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<body>
<p><bold>REPRESENTAÇÕES SOCIAIS SOBRE MULHERES EM SITUAÇÕES DE VIOLÊNCIA
POR UMA EQUIPE MULTIPROFISSIONAL</bold></p>
<p><bold>Rafael De Tilio</bold></p>
<p>Docente do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação
em Psicologia da Universidade Federal do Triângulo Mineiro. Coordenador
do Laboratório de Estudos e Pesquisas sobre Sexualidades e Gêneros
(LEPESEGE/UFTM).</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Minas Gerais
<bold>Cidade:</bold> Uberaba</p>
<p><bold>Email:</bold> rafael.tilio@uftm.edu.br <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-4240-9707</p>
<p><bold>Letícia de Freitas Machado</bold></p>
<p>Psicóloga graduada pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro,
com estudos e ênfase em Psicologia Social. Pós-graduanda em Teoria
Psicanalítica pela Universidade de Uberaba.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Minas Gerais
<bold>Cidade:</bold> Uberaba</p>
<p><bold>Email:</bold> leticiafreitasm28@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-2059-549X</p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold></p>
<p>Todos os autores trabalharam de maneira similar em todas as etapas de
produção deste artigo.</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>As violências contra as mulheres são um dos principais problemas de
segurança e de saúde públicas no Brasil. Este estudo tem como objetivo
investigar representações sociais sobre mulheres em situação de
violência produzidas por uma equipe multiprofissional de um centro de
atendimento psicossocial para essa população. Dez participantes
responderam a um roteiro de perguntas cujas respostas foram organizadas
segundo uma análise de conteúdo temática em duas categorias
(Representações sociais sobre produção da violência contra as mulheres e
Representações sociais sobre suas percepções de atuações junto às
mulheres em situação de violência) analisadas a partir da Teoria das
Representações Sociais. Os principais resultados destacam que: as
representações sociais das participantes sobre violência de gênero são
fundamentais para a estruturação de suas atuações e conduções nos
atendimentos; suas representações sociais sobre violência de gênero
consideram os determinantes e as consequências sociais deste fenômeno,
conferindo-lhes um valor funcional para interpretação e gestão do
trabalho; as participantes compreendem a relevância de suas ações no
combate à violência de gênero bem como os entraves institucionais para o
desenvolvimento de outras ações.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Representações sociais. Violência de
gênero. Equipe multiprofissional. Políticas públicas.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic><bold>SOCIAL REPRESENTATIONS ABOUT WOMEN IN SITUATIONS OF
VIOLENCE BY A MULTIDISCIPLINARY TEAM</bold></italic></p>
<p><italic>Violence against women is one of the major issues in
Brazilian public health and social security. This study aimed to
investigate social representations of a multiprofessional team about
violence against women. Ten participants were interviewed whose answers
were organized according to a thematic content analysis in two
categories (Social representations about the production of violence
against women and Social representations about their perceptions of
actions with victims) analyzed from the Social Representations Theory.
The main results highlighted: that the participants social
representations about gender violence are fundamental to their
interventions; that their social representations about gender violence
consider the social determinants of this phenomenon and its
consequences; that they understand the relevance of their actions for
combating gender violence as well as the institutional obstacles to
their actions.</italic></p>
<p><italic><bold>Keywords</bold>: Social representations. Gender
violence. Multiprofessional team. Public policies.</italic></p>
<disp-quote>
  <p><bold>Data de Recebimento:</bold> 15/09/2021 – <bold>Data de
  Aprovação:</bold> 13/12/2022</p>
</disp-quote>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2023.v17.n2.1594</p>
<p><bold>INTRODUÇÃO</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Desde 2016, o projeto de pesquisa Discursividades Contemporâneas
  sobre Sexualidades e Gêneros vem sendo desenvolvido pelo Laboratório
  de Estudos e Pesquisas em Sexualidades e Gêneros da Universidade
  Federal do Triângulo Mineiro (LEPESEGE/UFTM). Este projeto congrega
  diversos pesquisadores e investigações sobre variados temas, cujo
  principal objetivo é compreender como, na contemporaneidade, o
  dispositivo da sexualidade constitui subjetividades a partir das
  relações entre os gêneros. Assim, uma das suas linhas de investigação
  se debruça sobre as violências de gênero e suas desiguais
  consequências para homens e – especialmente – para as mulheres, tema
  abordado neste artigo<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>, que
  investiga representações sociais sobre mulheres em situação de
  violência produzidas por uma equipe multiprofissional de um centro de
  atendimento psicossocial para essa população.</p>
  <p>Este tema é de especial relevância no contexto brasileiro hodierno,
  ainda mais quando se considera o número elevado de mulheres vitimadas
  das mais diversas formas por, principalmente, pessoas afetivamente
  próximas, situação que foi agravada durante a pandemia da COVID-19
  devido tanto ao fechamento total ou parcial de muitos serviços de
  proteção às mulheres quanto ao desestímulo das queixas às autoridades
  competentes (MARQUES; MORAES; HASSELMANN; DESLANDES; REICHENHEIM,
  2020). Esse cenário situa o Brasil como o sétimo país mais violento
  contra mulheres no mundo (CREPOP, 2013; SANTOS; MOREIRA; FONSECA;
  FILHO; IFADIREÓ, 2019).</p>
  <p>Dessa forma, esta pesquisa pode auxiliar a compreender como
  profissionais diretamente responsáveis pelos atendimentos às mulheres
  em situações de violências representam e percebem tanto a produção
  destas violências quanto concebem os atendimentos que oferecem em
  serviços especializados de acolhimento e enfrentamento,
  potencializando, portanto, a melhora qualitativa da oferta desses
  serviços. Estes elementos são especialmente importantes haja vista a
  recorrência pela qual a violência de gênero é naturalizada pelos
  esquemas de socialização, justificando a dominação masculina e a
  submissão feminina <italic>como se</italic> fossem atitudes naturais
  de cada um desses gêneros, quando na verdade são construções sociais
  (CREPOP, 2013). Não à toa, as violências são justificadas como de
  responsabilidade das próprias mulheres por romperem com atitudes
  tradicionais dos gêneros, quando na realidade são elas as principais
  prejudicadas nessas situações (NETTO; MOURA; QUEIROZ; TYRREL; BRAVO,
  2014).</p>
  <p>De maneira específica, as violências contra as mulheres são
  “qualquer ato de violência baseado na diferença de gênero, que resulte
  em sofrimentos e danos físicos, sexuais e psicológicos à mulher,
  inclusive ameaças de tais atos, coerção e privação da liberdade na
  vida pública ou privada” (<italic>sic.</italic>) (FRANZOI; FONSECA;
  GUEDES, 2011, p. 590); uma das formas de controle e de dominação
  patriarcal das mulheres a partir da ideologia machista naturalizada
  por grande parte da sociedade brasileira (CREPOP, 2013; SOUTO; DIOTTO,
  2018; LIMA, 2014). Em outras palavras, as violências contra as
  mulheres resultam tanto das estruturais desigualdades das atitudes
  esperadas de homens e mulheres quanto da reprodução destes esquemas
  por parte, no caso, de profissionais da rede de atendimento e
  enfrentamento destas violências. Assim, espaços que deveriam garantir
  direitos às mulheres em situação de violência por vezes replicam essas
  mesmas violências (ALVES, 2021; ARAÚJO; RABELLO; SORIANO; MOREIRA;
  BENTO; ALMEIDA, 2021; FRANZOI; FONSECA; GUEDES, 2011; SANTOS; GOVONI;
  BITTERNCOURT; FEDRIZZI, 2020).</p>
  <p>Desta forma, investigar representações sociais de integrantes de
  equipes multiprofissionais que atendem mulheres em situações de
  violências é fundamental para compreender e combater as violências de
  gênero em suas diversificadas manifestações (violências contra as
  mulheres; violências domésticas; violências intrafamiliares;
  violências físicas, sexuais, patrimoniais, morais, institucionais
  etc.) (FBSP, 2021; CERQUEIRA, 2021). Vale destacar que pesquisas sobre
  o tema que recorrem ao referencial teórico e metodológico das
  representações sociais são amplamente utilizadas, pois permitem
  primeiro compreender a produção e a sustentação deste fenômeno (LIRA,
  2019). A título de exemplo, parte dessas pesquisas destacam os tipos
  de atos que não são concebidos como violentos pelas próprias vítimas
  (que na maioria são mulheres jovens e empobrecida) que (quase metade
  delas) não procuram ajuda das autoridades públicas nessas situações
  (BUENO; MARTINS; PIMENTEL; LAGRECA; BARROS; LIMA, 2021). Em suma, não
  há como desconsiderar a naturalização das violências por parte das
  próprias mulheres em situação de violência e dos profissionais que
  lhes prestam atendimentos, sendo este um dos principais entraves para
  o efetivo enfrentamento destas situações que, por vezes, são
  consideradas, equivocadamente, problemas privados quando, na
  realidade, são públicos e sociais (SANTOS, 2015).</p>
  <p>A Teoria das Representações Sociais pode ser potencialmente
  promissora para compreender as (re)produções das violências contra as
  mulheres (ARRUDA, 2002). De maneira sucinta, as representações sociais
  funcionam como formas de produção de conhecimento formuladas com base
  em acontecimentos e ideologias transformadas em realidades
  compartilhadas (MOSCOVICI, 2000). As representações sociais são
  sistemas de valores, ideias e afetos que organizam as práticas e
  possuem, basicamente, dupla intencionalidade: conhecer e intervir na
  realidade. Por isso, as representações sociais permitem acessar os
  sentidos que orientam as ações (ALVES; SILVA; MENANDRO; TRINDADE,
  2017; MOSCOVICI, 2000) – no caso desta pesquisa, as percepções de
  integrantes de uma equipe multiprofissional que atende mulheres em
  situações de violências. Essas representações sociais são engendradas
  pelos processos cognitivos de ancoragem (transformar algo desconhecido
  em familiar; ancorar é classificar e dar nome a algo a partir dos
  sistemas de conhecimentos prévios) e de objetivação (reconhecer um
  conceito na realidade; materializar um conhecimento num objeto) com as
  seguintes funções: cognitiva (tornar conhecido o desconhecido),
  identitária (promover ligações mesmo que circunstanciais entre os
  membros de um grupo), de orientação (indicar as ações que devem ser
  realizadas) e de justificação (indicar os objetivos do grupo)
  (MOSCOVICI, 2000). Assim, investigar as representações sociais que
  circulam em um grupo possibilita compreender seus esquemas de
  inteligibilidade e suas ações (ALVES <italic>et al.</italic>,
  2017).</p>
  <p>Para enfrentar a violência contra as mulheres e suas consequências,
  a Política Nacional de Enfrentamento da Violência Contra a Mulher
  prevê uma rede de enfrentamento e atendimento às mulheres em situação
  de violência que envolve diversas áreas e profissionais (saúde,
  educação, segurança pública, assistência social, justiça e cultura)
  (OMV; DATASENADO, 2018). Todavia, além da restrição orçamentária para
  as ações de segurança pública no geral, e nesta área em especial,
  atualmente o enfrentamento das violências contra as mulheres tende a
  privilegiar ações repressivas ao invés da prevenção e/ou do reforço da
  rede multisetorial de saúde e educação (CERQUEIRA, 2021; LIMA,
  2020).</p>
  <p>Mesmo assim, são muitas as instituições e atores envolvidos na
  implementação de políticas públicas destinadas às mulheres em
  situações de violências, como: os centros e núcleos de referência para
  mulheres em situação de violência, as delegacias especializadas de
  atendimento às mulheres, os serviços de assistência social e
  psicológica, os abrigos às mulheres em situação de risco, os centros
  de referência e os centros de referência especializados de assistência
  social, os conselhos tutelares, os conselhos municipais de crianças e
  adolescentes, os dispositivos do poder judiciário, as parcerias com as
  universidades e, por fim, as organizações não governamentais (CREPOP,
  2013).</p>
  <p>Serviços especializados são aqueles que atendem exclusivamente às
  mulheres visando o enfrentamento desse fenômeno das violências contra
  mulheres numa perspectiva de gênero – isto é, a partir de uma
  perspectiva sociocultural crítica – visando a equidade entre homens e
  mulheres (CREPOP, 2013; OMV; DATASENADO, 2018). Para serem eficazes,
  essas mudanças devem considerar não somente as experiências
  individuais das mulheres em situação de violência e/ou de cada
  profissional destas equipes, mas também os elementos coletivamente
  organizados – as representações sociais – que ordenam a compreensão e
  a (re)produção dessas violências (ALVES <italic>et al.</italic>, 2017;
  SOUZA; REZENDE, 2018).</p>
</disp-quote>
<p><bold>COMO ESTA PESQUISA FOI REALIZADA</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Este é um estudo descritivo e transversal na área de Psicologia
  realizado com alguns integrantes de uma equipe multiprofissional de um
  serviço especializado que presta atendimento às mulheres em situações
  de violências domésticas e/ou de gênero de uma cidade de médio porte
  de Minas Gerais. Este serviço reúne o Centro de Referência da Mulher
  (assistência psicossocial) e a Delegacia de Orientação e Proteção à
  Família/Delegacia da Mulher (assistência jurídica e policial). De
  maneira geral, esse cenário de pesquisa propicia acolhimento
  psicossocial, realiza boletins de ocorrência, instaura inquéritos,
  realiza requerimentos de medidas protetivas e exames de corpo de
  delito nas vítimas e, quando necessário, solicita a prisão preventiva
  do autor da violência (UBERABA, 2018).</p>
  <p>A intenção inicial foi entrevistar todos os integrantes do serviço
  e, assim, um contato inicial via <italic>e-mail</italic> foi realizado
  com a gerente do Centro de Referência – responsável técnica pela
  administração e gerência do serviço – e após sua resposta foi
  realizada uma reunião para explicar os objetivos da pesquisa. Todas as
  dezoito integrantes da equipe multiprofissional (três psicólogas, uma
  assistente social, uma gerente, uma educadora social, quatro
  recepcionistas, uma delegada de polícia, uma inspetora de polícia,
  duas escrivãs e quatro investigadoras) foram convidadas, mas apenas
  dez (apresentadas na Tabela 1) quiseram participar da pesquisa.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Tabela 1: Composição e descrição da equipe multiprofissional do
Centro Referencial da Mulher e da Delegacia de Orientação e Proteção à
Família e Delegacia da Mulher</bold></p>
<table-wrap>
  <table>
    <colgroup>
      <col width="42%" />
      <col width="42%" />
      <col width="17%" />
    </colgroup>
    <thead>
      <tr>
        <th><bold>Profissão</bold></th>
        <th><bold>Experiência na área</bold></th>
        <th><bold>Idade</bold></th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Delegada</th>
        <th>11 anos e 4 meses</th>
        <th>38 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Investigador Policial</th>
        <th>1 ano e meio</th>
        <th>32 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Recepcionista da Delegacia</th>
        <th>2 anos</th>
        <th>45 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Psicóloga da Delegacia</th>
        <th>4 anos</th>
        <th>31 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Gerente do Centro</th>
        <th>8 anos</th>
        <th>55 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Educadora Social do Centro</th>
        <th>4 anos</th>
        <th>67 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Recepcionista do Centro</th>
        <th>5 anos</th>
        <th>49 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Psicóloga 1 do Centro</th>
        <th>6 anos</th>
        <th>53 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Psicóloga 2 do Centro</th>
        <th>4 anos</th>
        <th>31 anos</th>
      </tr>
      <tr>
        <th>Assistente Social do Centro</th>
        <th>3 anos</th>
        <th>35 anos</th>
      </tr>
    </thead>
    <tbody>
    </tbody>
  </table>
</table-wrap>
<p>Fonte: Elaboração própria, a partir de dados da pesquisa.</p>
<disp-quote>
  <p>A coleta de dados ocorreu entre janeiro e abril de 2021 e, devido
  às recomendações de distanciamento social decorrentes da pandemia da
  COVID-19, a maioria das entrevistas foi realizada de modo
  <italic>online</italic> e síncrono pelo <italic>Google Meet</italic>.
  Contudo, as integrantes da delegacia (delegada e policial
  investigador) solicitaram responder por escrito ao mesmo roteiro de
  questões ao invés de serem entrevistados e, nestes casos, os
  pesquisadores enviaram as questões e receberam as respostas por
  <italic>e-mail</italic>. Todas as entrevistas <italic>online</italic>
  foram transcritas na íntegra e junto com as respostas escritas
  enviadas por e-mail foram organizadas com o auxílio de um programa de
  edição de texto visando à organização dos dados para a
  análise<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>. Os assentimentos de
  participação foram coletados ou via <italic>e-mail</italic> ou após a
  leitura dos termos nas entrevistas síncronas
  <italic>online</italic>.</p>
  <p>O roteiro de perguntas foi construído pelos pesquisadores e
  continha duas partes: a primeira possui questões sobre a
  caracterização pessoal, profissional e laboral das participantes (por
  exemplo: idade, sexo, orientação sexual, formação, atuação no serviço,
  tempo de atuação na área etc.), e a segunda, possui dezesseis questões
  sobre suas atividades profissionais (por exemplo: onde e como atuavam;
  a importância social da atuação etc.) e sobre papéis de gênero e
  violência contra as mulheres (por exemplo: definições, motivações e
  consequências das violências contra as mulheres; a função das redes de
  enfrentamento etc.). As respostas das entrevistas foram organizadas
  por meio de uma análise de conteúdo temática, estratégia amplamente
  utilizada em pesquisas sobre representações sociais (SILVA; FERREIRA,
  2012).</p>
</disp-quote>
<p><bold>RESULTADOS E DISCUSSÕES</bold></p>
<disp-quote>
  <p></p>
  <p>Os resultados foram organizados em duas categorias temáticas
  estabelecidas <italic>a posteriori</italic> a partir dos conteúdos
  relatados nas entrevistas: Representações sociais sobre produção da
  violência contra as mulheres e Representações sociais sobre suas
  percepções de atuações junto às mulheres em situação de violência.
  Para ilustrar cada uma dessas categorias são apresentados apenas os
  trechos considerados pelos pesquisadores como mais significativos no
  conjunto das entrevistas.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Categoria 1 – Representações sociais das participantes sobre a
produção da violência contra as mulheres</bold></p>
<disp-quote>
  <p>Nesta categoria são discutidas as representações sociais das
  participantes sobre a produção da violência contra as mulheres,
  apresentadas em dois subtemas: o primeiro discorre sobre definições,
  concepções, razões, motivos e tipos de violências e o segundo, sobre
  as consequências dessas violências.</p>
  <p>Em relação ao primeiro subtema, no geral, as participantes
  relataram que a violência contra as mulheres se caracteriza como sendo
  qualquer ação física, psicológica, moral ou sexual cometida contra
  alguém em função de seu gênero ou sua identidade de gênero.
  Especificamente, para as violências contra as mulheres, uma das
  participantes citou a Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006):</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Para você, o que é violência de gênero?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Violência que não entendida só como a
  manifestação física da violência, né. Mas toda e qualquer forma de
  violência cometida contra mulher, em função dela ser mulher... Os
  tipos de violência que estão elencados, por exemplo, na Lei Maria da
  Penha, é, entra todos os tipos aí, como caracterizado como violência.
  (Psicóloga 1).</p>
  <p>Algumas participantes relataram outras definições para a violência
  contra as mulheres (psicológica, verbal, moral, patrimonial) em
  consonância com a Lei Maria da Penha (BRASIL, 2006). Realizada pela
  maioria das participantes, a categorização da violência por tipologias
  é uma das estratégias para dar forma a esse fenômeno por intermédio de
  uma das principais funções das representações sociais:
  convencionalizar o conhecimento (MOSCOVICI, 2000). Ao definirem em
  diversas categorias a violência contra as mulheres, modelos de
  inteligibilidade e de conhecimento são estabelecidos e compartilhados
  por essas integrantes da equipe multiprofissional.</p>
  <p>Além de serem consideradas decorrentes das ações individuais
  cometidas pelos autores de violências contra as vítimas, outras
  respostas ilustram as origens da violência contra as mulheres,
  destacando as omissões do Estado e da sociedade:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Para você, o que é violência de gênero?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Eu acho que ela [violência contra mulher]
  vem de todos os lados, principalmente de um Estado né, da nossa
  organização como sociedade... Sendo uma sociedade hetero-patriarcal
  capitalista, racista, machista, misógina e, tudo isso... E, eu acho
  que a violência contra a mulher, ela tem um fundamento, ela tem um
  lugar né, que eu acho que é essas, esses, essas três categorias, por
  assim dizer, né: o capitalismo, o racismo, o hetero-patriarcado... Que
  define a violência contra a mulher... A violência contra mulher são
  todas as ações né, seja do Estado ou de pessoas individuais ou de
  terceiros que causam algum tipo de sofrimento ou falta de acesso a
  alguns direitos ou violação de direitos da mulher, única e
  exclusivamente pela sua condição de sexo né, da sua, sua condição de
  ser mulher. (Assistente Social).</p>
  <p>Para Dantas-Berger e Giffin (2005), uma estrutura social de caráter
  patriarcal por muito tempo consentiu ou foi conivente com as
  violências contra as mulheres, ao delegar aos homens a preponderância
  nas relações entre os sexos/gêneros, revelando uma construção social
  que ancora as representações da sociedade – tal como mencionada pela
  assistente social no trecho de resposta anterior. Uma das funções das
  representações sociais é ser prescritiva, impondo uma força sobre os
  sujeitos que advém de uma tradição/costume/senso comum que estabelece
  o que e como os fenômenos e objetos devem ser concebidos e vividos
  (MOSCOVICI, 2000). Assim, são observadas as omissões do Estado e da
  sociedade em relação à exploração e à falta de garantia de direitos
  das mulheres, sendo essas omissões resultados de uma memória coletiva
  que reproduz essas violências.</p>
  <p>A partir da pergunta “Na sua opinião, por que este tipo de
  violência é tão comum em nossa sociedade?”, sobre as motivações e
  razões para a ocorrência das violências contra as mulheres, a maioria
  das participantes relatou que ela é decorrente da condição social,
  histórica e cultural da estrutura machista e patriarcal da sociedade
  que ainda designa as mulheres como propriedades dos homens. Outras
  justificativas relatadas foram os preconceitos, as tradições
  religiosas e as cobranças pela adequação aos papéis tradicionais de
  gênero por parte das mulheres. As atitudes tradicionais de gênero –
  que são difundidas via socialização – são úteis para a exploração das
  mulheres, reforçando sua submissão e influenciando diretamente na
  repetição das violências contra as mulheres.</p>
  <p>De acordo com Santos, Oliveira, Viegas, Ramos, Policarpo e Silveira
  (2018), as representações sociais que ancoram comportamentos violentos
  contra as mulheres não estão relacionadas de maneira objetiva às
  diferenças físicas ou biológicas entre homens e mulheres, mas estão
  fundamentadas em construções culturais e sociais reforçadas pelo
  patriarcado que estabelece relações de dominação e violências entre os
  gêneros. Em outras palavras, as representações sociais “atravessam” e
  estruturam os sujeitos segundo a ideologia dominante, definido suas
  condições no interior da estrutura social (JODELET, 1993).</p>
  <p>As participantes, quando perguntado se “os relacionamentos
  conjugais podem estar atrelados com a violência contra mulher?”,
  responderam afirmativamente, pois os relacionamentos afetivos possuem
  ligação direta com as violências contra as mulheres devido às relações
  de poder típicas dos relacionamentos heteronormativos, que são, em sua
  maioria, abusivos e machistas. Por isso os movimentos de autonomia e
  empoderamento das mulheres foram citados como motivações para as
  violências, por questionarem os privilégios estabelecidos, pois para
  algumas participantes os homens não aceitam essas mudanças e as perdas
  destes privilégios.</p>
  <p>De acordo com Jodelet (2001), citada por Santos <italic>et
  al.</italic> (2018), as representações sociais enquanto sistemas de
  interpretação da realidade regem as relações com o mundo e com os
  outros, além de orientarem e organizarem as condutas. A
  particularidade do estudo das representações sociais envolve
  compreender as interiorizações das experiências, das práticas, dos
  modelos de condutas e de pensamentos organizados pela interação
  social. E dentre essas representações sociais estão as relacionadas
  com costumes tradicionais, que destituem as mulheres da autonomia,
  liberdade e dignidade diante do parceiro agressor (SANTOS <italic>et
  al.</italic>, 2018). Por isso algumas participantes mencionaram que a
  busca pela autonomia das mulheres diante dos parceiros violentos ou
  abusadores são disparadores da violência, já que para eles é
  “estranho” que os tradicionalismos (e as dominações) dentre os gêneros
  sejam questionados.</p>
  <p>Outras participantes responderam que a dependência financeira das
  mulheres em relação aos homens pode ser uma justificativa/explicação
  para a perpetuação dessa violência:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Por que este tipo de violência é tão comum
  em nossa sociedade?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Porque elas não vão denunciar, porque elas
  têm uma vida, vamos dizer assim, razoavelmente, é, boa, né, aí elas
  não vão porque tem medo de perder. (Recepcionista).</p>
  <p>No trecho acima, pode ser observado como a culpabilização das
  mulheres efetuada por outras mulheres pela ocorrência das violências é
  comum nas relações entre os gêneros. A mulher que sofre a violência,
  não raro, é responsabilizada pelas agressões iniciais ou pela
  continuidade dos episódios de agressões, seja quando se mantém na
  relação conjugal devido à dependência financeira/emocional ou por
  possuir filhos, seja por se calar e não se rebelar contra essas
  violências (SANTOS <italic>et al.</italic>, 2018) – exemplificado no
  trecho supracitado quando a vítima não denunciou ou não pediu por
  qualquer tipo de ajuda.</p>
  <p>De acordo com Moscovici (2000), nenhum sujeito está livre dos
  efeitos impostos pelas representações sociais, fazendo com que os
  pensamentos, as ações e os afetos sejam organizados de acordo com um
  sistema de sentidos anterior e exterior. No caso da resposta sobredita
  da participante (recepcionista), pode-se observar a força das
  exterioridades na forma de culpabilização das mulheres em situação de
  violência.</p>
  <p>A partir dos relatos das participantes acerca das definições, dos
  tipos e das origens (sociais e estruturais) das violências contra as
  mulheres, o modo como elas significam esse fenômeno, certamente,
  influencia suas práticas e ações profissionais. A maioria das
  participantes relatou que o modo de significar as violências contra as
  mulheres influencia a atuação profissional, sendo que todo
  profissional que trabalha com grupos vulneráveis precisa ter uma
  postura sensível e empática para com as vítimas, pois assim consegue
  detectar problemas, compreender as situações e apresentar possíveis
  soluções. Além disso, os conhecimentos e as experiências prévias de
  alguns destas participantes foram citados como influenciadores das
  suas atuações:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Você acredita que seu modo de olhar a
  violência contra mulher influencia em sua prática profissional?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Do policial que atua nesta frente, exige-se,
  minimamente, que o mesmo tenha crenças e valores correspondentes.
  Imaginem um machista à frente de uma equipe policial que trabalha
  exclusivamente atendendo vítimas de violência doméstica? Em relação a
  mim como policial, meu olhar mais sensível em relação a essas questões
  sempre foi essencial para que eu me empatizasse com as vítimas, e
  também para que eu me motivasse mais em cada caso. (Policial
  Investigador).</p>
  <p>No trecho anterior, pode-se notar que as crenças e os valores
  influenciam nos modos de trabalhar na área das violências contra as
  mulheres e, no caso, as representações sociais daquele que intervém
  estão ancoradas em uma instrumentalização do saber, conferindo-lhe um
  valor funcional para interpretação/ação (JODELET, 1993). De acordo com
  Jodelet (1993), esta interpretação do ambiente fornece ao sujeito
  valor de realidade e parâmetro de ação sobre o mundo e sobre os
  outros.</p>
  <p>O segundo subtema desta categoria discorre sobre as principais
  consequências das violências contra as mulheres a partir das
  perspectivas das participantes. Todas as participantes mencionaram as
  consequências psicológicas nas vítimas, tais como: problemas
  emocionais, traumas, depressões, ansiedades, transtornos psicológicos
  e extremo sofrimento mental, persistentes mesmo quando há o rompimento
  do relacionamento com os autores da violência e/ou com o
  relacionamento abusivo. Além destas, foram citadas: autoestima
  abalada, sentimento de incapacidade, autoanulação de direitos e
  desejos, assujeitamento e submissão, distorção da realidade, aceitação
  da violência como cuidado e preocupação do agressor para com a vítima,
  inatividade, consequências morais (constrangimento), dependências
  emocional e financeira, além dos prejuízos físicos e patrimoniais que
  afetam a vida pessoal e profissional das vítimas. Uma das
  participantes destaca:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Quais as principais consequências da
  violência para a mulher?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Se falarmos em consequências da existência
  da violência de gênero... Afeta em diversos setores, seja profissional
  ou doméstico. Agora, se falarmos em consequências de uma violência
  efetivamente sofrida por uma mulher, ela pode trazer prejuízos
  psicológicos, físicos, patrimoniais, emocionais, cognitivos, dentre
  outros. (Delegada).</p>
  <p>Assim, as participantes compartilham a compreensão e a convicção de
  que das violências contra as mulheres decorrem variadas consequências.
  Para Jodelet (1993), muitas produções mentais institucionais estão na
  base das comunidades, ou seja, os sujeitos partilham o mesmo tipo de
  atividade e constituem de maneira dialógica o sistema normativo e
  nocional que rege suas vidas. O compartilhar implica uma dinâmica
  social que considera a especificidade das representações sociais, ou
  seja, o lugar, a posição social que os indivíduos ocupam e/ou as
  funções que executam determinam os conteúdos representacionais via
  relação ideológica com as normas institucionalizadas.</p>
</disp-quote>
<p><bold>Categoria 2 – Representações sociais das participantes sobre
suas percepções de atuação junto às mulheres em situação de
violência</bold></p>
<p>Esta categoria apresenta as representações sociais das participantes
sobre suas percepções de atuação junto às mulheres em situação de
violência – assim, não se trata de descrever exaustivamente as ações nem
de comparar se elas estão ajustadas às prescrições normativas de atuação
profissional, mas sim de investigar suas atribuições de sentidos sobre a
execução das ações junto às mulheres em situação de violência. Estes
conteúdos representacionais são apresentados em três subtemas: Suporte
para enfrentamento, Atuações profissionais e Resultados das
atuações.</p>
<disp-quote>
  <p>O primeiro subtema se concentra sobre o suporte e os recursos
  necessários para o enfrentamento das violências contra as mulheres. De
  acordo com as participantes, na maioria das vezes as mulheres em
  situação de violência não possuem uma rede adequada de suporte social,
  emocional ou familiar para lidarem com as violências. Elas encontram
  esse suporte (social) no centro de atendimento especializado, desde o
  acolhimento inicial até os encaminhamentos realizados para os vários
  setores da rede de assistência psicossocial e jurídica, de acordo com
  as demandas e as necessidades de cada situação. Todas as participantes
  responderam que informam adequadamente as vítimas sobre seus direitos,
  detalhando a estrutura e o funcionamento da rede socioassistencial do
  município como possibilidade de auxílio para o enfrentamento das
  violências.</p>
  <p>Assim, as participantes citam que os principais serviços para os
  quais os encaminhamentos são realizados são: centro de atendimento
  integral à saúde da mulher (auxílio psicológico); defensoria pública
  (auxílio jurídico); unidades básicas de saúde (auxílio de saúde);
  COAGRA (auxílio habitacional); CINE e consultorias de emprego (auxílio
  para trabalho); CRAS (auxílio social); e, quando necessário, orientam
  quanto ao abrigamento das vítimas e dos seus dependentes realizado em
  instituições de acolhimento:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Nos casos que chegam aqui, a mulher em
  situação de violência tem suporte social para o enfrentamento da
  violência?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: A maioria [das vítimas] não tem suporte, a
  maioria não tem suporte nem social, nem emocional, quando elas chegam
  lá... A maioria chega totalmente perdida mesmo, em todos os
  sentidos... Então, a gente acolhe, dá todas as informações que ela
  necessita, faz os encaminhamentos... Pra fazer um atendimento
  psicológico... Defensoria pública... Se a mulher precisar de ir para
  algum lugar... Sair de casa... E precisar de ser acolhida em alguma
  casa, a gente faz o encaminhamento... Depois há o suporte legal da
  Delegacia... Assim como visitas domiciliares posteriormente.
  (Educadora Social).</p>
  <p>A comunicação entre os atores envolvidos (integrantes das equipes
  multiprofissionais de diversos setores e serviços da rede de
  atendimento) é relevante para os encaminhamentos necessários de cada
  caso. Ademais, a comunicação concorre para forjar representações
  sociais que, apoiadas numa atmosfera social, são pertinentes para as
  interações sociais e para a vida prática e afetiva dos grupos
  (JODELET, 1993). Assim, havendo orientações pautadas em representações
  sociais ancoradas em conhecimentos sobre os serviços disponíveis,
  podem decorrer atitudes de encaminhamentos que sustentem a eficácia do
  enfrentamento destas situações, dependendo da necessidade de cada
  caso.</p>
  <p>Uma das participantes ressaltou a importância da necessidade de
  mais políticas públicas como elemento real e efetivo de enfrentamento
  dessas violências, além da necessidade de políticas assistenciais mais
  eficazes para as vítimas:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Na maioria dos casos que chegam aqui, a
  mulher em situação de violência tem suporte social para o
  enfrentamento da violência? Se não, quais medidas poderiam ser tomadas
  diante disto?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Em relação ao suporte social, ele está muito
  dentro da lógica das políticas públicas do município, que são
  claudicantes, por assim dizer, são falhas, né... Precisaria de mais...
  Não conta com uma renda mínima para as mulheres em situação de
  violência, que eu acho que é uma coisa fundamental para que elas
  rompam a, a questão da dependência econômica, por exemplo, né...
  Existe alguns municípios e algumas cidades que isso já funciona... Uma
  renda mínima para as mulheres que estão em situação de violência, um
  auxílio aluguel, ou alguma coisa nesse sentido, enquanto política
  pública, mas não tem. (Assistente Social).</p>
  <p>A resposta desta participante está em consonância com a atual
  conjuntura política do Brasil, na qual pode-se observar investimentos
  precários e insuficientes em políticas de enfrentamento à violência
  contra as mulheres (CERQUEIRA, 2021; LIMA, 2020). De acordo com um
  <ext-link ext-link-type="uri" xlink:href="https://www2.camara.leg.br/orcamento-da-uniao/estudos/2020/ET16_Violncia_MUlher.pdf">estudo
  realizado pela consultoria legislativa</ext-link> da Câmara dos
  Deputados, a pedido da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, apenas
  metade do previsto na Lei Orçamentária de 2020 foi efetivamente
  empregado em políticas públicas para mulheres, revelando a baixa
  execução orçamentária na área, enquanto, como já mencionado, as
  denúncias – subestimadas – de violências contra as mulheres aumentaram
  durante pandemia (HAJE, 2020; MARQUES <italic>et al.</italic>,
  2020).</p>
  <p>Algumas participantes também destacam a ausência de suporte
  familiar/emocional para as mulheres em situações de violências. Isso
  ocorreria devido: ao descrédito ou à descrença frente à ocorrência da
  violência (normalização da cultural da violência); ao receio da vítima
  em denunciar; ao medo e ao receio de rompimentos com o
  parceiro-agressor ou com amigos etc. Quase todas as participantes
  ressaltam que nem todos os casos são assim, havendo aqueles nos quais
  as mulheres possuem rede familiar, social ou financeira de suporte.
  Porém, a maioria das que procuram pelo serviço provém de condições
  sociais com falta de suporte adequado.</p>
</disp-quote>
<p>O segundo subtema desta categoria se refere às autopercepções de
atuações profissionais das participantes, assim como aos seus
sentimentos pessoais, atendimentos, às suas maneiras de
condução/encaminhamento dos atendimentos, de escuta e acolhimento das
demandas. Em relação à atuação profissional das participantes, as
recepcionistas (da Delegacia e do Centro) relatam a necessidade de
acalmar e acolher as vítimas, ainda mais por serem as primeiras a
manterem contatos com as vítimas. Além disso, as recepcionistas também
coletam informações iniciais importantes que decidirão pelo
encaminhamento dos casos para os profissionais especializados
(psicólogas, assistente social, investigadores e delegada). As
psicólogas e a assistente social são responsáveis pelos trabalhos de
acolhimento, apoio social, emocional e psicológico, escuta, orientação e
encaminhamentos das vítimas – todos estes realizados preferencialmente
antes das vítimas passarem pelos atendimentos da Delegacia –
depoimentos, oitivas, exames etc. Já nos “bastidores” do Centro de
atendimento, a gerente é responsável por todo o funcionamento da parte
psicossocial do serviço e também pelo planejamento de projetos
institucionais de prevenção às violências e divulgação das ações – nas
quais a educadora social participa – junto à comunidade.</p>
<disp-quote>
  <p>Os serviços prestados pela Delegacia – relatados pela delegada e
  pelo investigador participantes nesta pesquisa – se dividem entre:
  encaminhamentos das vítimas para a rede assistencial e de proteção de
  direitos; realização de boletins de ocorrência; solicitação de medidas
  protetivas; investigação dos casos denunciados; instauração de
  inquéritos; busca e apreensão de armas dos supostos ou reais autores
  de violência; e prisão dos autores de violência. Ao levar em conta as
  falas das participantes, pode-se considerar que todos estão
  desenvolvendo adequadamente as suas atribuições de cargos em termos
  técnicos de acordo com as prédicas estabelecidas pela Secretaria
  Municipal de Desenvolvimento Social de Uberaba/MG – apesar deste não
  ser o objetivo deste estudo. A assistência perpassa por acolhimento,
  orientação, atendimento psicossocial e encaminhamentos, como também
  pela realização de boletins de ocorrência, instauração de inquéritos,
  requerimento de medidas protetivas e realização de exames de corpo de
  delito das vítimas e prisão preventiva dos autores de violência quando
  cabível (UBERABA, 2018).</p>
  <p>As participantes também relatam as repercussões nos âmbitos
  profissionais e pessoais de atuarem junto às mulheres em situações de
  violências. A maioria relata que trabalhar com a temática possui um
  caráter ambivalente: por um lado, consideram gratificante, gostam e se
  esforçam para dar o seu melhor, enfatizando que é um trabalho que traz
  satisfação, pois percebem a efetividade dos serviços e as mudanças na
  vida das mulheres em situação de violência, já que muitas conseguem
  romper com o ciclo de violências; por outro lado, porém, algumas
  participantes relatam suas frustrações devido às recorrências destes
  casos de violências, além do desinteresse da população para com o
  assunto:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Como é trabalhar com mulheres em situação de
  violência?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Eu gosto. Apesar de ser muito triste, mexe
  muito com o, com o psicológico da gente... Mas é uma forma... O
  trabalho que eu faço lá, eu, eu sou apaixonada no que eu faço, eu
  faço, eu gosto... Eu gosto de estar lá, eu gosto de ajudar, quando uma
  mulher olha para você e fala assim: “nossa moça, muito obrigada pelas
  palavras”... Só isto já te faz um bem assim muito, quer dizer que você
  contribuiu de alguma forma... Então eu só tenho a agradecer, e eu sou
  muito feliz, eu amo o que eu faço. (Recepcionista Delegacia).</p>
  <p>A ambiguidade dos sentimentos em relação ao tema com o qual
  trabalham decorre dos pertencimentos sociais e dos sistemas de valores
  referenciais (representações sociais) dos sujeitos, pois um mesmo
  acontecimento pode mobilizar representações sociais diferentes,
  situando os sujeitos em horizontes variáveis (JODELET, 2009). Ou seja,
  de acordo com a fala supracitada da participante, o atuar diariamente
  com essa temática mobiliza representações sociais ambíguas
  considerando esse mesmo objeto observado (e vivenciado) pelo sujeito
  em horizontes diferentes, e estes permitem deduzir, de acordo com a
  perspectiva adotada por cada sujeito, propriedades diferentes
  (JODELET, 2009). Neste caso, as perspectivas são gostar do que se faz
  apesar de e <italic>ao mesmo tempo</italic> de ser um campo complexo e
  que mobiliza aspectos afetivos contraditórios.</p>
  <p>Nas respostas, as participantes também destacam suas preocupações
  com um atendimento acolhedor, sensível e empático com as vítimas, pois
  a maioria menciona que as principais características para se trabalhar
  nessa área são comprometimento e engajamento com a transformação
  social (no caso, o enfretamento das violências contra as mulheres),
  assim como empatia, postura sensível e sem julgamentos e
  pré-conceitos, além do respeito às singularidades e individualidades
  das mulheres em situações de violências. E para melhor desenvolverem
  suas atuações, as participantes relatam a necessidade de contínuo
  aperfeiçoamento profissional e distanciamento
  afetivo<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref> para com as vítimas.
  Algumas participantes destacam que ser do sexo feminino influencia a
  qualidade dos atendimentos e a sensibilização para com as vítimas:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Quais características você acredita serem
  necessárias para se trabalhar com mulheres em situações de
  violências?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Primeiramente, assim, eu acredito que tem
  que ser mulher, né, para atender outras mulheres... Eu entendo que as
  mulheres vão ficar muito mais confortáveis em serem ouvidas por outras
  mulheres, do que por um homem... São os homens sim, héteros e brancos,
  que mais cometem violência contra mulher, então existe já um
  diagnóstico, por assim dizer... Tem que ser mulher e tem que buscar
  discussão da parte da base crítica, do que que é a violência contra
  mulher... Tem que estar alinhada com projeto de sociedade, de
  superação desse modo de produção, né... Não adianta eu achar que vou
  resolver a vida das mulheres dando curso de empreendedorismo, num país
  onde ninguém dá conta de comprar arroz, entende... Mulheres
  comprometidas com um outro projeto de sociedade, que não seja esse,
  essa política da morte. (Assistente Social).</p>
  <p>Possuir uma perspectiva crítica para estruturar práticas dos
  profissionais atuantes nestes tipos de serviços especializados de
  enfrentamento às violências contra as mulheres é, de fato,
  indispensável. De acordo com Cruz, Espíndula e Trindade (2017), quando
  as representações sociais de violências de gênero e contra as mulheres
  são constituídas por ideias e discursos individualizantes – ou
  machistas, acrescentaríamos – o fenômeno deixa de ser atribuído às
  relações sociais de poder e dominação para ser concebido como
  resultado de características internas ou particularizadas dos
  envolvidos, obliterando suas determinações sociais.</p>
  <p>Por fim, o papel dos profissionais no combate às violências contra
  as mulheres foi abordado nas entrevistas. As participantes citaram a
  importância de sua atuação profissional nos serviços – tanto na
  repressão e prisão dos autores de violência quanto nas orientações,
  prestações de informações, reflexões e na conscientização das vítimas
  em relação aos seus direitos – inseridos numa estrutura social
  machista:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Como você compreende seu papel no combate à
  violência contra as mulheres?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Eu acho que, que eu entendo [meu papel no
  combate] como uma das ferramentas, para esse combate, né... Uma é, eu
  acredito que seja um papel de orientação, de informação, né, de acesso
  para que essas mulheres possam ter uma ideia do que tem de direitos,
  né, do que que é a lei, do que que ela tem de respaldo... De que forma
  ela pode ser ajudada, né, de quais oportunidades e possibilidades, né,
  ela tem ali... De repente também para que ela possa ter um momento de
  reflexão e tentar entender o que está acontecendo, na vivência, né...
  De tentar compreender um pouco ali da situação, né, de si mesma. Então
  acredito que seja isso, né, uma, um papel de ser uma das ferramentas
  para que esse combate, é, aconteça (Psicóloga 2).</p>
  <p>Considerando o exposto neste segundo subtema, as participantes
  parecem estar conscientes de suas atribuições quanto às necessidades
  de mudanças sociais amplas e pertinentes às relações entre os gêneros.
  E estas atribuições são meios de transformar a realidade (a violência
  sofrida) mesmo que em pequenas proporções e aos poucos. Neste sentido,
  quando utilizando dessas ferramentas de transformação as participantes
  apresentam algo não familiar às vítimas – neste caso, as orientações
  necessárias para o enfrentamento das situações de violências – havendo
  uma ameaça de perder os marcos referenciais ou uma ordem já
  estabelecida pelas suas anteriores representações sociais (MOSCOVICI,
  2000). Porém, esta ordem estabelecida não implica que as mudanças
  subsequentes não possam acontecer, pois mudanças acontecem durante a
  transmissão de outros referenciais (representações sociais) que
  respondem gradualmente ao que servia de parâmetro e, uma vez aceitos,
  as mudanças de perspectivas são frequentemente utilizadas em outras
  situações (<italic>ibid.</italic>).</p>
</disp-quote>
<p>E por fim, o terceiro e último subtema da segunda categoria se refere
às representações sociais das participantes sobre os (supostos)
resultados das suas atuações profissionais. Dentre estes resultados, as
participantes destacam as considerações dos impactos das atuações nas
suas vidas pessoais, nas suas crenças sobre a valorização do seu
trabalho na comunidade e na necessidade de atuarem junto aos produtores
das situações de violência, isto é, com os autores das violências.</p>
<disp-quote>
  <p>As participantes desta pesquisa são em sua maioria mulheres que
  relatam que os principais impactos pessoais decorrentes das suas
  atuações são terem progressivamente se tornado mais críticas e
  reflexivas em seus próprios relacionamentos afetivos, além de
  perceberem com mais facilidade relações abusivas provocadas por outras
  pessoas:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: Trabalhar com este tema da violência contra
  as mulheres mudou alguma coisa em você ou em sua vida?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Mudou. Mudou. Eu sou outra pessoa... A minha
  cabeça é outra, né... Eu não tinha ideia de como a mulher era tão
  marginalizada. Então, assim, não tem como a gente não mudar... Minha
  cabeça mudou muito, eu presto atenção nos mínimos detalhes hoje...
  Quando eu estou na rua, quando eu estou com pessoas perto de mim, nas
  falas, entendeu?! Ali eu já fico atenta no que está acontecendo, é, é
  a impressão parece que [gesto com dedo] dá um click na gente, né... E
  quando a coisa se aproximou de mim, que você vai observar, que às
  vezes você convive com gente que está em um relacionamento abusivo o
  tempo todo. (Gerente).</p>
  <p>O único participante homem (policial investigador) relata a mesma
  mudança de perspectiva: “Passei a ter mais cuidado até mesmo com meus
  pensamentos. Me tornei mais reflexivo e cuidadoso com minhas palavras
  e atitudes, tanto como profissional quanto como namorado e
  homem/indivíduo social” (Policial Investigador).</p>
  <p>O processo de alteração de alguns valores e algumas representações
  das participantes em relação às estruturas sociais de gênero
  normatizadas pela sociedade ocorreu devido às vivências, às trocas de
  experiências diárias e à compreensão das consequências que esses tipos
  de violências ocasionam nas vítimas, em particular, e na sociedade,
  como um todo.</p>
  <p>Assim, a dinâmica das representações sociais partilhadas pelas
  participantes neste novo contexto é a dinâmica de familiarização
  diante de novos conteúdos, a partir dos quais os acontecimentos são
  percebidos e contrapostos em relação aos prévios (MOSCOVICI, 2000). As
  participantes, sob influência de novos conteúdos, reformularam suas
  representações sociais que estavam baseadas na memória (individual e
  coletiva) e nas experiências anteriores por intermédio do
  funcionamento dos mecanismos cognitivos que organizam as
  representações sociais (<italic>ibid.</italic>). Assim, transformaram
  o que não era familiar – a natureza estrutural e social, mas não
  individualizada, das violências contra as mulheres – em familiar,
  havendo desta maneira repercussões em seus
  comportamentos/pensamentos/afetos, tanto no âmbito profissional
  (percepção da atuação junto às vítimas) quanto em suas vidas privadas
  (relação com seus familiares e parceiros íntimos, por exemplo).</p>
  <p>As participantes também relatam suas opiniões sobre o que acreditam
  que a comunidade concebe sobre o serviço e sobre seus trabalhos
  individuais e coletivos. A maioria conta que o serviço ainda não é
  muito conhecido pela comunidade e que as pessoas ainda não sabem
  exatamente seus objetivos, suas funções e nem quais atividades são
  realizadas, destacando a necessidade de melhor divulgação e
  esclarecimentos do serviço. Segundo Jodelet (1993), a falta de
  informação favorece a emergência de representações sociais que repetem
  sentidos cristalizados que estão e são reinscritos nos esquemas de
  pensamentos pré-existentes, podendo reiterar preconceitos ou
  desconhecimentos. No caso da população, não saber ou não possuir
  informações suficientes ou adequadas sobre o serviço pode culminar em
  propagação de informações incorretas e/ou atribuição da suposta
  ineficácia do serviço, desestimulando outras mulheres em situação de
  violência a procurarem por ajuda, por exemplo.</p>
  <p>Neste sentido, algumas participantes supuseram que mudanças nestas
  representações podem ocorrer caso o serviço melhor publicize suas
  atuações e seus objetivos junto à comunidade e atue mais fortemente na
  esfera pública, isto é, extramuros. Segundo elas, isso poderia ocorrer
  por meio de atividades preventivas e de conscientização. Algumas
  participantes citaram projetos que o Centro de atendimento realiza
  para a divulgação do serviço na comunidade (como palestras, reuniões,
  aulas e encontros em outras instituições educacionais e de saúde), mas
  que estes poderiam e deveriam ser mais contundentes. Em relação à
  parte da comunidade que conhece a instituição, as participantes
  acreditam que essas pessoas a representam como adequada e
  funcional:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: O que você acha que as pessoas da comunidade
  pensam a respeito do [nome do serviço]?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Eu acredito que, assim, mas que ainda
  precisa divulgar mais esse trabalho. Nem todos, assim, conhecem o
  nosso trabalho. Mas é um trabalho muito importante e muitas mulheres,
  elas, é, passam por aqui, e elas falam o tanto que foi importante, né,
  esse atendimento aqui, é... Antes de chegar na polícia de fato, porque
  elas se sentem acolhidas, se sentem encorajadas. Então, tudo isso é
  importante, então... Pelo menos as mulheres que nós atendemos aqui, é,
  elas têm elogiado bastante e mostrado o quanto foi importante esse
  atendimento. Mas a comunidade, ao todo, precisa conhecer mais o que
  que é o [serviço], né, o serviço que nós oferecemos. A gente está
  recebendo uma resposta, assim, boa, é dessas pessoas que nós estamos
  atendendo. (Psicóloga Delegacia).</p>
  <p>Mas algumas participantes destacam a pouca credibilidade atribuída
  às políticas públicas assistenciais, o que impacta a procura e produz
  descrédito em relação ao serviço. Por isso, o compartilhamento das
  informações sobre os objetivos e as atribuições do serviço foi citado
  como uma importante estratégia para a conscientização da comunidade
  sobre a relevância do tema. Assim, compartilhar uma ideia também é
  afirmar uma partilha social e uma identidade coletiva, servindo à
  afirmação simbólica de uma unidade e de um pertencimento, pois a
  adesão coletiva às representações sociais específicas contribui para o
  estabelecimento e reforço dos laços sociais (JODELET, 1993).</p>
  <p>Compartilhar uma mesma condição social – neste caso, a de ser um
  integrante de uma equipe multiprofissional da linha de frente do
  combate às violências contra as mulheres – propicia um
  compartilhamento de valores, ideias e ações, produzindo efeitos de
  uniformização sobre as maneiras de significar as experiências e
  organizar as atuações (<italic>ibid.</italic>). Assim, as
  participantes desta pesquisa parecem ancorar suas representações
  sociais de justificação em argumentos que valorizam suas práticas e a
  identidade grupal.</p>
  <p>Por fim, algumas participantes ressaltam como resultado das
  percepções das suas atuações a necessidade de um trabalho de
  intervenção com os autores de violência, por exemplo, por meio de
  projetos de conscientização sobre violências e suas consequências,
  sobre a estrutura social machista e misógina em que a violência está
  ancorada e sobre os sentidos tradicionais que organizam as relações
  desiguais entre os gêneros. E mencionam que o serviço cenário desta
  pesquisa possui um projeto planejado sobre o assunto, mas que ainda
  não estava em execução, pois aguardava aprovação das autoridades
  competentes:</p>
  <p><bold>Pergunta</bold>: O que mais você acha que pode ser feito para
  enfrentar a violência contra as mulheres?</p>
  <p><bold>Resposta</bold>: Desde que eu entrei no [serviço], nos
  primeiros dias que eu comecei a observar, eu entendi que a gente
  precisa também estar tratando o homem agressor. Eu acho que, é, não
  adianta, porque, por exemplo, se eu atendo a mulher, se eu consigo
  tirar ela do ambiente, mas eu mantenho o agressor naquele ambiente,
  mantenho o agressor daquela forma ainda, eu não deixo... Eu não faço
  nada para que ele entenda a situação, para que ele entenda o que ele
  está fazendo, ele vai de repente arrumar outra e vai agredir, como às
  vezes acontece... Eu acredito muito ainda no trabalho que a gente tem,
  que tem que ser feito com o agressor... A gente está começando esse
  trabalho, a gente não tem ainda, assim, uma efetividade muito grande,
  porque não é fácil a gente fazer a pessoa entender que ela precisa é
  de ajuda também. Mas a gente já está começando a fazer alguns
  projetos, algumas coisas para tentar trabalhar com o agressor também.
  (Educadora Social).</p>
</disp-quote>
<p>As participantes relatam possuir uma compreensão ampla do problema
estrutural que representa a violência contra as mulheres que necessita,
além do apoio às vítimas, de diálogo e reflexão por parte daqueles que
cometem essas violências – ou seja, além das responsabilidades legais e
da repressão, é necessária uma mudança de mentalidades por parte dos
autores de violência. Isso se justificaria porque, nos serviços
especializados, os atendimentos às vítimas e aos autores de violência e
a prevenção das ocorrências devem caminhar juntos (CRUZ; ESPÍNDULA;
TRINDADE , 2017).</p>
<disp-quote>
  <p>As representações sociais tradicionais de gênero, principalmente as
  relativas aos homens autores de violência, ancoram as relações de
  assujeitamento, segundo as quais as mulheres são retiradas da posição
  de sujeito de direitos e situadas como objetos, tendo seus direitos
  violados não só pelos seus companheiros, mas também pela sociedade
  (<italic>ibid.</italic>). Neste sentido, por intermédio destes
  projetos de prevenção e de intervenção junto aos homens autores de
  violências contra as mulheres, mudanças nas representações sociais
  podem ser possíveis através de diálogos, reflexões e questionamentos
  sobre suas próprias ações, para que novas representações sociais – de
  equidade de gênero e reconhecimento das mulheres como independentes e
  com autonomia – sejam ancoradas e orientem novas relações,
  comportamentos, pensamentos e afetos.</p>
</disp-quote>
<p>Com isso, percebe-se que as participantes desta pesquisa parecem
possuir uma consciência crítica da relevância das suas atuações e também
reconhecem o trabalho árduo, porém, necessário, que deve ser realizado
com os homens autores de violência contra as mulheres. Apenas assim
representações sociais com características tradicionais que sustentam
relacionamentos desiguais entre os gêneros podem ser modificadas, cujas
consequências afetam toda a sociedade.</p>
<p><bold>APONTAMENTOS FINAIS</bold></p>
<p>As representações sociais sobre mulheres em situação de violência
produzidas por uma equipe multiprofissional de um centro de atendimento
psicossocial para essa população revelam aspectos importantes tanto
sobre como essas integrantes concebem a produção destas violências
quanto como percebem suas atuações junto a esse público. A produção
deste conhecimento é relevante por permitir aos formuladores de
políticas públicas, dentre outros atores, uma compreensão substancial
sobre as complexidades da produção e da reprodução desta triste
realidade que acomete parte substancial das mulheres brasileiras.</p>
<disp-quote>
  <p>Assim, os principais resultados desta pesquisa destacam que a
  maioria das participantes conhece os principais tipos de violências
  cometidos contra as mulheres segundo a Lei Maria da Penha (BRASIL,
  2006); que, no geral, concebe essas violências não como resultantes
  das características individuais dos envolvidos (as supostas naturais
  passividades femininas e/ou agressividades masculinas), mas sim como
  efeitos dos modos de funcionamento de uma sociedade patriarcal e
  machista; que as reproduções destas violências contra as mulheres
  resultam das relações desiguais entre os gêneros; que as consequências
  destas violências são muitas e diversas. Além disso, as participantes
  relatam: que o enfretamento destas situações de violências por parte
  das vítimas é dificultado devido às fragilidades e insuficiências das
  redes informais (pessoais) e formais (estatais) de apoio e das
  políticas públicas da área – cada vez mais carentes de recursos e
  investimentos – que obstaculiza o suporte eficaz às mulheres
  vitimadas; que, apesar destas adversidades, percebem e significam suas
  atuações profissionais como importantes e socialmente relevantes e
  adequadas em termos técnicos (condutas prescritas segundo as funções
  que executam) e éticos (comprometimento com a superação das situações
  de violência); que atuar nesta área causa um sentimento de dubiedade
  devido às gratificações (influências e mudanças que auxiliam a
  instaurar junto à população-alvo e em suas vidas privadas) e às
  frustrações (dado o número crescente de denúncias de violências contra
  as mulheres) que observam em seus exercícios profissionais e pessoais;
  que creem na importância tanto da maior divulgação das ações já
  realizadas por parte dos serviços de enfrentamento das violências
  contra as mulheres quanto no desenvolvimento de intervenções
  psicoeducacionais ou psicoterapêuticas junto aos autores de violências
  como maneiras de mitigar esse fenômeno.</p>
  <p>Em suma, as representações sociais das participantes sobre o tema
  estão ancoradas em uma instrumentalização do saber, conferindo-lhes
  valor funcional para a significação, a interpretação e a ação no
  ambiente de trabalho e diante das demandas sociais, permitindo que
  produzam sentidos e organizem atitudes de enfrentamento junto às
  mulheres em situação de violência mesmo quando elas são dificultadas
  por fatores estruturais.</p>
  <p>Cabe destacar algumas limitações desta pesquisa, tais como o
  contexto da pandemia da COVID-19, que influenciou a coleta dos dados e
  por isso esta ocorreu em apenas um cenário/serviço. Contudo, suas
  potencialidades contributivas superam os limites, principalmente
  quando se considera a relevância do tema. Assim, as informações
  geradas baseadas em evidências podem auxiliar não diretamente e apenas
  as participantes e os pesquisadores, mas igualmente todos os demais
  trabalhadores deste cenário que não participaram da pesquisa, pois
  assim eles podem refletir e intervir em casos que envolvam mulheres em
  situações de violências de maneira crítica, reflexiva,
  equitativa<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>. Por isso, mais
  estudos, trabalhos, pesquisas e políticas públicas voltadas para o
  enfrentamento, a compreensão e o combate às violências de gênero são
  necessários.</p>
</disp-quote>
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para coibir a violência doméstica e familiar contra a mulher, nos termos
do § 8º do art. 226 da Constituição Federal, da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Mulheres e da
Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência
contra a Mulher; dispõe sobre a criação dos Juizados de Violência
Doméstica e Familiar contra a Mulher; altera o Código de Processo Penal,
o Código Penal e a Lei de Execução Penal; e dá outras
providências</bold>. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 2006.
Disponível em:
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm.
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nov. 2019.</p>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>Este artigo é resultado da pesquisa
    <italic>Concepções e práticas de atendimento oferecidas por
    profissionais às mulheres em situações de violência</italic>
    realizada em 2021 por Letícia de Freitas Machado (orientada por
    Rafael De Tilio), aprovada pelo comitê de ética em pesquisa da
    universidade dos pesquisadores (CAAE 39042920.7.0000.5154 da
    Plataforma Brasil).</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>As informações telemáticas das entrevistas foram
    armazenadas em dispositivos de armazenamento <italic>online</italic>
    de dados que estão sob responsabilidade do coordenador (um dos
    coautores deste artigo) do LEPESEGE/UFTM.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <label>3</label><p>Este fenômeno é denominado <italic>dissociação
    instrumental</italic>: capacidade de se produzir um distanciamento
    racional mantendo, todavia, uma compreensão empática com o
    usuário/cliente.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <label>4</label><p>Para contribuir com este processo, os principais
    resultados desta pesquisa foram compilados e enviados em outubro de
    2021 para a coordenação do serviço, para que, em momento oportuno,
    possam subsidiar tomadas de decisões adequadas visando a melhoria
    dos atendimentos.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
