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<p><bold>ANÁLISE DESCRITIVA E COMPARATIVA DOS LABORATÓRIOS DE BALÍSTICA
FORENSE DO CENTRO-OESTE BRASILEIRO: ASPECTOS DE INFRAESTRUTURA E
GESTÃO</bold></p>
<p><bold>Meiriane da Penha de Oliveira Sousa  </bold></p>
<p>Bacharel em Engenharia de Alimentos pela Universidade Federal de
Goiás. Especialista em Gerenciamento de Segurança Pública. Perita
Criminal na Superintendência de Polícia Técnico-Científica de Goiás.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Distrito Federal
<bold>Cidade:</bold> Brasília</p>
<p><bold>Email:</bold> meirianepo@gmail.com  <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-5676-9404</p>
<p><bold>Thiago Henrique Costa Silva</bold></p>
<p>Doutor em Agronegócio pela Universidade Federal de Goiás (UFG).
Doutorando e Mestre em Direito Agrário pela UFG. Professor e pesquisador
da Universidade Estadual de Goiás. Perito Criminal na Superintendência
de Polícia Técnico-Científica de Goiás.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Goiás
<bold>Cidade:</bold> Goiânia</p>
<p><bold>Email:</bold> thiagocostasilva@ueg.br  <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-2916-6587</p>
<p><bold>Joicy Ferreira de Queiroz</bold></p>
<p>Bióloga – UnB. Mestre em Ciências Médicas – UnB. Especialista em
Ciências Forenses - IFAR/LS. Especialista em Criminalística Aplicada a
Locais de Crime - PF/SENASP. Perita Criminal da Polícia
Técnico-Científica de Goiás (2010), lotada na 14ª CRPTC- Luziânia.</p>
<p><bold>País:</bold> Brasil <bold>Estado:</bold> Distrito Federal
<bold>Cidade:</bold> Brasília</p>
<p><bold>Email:</bold> joicyqueiroz@gmail.com <bold>ORCID:</bold>
https://orcid.org/0000-0002-5730-4932</p>
<p><bold>Contribuições dos autores:</bold></p>
<p>Meiriane da Penha de Oliveira Sousa contribuiu com concepção,
delineamento, levantamento e análise de dados, e redação. Thiago
Henrique Costa Silva e Joicy Ferreira de Queiroz contribuíram com
concepção, delineamento, auxílio na interpretação de dados e revisão
crítica.</p>
<p><bold>RESUMO</bold></p>
<p>No Brasil, os crimes contra a vida são, em sua maioria, cometidos com
o uso de armas de fogo e, portanto, as perícias de Balística Forense
tornam-se imprescindíveis para a elucidação de crimes. O objetivo deste
trabalho é analisar a realidade dos laboratórios de Balística Forense da
região Centro-Oeste. Para possibilitar este estudo, realizou-se uma
análise descritiva e qualitativa relacionada à infraestrutura e gestão
dos laboratórios, especificamente quanto aos exames de confronto
microbalístico, por meio da aplicação de um questionário aos
representantes dos laboratórios. Dos seis laboratórios pesquisados,
verifica-se que: todos utilizam dispositivos de coleta de padrões
descritos na literatura; em todos os laboratórios existe pelo menos um
microscópio comparador da marca Leica; e metade deles utiliza o
equipamento de comparação eletrônica Evofinder<sup>®</sup>. A
produtividade global dos laboratórios na realização dos exames de
confronto microbalístico, calculada com base na relação entre exames
concluídos e exames solicitados, variou de 66,7% (Campo Grande/MS) a
136,7% (Goiânia/GO). Quanto à gestão, cinco dos seis laboratórios são
coordenados por um perito criminal. Desses, quatro afirmam utilizar
alguma ferramenta de acompanhamento da produtividade, no entanto, apenas
um utiliza ferramentas específicas de gestão em sua rotina. Conclui-se
pela necessidade de maiores investimentos nos laboratórios de Balística
Forense, sobretudo em pessoal e ferramentas de gestão, a fim de melhorar
os resultados prestados à população.</p>
<p><bold>Palavras-chave</bold>: Perícia criminal. Infraestrutura.
Confronto microbalístico. Produtividade. Ferramentas de gestão.</p>
<p><bold>ABSTRACT</bold></p>
<p><italic><bold>DESCRIPTIVE AND COMPARATIVE ANALYSIS OF FORENSIC
BALLISTIC LABORATORIES IN BRAZILIAN MIDWEST: INFRASTRUCTURE AND
MANAGEMENT ASPECTS</bold></italic></p>
<p><italic>In Brazil, crimes against life are mostly committed with
firearms. Thus, the skills of Forensic Ballistics become essential for
the elucidation of crimes. The objective of this work is to analyze the
reality of Forensic Ballistics laboratories in the Brazilian Midwest
region. To do this study, a descriptive and qualitative analysis, about
the infrastructure and management of the laboratories, was carried out,
specifically regarding the microballistic confrontation tests, through
the application of a questionnaire to the laboratory’s representatives.
Among the six laboratories surveyed, it was found that: all use pattern
collection devices described in the literature; in all laboratories
there is at least one Leica comparator microscope; and half of them use
Evofinder® electronic comparison equipment. The overall productivity of
laboratories in performing microballistic tests, calculated on the basis
of the ratio between completed tests and requested tests, ranged from
66.7% (Campo Grande/MS) to 136.7% (Goiânia/GO). As for management, a
criminal expert coordinates five of the six laboratories. Of these, four
claimed to use some productivity monitoring tool, however, only one uses
specific management tools in their routine. It is concluded that there
is a need for greater investments in forensic ballistics laboratories,
especially in personnel and management tools, in order to improve the
results provided to the population.</italic></p>
<p><italic><bold>Keywords</bold>: Criminal expertise. Infrastructure.
Microballistic confrontation. Productivity. Management
tools.</italic></p>
<disp-quote>
  <p><bold>Data de Recebimento:</bold> 07/12/2021 – <bold>Data de
  Aprovação:</bold> 23/01/2023</p>
</disp-quote>
<p><bold>DOI:</bold> 10.31060/rbsp.2023.v17.n2.1676</p>
<sec id="introdução">
  <title>INTRODUÇÃO</title>
  <disp-quote>
    <p>No Brasil, os crimes violentos contra a vida são, em sua maioria,
    cometidos com a utilização de armas de fogo. Em 2018, a proporção de
    homicídios por armas de fogo, em relação ao total de homicídios no
    país, foi de 71,1% (CERQUEIRA; BUENO, 2020).</p>
    <p>Diante de um cenário tão violento, a perícia criminal,
    especificamente a perícia de Balística Forense, é uma ferramenta
    importante para a elucidação de crimes, uma vez que os exames
    periciais relacionados aos vestígios balísticos servem como meio de
    prova e, deles dependem, em muitos casos, a condenação ou a
    absolvição de um acusado que cometeu infração penal com o uso de
    arma de fogo (TOCCHETTO, 2021).</p>
    <p>Dentre os exames periciais realizados nos Laboratórios de
    Balística Forense, estão os exames de caracterização e eficiência em
    munições, os exames de caracterização e eficiência em armas de fogo
    e os exames de confronto microbalístico (BRASIL, 2013). Os exames de
    confronto microbalístico destacam-se pela sua complexidade e
    importância, pois por meio deste tipo de exame é possível comparar
    projéteis e estojos incriminados com os elementos padrões coletados
    de determinada arma de fogo, suspeita de ter sido usada em um crime,
    utilizando-se, para tanto, um microscópio comparador e, assim,
    fornecer ao Juiz ou aos Jurados a prova necessária sobre um
    determinado caso (TOCCHETTO, 2021).</p>
    <p>Diante da grande relevância dos exames de confronto
    microbalístico, este trabalho analisa a realidade dos laboratórios
    de Balística Forense da região Centro-Oeste do Brasil quanto aos
    aspectos de gestão e de infraestrutura relacionados a esse tipo de
    exame, e como esses aspectos refletem nos resultados ofertados à
    sociedade.</p>
    <p>Para possibilitar a análise da problemática levantada, este
    estudo tem como objetivos específicos: analisar a estrutura física
    dos laboratórios de Balística Forense do Centro-Oeste quanto à forma
    de coleta de padrões para os exames de confronto microbalístico e
    quanto aos equipamentos de microcomparação balística disponíveis;
    avaliar a resposta dada à sociedade por meio da análise da demanda
    de perícias de confronto microbalístico e produtividade global dos
    laboratórios na realização desses exames; e analisar os aspectos de
    gestão dos laboratórios de balística e sua influência na resposta
    dada à sociedade quanto aos exames de confronto microbalístico.</p>
  </disp-quote>
</sec>
<sec id="metodologia">
  <title>METODOLOGIA</title>
  <disp-quote>
    <p>Para atingir os objetivos propostos, em uma abordagem
    qualitativa, utilizou-se o método descritivo em conjunto com o
    método auxiliar comparativo, analisando as especificidades de cada
    laboratório. Como técnicas de pesquisa, precipuamente, realizou-se
    pesquisas bibliográficas e documentais e, posteriormente, análise de
    informações coletadas a partir da aplicação de questionários
    direcionados aos gestores dos laboratórios selecionados.</p>
    <p>A primeira parte deste trabalho foi desenvolvida por meio da
    contextualização do problema e, para isso, foi feita uma revisão
    bibliográfica para motivar e justificar a necessidade de análise da
    realidade atual dos laboratórios de Balística Forense da região
    Centro-Oeste<xref ref-type="fn" rid="fn1">1</xref>. A segunda parte
    consistiu no desenvolvimento de um questionário semiestruturado,
    contendo 19 perguntas acerca do funcionamento e da gestão dos
    referidos laboratórios, e também sobre os recursos materiais e
    humanos disponíveis, com o objetivo de coletar dados junto aos
    representantes dos laboratórios.</p>
    <p>A terceira parte do trabalho foi a coleta de dados, realizada
    mediante o envio de documento oficial da Superintendência de Polícia
    Técnico-Científica do Estado de Goiás aos gestores dos órgãos de
    perícia criminal dos estados de Mato Grosso, de Mato Grosso do Sul e
    do Distrito Federal, encaminhando o questionário e o Termo de
    Consentimento Livre e Esclarecido, tendo sido esse envio feito a
    pedido dos pesquisadores. Além desses entes federativos, os
    representantes dos laboratórios de Balística Forense do estado de
    Goiás também foram convidados a participarem da pesquisa.</p>
    <p>O universo (população) da pesquisa de campo é representado pelos
    coordenadores dos laboratórios de Balística Forense da região
    Centro-Oeste em que se realizaram exames de confronto microbalístico
    ou, na ausência de coordenadores, por algum perito criminal detentor
    de conhecimento acerca do funcionamento do departamento.</p>
    <p>Neste trabalho é utilizada uma amostra não probabilística,
    definida pelo critério de intencionalidade (COOPER; SCHINDLER, 2003
    <italic>apud</italic> NOBRE <italic>et al.</italic>, 2017),
    totalizando 6 (seis) respondentes, sendo um representante de cada
    laboratório citado abaixo:</p>
  </disp-quote>
  <list list-type="alpha-lower">
    <list-item>
      <label>a)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Goiânia/GO (Seção de Balística Forense do Instituto de
          Criminalística Leonardo Rodrigues – Superintendência de
          Polícia Técnico-Científica de Goiás – SPTC/GO);</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>b)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Luziânia/GO (Seção de Balística Forense da 14ª Coordenação
          Regional de Polícia Técnico-Científica – SPTC/GO);</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>c)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Cuiabá/MT (Gerência de Perícias de Balística da Perícia
          Oficial e Identificação Técnica de Mato Grosso –
          POLITEC/MT);</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>d)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Campo Grande/MS (Núcleo de Balística Forense do Instituto
          de Criminalística Hercílio Macellaro da Coordenadoria Geral de
          Perícias de Mato Grosso do Sul – CGP/MS);</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>e)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Dourados/MS (Núcleo Regional de Criminalística de Dourados
          – CGP/MS);</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>f)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Brasília/DF (Seção de Balística Forense do Instituto de
          Criminalística da Polícia Civil do Distrito
          Federal)<xref ref-type="fn" rid="fn2">2</xref>.</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
  </list>
  <disp-quote>
    <p>A quarta e última etapa deste trabalho é a análise das perguntas
    do questionário e a categorização das correspondentes respostas em 3
    blocos (estrutura física, produtividade relacionada aos exames de
    confronto microbalístico e aspectos de gestão), com a finalidade de
    responder ao problema levantado por meio da correlação com os
    objetivos específicos propostos.</p>
  </disp-quote>
</sec>
<sec id="mortes-violentas-e-a-balística-forense-no-brasil-do-século-xxi">
  <title>MORTES VIOLENTAS E A BALÍSTICA FORENSE NO BRASIL DO SÉCULO
  XXI</title>
  <disp-quote>
    <p>Segundo Lima, Bueno e Alcadipani (2021), em 2017, o Brasil
    atingiu o ápice de mortes violentas intencionais (MVIs), que engloba
    as vítimas de homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais
    seguidas de morte e mortes decorrentes de intervenção policial, com
    uma taxa de 30,9 para cada grupo de 100 mil habitantes. Já nos anos
    de 2018 e 2019, essa taxa caiu, porém, em 2020, voltou a subir,
    tendo crescido 4% em relação ao ano anterior.</p>
    <p>No ano de 2019, o Brasil somou 47.773 mortes violentas
    intencionais (MVIs), distribuídas da seguinte forma: homicídios
    dolosos (82,8%), latrocínios (3,3%), lesões corporais seguidas de
    morte (1,7%) e mortes decorrentes de intervenção policial (13,3%).
    Esse número representa um decréscimo de 17,7% na taxa de homicídios
    por 100 mil habitantes em relação ao ano anterior (FBSP, 2020).</p>
    <p>Não obstante à tendência de queda observada nos anos 2018 e 2019
    e às críticas relacionadas à qualidade e à confiabilidade dos dados
    informados por algumas Unidades da Federação, fato é que, ao longo
    do tempo, o número de mortes violentas intencionais vem
    crescendo.</p>
    <p>Dentre as MVIs destacam-se as mortes causadas por disparos de
    armas de fogo. Segundo o Atlas da Violência (CERQUEIRO; BUENO,
    2020), no ano de 2018, o número absoluto de pessoas assassinadas por
    arma de fogo no país foi de 41.179, o que corresponde a uma taxa de
    19,8 por 100 mil habitantes e uma proporção de 71,1% em relação ao
    total de homicídios.</p>
    <p>Até 2003, quando o Estatuto do Desarmamento foi sancionado, a
    taxa de homicídios por arma de fogo crescia a uma velocidade de
    5,8%, 5,9% e 6,0% em um período de quatro anos (1999 a 2003),
    catorze anos (1989 a 2003), ou 23 anos (1980 a 2003). Nos quinze
    anos após o Estatuto (entre 2003 e 2018), a velocidade de
    crescimento anual dessas mortes diminuiu para 0,9% (CERQUEIRA;
    BUENO, 2020).</p>
    <p>Observa-se, a partir desses dados, como as ações governamentais
    no sentido de implementar políticas públicas relacionadas ao
    desarmamento têm influência na redução do número de homicídios
    cometidos com o uso de armas de fogo.</p>
    <p>No entanto, informações trazidas na última atualização do Anuário
    Brasileiro de Segurança Pública, publicada em 15/07/2021
    (FIGUEIREDO; MARQUES, 2021), mostram que o Brasil passa por um
    momento atípico e contrário ao que vinha sendo conquistado com o
    Estatuto do Desarmamento, em que prevalece uma verdadeira corrida
    armamentista. Com a política do Governo Federal de Jair Bolsonaro,
    de promoção e incentivo ao armamento da população, cresce a
    preocupação quanto ao desvio de armas de fogo e munições para as
    mãos de criminosos, principalmente pelo relaxamento das medidas de
    controle (<italic>ibid.</italic>).</p>
    <p>O aumento do número de armas em circulação é um dos fatores que
    influencia nos dados relativos à letalidade. A última atualização do
    Anuário Brasileiro de Segurança Pública estima que 1.840.822 armas
    estavam nas mãos de cidadãos comuns do Brasil em 2020. Desde 2017, o
    registro de posse de armas cresceu 100,6% apenas no SINARM; os dados
    do Exército também mostram crescimento do número de registros de
    CACs (caçadores, atiradores e colecionadores) da ordem de 29,6%. Os
    registros de armas cresceram 97,1% apenas de 2019 a 2020, com
    186.071 novas armas apenas no sistema da Polícia Federal, e
    duplicaram-se as autorizações para importação de armas longas,
    chegando a 7.625 novas armas apenas em 2020 (LIMA; BUENO;
    ALCADIPANI, 2021).</p>
    <p>Diante de um cenário que demonstra um número crescente de armas
    de fogo, as apreensões tendem a aumentar consideravelmente e, por
    consequência, ocorre aumento das demandas por exames periciais
    desses objetos, conforme preceitua o Código de Processo Penal. Daí a
    importância do conhecimento sobre o funcionamento e a atuação dos
    laboratórios de balística forense brasileiros: como estão
    organizados, quais são seus pontos fortes e suas deficiências e como
    as políticas públicas podem ser criadas e direcionadas para a
    melhoria contínua dos processos executados nesses órgãos.</p>
    <p>A literatura não dispõe de trabalhos científicos sobre os
    aspectos relacionados à infraestrutura e gestão dos laboratórios de
    balística forense brasileiros, contendo apenas estudos isolados e
    relativos a temas específicos, como balística terminal,
    identificação de resíduos de tiros, identificação de armas de fogo
    por microcomparação balística, entre outros. Portanto, traçar um
    cenário a respeito do funcionamento da balística nacional se mostra
    uma tarefa árdua e requer o debate sobre os assuntos que permeiam o
    tema, a fim de entender o contexto em que os departamentos
    responsáveis pelos exames periciais de balística forense estão
    inseridos.</p>
    <p>Com o advento da Lei Nº 13.964 (Pacote Anticrime), de 24/12/2019,
    ocorreram alterações legislativas importantes que promoveram a
    necessidade de investimentos na infraestrutura física dos órgãos de
    perícia criminal, especialmente dos laboratórios de Balística
    Forense (BRASIL, 2019).</p>
    <p>Uma das alterações mais relevantes para os laboratórios de
    Balística Forense foi a inclusão do art. 34-A na Lei Nº 10.826, de
    22 de dezembro de 2003. Este artigo delineou a criação do Banco
    Nacional de Perfis Balísticos (BNPB) que, de forma simplificada,
    possibilita a formação de um banco de dados nacional a partir do
    cadastro de armas de fogo e do armazenamento das características
    individualizadoras de projéteis e de estojos de munição deflagrados
    por esses instrumentos (BRASIL, 2019).</p>
    <p>Recentemente, foi publicado o Decreto Nº 10.711, de 4 de junho de
    2021, que regulamenta o Banco Nacional de Perfis Balísticos (BNPB),
    o Sistema Nacional de Análise Balística e o Comitê Gestor do Sistema
    Nacional de Análise Balística (BRASIL, 2021).</p>
    <p>O BNPB será implementado utilizando sistemas de identificação
    balística instalados em cada laboratório das polícias científicas,
    civis e da Polícia Federal, interligados em uma rede centralizada no
    Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), o que
    possibilitará o cadastro e a correlação entre padrões de armas de
    fogo (projéteis e estojos) e elementos balísticos coletados em
    locais de crimes e/ou em vítimas de disparo (RAMOS, 2020).</p>
    <p>No Brasil, um país de dimensões continentais, é extremamente
    relevante que haja alinhamento e comunicação entre os órgãos de
    perícias. Nesse sentido, o BNPB possibilitará mais integração na
    Segurança Pública e, com isso, maiores possibilidades de sucesso no
    combate à violência, especialmente no combate aos crimes contra a
    vida praticados com o uso de armas de fogo. Todavia, para que tal
    ferramenta produza os efeitos esperados, necessário é que os
    laboratórios de Balística Forense tenham infraestrutura e mecanismos
    de gestão suficientes.</p>
  </disp-quote>
  <list list-type="order">
    <list-item>
      <label>4.</label>
      <p></p>
      <p>CARACTERIZANDO OS LABORATÓRIOS DE BALÍSTICA FORENSE DO
      CENTRO-OESTE</p>
      <list list-type="order">
        <list-item>
          <p>Da infraestrutura física para exames de confronto
          microbalístico</p>
        </list-item>
      </list>
    </list-item>
  </list>
  <disp-quote>
    <p>De acordo com Santos (2020), o exame de confronto microbalístico
    é realizado para responder se uma arma de fogo foi a que disparou um
    componente da munição, porém, antes da comparação, devem ser
    coletados os elementos padrões, utilizando, para tanto, a arma
    suspeita. Para isso, são realizados tiros com a arma de fogo
    apontada para a direção de um dispositivo que permita a frenagem
    eficiente do projétil, com a mínima deformação possível. Após cada
    tiro, o projétil e o estojo do cartucho são coletados como amostras
    de controle.</p>
    <p>Segundo Tocchetto (2021), os meios mais utilizados para coleta de
    projéteis padrão, atualmente, são a água, o algodão e a solução de
    glicose (xarope de glicose). A configuração dos recipientes
    (tanques, tubos, caixas, tonéis) onde são inseridos os meios para
    frenagem dos projéteis pode ser diferente e adaptável ao espaço
    físico disponível, sendo que os dois meios mais comuns para coletar
    projéteis disparados para teste são um tanque de água (piscina em
    alvenaria) ou um tubo de algodão (SANTOS, 2020).</p>
    <p>Em 2013, com o objetivo de padronizar a metodologia de realização
    dos exames periciais, o Ministério da Justiça, por meio da
    Secretaria Nacional de Segurança Pública (SENASP), publicou
    Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) para várias áreas da
    Perícia Criminal, entre eles o POP Nº 1.3 para o exame de confronto
    microbalístico. Esse documento prevê como locais para coleta dos
    padrões balísticos: a) caixa de algodão, coletores especiais e
    tanque com água, para coleta de projéteis; e b) caixa de areia,
    coletores especiais, estande de tiro ou local aberto onde possa ser
    possível fazer o disparo com segurança, pneus com areia e sacos de
    areia, para coleta de estojos (BRASIL, 2013).</p>
    <p>A partir da coleta dos padrões microbalísticos, o perito criminal
    inicia o cotejamento dos elementos de munição utilizando os
    equipamentos de microcomparação balística, com o objetivo de
    confrontar suas marcas para verificar se foram disparados por uma
    mesma arma de fogo.</p>
    <p>O microscópio comparador permite a observação simultânea de
    evidências e consiste em uma ponte montada sobre os tubos verticais
    de dois microscópios que, por meio de uma série de prismas internos,
    direciona as imagens de duas lentes objetivas para uma mesma ocular.
    A imagem resultante permite a sobreposição das imagens de cada
    amostra iluminada, bem como uma composição de imagens lado a lado,
    separadas por uma linha fina deslocável que facilita grandemente o
    processo de comparação de estrias e demais marcas individuais
    (SANTOS, 2015).</p>
    <p>Embora o microscópio óptico comparador seja utilizado com sucesso
    em incontáveis casos criminais, é um instrumento que apresenta
    algumas limitações significativas, como muito tempo gasto nas
    comparações de dois a dois elementos e a necessidade de haver a arma
    suspeita para comparação, já que não existe um banco de dados de
    imagens balísticas de referência. Para contornar essa limitação,
    diversos laboratórios de balística de países desenvolvidos já têm
    implantado alguma solução comercial para automatizar as comparações
    balísticas e criar um banco de dados de padrões de armas de fogo
    (SANTOS, 2015).</p>
    <p>Nesse contexto, os comparadores eletrônicos vêm ganhando
    importância e diversas indústrias mundiais do ramo têm investido
    fortemente nos sistemas automatizados de comparação balística.
    Alguns nomes comerciais podem ser citados, como o da Indústria
    Canadense <italic>Integrated Ballistics Identification
    System</italic> (IBIS) e o EVOFINDER<sup>®</sup>, desenvolvido pela
    empresa Russa ScannBI Tecnology (SANTOS, 2015). Embora esses
    equipamentos apresentem a vantagem de correlacionar diversas
    ocorrências com uma mesma arma de fogo numa região ou em locais
    muito distantes e diversos, desde que estejam interligados em rede,
    existe ainda a desvantagem de apresentarem elevados custos de
    aquisição.</p>
    <p>A infraestrutura física dos laboratórios de Balística Forense do
    Centro-Oeste, no que diz respeito aos exames de confronto
    microbalístico, foi analisada a partir de cinco perguntas do
    questionário aplicado:</p>
    <p>1. Qual o meio utilizado pelos Peritos Criminais do(s)
    laboratório(s) de balística para a coleta de padrões
    microbalísticos?</p>
    <p>2. A equipe que realiza os exames de confronto microbalístico e
    utiliza o meio de coleta de padrões microbalísticos existente
    considera esse meio eficaz?</p>
    <p>3. Existe algum tipo de iniciativa (projeto, processo) para
    implementação de melhorias ou substituição do meio atual de coleta
    de padrões microbalísticos?</p>
    <p>4. Quantos microscópios comparadores existem em seu estado e
    quais são as marcas?</p>
    <p>5. Existe em seu estado comparador balístico eletrônico? Qual
    marca? Quantas estações? E desde quando?</p>
    <p>As respostas estão organizadas na Tabela 1.</p>
  </disp-quote>
  <p><bold>Tabela 1</bold>: <bold>Infraestrutura dos laboratórios de
  Balística Forense do Centro-Oeste</bold></p>
  <table-wrap>
    <table>
      <colgroup>
        <col width="17%" />
        <col width="22%" />
        <col width="6%" />
        <col width="9%" />
        <col width="12%" />
        <col width="12%" />
        <col width="10%" />
        <col width="13%" />
      </colgroup>
      <thead>
        <tr>
          <th colspan="8"><bold>Respostas às perguntas do questionário
          aplicado:</bold></th>
        </tr>
        <tr>
          <th rowspan="2"><bold>Laboratórios de Balística
          Forense</bold></th>
          <th rowspan="2"><p><bold>1. Meio utilizado para a coleta de
          padrões microbalísticos.</bold></p>
          <p><bold>2. Eficaz?</bold></p>
          <p><bold>3. Iniciativa para substituição?</bold></p></th>
          <th colspan="2"><bold>4. Microscópio comparador</bold></th>
          <th colspan="4"><bold>5. Comparador Eletrônico</bold></th>
        </tr>
        <tr>
          <th><bold>Qtd.</bold></th>
          <th><bold>Marca</bold></th>
          <th><bold>Marca</bold></th>
          <th><bold>Nº de Scanners</bold></th>
          <th><bold>Nº de Estações</bold></th>
          <th><bold>Desde quando é utilizado?</bold></th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Brasília/DF</th>
          <th><p>1. Piscina em</p>
          <p>Alvenaria</p>
          <p>2. Sim</p>
          <p>3. Não</p></th>
          <th>02</th>
          <th>Leica</th>
          <th>Evofinder<sup>®</sup></th>
          <th>02</th>
          <th>10</th>
          <th>2010</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Campo Grande/MS</th>
          <th><p>1. Tubo preenchido com algodão</p>
          <p>2. Sim</p>
          <p>3. Não</p></th>
          <th>02<sup>(a)</sup></th>
          <th>Leica</th>
          <th>Não possui</th>
          <th>-</th>
          <th>-</th>
          <th>-</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Cuiabá/MT</th>
          <th><p>1. Piscina em</p>
          <p>Alvenaria e Tubo preenchido com algodão</p>
          <p>2. Sim</p>
          <p>3. Sim</p></th>
          <th>02</th>
          <th>Leica</th>
          <th>Não possui</th>
          <th>-</th>
          <th>-</th>
          <th>-</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Dourados/MS</th>
          <th><p>1. Tanque de aço</p>
          <p>2. Sim</p>
          <p>3. Não</p></th>
          <th>01<sup>(a)</sup></th>
          <th>Leica</th>
          <th>Não possui</th>
          <th>-</th>
          <th>-</th>
          <th>-</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Goiânia/GO</th>
          <th><p>1. Piscina em</p>
          <p>Alvenaria</p>
          <p>2. Sim</p>
          <p>3. Não</p></th>
          <th>02</th>
          <th>Leica</th>
          <th>Evofinder<sup>®</sup></th>
          <th>03</th>
          <th>10</th>
          <th>2009</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Luziânia/GO</th>
          <th><p>1. Tubo preenchido com algodão</p>
          <p>2. Não</p>
          <p>3. Sim</p></th>
          <th>01</th>
          <th>Leica</th>
          <th>Evofinder<sup>®</sup></th>
          <th>02</th>
          <th>02</th>
          <th>2020</th>
        </tr>
      </thead>
      <tbody>
      </tbody>
    </table>
  </table-wrap>
  <p>a) Um microscópio encontra-se inoperante para manutenção.</p>
  <p>Fonte: Elaborado pelos autores, a partir de dados da pesquisa
  (2021).</p>
  <disp-quote>
    <p>De acordo com o levantamento dos dados elencados na Tabela 1,
    observa-se que no estado de Mato Grosso do Sul, embora existam três
    microscópios comparadores da marca Leica para o atendimento de toda
    demanda do estado, apenas um dos equipamentos está em pleno
    funcionamento; os outros dois, um em Campo Grande/MS e o único de
    Dourados/MS, encontram-se inoperantes, aguardando por
    manutenção.</p>
  </disp-quote>
  <sec id="meios-de-coleta-de-padrões-microbalísticos">
    <title><bold>Meios de coleta de padrões
    microbalísticos</bold></title>
    <disp-quote>
      <p>Ao realizar a análise dos meios de coleta de padrões
      microbalísticos utilizados pelos laboratórios de Balística Forense
      da região Centro-Oeste, conclui-se que todos utilizam algum dos
      meios citados na bibliografia pesquisada e preconizados pelo POP
      da SENASP. Sendo que, dos 6 respondentes, 3 utilizam piscina em
      alvenaria (DF, Goiânia/GO, MT) e 2 utilizam tubo preenchido com
      algodão (Luziânia/GO e Campo Grande /MS).</p>
      <p>Sobre a eficácia desses meios, apenas a equipe de peritos do
      laboratório de Balística Forense de Luziânia/GO não considera o
      meio utilizado eficaz e justificaram que:</p>
      <p>A estrutura do coletor de padrões utilizada pelos peritos
      criminais de Luziânia foi construída pelos próprios servidores da
      14ª CRPTC e consiste em uma bombona plástica de 200L preenchida
      parcialmente com concreto. No meio da bombona foi deixado um
      espaço cilíndrico, onde é encaixado um tubo de 150mm de diâmetro
      preenchido com algodão, sendo que esse tubo foi proveniente de
      doação da empresa SANEAGO e já foi substituído uma vez em virtude
      de rachaduras provocadas pelos disparos de arma de fogo. A fixação
      do coletor foi realizada utilizando-se um aparato metálico para
      que o mesmo fique inclinado, permitindo assim que o atirador se
      posicione a um ângulo de aproximadamente 45º. Quanto à eficácia, o
      meio material para frenagem (algodão) atende à necessidade, uma
      vez que permite a coleta de projéteis com microestriamentos
      preservados, no entanto, o fato de que a cada disparo há a
      necessidade de procurar o projétil no algodão aumenta o tempo
      gasto na coleta de padrões. Quanto à estrutura, acredita-se que
      seria melhor se o tubo fosse posicionado 90º em relação ao
      atirador, principalmente para a realização de tiros com armas
      longas, como fuzis e carabinas, porém o peso acentuado da bombona
      contendo concreto não permite esse posicionamento sem que uma
      estrutura robusta capaz de a suportar seja montada. (seu do
      laboratório de Balística Forense de Luziânia/GO em 2021).</p>
      <p>Os demais respondentes da pesquisa consideram o meio de coleta
      de padrões microbalísticos utilizados por sua Unidade Federativa
      eficaz.</p>
      <p>Sobre a pergunta relativa à existência de algum tipo de
      iniciativa (projeto, processo) para implementação de melhorias ou
      substituição do meio atual de coleta de padrões microbalísticos, o
      representante de Luziânia/GO respondeu que existe a solicitação
      para a construção de um tanque/piscina de água e o representante
      de Mato Grosso respondeu que há expectativa da possibilidade de
      aquisição de um coletor de projétil mais célere, mesmo tendo
      considerado o meio de coleta atual eficaz.</p>
    </disp-quote>
  </sec>
  <sec id="comparadores-balísticos">
    <title><bold>Comparadores balísticos</bold></title>
    <disp-quote>
      <p>No Brasil, foram instalados e encontram-se em uso o sistema
      IBIS<sup>®</sup>, no Departamento de Polícia Técnica da Bahia, e o
      sistema Evofinder<sup>®</sup>, nas Polícias Civis do Distrito
      Federal e de Minas Gerais, na Superintendência de Polícia
      Técnico-Científica de Goiás e na Polícia Federal (SANTOS, 2015).
      Os outros estados brasileiros contam apenas com microscópios
      comparadores.</p>
      <p>Em 2019, a Superintendência de Polícia Técnico-Científica de
      Goiás adquiriu o novo sistema Evofinder<sup>®</sup>, bem como
      todos os equipamentos de <italic>hardware</italic> necessários
      para seu funcionamento. Esse novo sistema foi instalado no
      laboratório de Goiânia/GO e os dois equipamentos antigos foram
      disponibilizados para o laboratório de Luziânia/GO, tendo sido
      instalados naquela regional no mês de fevereiro de 2020.</p>
      <p>Segundo o levantamento realizado, todos os laboratórios de
      Balística Forense da região Centro-Oeste contam com um ou dois
      microscópios comparadores da marca Leica, mas apenas a Polícia
      Civil do Distrito Federal e a Superintendência de Polícia
      Técnico-Científica de Goiás utilizam comparadores eletrônicos.</p>
      <p>A utilização de comparadores eletrônicos confere ao perito
      criminal algumas vantagens na realização dos exames de confronto
      microbalístico. Uma das principais é a segurança na formação da
      convicção do perito a respeito do resultado de um exame, já que as
      imagens em 2D e 3D fornecidas a partir do escaneamento da
      superfície dos projéteis e dos estojos são de alta resolução e não
      sofrem influência da iluminação externa, como ocorre com as
      imagens obtidas no microscópio comparador. Outra vantagem que pode
      ser destacada é que, na maioria dos casos, os exames envolvendo
      múltiplos elementos balísticos são realizados com maior
      rapidez.</p>
      <p>Devido à grande importância do uso de comparadores eletrônicos
      no contexto da investigação de crimes contra a vida cometidos com
      o uso de armas de fogo, há um projeto da SENASP em andamento com o
      objetivo de equipar todas as Unidades da Federação com esses
      equipamentos para possibilitar a implementação do Sistema Nacional
      de Análise Balística (SINAB) e do BNPB. Em outubro de 2020, foi
      realizado o Pregão Eletrônico Internacional Nº 22/2020 para
      escolha da proposta mais vantajosa para a aquisição de Sistemas de
      Identificação Balística (SIB) e Licença de
      <italic>Software</italic> de Servidor de Correlação, Armazenamento
      e Gerenciamento para implementação do SINAB com o BNPB (BRASIL,
      2020).</p>
      <p>No final do mês de novembro de 2020, foi realizada a primeira
      etapa da prova de conceito, prevista no edital, e cujo objetivo
      era avaliar os aspectos e padrões mínimos de aceitabilidade do
      sistema. Nessa etapa, o sistema EVOFINDER<sup>®</sup>, de origem
      russa, classificado no pregão como primeiro colocado para vender a
      solução, foi testado, mas não conseguiu aprovação em 100% dos
      requisitos (RAMOS, 2020).</p>
    </disp-quote>
    <p>Posteriormente, o sistema canadense IBIS, segundo colocado no
    pregão, foi convocado para participar da prova de conceito, tendo
    obtido aprovação. Esse sistema foi então o escolhido pelo Ministério
    da Justiça/SENASP e será utilizado na implementação do SINAB e do
    BNPB, conforme informações repassadas no 1º Webinário do Sistema
    Nacional de Análise Balística – SINAB, realizado no dia 26 de abril
    de 2021.</p>
    <p>A concretização desse projeto nacional será de grande relevância
    para os laboratórios de Balística Forense brasileiros, uma vez que,
    além da aquisição dos equipamentos, possibilitará a oportunidade de
    treinamento dos peritos criminais para a utilização do novo
    equipamento, bem como investimentos nas estruturas físicas dos
    laboratórios que permitam a operacionalização do projeto.</p>
    <p>Não obstante às inúmeras perspectivas que a implementação do
    SINAB com o BNPB traz para o cenário da Balística Forense
    brasileira, há que ressaltar que muitos desafios serão enfrentados,
    como: o fato de nem todos os laboratórios possuírem dispositivos que
    permitem a coleta de padrões microbalísticos de forma célere,
    conforme demonstrado neste estudo; limitações quanto aos recursos
    humanos; e ainda a necessidade de espaço físico e sistemas de gestão
    para custódia da grande quantidade de elementos de munição que será
    gerada no decorrer dos anos.</p>
    <p><bold>Dos exames balísticos e da produtividade</bold></p>
    <disp-quote>
      <p>A análise da produtividade global dos laboratórios de Balística
      Forense do Centro-Oeste quanto aos exames de confronto
      microbalístico foi realizada a partir de duas perguntas do
      questionário aplicado:</p>
    </disp-quote>
    <list list-type="alpha-lower">
      <list-item>
        <label>a)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>Quantos peritos criminais atuam no Laboratório de
            Balística Forense? Desses, quantos são treinados e realizam
            Exames de Confronto Microbalístico?</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>b)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>Qual foi a demanda (entradas) para a realização de exames
            periciais em armas de fogo e munições e o número de exames
            realizados (saídas) nos últimos 12 meses (01/06/2020 a
            31/05/2021)?</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
    </list>
    <disp-quote>
      <p>Para a segunda pergunta havia os campos para o respondente
      informar o número de solicitações e o de exames realizados, tanto
      de confronto microbalístico quanto demais exames (caracterizações,
      eficiências e outros).</p>
      <p>Neste trabalho, a avaliação da resposta dada à sociedade para
      as demandas de exames periciais de confronto microbalístico foi
      realizada por meio da análise do número de exames concluídos
      comparados ao número de exames solicitados por Delegados de
      Polícia, Oficiais encarregados de Inquéritos Policiais Militares,
      Poder Judiciário, Ministério Público e outras autoridades
      competentes. Para tanto, foi calculada a produtividade global de
      cada laboratório pesquisado da seguinte maneira:</p>
      <p>Produtividade global = <underline>nº de saídas (exames
      concluídos)</underline></p>
      <p>nº de entradas (exames solicitados)</p>
      <p>A medição efetiva da produtividade requer o desenvolvimento de
      um índice que identifique a contribuição de cada fator relacionado
      à produção (mão de obra, capital, materiais, entre outros).
      Entretanto, fórmulas sofisticadas, e que englobam múltiplos
      fatores e o uso de técnicas logarítmicas e multiplicativas, podem
      não ser adequadas para a compreensão do índice, principalmente
      quando o objetivo principal for influenciar comportamentos. Nesse
      caso em específico, quanto mais simples for a regra, melhor ela
      será (CHEW, 1988); assim, optou-se por uma fórmula simples, como
      prevê Chew:</p>
      <p>Productivity = <underline>Units of output</underline></p>
      <p>Units of inputs</p>
      <p>O número de solicitações de exames periciais de confronto
      microbalístico (entradas) variou muito entre os entes federativos
      da região Centro-Oeste no período de 01/06/2020 a 31/05/2021: 78
      solicitações no estado de Mato Grosso do Sul (contempla apenas o
      número informado por Campo Grande, já que Dourados não apresentou
      esse dado), 147 solicitações no Distrito Federal, 428 solicitações
      no estado de Mato Grosso e 642 solicitações no estado de Goiás
      (somando-se Goiânia e Luziânia) (Tabela 2).</p>
    </disp-quote>
    <p><bold>Tabela 2: Número de peritos criminais lotados nos
    laboratórios de Balística Forense, número de entradas e número de
    saídas referentes aos exames realizados nos laboratórios de
    Balística Forense do Centro-Oeste</bold></p>
    <table-wrap>
      <table>
        <colgroup>
          <col width="22%" />
          <col width="8%" />
          <col width="27%" />
          <col width="13%" />
          <col width="9%" />
          <col width="13%" />
          <col width="9%" />
        </colgroup>
        <thead>
          <tr>
            <th rowspan="2"><bold>Ente da Federação</bold></th>
            <th colspan="2"><bold>Número de peritos criminais lotados
            nos laboratórios de Balística Forense</bold></th>
            <th colspan="2"><bold>Exames de confronto
            microbalístico</bold></th>
            <th colspan="2"><bold>Outros exames (caracterizações,
            eficiências e outros)</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th><bold>Total</bold></th>
            <th><bold>Treinados e que realizam exames de confronto
            microbalístico</bold></th>
            <th><bold>Entradas</bold></th>
            <th><bold>Saídas</bold></th>
            <th><bold>Entradas</bold></th>
            <th><bold>Saídas</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Brasília/DF</th>
            <th>12</th>
            <th>12</th>
            <th>147</th>
            <th>167</th>
            <th>3.498</th>
            <th>3.508</th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Campo Grande/MS</th>
            <th>3</th>
            <th>3</th>
            <th>78</th>
            <th>52</th>
            <th>695</th>
            <th>430</th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Cuiabá/MT</th>
            <th>8</th>
            <th>5</th>
            <th>428</th>
            <th>459</th>
            <th>1.291</th>
            <th>1.233</th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Dourados/MS<sup>(a)</sup></th>
            <th>1</th>
            <th>1</th>
            <th>-</th>
            <th>-</th>
            <th>-</th>
            <th>-</th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Goiânia/GO</th>
            <th>16</th>
            <th>12</th>
            <th>548</th>
            <th>749</th>
            <th>1.319</th>
            <th>1.497</th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Luziânia/GO</th>
            <th>5</th>
            <th>3<sup>(b)</sup></th>
            <th>94</th>
            <th>86</th>
            <th>825</th>
            <th>865</th>
          </tr>
        </thead>
        <tbody>
        </tbody>
      </table>
    </table-wrap>
    <p>a) Os dados de entradas e saídas de exames balísticos não foram
    fornecidos por Dourados/MS;</p>
    <p>b) Em Luziânia, apesar de 3 peritos serem treinados nos exames de
    confronto microbalístico, apenas 1 fica responsável pela realização
    deles. A revisão dos laudos é realizada pelo perito que está na
    função de coordenador da Seção.</p>
    <p>Fonte: Elaborado pelos autores, a partir de dados da pesquisa
    (2021).</p>
    <disp-quote>
      <p>Uma das explicações possíveis para essa variação está
      relacionada ao número de homicídios cometidos com a utilização de
      armas de fogo em cada uma das Unidades da Federação (UFs)
      pesquisadas, já que o exame pericial de confronto microbalístico é
      uma das ferramentas mais importantes para a investigação desse
      tipo de crime.</p>
    </disp-quote>
    <p><bold>Tabela 3: Número de homicídios por arma de fogo, por UF da
    região Centro-Oeste (2014-2018)</bold></p>
    <table-wrap>
      <table>
        <colgroup>
          <col width="23%" />
          <col width="12%" />
          <col width="12%" />
          <col width="12%" />
          <col width="14%" />
          <col width="12%" />
          <col width="15%" />
        </colgroup>
        <thead>
          <tr>
            <th rowspan="2"><bold>Ente da Federação</bold></th>
            <th colspan="6"><bold>Número de homicídios por arma de
            fogo</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th><bold>2014</bold></th>
            <th><bold>2015</bold></th>
            <th><bold>2016</bold></th>
            <th><bold>2017</bold></th>
            <th><bold>2018</bold></th>
            <th><bold>Total</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Distrito Federal</th>
            <th>631</th>
            <th>489</th>
            <th>516</th>
            <th>401</th>
            <th>329</th>
            <th><bold>2.366</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Goiás</th>
            <th>2.054</th>
            <th>2.161</th>
            <th>2.143</th>
            <th>2.057</th>
            <th>1.860</th>
            <th><bold>10.275</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Mato Grosso</th>
            <th>854</th>
            <th>769</th>
            <th>752</th>
            <th>669</th>
            <th>566</th>
            <th><bold>3.610</bold></th>
          </tr>
          <tr>
            <th>Mato Grosso do Sul</th>
            <th>357</th>
            <th>316</th>
            <th>326</th>
            <th>327</th>
            <th>243</th>
            <th><bold>1.569</bold></th>
          </tr>
        </thead>
        <tbody>
        </tbody>
      </table>
    </table-wrap>
    <p>Fonte: Elaborado pelos autores, a partir de dados da pesquisa
    (2021). Adaptado de Cerqueira e Bueno (2020).</p>
    <disp-quote>
      <p>Conforme mostrado na Tabela 3, o ente federativo do
      Centro-Oeste com menor número de homicídios (Mato Grosso do Sul)
      entre 2014 e 2018 é também o que apresenta o menor número de
      solicitações de exames periciais de confronto microbalístico. Já o
      estado de Goiás, com o maior número de homicídios por armas de
      fogo entre os anos de 2014 a 2018, é o que apresenta a maior
      demanda para esse tipo de exame.</p>
      <p>Outro dado interessante a ser analisado, a partir da Tabela 2,
      é o número reduzido de solicitações de exames de confronto
      microbalístico no laboratório de Brasília/DF em comparação ao
      elevado número de solicitações de outros exames (caracterizações,
      eficiências e outros). Esse ponto foi explicado pelo representante
      desse laboratório como sendo resultado de duas iniciativas
      principais:</p>
    </disp-quote>
    <list list-type="alpha-lower">
      <list-item>
        <label>a)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>desde 2019, todos os elementos de munição oriundos do
            Instituto Médico Legal (IML) e das perícias de locais de
            crime são examinados e, posteriormente, são emitidos laudos
            de caracterização destinados às Delegacias de Polícia;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>b)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>desde 2020, todos os elementos de munição oriundos do IML
            e das perícias de locais de crime, com condições mínimas de
            serem submetidos ao exame de confronto microbalístico, são
            inseridos no banco de dados do Sistema
            Evofinder<sup>®</sup>. Além disso, os padrões
            microbalísticos das armas de fogo apreendidas também são
            inseridos nesse banco, e havendo alguma correlação de
            materiais no Sistema de comparação eletrônica, é emitido um
            Laudo de Inteligência
            Pericial<xref ref-type="fn" rid="fn3">3</xref>, o qual é
            encaminhado às Delegacias de Polícia relacionadas ao
            caso.</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
    </list>
    <disp-quote>
      <p>A primeira iniciativa adotada apresenta a vantagem de evitar
      solicitações de exames de confronto microbalístico entre armas de
      fogo e elementos de munição com calibres ou raiamentos
      incompatíveis, enquanto a segunda fornece a prova material para a
      investigação, muitas vezes até mesmo sem que o exame pericial seja
      requisitado.</p>
      <p>Os laboratórios de Brasília/DF, Goiânia/GO e Cuiabá/MT
      apresentaram produtividade global de 113,6%, 136,7% e 107,2%,
      respectivamente. O percentual acima de 100% foi explicado pelos
      respondentes da pesquisa como sendo resultado da realização de
      exames periciais que faziam parte do passivo. O responsável pelo
      laboratório de Goiânia ainda informou que o número de exames
      concluídos no período está subdimensionado em virtude de terem
      sido realizados exames periciais que não estavam cadastrados no
      sistema informatizado para gestão da cadeia de custódia dos
      vestígios e gestão dos laudos emitidos, que foi implantado no
      estado de Goiás no ano de 2018, denominado Sistema de Informações
      de Criminalística (ODIN), portanto, a produtividade desse
      laboratório tende a ser maior do que a calculada.</p>
      <p>A produtividade global do laboratório de Luziânia/GO no período
      avaliado (01/06/2020 a 31/05/2021) foi de 91,5% e a de Campo
      Grande/MS foi de 66,7%. Os números de entradas e saídas de exames
      de confronto microbalístico não foram informados por Dourados/MS,
      portanto, não foi possível calcular a produtividade global desse
      laboratório.</p>
      <p>Os dados obtidos demonstram que, de forma geral, os
      laboratórios que possuem comparadores eletrônicos apresentam
      produtividade superior em relação àqueles que não têm esse
      equipamento, corroborando, assim, o fato de que o microscópio
      óptico comparador, embora seja utilizado com sucesso em inúmeros
      casos criminais, tem limitações significativas, como maior tempo
      gasto nas comparações de dois a dois elementos (SANTOS, 2020).
      Aqui se faz necessária uma ressalva quanto ao laboratório de Mato
      Grosso que, embora não utilize comparador eletrônico, apresentou,
      no período avaliado, produtividade global semelhante aos
      laboratórios que possuem o referido equipamento, o que demonstra a
      necessidade de se estudar outros fatores que subsidiem uma análise
      mais completa da produtividade relacionada aos exames de confronto
      microbalístico, e que neste estudo não foram
      considerados<xref ref-type="fn" rid="fn4">4</xref>.</p>
      <p>Um fator que poderia dar mais embasamento à análise realizada
      seria o levantamento de dados relativos às entradas (número de
      exames solicitados) e às saídas (número de exames concluídos) por
      um período maior de tempo. A partir desse levantamento, seria
      possível verificar, por exemplo, como a produtividade global dos
      laboratórios se comporta ao longo do tempo.</p>
      <p>Segundo Costa Neto <italic>et al.</italic> (2012):
      “produtividade é um indicador multidimensional apresentado como a
      relação entre o resultado e os recursos utilizados de um processo,
      afetado diretamente pela qualidade, SMS (saúde, meio ambiente,
      segurança) e requisitos legais de uma organização”, sendo
      essencial o seu monitoramento para o crescimento das organizações
      a médio e longo prazo.</p>
      <p>Nesse contexto, a produtividade de um laboratório de Balística
      Forense quanto aos exames de confronto microbalístico pode ser
      afetada por muitos outros fatores, por exemplo:</p>
    </disp-quote>
    <list list-type="alpha-lower">
      <list-item>
        <label>a)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>estrutura física disponível;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>b)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>número de peritos criminais;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>c)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>nível de treinamento e tempo de experiência dos
            peritos;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>d)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>grau de detalhamento dos laudos produzidos;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>e)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>se é uma prática ou não a inserção de imagens
            ilustrativas nos laudos emitidos;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>f)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>se há revisão de laudos por um segundo perito
            criminal;</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>g)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>o perfil das requisições de perícia no que diz respeito à
            forma que as autoridades requisitantes costumam solicitar o
            exame (se a maioria corresponde a casos isolados ou se
            muitas solicitações têm o objetivo de correlacionar vários
            crimes);</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
      <list-item>
        <label>h)</label>
        <p specific-use="wrapper">
          <disp-quote>
            <p>a existência de normativas estaduais que determinem a
            obrigatoriedade de requisição de exames de confronto
            microbalístico em todos os casos de morte por intervenção
            policial; entre outros.</p>
          </disp-quote>
        </p>
      </list-item>
    </list>
    <disp-quote>
      <p>Porquanto, este trabalho visa analisar o panorama geral dos
      laboratórios avaliados; sendo base para pesquisas futuras, tais
      variáveis interdependentes poderão ser estudadas em trabalhos
      futuros e específicos sobre produtividade, elucidando outros
      parâmetros de comparação e análise da realidade da balística
      forense no Brasil. Todavia, um dos fatores intrinsicamente
      relacionado à produtividade é a gestão, que será objeto de análise
      a seguir.</p>
    </disp-quote>
  </sec>
</sec>
<sec id="discutindo-a-gestão-dos-laboratórios-balísticos-do-centro-oeste">
  <title>DISCUTINDO A GESTÃO DOS LABORATÓRIOS BALÍSTICOS DO
  CENTRO-OESTE</title>
  <disp-quote>
    <p>Gestão pode ser definida como um conjunto de regras, funções e
    conhecimentos de que se lança mão para executar com eficiência e
    eficácia qualquer atividade, principalmente atividades
    organizacionais (DIAS, 2002). Etimologicamente, gerir deriva do
    latim <italic>gerere</italic>, que significa carregar, produzir ou
    organizar alguma coisa. Pode ainda ser usado para significar a ação
    de se encarregar da realização, organização ou administração de
    algum trabalho ou tarefa (GERERE, s.d.).</p>
    <p>No contexto da gestão organizacional, destaca-se o papel dos
    gestores quanto à sua capacidade de gerir equipes, solucionar
    problemas e entregar resultados esperados. Para tanto, é necessário
    ao gestor um conjunto de habilidades interligadas que possibilitem a
    administração do negócio.</p>
    <p>Na década de 1990, as ideias de reinvenção e reengenharia
    tornaram-se tendência com a utilização da ferramenta de Gestão da
    Qualidade Total ou TQM (<italic>Total Quality Management</italic>)
    como ferramenta auxiliar para o cumprimento dos objetivos
    organizacionais (RABIN; HILDRETH; MILLER, 2007).</p>
    <p>Segundo Erdmann (2016), as exigências a que as organizações estão
    submetidas aceleram e fazem crescer em importância os conhecimentos
    sobre Gestão da Qualidade, desenvolvidos nas últimas décadas com o
    movimento para o aperfeiçoamento da gestão.</p>
    <p>Inseridas no âmbito da Gestão da Qualidade Total estão as
    ferramentas da qualidade, que possuem significativa importância para
    os gestores uma vez que possibilitam uma melhor organização dos
    processos, objetivando-se alcançar a qualidade com melhoria contínua
    e foco nas necessidades dos clientes que, no caso das organizações
    públicas, são os cidadãos.</p>
    <p>As ferramentas da qualidade podem ser definidas como um conjunto
    de metodologias utilizado para identificar, compreender, analisar e
    resolver problemas que impactam nos resultados das organizações. O
    uso dessas ferramentas potencializa as habilidades e as competências
    das equipes, disponibilizando métodos e técnicas para a
    identificação das causas e a descoberta de soluções para os
    problemas (DANIEL; MURBACK, 2014).</p>
    <p>Segundo Toledo (2013), as sete ferramentas básicas da qualidade
    são: Folha de verificação, Histograma, Diagrama de dispersão,
    Estratificação, Diagrama de Causa e Efeito, Diagrama de Pareto e
    Gráficos de Controle. Entretanto, existem outras ferramentas de
    gestão cuja utilização é bastante difundida, tanto nas organizações
    públicas quanto nas privadas, entre elas: Ciclo PDCA,
    <italic>Brainstorming</italic>, 5W2H, Análise SWOT, Diagrama de
    Ishikawa, Matriz GUT, dentre outras (DANIEL; MURBACK, 2014).</p>
    <p>Das ferramentas de gestão, o Ciclo PDCA se destaca por ser um
    método de gestão que representa o caminho a ser seguido para que as
    metas estabelecidas possam ser atingidas. Consiste em planejar (P),
    executar (D), verificar (C) e atuar corretivamente (A) (WERKEMA.
    2012).</p>
    <p>O <italic>Brainstorming</italic> é uma ferramenta utilizada para
    identificar uma lista de ideias em um curto intervalo de tempo. É
    aplicado em um ambiente de grupo e liderado por um facilitador,
    sendo composto por duas partes: geração e análise de ideias. Vale
    ressaltar que o <italic>brainstorming</italic> pode ser usado para
    coletar dados, soluções ou ideias de partes interessadas, de
    especialistas no assunto e de membros da equipe no momento do
    desenvolvimento do termo de abertura do projeto (PMI, 2017).</p>
    <p>Segundo Ventura e Suquisaqui (2019), a 5W2H, por sua vez, é uma
    das versáteis ferramentas que auxiliam nas interpretações de
    informações qualitativas, prevendo incertezas e imprevistos
    desconhecidos pelo gestor. Na utilização desta ferramenta, sete
    requisitos envolvidos com uma tarefa devem ser respondidos: o que
    (<italic>what</italic>) deve ser feito? Por que
    (<italic>why</italic>) deve ser feito? Quem (<italic>who</italic>)
    será o responsável por fazer? Onde (<italic>where</italic>) deverá
    ser feito? Quando (w<italic>hen</italic>) deverá ser feito? Como
    (<italic>how</italic>) deverá ser feito? Quanto vai custar
    (<italic>how much</italic>) para ser feito? (NAKAGAWA, 2017).</p>
    <p>O Diagrama de Ishikawa, também conhecido como Diagrama de
    causa-efeito ou Diagrama de espinha de peixe, é uma ferramenta muito
    utilizada na gestão da qualidade e considerada de fácil aplicação.
    Ela permite a análise e a identificação das principais causas de
    gargalos em processos por meio da relação entre um efeito e suas
    possíveis causas, configurando-se como uma ferramenta de grande
    relevância que contribui para o processo de tomada de decisão em uma
    instituição (TOLEDO <italic>et al.</italic>, 2013).</p>
    <p>A Matriz GUT é uma ferramenta usada para definição de prioridades
    que serão dadas à resolução de diversos problemas em processos; ela
    auxilia na escolha do que deve ser feito primeiro, a partir da
    classificação da gravidade, urgência e tendência dos problemas ou
    soluções. A gravidade verifica o possível dano ou prejuízo que uma
    determinada situação pode trazer para a instituição, enquanto a
    urgência verifica a necessidade de resolução dentro do tempo
    existente para que se possa resolver uma determinada situação e, por
    fim, a tendência analisa o padrão de evolução do problema (MARSHALL
    <italic>et al.</italic>, 2008).</p>
    <p>A Análise SWOT ou Análise FOFA (Forças, Oportunidades, Fraquezas
    e Ameaças, em português) é uma ferramenta utilizada para análise de
    cenários e tem sido bastante usada como base para gestão e
    planejamentos estratégicos de órgãos públicos. Segundo o
    PMBOK<sup>®</sup> (PMI, 2017), a técnica tem início com a
    identificação das forças e fraquezas da organização, com foco no
    projeto, na organização ou na área do negócio em geral. Em seguida,
    a análise SWOT identifica as oportunidades do projeto resultantes
    das forças da organização, assim como as ameaças decorrentes das
    fraquezas. A análise examina ainda o grau com que as forças da
    organização podem compensar as ameaças e determina se as fraquezas
    podem impedir as oportunidades.</p>
  </disp-quote>
  <p>Considerando a relevância das ferramentas de gestão, a análise dos
  aspectos relacionados à gestão dos laboratórios de Balística Forense
  do Centro-Oeste foi realizada a partir de quatro perguntas do
  questionário aplicado:</p>
  <list list-type="alpha-lower">
    <list-item>
      <label>a)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Existe a função de coordenador/alguém responsável pela
          gestão do Laboratório de Balística? Se sim, a função é
          remunerada? Se sim, o coordenador exerce exclusivamente a
          função de gestor?</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>b)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>O coordenador do laboratório ou o responsável pela chefia
          utiliza alguma ferramenta para gestão de resultados ou para
          acompanhar a produtividade? Se sim, qual? Opções de respostas:
          Excel, <italic>Trello</italic>, <italic>Quire</italic>,
          <italic>Asana</italic>, <italic>Google Drive</italic>, Outra.
          Qual?</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>c)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Existe em seu órgão sistema informatizado para gestão da
          cadeia de custódia dos vestígios e gestão dos laudos emitidos?
          Se não, como é realizada a gestão?</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
    <list-item>
      <label>d)</label>
      <p specific-use="wrapper">
        <disp-quote>
          <p>Em relação às ferramentas de gestão listadas abaixo, marque
          aquela(s) que costuma utilizar em sua rotina. Opções de
          respostas: Ciclo PDCA, Análise SWOT, 5W1H / 5W2H, 5 Porquês,
          Matriz de priorização – GUT, <italic>Brainstorming</italic>,
          Diagrama de Ishikawa (causa e efeito), Outra(s). Qual(is)?</p>
        </disp-quote>
      </p>
    </list-item>
  </list>
  <p><bold>Tabela 4: Aspectos relacionados à gestão dos laboratórios de
  Balística Forense do Centro-Oeste</bold></p>
  <table-wrap>
    <table>
      <colgroup>
        <col width="32%" />
        <col width="10%" />
        <col width="13%" />
        <col width="11%" />
        <col width="12%" />
        <col width="10%" />
        <col width="11%" />
      </colgroup>
      <thead>
        <tr>
          <th rowspan="2"><bold>Aspectos avaliados</bold></th>
          <th colspan="6"><bold>Ente da Federação</bold></th>
        </tr>
        <tr>
          <th><p><bold>Brasília/</bold></p>
          <p><bold>DF</bold></p></th>
          <th><bold>Campo Grande/MS</bold></th>
          <th><p><bold>Cuiabá/</bold></p>
          <p><bold>MT</bold></p></th>
          <th><p><bold>Dourados/</bold></p>
          <p><bold>MS</bold></p></th>
          <th><bold>Goiânia/ GO</bold></th>
          <th><p><bold>Luziânia/</bold></p>
          <p><bold>GO</bold></p></th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Existe a função de coordenador?</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>A função é remunerada?</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
          <th>Sim</th>
          <th>-</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>O coordenador exerce exclusivamente a função de
          gestor?</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
          <th>Não</th>
          <th>-</th>
          <th>Não</th>
          <th>Sim</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>O coordenador utiliza alguma ferramenta de gestão de
          resultados (produtividade)?</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
          <th>Sim</th>
          <th>-</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>Existe sistema informatizado para gerenciamento de
          vestígios e laudos?</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Sim</th>
        </tr>
        <tr>
          <th>O coordenador utiliza alguma das ferramentas de gestão
          listadas?</th>
          <th>Sim</th>
          <th>Não</th>
          <th>Não</th>
          <th>-</th>
          <th>Não</th>
          <th>Não</th>
        </tr>
      </thead>
      <tbody>
      </tbody>
    </table>
  </table-wrap>
  <p>Fonte: Elaborado pelos autores, a partir de dados da pesquisa
  (2021).</p>
  <disp-quote>
    <p>Por meio da análise da Tabela 4, verifica-se que em 5 dos 6
    laboratórios pesquisados existe a função de coordenador.
    Depreende-se, a partir desta informação, que os fluxos dos processos
    existentes nesses laboratórios são complexos e, por isso, há a
    necessidade da atuação de um gestor para o bom funcionamento das
    atividades.</p>
    <p>Há sistema informatizado, específico para a perícia, para o
    gerenciamento da cadeia de custódia dos vestígios e para a gestão de
    laudos emitidos, em 83,33% dos laboratórios pesquisados (5 deles),
    demonstrando que a tecnologia da informação tem sido utilizada na
    gestão dos serviços prestados.</p>
    <p>Quanto à utilização das ferramentas de gestão listadas no
    questionário (Ciclo PDCA, Análise SWOT, 5W1H / 5W2H, 5 Porquês,
    Matriz de priorização – GUT, <italic>Brainstorming</italic>,
    Diagrama de Ishikawa, outras), apenas o gestor do laboratório do
    Distrito Federal respondeu que usa em sua rotina o Ciclo PDCA, a
    Análise SWOT e a Matriz GUT.</p>
    <p>Verifica-se, nesse aspecto, uma fragilidade do ponto de vista da
    gestão, pois não utilizar metodologias adequadas pode fazer com que
    os coordenadores tomem decisões equivocadas acerca de um determinado
    assunto importante ou deixem de atuar na raiz dos problemas. O
    aprendizado e a utilização das ferramentas listadas e de outras
    existentes pode ser uma oportunidade de alavancar os resultados das
    equipes e/ou alcançar melhorias significativas para as estruturas
    dos departamentos.</p>
    <p>O conhecimento e a aplicação de práticas, princípios, processos,
    ferramentas e técnicas de gerenciamento de projetos pode conferir
    aos gestores aptidão para propositura ou defesa de projetos
    importantes no âmbito de seu órgão, como os relacionados à
    contratação de pessoal através de concurso público ou aquisição de
    equipamentos com tecnologia de ponta.</p>
  </disp-quote>
</sec>
<sec id="considerações-finais">
  <title>CONSIDERAÇÕES FINAIS</title>
  <disp-quote>
    <p>Por meio deste trabalho, é possível entender e descrever a
    realidade dos seis laboratórios de Balística Forense do Centro-Oeste
    que realizam exames periciais de confronto microbalístico,
    principalmente quanto às suas estruturas físicas, demandas,
    disponibilidades de recursos materiais e humanos, além dos aspectos
    relacionados à gestão.</p>
    <p>Quanto ao cálculo da produtividade dos laboratórios pesquisados,
    a fim de avaliar a resposta dada à sociedade pelo atendimento às
    requisições de exames de confronto microbalístico, é possível
    observar que os números de entradas e saídas de exames, por si só,
    são insuficientes para uma análise completa da produtividade, já que
    esse índice sofre a influência de vários outros fatores abordados
    neste trabalho, e carecem de análise pormenorizada em estudos
    futuros.</p>
    <p>Em relação à gestão dos laboratórios de Balística Forense, quatro
    respondentes (66,7%) afirmaram utilizar alguma ferramenta de
    acompanhamento da produtividade e apenas um respondeu que utiliza em
    sua rotina ferramentas específicas de gestão. Essa lacuna merece
    atenção pela importância do uso das ferramentas de gestão na
    resolução de problemas e na melhoria contínua dos processos.
    Sugere-se, portanto, que os dirigentes dos órgãos periciais imprimam
    esforços no sentido de disponibilizar treinamentos específicos,
    relacionados às ferramentas de gestão, direcionados aos peritos
    criminais que desempenham funções de coordenação para aquisição e
    nivelamento de conhecimentos.</p>
    <p>Por fim, diante da escassez de trabalhos científicos relacionados
    ao funcionamento e
    à gestão dos laboratórios de Balística Forense na literatura
    brasileira e da iminente implantação do BNPB, sugere-se mais estudos
    e pesquisas, a fim de que panoramas gerais sobre a realidade da
    Balística brasileira possam ser construídos para que, a partir
    deles, sejam implementadas políticas públicas voltadas para ações
    que contribuam com a aplicação das leis penais e, consequentemente,
    com a redução da violência.</p>
  </disp-quote>
</sec>
<sec id="section-1">
  <title></title>
</sec>
<sec id="referências-bibliográficas">
  <title>REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS</title>
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  abertura: 16 out. 2020. Disponível em:
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  <p>WERKEMA, C. <bold>Métodos PDCA e DMAIC e suas ferramentas
  analíticas</bold>. Rio de Janeiro. Elsevier, 2013.</p>
</sec>
</body>
<back>
<fn-group>
  <fn id="fn1">
    <label>1</label><p>Para fins de viabilizar a pesquisa, optou-se por
    realizar o recorte na região Centro-Oeste, reduzindo o espaço
    amostral e permitindo comparação entre experiências geograficamente
    próximas.</p>
  </fn>
  <fn id="fn2">
    <label>2</label><p>Para fins didáticos, os 6 (seis) laboratórios
    relacionados serão denominados neste trabalho apenas pelo nome da
    cidade seguido da sigla do estado ou ente federativo.</p>
  </fn>
  <fn id="fn3">
    <label>3</label><p>O Laudo de Inteligência Pericial é um documento
    técnico, emitido proativamente pela Seção de Balística Forense do
    Distrito Federal, que apresenta as informações de correlações
    balísticas encontradas entre elementos presentes no banco de dados
    previamente cadastrados no Sistema Evofinder®.</p>
  </fn>
  <fn id="fn4">
    <label>4</label><p>Após os cálculos de produtividade individual em
    relação aos exames de confronto microbalístico, observou-se valores
    muito discrepantes, justificados por tratarem de realidades
    periciais muito distintas, impossibilitando correlações. Todavia,
    sugere-se pesquisas futuras, com metodologias adequadas, para aferir
    tais informações.</p>
  </fn>
</fn-group>
</back>
</article>
