principalmente, na Abordagem
  Centrada na Pessoa, desenvolvida por Carl Rogers, e na Entrevista
  Motivacional, desenvolvida por Miller e Rollnick. A partir disto,
  prega-se o estabelecimento de <italic>rapport</italic> e como tratar o
  entrevistado de acordo com cinco componentes: 1) Aceitação: respeitar
  o suspeito, o que não significa concordar com suas atitudes ou visão
  de mundo. Tentar enxergar o lado bom do sujeito, apesar do crime o
  qual suspeita-se que ele tenha praticado. 2) Empatia: buscar,
  genuinamente, entender a perspectiva e as motivações do suspeito. 3)
  Evocação: evocar as crenças dos suspeitos ao invés de forçar as suas.
  Permanecer curioso e atencioso, sem deixar “vazar” sua visão de mundo
  e possível julgamento. 4) Autonomia: deixar claro que é opção do
  suspeito não falar, mas gera<strike>r</strike> um ambiente de abertura
  e não julgamento (deixar a porta aberta) se ele quiser falar. 5)
  Adaptação: o entrevistador é capaz de adaptar-se às respostas e às
  interações com o entrevistado diante de mudanças no plano estabelecido
  para a entrevista (ALISON <italic>et al.</italic>, 2021).</p>
  <p>Diversos estudos testaram a aplicação do ORBIT em entrevistas
  investigativas reais com suspeitos, indicando como a aplicação do
  <italic>rapport</italic> é capaz de atingir resultados melhores que
  abordagens acusatórias (ALISON; ALISON, 2017). Alison <italic>et
  al.</italic> (2013) analisaram cerca de 288 horas de entrevistas com
  29 suspeitos de terrorismo que depois foram julgados e condenados
  pelos seus crimes no Reino Unido. Os resultados apontam que a
  aplicação do <italic>rapport</italic> de acordo com o modelo proposto
  pelo ORBIT teve um efeito direto e estatisticamente significativo na
  quantidade de informações relevantes extraídas dos suspeitos. Em outro
  estudo, também no Reino Unido, Alison <italic>et al.</italic> (2014)
  analisaram interrogatórios realizados com 49 terroristas durante a
  fase investigativa, para avaliar a eficácia do
  <italic>rapport</italic> em reduzir estratégias do suspeito para não
  cooperar ou oferecer informações relevantes durante o interrogatório.
  Percebe-se que o uso de <italic>rapport</italic> teve efeitos
  estatisticamente significativos na redução dessas estratégias, como
  responder apenas “sem comentários” para todas as perguntas, ficar em
  silêncio durante o interrogatório e falar apenas sobre coisas que não
  têm relevância/importância para a investigação.</p>
  <p>Em suma, percebe-se que tratar o suspeito com respeito e dignidade,
  criando um ambiente de aceitação e não-julgamento, apesar da situação
  crítica de investigação criminal, possibilita o aumento tanto da
  cooperação do suspeito quanto da quantidade de informações coletadas.
  Verificou-se que entrevistadores que conduziram sua prática de acordo
  com as diretrizes do ORBIT conseguiram fazer os suspeitos se engajarem
  e participarem da entrevista (um dos principais desafios), fornecendo
  mais informações para a investigação e aumentando as chances dos
  mesmos confessarem. Além disso, as evidências também mostram que os
  treinamentos cujo foco é preparar entrevistadores na aplicação do
  ORBIT são bastante eficazes. Aqueles que participaram desses
  treinamentos melhoraram significativamente o resultado de suas
  entrevistas investigativas quando comparados com suas práticas antes
  do treinamento ou com entrevistadores que ainda não foram treinados no
  modelo ORBIT (ALISON <italic>et al.</italic>, 2021).</p>
</disp-quote>
<p><bold><italic>Rapport</italic> na prática da entrevista
investigativa</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Apesar da eficácia, o uso de <italic>rapport</italic> de maneira
  isolada não é suficiente para obter maior coleta de informações na
  entrevista. É necessário que ele seja acompanhado por uma entrevista
  com perguntas abertas e pela aplicação dos componentes do
  <italic>rapport</italic> com equilíbrio e constância (VALLANO; COMPO,
  2011; TICKLE-DEGNEN; ROSENTHAL, 1990). Portanto, para auxiliar e guiar
  a aplicação do <italic>rapport</italic>, foram desenvolvidos
  protocolos de entrevistas estruturadas, os quais objetivam ensinar o
  entrevistador a como agir no decorrer do interrogatório e não se
  desviar da estrutura pré-determinada.</p>
  <p>Entrevistar pessoas é uma habilidade que requer uso de técnicas
  adequadas, que podem ser ensinadas por um treinamento. Países como a
  Inglaterra, a Noruega e os Estados Unidos têm buscado a aproximação
  entre ciência e profissionais responsáveis por coletar relatos de
  vítimas, testemunhas e suspeitos, desenvolvendo protocolos de
  entrevista investigativa. Os principais métodos e protocolos de
  entrevistas investigativas pautados em evidências científicas utilizam
  técnicas de estabelecimento de <italic>rapport</italic>, a exemplo da
  Entrevista Cognitiva e do protocolo PEACE, considerados como
  padrão-ouro na obtenção de informações relevantes e verídicas no
  contexto investigativo. Os bons resultados desses modelos perpassam
  diversos públicos que podem acabar se envolvendo em uma investigação
  policial, como crianças, jovens, adultos, idosos e pessoas com
  transtornos mentais (ABBE; BRANDON, 2013).</p>
  <p>A Entrevista Cognitiva foi um dos primeiros protocolos criados para
  a execução estruturada de interrogatórios com base em teorias
  psicológicas (PRESCOTT; MILNE; CLARKE, 2011). Inicialmente, ela
  dividia-se em quatro mnemônicas (técnicas para ajudar na rememoração
  de um evento): 1) Relatar tudo (ação em que o entrevistador solicita
  que o entrevistado relate tudo que vier à mente, mesmo informações que
  possam lhe parecer irrelevantes; durante o relato o entrevistador não
  interrompe nem tenta acelerar a fala do entrevistado); 2)
  Restabelecimento do Contexto (o entrevistador pede ao entrevistado que
  reconstitua mentalmente o contexto físico do crime, assim como seu
  estado cognitivo, emocional e fisiológico); 3) Mudança de ordem (é
  solicitado que o entrevistado narre o fato em ordem cronológica
  inversa ao que aconteceu); e 4) Mudança de perspectiva (pede-se que o
  entrevistado tente recordar o crime de uma perspectiva diferente da
  que viveu, por exemplo, como se ele fosse outra pessoa naquele local)
  (PAULO; ALBUQUERQUE; BULL, 2014). </p>
  <p>Apesar de sua efetividade, percebeu-se que faltavam componentes que
  garantissem a cooperação das vítimas, levando à inserção de dois novos
  elementos: o <italic>Rapport</italic> e a Transferência de Controle.
  Tal protocolo tornou-se então a Entrevista Cognitiva Melhorada (ECM),
  assim aumentando sua eficácia e utilidade. Os autores ainda sugerem
  que o uso do <italic>rapport</italic> na ECM seja iniciado antes do
  encontro propriamente dito com a vítima. Desde o momento de
  preparação, onde os policiais organizam o rumo que pretendem seguir
  durante a entrevista, seguido pela constatação da vítima, seja via
  telefone ou e-mail, e estendendo-se até o encerramento do
  procedimento, quando a equipe deve expressar para a vítima a gratidão
  pelo trabalho complexo que ela realizou. É essencial também a
  manutenção do <italic>rapport</italic> ao longo da entrevista: não se
  deve pressupor que o vínculo com o entrevistado vai permanecer intacto
  apenas porque ele foi construído nos primeiros momentos.</p>
  <p>Devido ao seu embasamento científico e à sua eficácia, a Entrevista
  Cognitiva Melhorada foi adaptada e implementada em alguns países
  através do protocolo PEACE, o qual também estabelece o
  <italic>rapport</italic> e as perguntas abertas como fatores centrais.
  PEACE é um acrônimo que se refere às etapas da entrevista
  investigativa P: <italic>preparation and planning</italic>, E:
  <italic>engage and explain</italic>, A: <italic>account</italic>, C:
  <italic>closure</italic>, E: <italic>evaluate</italic>. A tradução
  para a língua portuguesa utilizada é: Preparação e Planejamento,
  Engajamento e Explicação, Relato e Clarificação, Fechamento da
  entrevista e Avaliação (MOSCATELLI, 2020). Paulo <italic>et
  al.</italic> (2014) indicam etapas específicas dentro desse protocolo
  em que o <italic>rapport</italic> deve ser aplicado, por exemplo: na
  Fase 1 (denominada “Estabelecer uma boa relação com o entrevistado”),
  é requerido que o policial se mostre solícito com o entrevistado e
  evite assumir uma postura autoritária, abordando tópicos neutros e
  buscando personalizar a entrevista, seja referindo-se ao nome da
  vítima ou utilizando um estilo de conversação compreensível. Na Fase 2
  (denominada “Explicar os objetivos da entrevista”), é indicado que o
  entrevistador explique que a vítima pode fazer pausas, assim como não
  se recordar de algo, pois prestar depoimento é uma tarefa complexa. No
  decorrer da entrevista, tais comportamentos devem ser mantidos, assim
  como adaptados a cada participante, tornando o ambiente favorável e
  seguro para a fala (MELO, 2020; WALSH; BULL, 2012).</p>
</disp-quote>
<p>Além da eficácia da utilização do <italic>rapport</italic> em
entrevistas investigativas com suspeitos, vítimas e testemunhas, as
vantagens obtidas com seu uso são tão significativas que tal
procedimento embasa protocolos destinados ao público de alta
complexidade, como crianças e refugiados, os quais foram adaptados para
o Brasil. São estes: o NICHD (<italic>National Institute of Child Health
and Human Development</italic>), o Protocolo Brasileiro de Entrevista
Forense com Crianças ou Adolescentes Vítimas ou Testemunhas de Violência
(CHILDHOOD BRASIL; CNJ; UNICEF, 2020) e o Manual de Procedimentos:
Critérios para a Determinação da Condição de Refugiado (AGÊNCIA DA ONU
PARA REFUGIADOS, s.d.). </p>
<p><bold>Considerações finais </bold></p>
<disp-quote>
  <p>Este artigo apresenta uma síntese das pesquisas teóricas e
  empíricas que demonstram a eficácia do uso do <italic>rapport</italic>
  na Entrevista Investigativa de vítimas, testemunhas e suspeitos, bem
  como a sua aplicação prática em protocolos de entrevista. A construção
  de uma relação mútua de comunicação entre entrevistador e entrevistado
  se realiza por meio de técnicas que reduzem o clima de tensão da
  entrevista, auxiliando o entrevistado a compreender seu papel ativo na
  entrevista, potencializando sua motivação e confiança. Esta relação
  promove a transformação de entrevistados não cooperativos em
  cooperativos e resulta em entrevistas mais produtivas, melhorando a
  qualidade dos relatos. Contudo, para que o <italic>rapport</italic>
  seja eficaz, é necessário que ele seja mantido durante toda a
  entrevista, sendo um processo contínuo e adaptativo. Além de
  estabelecer o <italic>rapport</italic> no início da entrevista, para
  “quebrar o gelo”, o entrevistador deve conversar sobre tópicos
  neutros, apresentando-se e fazendo com que o entrevistado se sinta à
  vontade; à medida em que os tópicos da entrevista mudam, o
  entrevistador precisa adequar o <italic>rapport</italic>, buscando
  manter o entrevistado ativo e acolhido quando são abordados tópicos
  sensíveis. No fechamento da entrevista, o <italic>rapport</italic>
  também deve estar presente, para que não haja quebra abrupta do
  vínculo estabelecido e a entrevista termine com um clima favorável,
  visando que o entrevistado se sinta disposto a contribuir novamente
  com a investigação em outra entrevista, caso necessário. </p>
  <p>Ainda que haja uma vasta literatura científica demonstrando a
  eficácia em diferentes países e com diferentes tipos de crimes,
  incentivamos que sejam desenvolvidos estudos no Brasil, a fim de
  verificar como policiais percebem tais técnicas. Por exemplo, será que
  estes profissionais percebem a utilização do <italic>rapport</italic>
  de forma semelhante na entrevista com vítimas, testemunhas e
  suspeitos? Há algum treinamento que ajude na implementação do
  <italic>rapport</italic> como uma prática a ser utilizada com vítimas,
  testemunhas e suspeitos? Estudos acerca da percepção e capacitação dos
  profissionais de segurança pública podem ajudar a entender melhor o
  contexto brasileiro, auxiliando na implementação de abordagens com
  embasamento científico (<italic>e.g.</italic>, um interrogatório
  baseado em <italic>rapport</italic> e visando a obtenção de
  informações confiáveis), em detrimento de técnicas sem base científica
  (<italic>e.g.</italic>, um interrogatório que busque o confronto com o
  suspeito visando a uma confissão).</p>
  <p>Tornar a prática policial mais científica é um potencial
  transformador da eficácia do sistema de justiça brasileiro, pois, para
  além do uso nas Entrevistas Investigativas, o <italic>rapport</italic>
  pode proporcionar melhora no relacionamento e na confiança entre a
  comunidade e a polícia, por ressaltar uma relação mais humana no
  ambiente policial. Logo, percebe-se que expandir e melhorar o uso do
  <italic>rapport</italic> no contexto brasileiro pode trazer benefícios
  para as investigações e para o sistema judicial como um todo. Como
  forma de levar a ciência aos operadores do Direito e da polícia, e
  contribuir para a melhora dos interrogatórios no Brasil, propomos
  algumas recomendações para a aplicação do <italic>rapport</italic> no
  contexto investigativo brasileiro: </p>
</disp-quote>
<p>1- Criar um protocolo oficial de Entrevista Investigativa com ênfase
no uso de <italic>rapport</italic>, o qual seja adaptado às leis da
Polícia Brasileira e possa guiar os policiais na aplicação e manutenção
de técnicas científicas;</p>
<p>2- Desenvolver um treinamento especializado em
<italic>rapport</italic>, no qual a teoria que o embasa a técnica, sua
eficácia e aplicação prática serão ensinadas aos policiais e treinadas
para uso em sua rotina profissional;</p>
<p>3- Desenvolver estudos sobre a aplicação e eficácia do rapport em
outros contextos investigativos no Brasil, como no trabalho com
informantes e na polícia ostensiva.</p>
<p>4- Estreitar os laços entre unidades de polícia e academia para que a
prática policial seja baseada em evidências científicas, mantendo-se
sempre atualizada de acordo com padrões internacionais de melhores
práticas.</p>
<p><bold>Referências bibliográficas</bold></p>
<p>ABBE, A.; BRANDON, S. E. The Role of Rapport in Investigative
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do Rio Grande do Sul, 2019. 51p.</p>
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<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>Ao longo deste artigo, os termos “entrevista
    investigativa” e “interrogatório” serão tratados como sinônimos.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>Vítimas e testemunhas serão citadas apenas como
    vítimas. Ainda que sejam termos juridicamente diferentes, vítimas e
    testemunhas possuem os mesmos processos em termos de cognição e
    memória.</p>
  </fn>
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</article>
